Do pãozinho ao vinho: como a alta do dólar vai pesar no seu bolso

Disparada da moeda impactará não só importados, mas também itens básicos do dia a dia

dólar superou a "barreira psicológica" dos 4 reais esta semana e virou o assunto do momento entre os brasileiros até nas mesas do bar. Nesta quinta-feira, ele bateu novo recorde chegando à máxima  de 4,24 reais pela manhã, e encerrou a 3,99, depois de o Banco Central ter entrado no mercado vendendo dólares para reduzir a sua cotação. A disparada da moeda, que se acentuou desde segunda, vai ser inevitavelmente sentida no bolso de todos os brasileiros e, apesar do impacto mais visível ser no preço de viagens internacionais e em produtos importados, vários itens, desde o pãozinho do café da manhã à carne do almoço, serão afetados.
"A alta do dólar pode parecer muito pontual, mas vivemos numa economia globalizada. Muitas vezes, um produto básico é taxado com preços do exterior. Mesmo em uma cadeia produtiva nacional, temos diversos produtos importados", explica Vitor França, assessor econômico da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio SP). No caso do pãozinho e de outras massas, França destaca que cerca da metade do trigo que consumimos no país é importado.
Com a desvalorização do real, alguns produtos, como a carne, também ficam mais competitivos lá fora e torna-se mais vantajoso exportá-los. Assim, o produtor prefere vender para o mercado externo, reduzindo a oferta aqui dentro. Com menos mercadoria para vender localmente, o preço sobe. Outro setor que deve repassar o valor da disparada da moeda norte-americana será o dos cosméticos. "Os brasileiros são grandes consumidores dessa área e usam muitas marcas importadas. Mesmo os itens nacionais dependem de insumos de fora", afirma.
O economista André Braz, responsável pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), destaca que a sucessiva valorização do dólar já vem respingando nos índices de preços há algum tempo. Somente entre agosto e setembro, quando a moeda americana subiu quase 10%, o preço dos cosméticos subiu 1,19%. O destaque no ramo de higiene e cuidados pessoais, contudo, foi o detergente, que sofreu alta de 3,25% em apenas quatro semanas, que também depende de matéria-prima de outros países.

Alimentação pesará mais no bolso

O principal impacto do câmbio na cesta de consumo dos brasileiros, contudo, é no segmento de alimentação. Nesse sentido, são as famílias de mais baixa renda as principais afetadas. Para quem ganha até 2,5 salários por mês, o comprometimento da renda com alimentação é de 32%, enquanto que para as demais essa proporção é de 25%.
“Os alimentos são os mais afetados pela alta do dólar. Todo mundo precisa comer, então ninguém deixa de comprar comida se o preço sobe. Mas ninguém precisa trocar de carro ou de celular agora”, afirma.
O pão francês, por exemplo, teve o preço elevado em 1,71% nas últimas quatro semanas. Já a carne subiu 1,58% em trinta dias, puxada pelo filé mignon, que registrou aumento de 3,15% nos preços. Os próximos produtos a acompanhar esse movimento de alta serão, na visão do economista, os derivados do açúcar e da soja, que também passam a ser mais vantajosos de exportar do que de vender no mercado doméstico.
A alta do dólar aumentará o valor dos vinhos importados / FOTOS PÚBLICAS
Quem gosta de um bom vinho também pode preparar a carteira. Apesar da produção nacional ter se desenvolvido, a maioria dos rótulos ainda é importada. Além disso, há um mês o Governo anunciou que haverá alta de impostos de bebidas quentes, como vinhos e destilados em nome do ajuste fiscal.
Para Herón do Carmo, da Universidade de São Paulo, como a economia será afetada como um todo, a longo prazo, ele acredita que até os serviços, que independem diretamente da importação, começarão a subir os preços. "Os salões de beleza, por exemplo, vão ter produtos mais caros e precisarão repassar aos clientes", explica.

Eletrônicos

Bens de consumo duráveis, como eletroeletrônicos e carros, que têm peças importadas, também sentirão o peso do dólar. Mas, como dependem de financiamento para serem adquiridos pela população, e os juros altos têm inibido as compras parceladas, podem ter seus aumentos atenuados. “Em uma economia em recessão, com alta de desemprego, de taxa de juros e queda do consumo e da renda, as empresas tendem a não repassar tanto os custos para o preço para não perderem o cliente”, justifica Braz.
Aumentos mais significativos poderão ser repassados apenas em 2016, projeta Braz. Principalmente para itens essenciais que têm preços controlados pelo governo, como alguns tipos de medicamento, o segundo maior produto da pauta de importações do país, atrás apenas de óleo bruto de petróleo. Além disso, algumas empresas possuem estoque de produtos adquiridos a preços antigos.
“No ano que vem, caso as medidas que estão sendo anunciadas de corte de gastos do governo e aumento de arrecadação se concretizem, a economia deve se recuperar e haverá mais espaço para elevar preços, repassando aquilo que será reprimido este ano”, afirma Braz. Para 2015, o economista aposta numa inflação acumulada de até 10%, considerando as atuais pressões cambiais.

Viagens

A escalada do dólar também tem preocupado quem já tem programada uma viagem internacional para os próximos meses, e quem faz compras em dólar no cartão de crédito e fica sujeito à cotação da moeda no dia do pagamento da fatura. Até a inofensiva música que se baixa no iTunes está sujeita às incertezas do câmbio.  Do Carmo recomenda que as pessoas com viagens programadas comprem um pouco de dólar agora, mas esperem algumas semanas para ver se a alta realmente seguirá. "É um risco, mas não pode ter o desespero de comprar tudo agora. Na verdade, o certo ir comprando aos poucos", explica.

Futuro do dólar

Os especialistas não se arriscam a estimar uma cotação futura do dólar e divergem se a moeda norte-americana pode encerrar o ano encostado nos cinco reais, como teme a população. “Estamos sentindo muita volatilidade por conta do cenário político e econômico do país, somado às expectativas de aumento de juros nos Estados Unidos e a desaceleração da Europa e da China. Mas isso é passageiro”, afirma Braz.
Para Do Carmo, o futuro segue incerto. “A moeda pode aumentar ainda mais com a iminência de impeachment, aí sim poderia chegar a cinco reais". Segundo o economista, quanto mais tempo o dólar ficar acima de 4 reais, maior será o efeito interno. "A grande questão é quanto tempo vai durar essa alta. Tudo depende agora da questão política. É bem nítido que grande parte dessa alta vem da especulação".

Maior cotação do Plano Real

A primeira vez que o câmbio chegou ao patamar de 4 reais foi em 2002, nas vésperas da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, quando a moeda americana bateu 4,05 reais.
Na época, o que mais causava temor no mercado era a crença de que as orientações políticas do então candidato à presidência colocassem a perder anos de trabalho do Governo anterior em prol da estabilização da economia.
A profecia do mercado não se realizou e, dias depois das eleições, o dólar voltou a ceder. O país cresceu, virou credor internacional e ascendeu 40 milhões de pessoas à classe C. Mas o país que "deslanchou" na capa da The Economist de novembro de 2009 é o mesmo que "estragou tudo" na capa de setembro de 2013 da publicação.
Certamente, hoje são outros os motivos que levam os mesmos investidores de 2002 à insegurança do passado. O novo recorde desta manhã foi pautado, principalmente, pelas dificuldades do Governo em aprovar os cortes de gastos e aumento de receitas no Congresso, além de especulações em torno do aumento dos juros dos Estados Unidos e da desaceleração da China.

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