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sábado, 14 de janeiro de 2017

J.R. Guzzo: Salvem os ratos

Era mesmo de se esperar que mais cedo ou mais tarde iria aparecer um Pró-Rato.

É uma brincadeira comum, quando se quer mexer um pouco com as esquisitices em modo extremo do “movimento”, digamos assim, de “defesa dos animais”, dizer: “Nunca vi ninguém brigando pela preservação dos ratos”. Já foi o tempo. Nesse mundo interessantíssimo em que vivemos, passou a existir ainda outro dia, sim senhor, um grupo de cidadãos que, a exemplo das baleias ou do mico-leão-dourado, lançou um novo lema no crescente mercado dos direitos animais: “Salvem os ratos.” Começou com o manifesto lançado na internet por uma psicopedagoga de Paris, indignada com uma ação dos serviços sanitários municipais para exterminar uma parte, pelo menos, dos 6 milhões de ratos que, segundo os técnicos da prefeitura, mantêm domicílio fixo na capital francesa. O documento exigia a suspensão imediata das ações de combate aos ratos, dentro do argumento mais ou menos central, pelo que foi possível entender, segundo o qual as autoridades estariam matando ilegalmente seres vivos do reino animal – um escândalo, alega a psicopedagoga, pois é dever do poder público proteger, e não matar, as espécies animais presentes na natureza.
O autor desta nota admite que nunca soube, em mais de 50 anos de vida no jornalismo, o que é uma psicopedagoga – o que não quer dizer nada, é claro, levando-se em conta a quantidade sem limites de coisas que ele nunca soube e provavelmente nunca saberá. Mas os próprios profissionais do ramo acham que não é para qualquer um saber que a psicopedagogia se dedica a desvendar as dificuldades, inclusive de ordem clínica, que prejudicam o aprendizado escolar. Por aí se vê, de qualquer forma, que não se trata de pessoas sem influência; podem ser ouvidas e ter suas opiniões levadas a sério, principalmente dentro e nas vizinhanças do seu biossistema. No caso de Paris, foi possível constatar imediatamente que a voz que se levantou em favor dos ratos não estava só: logo depois da divulgação do seu discurso na internet, perto de 20.000 pessoas vieram se juntar à causa. À esta altura já podem ser mais. Uma nova ONG, SOS-Rato, ou algo assim, talvez esteja em formação enquanto você lê estas palavras. Com toda a probabilidade, a coisa vai se espalhar para outros países da Europa – e dali quem sabe para onde mais, neste mundo em estado permanente de angústia quanto ao futuro dos bichos? Qualquer bicho, aliás, como se vê com essa história dos ratos parisienses.
Numa época sem causas, ou com um número tão colossal de causas que acabam, todas elas, superando uma às outras em desimportância, era mesmo de se esperar que mais cedo ou mais tarde iria aparecer um Pró-Rato. Ninguém deve se admirar, aliás, se vierem a seguir movimentos em prol da salvação das baratas, ou dos piolhos ou de outras coisas repugnantes. Por que não? Por acaso cada um deles não seria também um ser vivo animal, com sua própria cultura, sua dignidade e seus direitos? Por que a discriminação? É melhor você não entrar numa discussão dessas com algum militante mais combativo – vai perder na certa. No caso dos ratos de Paris, a autora do manifesto cobrou das autoridades nada menos que “a criação de políticas” de manejo dos ratos, exigiu o fim do “stress” a que estão hoje submetidos e garantiu que eles não fazem nenhum mal a saúde de ninguém. Há universidades em países do primeiro mundo onde se discute seriamente a “libertação” pura e simples de todos os animais domésticos ou criados para a produção de proteínas, e sua imediata soltura na natureza – eles estariam sujeitos, hoje, a um inadmissível regime de “escravidão”. E onde seriam soltos, por exemplo, os 215 milhões de bois e vacas do rebanho brasileiro atual? Isso não é problema nem do boi e nem da vaca, responde o movimento. Foi o homem quem criou essa encrenca; ele que a resolva. Fala-se, cada vez mais, em “direitos dos animais”. É um disparate: é impossível, simplesmente, atribuir direitos civis, políticos ou de qualquer ordem a seres irracionais; o que existe são obrigações legais, para o cidadão, de não maltratar os animais, e não depredar uma natureza que é patrimônio de todos.
Os ratos de Paris, em todo caso, certamente não precisam da ajuda da psicopedagoga que se lançou em sua defesa. Ratos são bichos de imensa experiência no convívio com os homens – há 10.000 anos, pelo menos, o ser humano vem tentando de tudo para acabar com a raça e, a cada ano que passa ela fica mais forte. Provavelmente não existe na história um animal tão perseguido pelo ser humano – e provavelmente não existe algum outro tão longe da extinção, ou do status de “espécie ameaçada”. Nunca teve a ajuda de uma ONG. Sabe mais que qualquer dos seus defensores. Sabe mais que qualquer serviço de desratização. E o Brasil, nisso tudo – como ficamos? É preciso notar, por uma questão mínima de justiça, que por aqui já existe há muito tempo um fortíssimo movimento com o lema “Salvem os Ratos”.
Mas é outra causa, e são outros ratos.

Sérgio Moro é RÉU, notícia FALSA. Lula é PENTA-RÉU, notícia VERDADEIRA.

Sergio Moro não é réu na ONU

Notícia falsa afirma que juiz da Lava Jato será julgado internacionalmente por ter determinado condução coercitiva do ex-presidente Lula.

Circula por redes sociais, grupos de WhatsApp e sites noticiosos de reputação duvidosa, como Folha.Digital e O Cafezinho, a informação de que o juiz federal Sergio Moro, responsável pelos processos da Operação Lava Jato em Curitiba, teria se tornado réu na Organização das Nações Unidas (ONU) em decorrência de uma reclamação feita pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Os réus, agora em âmbito internacional, passaram a ser o juiz Sérgio Moro e o Judiciário brasileiro. O juiz, se condenado, ganha o status de criminoso internacional contra os direitos humanos”, “informa” o dublê de notícia, que conseguiu 153.000 curtidas na página do Cafezinho no Facebook.
Notícia falsa sobre o juiz Sergio Moro
Notícia falsa sobre o juiz federal Sergio Moro (Reprodução)
O truque de ilusionismo dos autores e propagadores do texto parte de uma informação verdadeira: o ex-presidente protocolou uma petição na ONU contra Moro por supostas violações a seus direitos humanos na condução coercitiva de que o petista foi alvo, em março de 2016, e na divulgação do conteúdo dos grampos telefônicos que o flagraram em conversas com a ex-presidente Dilma Rousseff, entre outros peixes grandes da política nacional.
Para colocar Moro no banco dos réus, além disso, os responsáveis pela criação da mentira distorcem outra notícia verdadeira: a de que o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (Acnuh) formalizou, em outubro, o recebimento da petição de Lula e pediu ao governo brasileiro “informações ou observações relevantes à questão da admissibilidade da comunicação”.
A formalização do recebimento da reclamação do petista não significa, contudo, que o mérito da ação foi aceito. A bem da verdade, a porta-voz da ONU, Elizabeth Throssell, esclarece: “O processo de registro é essencialmente uma formalidade e não implica em nenhuma expressão ou decisão do Comitê sobre a admissibilidade ou os méritos da queixa”.
Não passa de lorota, portanto, a informação de que Sergio Moro é “réu” na ONU. Já a de que Lula é réu em cinco ações penais na Justiça Federal…

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Xico Xavier - Francisco Cândido Xavier

CITAÇÕES:

"A morte é a mudança completa de casa sem mudança essencial da pessoa".

"Planejar a infelicidade dos outros é cavar com as próprias mãos um abismo para si mesmo."

"A revolução em que acredito é aquela ensinada por Nosso Senhor Jesus Cristo que começa pela corrigenda de cada um, na base do façamos aos outros aquilo que desejamos que os outros nos façam".

"Eu vivo muito alegre, muito feliz, trabalho, tenho sempre muita gente em volta de mim, muita, muita gente na minha vida, é disso que eu gosto."

"Devemos efetuar campanhas de silêncio contra as chamadas fofocas, cultivando orações e pensamentos caridosos e otimistas, em favor da nossa união e da nossa paz, em geral".

"O bem que praticares, em algum lugar, é teu advogado em toda parte."



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

FIDEL ‘PAREDÓN’ CASTRO

FIDEL ‘PAREDÓN’ CASTRO

por Ives Gandra da Silva Martins. Artigo publicado em 
(Publicado originalmente no Estadão)

Passada a emoção da morte do mais sanguinário ditador das Américas, que provocou as mais variadas manifestações de tristeza dos decadentes movimentos da esquerda mundial, mister se faz uma análise fria sobre os anos de chumbo em que vivia e vive o povo cubano, os quais se vêm prolongando desde fins da década de 1950, quando Fidel Castro assumiu o poder na infeliz ilha caribenha.
O primeiro ponto a destacar é a falta de respeito aos direitos humanos. Brutalmente, foram fuzilados, ao estilo da era do Terror da Revolução Francesa, sem julgamento nem direito de defesa, milhares de cubanos, nos famosos paredóns. De 1792 a 1794, quando Robespierre assumiu o controle do governo francês, dezenas de milhares de pessoas foram guilhotinadas, condenadas por tribunais populares. Fidel substituiu as guilhotinas pelos paredóns e fuzilamentos em massa.
Naquela época, nos meus primeiros anos de advocacia, em que era ainda popular tomar a bebida denominada Cuba Libre, era hábito pedir nos bares “Cuba sem Fidel”, pois a ditadura lá se instalou desde os primeiros momentos.
Igor Gielow, comparando diversos arquivos de várias instituições e adotando o considerado mais conservador, apresenta 7.326 mortos ou desaparecidos nas prisões cubanas (quase 6 mil fuzilados em paredóns), não se incluindo nesse número os afogados nas tentativas de fuga da ilha, ou seja, 65 mortos por grupos de 100 mil habitantes. Pelos mesmos critérios, o Chile assassinou, sob Pinochet, 23,2 para cada 100 mil habitantes; o Paraguai, sob Stroessner, 10,4; o Uruguai, 7,6; a Argentina, 30,9, no regime militar; a Bolívia, 6,2; e o Brasil, 0,3. É de lembrar que no período militar brasileiro foram mencionados pela Comissão da Verdade 434 mortos ou desaparecidos, negando-se aquela comissão a apurar as 129 mortes provocadas pelos guerrilheiros, algumas em atentados terroristas em logradouros públicos. Por isso foi alcunhada de “Comissão da Meia Verdade”. É certo que, sob o domínio de Raúl Castro, a letalidade do governo cubano caiu, havendo registro de 264 vítimas de 2006 para cá (Folha de S.Paulo, 1.º/12/216).
O segundo aspecto a ser estudado é o da liberdade. Em artigo que publiquei, O neoescravagismo cubano (Folha, 17/2/2014), observei que, após ler o contrato dos médicos cubanos com o governo brasileiro, nele encontrei cláusulas de proibição de receberem no Brasil qualquer visita, mesmo de parentes, sem que houvesse antes autorização de autoridades cubanas. Eles também ficavam com apenas um quarto do salário e transferiam para o governo fidelista três quartos. Mantinha a ditadura, por garantia, seus familiares em Cuba, como reféns, para que voltassem à ilha, eliminando assim o eventual desejo de pedirem asilo às autoridades brasileiras. Talvez nenhum símbolo seja tão atentatório à dignidade da pessoa humana como os termos desse contrato, aceito pelo governo da presidente Dilma Rousseff sem discussão. Não sem razão, o ex-presidente Lula disse ter perdido, com a morte de Fidel, “um irmão mais velho”; José Dirceu declarou, no passado, “ser mais cubano que brasileiro”; e Marco Aurélio Garcia chegou a afirmar que havia “mais democracia em Cuba que nos Estados Unidos”, num de seus costumeiros arroubos.
Quanto à economia, conseguiram os Castros levar sua população à miséria, com salários inferiores à Bolsa Família para a esmagadora maioria dela, independentemente da qualificação profissional. No momento em que ruiu o império soviético e a ilha deixou de ser mantida economicamente pela Rússia, assim como quando desmoronou a equivocada economia Venezuelana, com a perda de apoio do regime chavista – talvez Hugo Chávez ainda estivesse vivo se tivesse ido se tratar em hospitais americanos, e não cubanos –, a economia do país, sem tecnologia, indústria de ponta e investimentos de expressão, viu-se e vê-se sem horizontes, implorando aos americanos apoio para sobreviver, num mundo cada vez mais competitivo.
Politicamente, em lugar de adotarem o modelo chinês, de uma esquerda política e uma direita econômica, o que permitiu à China pular de uma economia com PIB inferior ao do Brasil no início dos anos 1990 para a segunda economia do mundo 20 e poucos anos depois, continuaram, num estilo menos estridente que o do tiranete Nicolás Maduro, a defender o fracasso comprovado, em todos os espaços geográficos e períodos históricos, das teses marxistas, com o que o futuro da ilha está dependendo ou da abertura democrática ou do auxílio externo, pouco provável no mundo em que vivemos.
Fidel Castro instalou a mais longeva ditadura das Américas, só possível por ser pequena a população de seu país e rígido o controle das pessoas, sem liberdade para pensar algo diferente do que pensam as classes dominantes. E os saudosistas brasileiros de uma esquerda mergulhada no maior escândalo de corrupção da História do mundo lamentaram a perda do ditador, cujo irmão, no poder, vê seu mais forte aliado, o incompetente Maduro, verdadeiro exterminador do futuro imediato da Venezuela, mantendo-se à frente de seu governo graças às decisões de um Poder Judiciário escolhido por um Parlamento derrotado, às vésperas de ser substituído, e que se tornou capacho do Executivo.
Friamente examinando o período de domínio do tirano insular, há de se convir que sua figura, para os historiadores que virão, será a de líder cruel e sanguinário, cujo carisma oratório empolgou, todavia, toda uma geração de jovens, a qual acreditou que a melhor forma de combater as injustiças sociais não seria criar empregos e progresso, mas apropriar-se dos bens alheios, mesmo à custa da violência e da destruição dos valores democráticos. Felizmente, essa ilusão começa a ser desfeita, em todos os continentes, pois as ideologias, corruptelas das ideias, não produzem desenvolvimento, mas apenas decepção e sofrimento.
*Professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo e Unifmu, do CIEE/O Estado de S. Paulo, da Eceme, da ESG e da Escola da Magistratura do Tribunal Regional Federal-1ª região

Presidente Temer e o tráfico de PCC, CV e a terra de Pablo Escobar.



Uma leitura dos massacres de Manaus e Roraima, por Carlos Wagner, repórter, para os Jornalistas Livres.
Por Jornalistas Livres 7 de janeiro de 2017

O governo do presidente Michel Temer (PMDB) ou não tem a confiança dos serviços de inteligência do Brasil – Forças Armadas, Polícia Federal (PF) e polícias militares – e, portanto, não está recebendo as informações corretas sobre a lógica que move a guerra das facções nas penitenciárias, ou não tem gente especializada para entender os dados que está recebendo.

Esta é a leitura que se faz das declarações feitas por Temer de que teria sido um “acidente pavoroso” o enfrentamento entre o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e a facção Famílias do Norte (FDN), braço do Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro, que resultou no massacre de 56 presos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) de Manaus (AM).

Também esta é a impressão que se tem da declaração feita, dias depois do massacre de Manaus, pelo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, referindo-se à morte de 33 presos na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (PAMC), em Boa Vista (RR):

– Não é aparentemente uma retaliação do PCC em relação à Família do Norte.
Os serviços de inteligência brasileiros sabem o que está acontecendo. Eles têm tradição e perfilam-se entre os melhores do mundo. Os dois últimos eventos que aconteceram no país – Copa do Mundo e as Olímpíadas – beneficiaram-nos com equipamentos, treinamentos e alianças com serviços de inteligência do mundo inteiro. O volume de informações que recebem diariamente sobre o que ocorre dentro dos presídios é enorme.

Em cada Estado da União existe um sistema de coleta de informes dos servidores penitenciários que abastecem com informações preciosas todo o sistema de inteligência brasileiro. Mais ainda: a maioria dos telefones celulares que estão nas mãos dos presos é grampeada pela polícia.

Há um fato que Temer e o ministro Moraes conhecem: o momento do sistema de segurança do Brasil é inédito devido ao atraso, ou parcelamento, dos salários de policiais e agentes penitenciários em vários Estados, como por exemplo no Rio de Janeiro, terra do CV e um dos maiores mercados consumidores de cocaína e maconha do país.
As drogas entram pelas fronteiras do Paraguai, da Bolívia e da Colômbia – o maior e mais bem estruturado fornecedor de cocaína do mundo.

A principal rota de entrada da droga colombiana no Brasil, o segundo mercado consumidor do mundo, é através de Boa Vista e Manaus, cidades estratégicas na geografia do tráfico.
O que está acontecendo atualmente na Colômbia foi o combustível para as matanças em Manaus e Boa Vista envolvendo o PCC, o CV e seu aliado FDN. É o que indicam fontes nos serviços de inteligência e também informações obtidas com pessoas que moram nas fronteiras, por onde, nas últimas três décadas, pelo menos de dois em dois anos circulo fazendo reportagens e escrevendo livros.

Os confrontos de Manaus e Boa Vista aconteceram porque o PCC e o CV estão envolvidos em uma corrida para ocupar o lugar no tráfico de cocaína das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que será desmantelada por conta da evolução do acordo de paz com governo colombiano. Hoje, todo produtor de cocaína e todo atacadista – aquele que vende a droga em grande quantidade – pagam pedágio para as Farc.

Em um primeiro momento, o desmantelamento das Farc trará o caos, porque seus soldados perderão a proteção da organização. Hoje, no mundo do crime, ninguém ataca alguém protegido pelas Farc porque sabe que o poder de resposta é imediato e arrasador. Se a organização deixar de existir, será cada um por si. É neste momento que os brasileiros entram em cena, ocupando o vazio deixado pela Farc. Isso será feito recrutando ex-combatentes ou simplesmente substituindo-os por outros.

As chances de as facções brasileiras serem aceitas pelos cartéis da Colômbia são boas porque elas representam o segundo maior mercado consumidor de cocaína do mundo. Isso diminuiria sensivelmente um dos maiores riscos do tráfico, que é o transporte da droga.

A aliança do CV com a FDN lhe dá certa vantagem sobre o PCC nesta corrida. A FDN nasceu nos final dos anos 90 nas gangues de rua de Manaus e se consolidou nos presídios. Em 2015, a PF realizou a Operação Muralha contra a facção e apreendeu um software onde havia lista de participantes, manuais de normas de conduta e como havia sido feita aliança com o CV. Antes da aliança, a FDN tinha nas mãos as rotas da cocaína da Colômbia. Agora tem acesso a um dos grandes mercados de drogas, que é o Rio de Janeiro, casa da CV. Ao seu lado, o PCC tem a vantagem de ser mais organizado que o CV e deter o maior mercado consumidor de drogas da América do Sul: São Paulo.

Se houver confronto com os colombianos pelo espólio das Farc, tanto o PCC quanto o CV têm estrutura e experiência de combate nas fronteiras, para onde, nos anos 90, levaram a guerra aos grupos de traficantes regionais. Uma das batalhas que ganhou notoriedade foi travada por Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, contra o seu protetor João Morel, líder de uma bem estruturada quadrilha em Capitán Bado, cidade paraguaia dividida por uma rua empoeirada de Coronel Sapucaia, pequeno município no Oeste do Mato Grosso do Sul.

Nos anos 60, Morel se instalou na região e começou com o contrabando de café e depois estruturou o tráfico de maconha, cocaína e armas. Fugindo da polícia no Rio de Janeiro, Beira-Mar foi acolhido e protegido por Morel. Beira-Mar fez uma aliança com as Farc – trocando cocaína por remédios, munição e armas – e começou a fazer sombra para seu antigo protetor. Em janeiro de 2001, os dois se desentenderam e Beira-Mar mandou executar os dois filhos de Morel, Ramón e Mauro. Uma semana depois, mandou matar o próprio Morel. Três meses depois, Beira-Mar foi preso pelo Exército da Colômbia, aliado à Agência Anti-Drogas dos Estados Unidos (DEA), na selva colombiana. Atualmente, cumpre pena de 120 anos no Brasil.

Nas fronteiras, o PCC e o CV não lutam por território o tempo todo. Eles também fazem alianças estratégias para defender interesses comuns. Um ruidoso caso que aconteceu no ano passado é apontado como exemplo: a execução do Rei da Fronteira, o brasileiro Jorge Rafaat, condenado por tráfico de drogas no Brasil, que vivia em Juan Pedro Caballero, cidade paraguaia separada por uma avenida da brasileira Ponta Porã, no oeste do Mato Grosso do Sul. A morte foi cinematográfica e o motivo da execução teria sido porque Rafaat decidiu aumentar o preço da maconha e da cocaína que vendia ao PCC e ao CV.

Portanto, não é descartada uma aliança entre as duas facções para entrar na Colômbia, a terra de Pablo Escobar, poderoso traficante morto nos anos 90. Se acontecer a aliança, o CV massacra o FDN como Beira-Mar fez com Morel.

* Carlos Wagner, 66 anos, formado pela Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul é autor de 17 livros, entre eles “País Bandido”. Foi repórter especial do jornal “Zero Hora” de 1983 a 2014. Atualmente, mantém o blog “Histórias Mal Contadas”, (carloswagner.jor.br)

Soja - Região de Miritituba vai ganhar 26 estações de transbordo de carga

SUPLEMENTO - REGIÃO NORTE
 De  Manaus 
 Grandes tradings e operadoras logísticas estão se instalando em Miritituba, distrito de Itaituba, e cidades vizinhas, no sudoeste do Pará, para aproveitar a nova rota que se abre para o transporte da soja do Mato Grosso pelos portos do norte do país.
 A pequena vila fica às margens do rio Tapajós e ao lado da rodovia BR-163, a Cuiabá-Santarém, que formarão o novo trajeto da safra do Mato Grosso, quando o asfaltamento da rodovia estiver concluído.
 O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte.  (Dnit) informa que vários trechos já foram concluídos, intercalados por outros ainda sem asfalto, com previsão de conclusão entre 2015 e 2017.  Segundo Olivier Girard, da Macrologística, faltam ser pavimentados cerca de 126 quilômetros intercalados, no trajeto de cerca de 700 quilômetros entre a divisa do Mato Grosso e Miritituba.  Até Santarém faltam mais 121 quilômetros, de um total de 335 quilômetros.  Falta também construir diversas pontes da rodovia.  Várias delas tiveram de ser licitadas novamente.  Para o especialista, é provável que até o segundo semestre de 2016, ou começo de 2017, a BR-163 esteja 100% operacional.
 Na região de Miritituba, estão previstas 26 estações de transbordo de carga (ETCs), que formarão um complexo, englobando Itaituba e Rurópolis, segundo a Fundação Amazônica de Amparo a Estudos e Pesquisas do Pará (Fapespa).  Estão previstos também cinco pátios de transportadoras em Novo Progresso.
 O primeiro terminal de transbordo em operação em Miritituba é o da Bunge, que formou uma joint-venture com a Amaggi no ano passado, a Navegações Unidas Tapajós (Unitapajós), para atuar na nova rota do rio Tapajós, entre Miritituba e Barcarena (PA).  Outro projeto é o da Cargill, que já está em construção.  Hidrovias do Brasil e Cianport também estão construindo ETCs.  Já os projetos da Unirios e da Chibatão Navegações, grupos regionais, aguardam licença ambiental.  Há também projetos da Reicon e Brick Logística.
 A previsão, segundo a Fapespa, é de que essas oito ETCs gerem um fluxo de 100 mil carretas por mês na época de pico da safra do Mato Grosso, entre fevereiro e abril.  No trajeto de volta, elas deverão transportar insumos agrícolas e produtos eletrônicos.
 A Bunge investiu também na construção de um terminal em Barcarena para exportação de grãos.  A Unitapajós leva os produtos das fazendas e armazéns da região médio-norte do Mato Grosso, pela BR-163 até o terminal de trasbordo de Miritituba.  De lá, as embarcações vão até Barcarena, onde a carga é transferida para navios e embarcados para Europa e Ásia.
 Segundo a Amaggi, o transporte está sendo feito inicialmente com uma frota de 50 barcaças e dois empurradores de 6 mil HP.  Neste ano haverá a incorporação de mais 40 barcaças e outro empurrador de igual potência.  Em 2014, a Unitapajós transportou 836 mil toneladas de grãos.  Com as novas barcaças e empurrador, a previsão é atingir 2 milhões de toneladas neste ano e 3,5 milhões, em 2016.
 A Cargill, que tem terminal graneleiro em Santarém, investe na nova rota do Tapajós.  A estação de transbordo que está construindo em Miritituba, com investimento de R$ 161 milhões, deve ser concluída em julho de 2016, segundo o diretor de portos da empresa, Clythio Buggenhout.  A nova rota, diz o executivo, aumentará o transporte de grãos para Santarém por hidrovia.  Os produtos chegarão à estação da Cargill em Miritituba pela BR-163 de onde prosseguirão em comboios de barcaças até o terminal de Santarém.
 A empresa também está investindo na ampliação desse terminal.  Com as obras, que começaram em maio de 2014, a capacidade vai passar de 2 milhões de toneladas para 5 milhões de toneladas anuais.  A Cargill já utilizava o terminal de Santarém para o transbordo de barcaças e caminhões, armazenamento e exportação de soja e milho de outra rota, a do rio Madeira.  Por essa hidrovia, a empresa leva a produção de Rondônia e do oeste do MT, que chega a 2 milhões de toneladas por ano.  A safra segue de caminhão até Porto Velho, onde é transferida para barcaças e transportada até Santarém, de onde segue para exportação, por navios de longo curso.

Socialismo do século 21, sabe-se lá que extrovenga era essa, mas era o sonho de Chavez,Fidel, Raul, Lula, Dilma, Morales, Cristina, Correa e cucarachas companheiros..,

Maduro aumenta salário mínimo em 50% na Venezuela – para R$ 36

O reajuste é o quinto em um ano, mas os venezuelanos sofrem com inflação nas alturas e escassez de alimentos e mantimentos básicos.

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou neste domingo um aumento de 50% no salário mínimo, que sobe para 40.638 bolívares. O valor representa 60 dólares (180 reais), na taxa oficial mais alta e fictícia, e 12 dólares (36 reais) na cotação do mercado negro. “Para começar o ano, decidi pelo aumento. Seria, se levarmos em conta o aumento que dei em janeiro de 2016, o quinto em um ano”, disse Maduro, na primeira transmissão de 2017 de seu programa semanal no canal estatal VTV. O salário mínimo atualmente em vigor é de 27.091 bolívares e foi reajustado em novembro.
O salário é complementado com um bônus de alimentação de 63.720 bolívares (equivalente a 93 dólares, na taxa oficial fictícia). O aumento decretado inclui os aposentados, assinalou Maduro.
Os aumentos sucessivos decretados pelo presidente socialista foram devorados pela inflação, estimada em 475% em 2016 , e pela perda de valor do bolívar frente ao dólar. Além do alto custo de vida, os venezuelanos sofrem com a escassez de alimentos e remédios.
Para combater o desabastecimento, Maduro anunciou um plano para criar “um sistema de lojas” que venderão produtos básicos a preços subsidiados, que será controlado pelos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (Clap), organizações municipais que distribuem comida em áreas populares. Segundo o presidente, as lojas estarão localizadas nas 45 cidades mais povoadas do país petroleiro.
(Com AFP)

domingo, 8 de janeiro de 2017

Burro mais inteligente do mundo encanta a internet

Vídeo que já teve mais de 700 mil compartilhamentos em pouco mais de 48h mostra que a reputação do burro é injusta.

burro é o animal símbolo da ignorância desde a Grécia antiga. Documentos históricos de 600 a.C. retratam o animalzinho como incapaz de aprender e muito teimoso. Histórias de Esopo e La Fontaine só ajudaram a cristalizar a má fama do Equus africanus asinus.
Mas um vídeo que já teve mais de 700 mil compartilhamentos em pouco mais de 48h mostra que a reputação é injusta. O filme é estrelado por Oreste, um astuto exemplar da espécie que abre uma cerca com a boca para evitar a fadiga de pular.

Ao contrário do que reza a sabedoria popular, o burro é um animal deveras inteligente. Pesquisa sugere que eles, assim como as suas parentes mulas, têm mais desenvoltura para resolver problemas e são menos teimosos que os cavalos.
“Isso que acontece no vídeo é relativamente comum“, diz André Cintra, médico veterinário especializado em comportamento de equinos.
“Crescemos ouvindo que os animais são seres irracionais. Mas o burro, por observação de um humano abrindo a porteira, pode ter aprendido como fazer. E o equino, especialmente se for uma animal mais jovem, tem uma capacidade cognitiva fantástica por observação. Ele vê, ele copia”, afirma.

Os 40 Filmes que Eu Salvaria do Apocalipse

Pouco espaço na mochila, dez minutos para decidir: qual seria a sua seleção para enfrentar o fim dos tempos?

Primeiro, desejo que não haja apocalipse nenhum. E, se houvesse, gostaria de salvar todos os filmes já feitos – os bons e os ruins, os que sempre são lembrados e os que já foram esquecidos. Mas fazer uma seleção como essa é um exercício revigorante: se você só pudesse contar com um acervo muito pequeno, quais seriam os filmes essenciais para sustentar a sua imaginação, alimentar a sua necessidade de ouvir histórias e informar as gerações seguintes sobre essa arte que hoje você aprecia de maneira tão corriqueira, a qualquer dia, a qualquer hora e em qualquer lugar?
Ou seja: esta não é uma lista dos melhores filmes de todos os tempos, como aquela que o American Film Institute faz às vezes. Não é uma lista de clássicos. E também não é necessariamente uma lista dos filmes a que é mais prazeroso assistir. É a lista dos filmes que hoje, neste momento, eu correria para preservar – porque eles resumem algo de fundamental, porque a partir deles eu poderia me lembrar de outros filmes de que gosto, porque acho que seria difícil reinventar o cinema sem aprender o que eles têm a ensinar. E porque eles estão todos, sim, entre os meus preferidos. O 40 é uma brincadeirinha apocalíptica, já que, na Bíblia, quarenta é um número simbólico do ciclo de fim e recomeço, e é o tempo das decisões maduras. E porque escolher só dez filmes me faria arrancar os cabelos.

1. Era Uma Vez no Oeste

(Once Upon a Time in the West, 1968)
(Once Upon a Time in the West, 1968) (Divulgação)
Nada se mexe no deserto, a não ser a poeira; a placa da estação de trem balança e range; uma mosca pousa no nariz do homem feio, ele a espanta, ela pousa de novo: uma das sequências de abertura mais ousadas (no ritmo e na duração) já feitas, para dar a partida em um filme espetacular de ponta a ponta. Tendo inventado o faroeste-spaghetti na sua Trilogia do Homem Sem Nome, o italiano Sergio Leone dobrou todas as apostas neste western épico – começando por, pela primeira vez na história, colocar Henry Fonda no papel de vilão. E que vilão.
O legado: Já vi Era Uma Vez no Oeste bem umas doze ou quatorze vezes, e a cada uma delas aprendo mais (e muito). Se for para recomeçar o cinema do zero, esta é a aula mais completa desta lista. Vá filmar assim lá longe, seu Leone.

2. O Poderoso Chefão I e II

(The Godfather & The Godfather: Part II, 1972/1974)
(The Godfather & The Godfather: Part II, 1972/1974) (Divulgação)
O certo é ver os dois filmes na sequência e pensar neles como um só – mais precisamente, como o exemplo perfeito e irretocável do classicismo narrativo americano. Não fosse Al Pacino e James Caan estarem com cara de garotos (e Marlon Brando e John Cazale estarem vivos), seria impossível precisar em que década Francis Ford Coppola fez esta saga sobre o império mafioso construído na América pelo imigrante siciliano Vito Corleone e a relutância – e competência – com que o filho Michael assume a herança paterna. Não há um adereço ou movimento de câmera que pareça datado, nem uma emoção sequer que não seja essencial da natureza humana. É operístico, grandioso, lindo, e ainda assim íntimo.
O legado: A América do século XX, a dos imigrantes, está toda aqui. Além do mais, qual o sentido de viver em um mundo em que ninguém saiba quem é Luca Brasi, ou o que significa fazer uma oferta irrecusável?

3. 2001 – Uma Odisseia no Espaço

(2001 – A Space Odysssey, 1968)
(2001 – A Space Odysssey, 1968) (Divulgação)
É claro que eu gostaria de salvar do apocalipse todos os filmes de Stanley Kubrick, de Glória Feita de Sangue a Laranja Mecânica e Barry Lyndon. Mas, se for o caso de escolher apenas um, terá de ser o filme que criou a nossa mais persistente e duradoura visão do futuro. Kubrick foi ao âmago da ficção científica: não é pela tecnologia ou o pelo porvir que ela fascina, mas sim por responder ao impulso primordial do ser humano de se aventurar no desconhecido e moldar o seu mundo.
O legado: Para ter uma ideia do que acontece quando é sublime o encontro entre um tema e um cineasta.

4. O Leopardo

(Il Gattopardo, 1963)
(Il Gattopardo, 1963) (Divulgação)
O príncipe Fabrizio de Salina e sua família chegam ao seu palácio de verão, no vilarejo de Donnafugata, com festa, banda e missa. Emparedados, um a um, pelos braços altos das poltronas da igreja e esbranquiçados pela poeira da viagem, Fabrizio, sua mulher e seus filhos mais parecem, porém, cadáveres num velório – o que é uma aproximação razoável com a realidade: é disso que trata O Leopardo, da passagem de nobres como Salina a uma dimensão fantasmagórica. O diretor Luchino Visconti, o “conde vermelho” – por ser muito aristocrático e rico e também comunista –, era mesmo um especialista em reunir contradições. Casa opulência com restrição, e decreta o fim de uma classe mas salva seu principal representante pela cultura, o vigor, a inteligência.
O legado: Sem ciência do passado não há como criar um futuro – e O Leopardo é o filme certo para ilustrar essa ideia. Além disso, tem Claudia Cardinale, linda e fresca, dançando em um baile com Burt Lancaster. Imagino que o mundo sempre vá precisar de beleza como essa.

5. Curtindo a Vida Adoidado

(Ferris Bueller’s Day Off, 1986)
(Ferris Bueller’s Day Off, 1986) (Divulgação)
O melhor filme adolescente de todos os tempos, escrito e dirigido por John Hughes, o sujeito que melhor entendeu a adolescência na história da humanidade.
O legado: 103 minutos de puro júbilo. Isso há de valer ouro.

6. Alien – O Oitavo Passageiro

(Alien, 1979)
(Alien, 1979) (Divulgação)
Está com pressa? Vá ver outro filme. Porque, neste aqui, Ridley Scott ensina que, quanto mais um diretor segura o ritmo, mais torturantes são o suspense e o terror. Alien foi imitado literalmente centenas de vezes, e em nenhum delas chegou-se sequer perto do artigo original.
O legado: Um punhado de cenas que vão queimar sua retina e ficar impressas no seu cérebro.

7. Os Bons Companheiros

(Goodfellas, 1990)
(Goodfellas, 1990) (Divulgação)
Ray Liotta é Henry Hill, o garoto irlandês que desde pequeno sonha ser parte da máfia italiana que domina a vizinhança em que ele mora; o sonho de Henry se realiza – e ele é meio delírio, meio pesadelo, uma espécie de embriaguez de que o espectador compartilha junto com os personagens. Um dos mais intensos e brilhantes filme de máfia já feitos.
O legado: O melhor exemplo possível para os cineastas do futuro de a) como se monta um filme e b) como usar músicas conhecidas na trilha sonora.

8. Os Caçadores da Arca Perdida

(Raiders of the Lost Ark, 1981)
(Raiders of the Lost Ark, 1981) (Divulgação)
Todas as matinês do mundo em uma só.
O legado: Uma junção dos itens 3 e 5 – um encontro sublime entre um cineasta e um tema, e 115 minutos de puro júbilo.

9. Janela Indiscreta

(Rear Window, 1954)
(Rear Window, 1954) (Divulgação)
James Stewart, o fotógrafo de perna quebrada, fica espiando os vizinhos pela janela; Grace Kelly, vaporosa, entra na brincadeira; eles veem o que não deviam ver. Alfred Hitchcock ensina como ser perverso e safado sem ser vulgar. Ou melhor: sem parecer vulgar.
O legado: Uma dúvida crudelíssima: qual entre tantas obras-primas de Alfred Hitchcock eu deveria salvar? Um Corpo que Cai? Psicose? Intriga Internacional?Fico com esta aqui porque ela junta duas qualidades cintilantes do diretor – o suspense, é lógico, mas também o humor.

10. A Separação

(Jodaeiye Nader az Simin/A Separation, 2011)
(Jodaeiye Nader az Simin/A Separation, 2011) (Divulgação)
Começa com um casal argumentando as razões para seu divórcio diante de um juiz – e vai se alargando em círculos cada vez maiores e mais explosivos, até o espectador sentir que está com o coração na boca. O drama feroz do diretor Asghar Farhadi é uma síntese da excelência que o cinema iraniano atingiu em duas décadas, apesar da repressão social, da censura estatal e da constrição da lei religiosa.
O legado: Cinema superlativo, que fala às mais urgentes questões pessoais e culturais, desenvolvido sobre um roteiro positivamente brilhante. Sempre terá muito o que ensinar.

11. Aquele que Sabe Viver

(Il Sorpasso, 1962)
(Il Sorpasso, 1962) (Divulgação)
Vittorio Gassman é um fanfarrão, Jean-Louis Trintignant é um tímido; num domingo de sol, saindo de Roma, eles vão percorrer juntos, em um carrinho conversível, a estrada que leva da comédia à tragédia. Para mim, esta obra-prima do diretor Dino Risi é o mais magnífico de todos os filmes da era de ouro do cinema italiano, nos anos 50 e 60.
O legado: Um flagrante da paisagem interior humana tão agudo e pungente que. quase sempre, é transformador para quem o vê.

12. Kes

(Kes, 1969)
(Kes, 1969) (Divulgação)
O filme de estreia de Ken Loach tem lugar em uma cidade industrial do norte da Inglaterra, em 1969 – mas, tamanha é a indiferença à infância exposta na história, que ela poderia se passar um século antes e ter sido tirada de um dos tristíssimos romances de Charles Dickens. Billy, um menino magro e sujinho de seus 12 ou 13 anos, é maltratado pela mãe, pelo irmão, pelos professores. Desolado, ele encontra um foco para sua existência esquálida: tira do ninho um pequeno gavião e passa a treiná-lo, segundo as instruções que lê, com muita dificuldade, em um livro sobre falcoaria. Um filme pessimista e de cortar o coração – mas belíssimo.
O legado: O mais belo casamento entre lirismo e um naturalismo vivo, sem retoques nem sentimentalismo, que só aumenta a sua potência emocional. Um lembrete oportuno, também, de como a crueldade pode ser casual.

13. Moonrise Kingdom

(Moonrise Kingdom, 2012)
(Moonrise Kingdom, 2012) (Divulgação)
Suzy e Sam, duas crianças que se sentem incompreendidas, se conhecem e se reconhecem como almas gêmeas. Munidos de sacos de dormir, víveres, um gato, uma vitrolinha e discos de Françoise Hardy, fogem para estabelecer um reino breve mas feliz em uma ilha, numa pequena baía. A casa de bonecas do diretor Wes Anderson transborda e reverbera de emoção, até se tornar um cenário libertador.
O legado: Primeiro, um dos mais curiosos universos formais já criados por um cineasta. Depois, uma reflexão belíssima, muito sentida, sobre as coisas que se vão deixando pelo caminho entre a infância e a vida adulta.

14. Kagemusha – A Sombra de um Samurai

(Kagemusha, 1980)
(Kagemusha, 1980) (Divulgação)
É uma aflição ter de escolher UM (01!!!) filme de Akira Kurosawa. Vou deKagemusha porque, primeiro, ele um espetáculo. Depois, porque a interpretação do Tatsuya Nakadai no papel-título é soberba. Finalmente, porque, em muitos sentidos, Kagemusha funciona como síntese da obra do Kurosawa: é visualmente ambiciosíssimo, operístico na escala e, no entanto, é talvez a mais aguda de todas as reflexões dele sobre o que faz uma pessoa ser o que é – se o que ela faz, se o que ela acredita ser, se o que ela se torna.
O legado: É incalculável. Metade do que o mundo sabe sobre fazer cinema foi aprendido diretamente de Kurosawa – a começar pelo filme de ação, que ele praticamente inventou do zero com Os Sete Samurais.

15. Os Imperdoáveis

(Unforgiven, 1992)
(Unforgiven, 1992) (Divulgação)
Clint Eastwood põe na balança nove décadas de westerns e vários séculos de violência. Sai carregando o peso do mundo nos ombros.
O legado: Um dos maiores ícones do século 20, Clint não poderia deixar de estar nesta lista – como ator, como o tremendo cineasta que foi se tornando e como um dos mais dedicados revisores da cultura que o cinema americano (com sua ajuda) propagou.

16. A Doce Vida

(La Dolce Vita, 1960)
(La Dolce Vita, 1960) (Divulgação)
Na Roma do pós-guerra, enquanto todos buscam o prazer, Marcello Mastroianni se perde no vazio existencial magnificamente expresso no preto-e-branco de Federico Fellini.
O legado: Uma das mais sedutoras, envolventes e melancólicas sequências de fotogramas já concebidas por um ser humano.

17. Rastros de Ódio

(The Searchers, 1956)
(The Searchers, 1956) (Divulgação)
Cinema sem os filmes de John Ford? Isso não existe. E John Ford sem John Wayne? Impossível. Em algum momento do futuro pós-apocalíptico eu teria uma crise aguda de abstinência se não pudesse ouvir a dicção peculiaríssima de Wayne ou vê-lo andando com aquela graciosidade animal inesperada em um sujeito tão grandão e durão. Então vamos escolher a síntese mais rica dessa parceria: o amargo e desesperado Rastros de Ódio, o ápice dos faroestes crepusculares.
O legado: Não há como a humanidade seguir adiante sem conhecer o mais belo frame da história do cinema – Wayne emoldurado por uma porta e recortado contra a paisagem a perder de vista do Oeste.

18. O Exorcista

(The Exorcist, 1973)
(The Exorcist, 1973) (Divulgação)
Max von Sydow olha para a estátua antiquíssima de um demônio em algum lugar da Mesopotâmia, o demônio parece olhar de volta para ele, e é tanto medo que dá até tontura. O diretor William Friedkin acerta no coração do horror na sua evocação do mal absoluto, com maiúscula.
O legado: O maior terror já feito. Mesmo. Sem discussão.

19. O Galante Mr. Deeds

(Mr. Deeds Goes to Town, 1936)
(Mr. Deeds Goes to Town, 1936) (Divulgação)
Frank Capra + Gary Cooper. Não se convenceu? Jura? Então aí vai: Cooper é um interiorano ingênuo que herda uma fortuna; ele vai para a cidade grande e todos tentam fazê-lo de bobo – a começar por Jean Arthur, uma repórter esperta que posa de tolinha. Adivinhe quem ri por último? (Eu, que sempre termino com um sorriso beatífico grudado no rosto.)
O legado: Quando a barra do apocalipse estiver pesando demais, o mundo sincero e otimista de Capra vai ser um santo remédio.

20. Perseguidor Implacável

(Dirty Harry, 1971)
(Dirty Harry, 1971) (Divulgação)
“Dirty” Harry Callahan é um herói, ou é um anti-herói? Prova da complexidade do policial icônico vivido por Clint Eastwood (e dirigido por Don Siegel) é que até hoje essa é uma questão que está longe de ser decidida. Harry enfia o revólver na cabeça de um ladrão e sofisma com ele: já disparou todas as balas, ou ainda falta uma? Harry é um anjo vingador, e encarna algo de essencial em Eastwood: a ideia de que um homem tem de prestar contas sobretudo às suas próprias convicções.
O legado: O melhor e mais complicado retrato da passagem dos sonhadores anos 60 para a desencantada década de 70. E, de quebra, um filme policial que continua sendo imitado – palidamente – até hoje, sem parar.

21. O Planeta dos Macacos

(Planet of the Apes, 1968)
(Planet of the Apes, 1968) (Divulgação)
Charlton Heston está láááááá no fim da minha lista de atores preferidos, masaqui ele é o homem certo no lugar certo: quem mais iria esmurrar a areia da praia e gritar “Malditos sejam!” com aquela convicção toda na cena final mais embasbacante do cinema? Só para constar, tudo, desde o primeiro até o último minuto, é um choque, e a trilha fabulosa de Jerry Goldsmith faz você sentir que o seu coração vai pular do peito a qualquer momento.
O legado: Já sentiu alguma vez que a espécie humana flerta de perto demais com a sua própria destruição? Pois é. Ver o filme de Franklin J. Schaffner depois do apocalipse deve ser um baque.

22. RoboCop

(RoboCop, 1987)
(RoboCop, 1987) (Divulgação)
O holandês Verhoeven é o cineasta mais confrontador, afrontador, louco, desajuizado e sem vergonha a jamais ter recebido financiamento de um estúdio americano. O resultado é isso aí: uma sátira sulfúrica, uma ficção científica nota 10, uma concepção visual matadora (com amputações grotescas e gente derretendo em ácido e, ao mesmo tempo, aquela delicadeza mecânica dos movimentos de Paul Weller).
O legado: Um espelho para mostrar, em detalhe, o barbarismo de que somos capazes.

23. Monty Python e o Cálice Sagrado

(Monty Python and the Holy Grail, 1975)
(Monty Python and the Holy Grail, 1975) (Divulgação)
O Rei Arthur, andorinhas africanas, monges, cocos e um coelhinho assassino se combinam de forma hilariante. Mas não delirante: um dos efeitos das comédias do Monty Python é que elas vão direto ao ponto e demolem todos os pilares da civilização. Depois, você nunca mais consegue levar a sério nenhum outro filme sobre um tema parecido.
O legado: Fiquei com o coração dividido: deveria escolher O Cálice Sagrado ou A Vida de Brian? Afinal, demolição por demolição, talvez a da civilização judaico-cristã fosse material mais rico que a da Europa medieval. Mas fiquei com Cálicepor uma razão simples: nunca ri tanto na minha vida.

24. Batman – O Cavaleiro das Trevas

(The Dark Knight, 2008)
(The Dark Knight, 2008) (Divulgação)
Heath Ledger é o Coringa. O caos reina. Christopher Nolan conjura um dos paineis mais devastadores já feitos sobre a aniquilação e a ruína que podem ir na alma de um homem.
O legado: O existencialismo ganha uma forma para os novos tempos, e se traduz para uma nova geração.

25. 007– Operação Skyfall

(Skyfall, 2012)
(Skyfall, 2012) (Divulgação)
E por falar em novos tempos: Daniel Craig se instala de vez em um personagem que, acreditava-se, ninguém jamais poderia roubar de Sean Connery. E então desconstrói e reconstrói James Bond como um ícone acossado pelo medo da superfluidade, atormentado por uma relação freudiana com uma mulher (bem) mais velha, e de sexualidade mais colorida do que se poderia supor.
O legado: O momento mágico em que um ator se apaixona pelo seu personagem – e é plenamente correspondido.

26. A Conversação

(The Conversation, 1974)
(The Conversation, 1974) (Divulgação)
Tentei reservar no máximo um título para cada cineasta, mas não teve jeito: rever este filme magnífico é constatar que, durante um período, não havia diretor que chegasse perto de Francis Ford Coppola, nem ator mais completo que Gene Hackman – que, aqui, é um especialista em “grampos” e outras variedades de espionagem sonora. Harry é paranoico, sim. Mas, dadas as iluminações que o trabalho lhe proporciona sobre a natureza humana, ele bem que tem razão em sê-lo.
O legado: No meio de um filme perfeito, uma das mais espetaculares cenas da história do cinema: a cada nova audição da conversa que gravou entre duas pessoas, em uma praça movimentada, Harry depreende uma interpretação diferente do que foi dito. Onde estará a verdade, afinal?

27. Tempo de Viver

(Huo Zhe/To Live, 1994)
(Huo Zhe/To Live, 1994) (Divulgação)
Quando os cineastas chineses da “quinta geração” estouraram no circuito internacional, na virada dos anos 80 para os 90, ninguém filmava de maneira tão luxuriante quanto eles. Tempo de Viver, de Zhang Yimou, é uma boa escolha porque abrange boa parte da história da China no século 20 por meio das fortunas e, depois, desventuras de um casal magistralmente interpretado por Gong Li e Ge You – e porque tem aquele cardápio irresistível de sofrimento sem fim, costumes exóticos, música mais exótica ainda e visual suntuoso.
O legado: Uma lição sobre como fazer algo antigo – o melodrama – parecer novo mais uma vez. Além do mais, tem dias em que só um pouco de melô resolve.

28. Cidade de Deus

(Cidade de Deus, 2002)
(Cidade de Deus, 2002) (Divulgação)
Desde a primeira cena, em que uma galinha observa aflita o massacre de suas colegas para um churrasquinho e então, zás, foge e vira alvo de uma perseguição atordoante, Cidade de Deus enlouqueceu plateias pelo mundo: uma visão rascante de um mundo (des)governado pelo tráfico, feita com medidas iguais de crueza, suingue e humor, esta adaptação do livro de Paulo Lins é um filme que pode ser visto dez vezes, e surpreender em todas elas.
O legado: O Brasil não é para iniciantes, já se disse. Mas Cidade ajuda a entender a barafunda.

29. O Senhor dos Anéis

(The Lord of the Rings, 2001-2003)
(The Lord of the Rings, 2001-2003) (Divulgação)
Estou só obedecendo o diretor Peter Jackson: ele é quem diz que fez um só filme, dividido em três partes. E que filme: em matéria de fantasia, não dá para bater isto aqui em concepção, elenco, visual, música, paisagem e ambição pura e simples. É literalmente como ver os livros de J.R.R. Tolkien ganhando vida, tal e qual.
O legado: Se hoje já seria financeiramente inviável repetir o feito de Jackson, que dirá em um mundo pós-apocalipse. É guardar para não perder.

30. Orgulho e Preconceito

(Pride & Prejudice, 2005)
(Pride & Prejudice, 2005) (Divulgação)
Sem Jane Austen não dá para viver. Então, representando todas as dezenas de adaptações da obra dela, aí vai este trabalho vivo, alegre e palpitante do diretor Joe Wright, com Matthew Macfadyen como o mais apaixonante e exasperante de todos os Mr. Darcy, Keira Knightley como a mais travessa e teimosa de todas as Lizzie Bennett e o baile provinciano mais barulhento e suarento de toda a ilustre história do cinema de época inglês.
O legado: Jane Austen, ora. Precisa mais?

31. Uma História de Violência

(A History of Violence, 2005)
(A History of Violence, 2005) (Divulgação)
Viggo Mortensen é um homem de bem: ama a mulher, trata os filhos com respeito e carinho, sai do seu caminho para ser gentil com conhecidos e desconhecidos. Mas, quando dois homens entram na sua lanchonete cheia ameaçando assassinar e estuprar, ele mata ambos, em um segundo, com a proficiência de quem já matou muito antes. Qual a diferença entre ser e tornar-se, o que define a identidade, qual o efeito que uma alteração nesse jogo pode ter sobre os outros? David Cronenberg, um dos diretores mais inquietos e inquietantes que o cinema já produziu, encontrou seu par perfeito em Mortensen. Juntos, eles são um estrondo.
O legado: Um dos mais potentes retratos já feitos do “eu” secreto que cada um carrega consigo. (E o certo seria dar uma trapaceada e incluir o filme seguinte de Mortensen e Cronenberg, Senhores do Crime, que trata do inverso: um homem mau que é secretamente bom.)

32. O Exterminador do Futuro e O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final

(The Terminator, 1984, e Terminator 2: Judgement Day, 1991)
(The Terminator, 1984, e Terminator 2: Judgement Day, 1991) (Divulgação)
Sim, eu sei que estou trapaceando (de novo) e colocando dois filmes no lugar de um. Mas veja bem: no primeiro, ninguém sabia ainda do que James Cameron era capaz – só o próprio Cameron. No segundo, a gente achava que sabia – e ele mostrou que ninguém sequer fazia ideia.
O legado: Quanto mais o tempo passa, mais instigante fica a visão de Cameron sobre as armadilhas da simbiose entre homens e máquinas. Além do quê, dois filmaços.

33. A Era do Rádio

(Radio Days, 1987)
(Radio Days, 1987) (Divulgação)
O mais amoroso de todos os filmes de Woody Allen recria a infância dele por meio de uma família judia briguenta do Queens, nos anos 30 e 40. É uma tirada impagável atrás da outra, e a trilha sonora é de morrer de tão boa. Mas só por uma cena já valeria: a garota de toalha enrolada na cabeça imitando Carmen Miranda e dublando Tico Tico no Fubá (na verdade, cantada por Denise Dumont) é um dos momentos mais felizes que já tive em uma sala de cinema.
O legado: O passado, na memória, é sempre lindo – inclusive quando se lembra do que era feio.

34. Cenas de um Casamento

(Scener ur ett Äktenskap, 1973)
(Scener ur ett Äktenskap, 1973) (Divulgação)
A rigor, foi feito como minissérie para a TV – mas, fora da Suécia, todo mundo viu em formato de filme a história de Marianne e Johann, que começa aos dez anos de casamento e atravessa outros dez anos de sismos, traições, separações, reencontros. As interpretações de Liv Ulmann e Erland Josephson, atores-símbolo de Ingmar Bergman, são superlativas. E é fato: nenhum outro cineasta jamais compreendeu tão bem quanto Bergman como as pessoas que se amam sabem onde ferir uma à outra de forma a causar mais dano.
O legado: Um lampejo apenas, dentre uma obra vasta, da capacidade de um diretor de filmar o íntimo humano como se fosse uma paisagem a desbravar.

35. Los Angeles – Cidade Proibida

(L.A. Confidential, 1997)
(L.A. Confidential, 1997) (Divulgação)
Uma adaptação heróica do livro noir de James Ellroy, com quase 200 personagens, sobre policiais corruptos, policiais honestos, políticos inescrupulosos, prostitutas, femmes fatales, crime organizado e escândalos dos bastidores de Hollywood nos anos 40, tudo loucamente interligado. Russell Crowe e Guy Pearce formam uma dupla formidável.
O legado: Como escolher apenas um noir entre tantos exemplos brilhantes filmados na década de 40? Usando um pequeno ardil, e ficando com um noir que olha para trás e pesca nesse mar tudo que se fez de melhor.

36. Era Uma Vez em Tóquio

(Tokyo Monogatari, 1953)
(Tokyo Monogatari, 1953) (Divulgação)
É a simplicidade absoluta: um casal de avós vai visitar a família em Tóquio. Os filhos e netos, porém, não têm tempo nem paciência para eles. Eles voltam para casa; dentro de alguns dias, a avó morre. Yasujiro Ozu, um dos talentos mais cintilantes de todos os tempos, se esquiva de tudo que poderia ser convencional nesse enredo. Não há brigas, não há crises, não há momentos decisivos; o tempo simplesmente transcorre. Mas a potência do que ele obtém é espantosa; é lembrar do filme e sentir um aperto no coração por cada instante que se perdeu, ou no qual que se foi menos do que se poderia ser.
O legado: Olhar a própria mortalidade de frente não é fácil. Mas Ozu, sem tirar dessa experiência o peso, torna-a única.

37. O Hospedeiro

(Gwoemul/The Host, 2006)
(Gwoemul/The Host, 2006) (Divulgação)
Uma coisa meio bagre, meio dinossauro sai do Rio Han, em Seul, e leva a filha do trapalhão Park (o único e inimitável Kang-ho Song). É filme de monstro? É pastelão? É drama? É uma meditação? É tudo isso e muito mais: é uma maravilha feita por Joon-ho Bong, o maior entre os grandes diretores sul-coreanos.
O legado: Neste momento, não há cinema mais excitante, original e cheio de emoção do que o feito pelos coreanos. Como só eles sabem essa receita, é melhor guardá-la com cuidado.

38. A Princesa Prometida

(The Princess Bride, 1987)
(The Princess Bride, 1987) (Divulgação)
O diretor Rob Reiner, segunda geração da melhor comédia americana (seu pai é o grande Carl Reiner), fez aqui um pequeno milagre: um filme que funciona igualmente bem como conto-de-fadas e como paródia com senso de humor absurdista de um conto-de-fadas.
O legado: Um dos melhores dois-em-um à disposição – e alguma fantasia e muito senso de humor sempre serão necessários.

39. O Império Contra-Ataca

(Star Wars: Episode V – The Empire Strikes Back, 1980)
(Star Wars: Episode V – The Empire Strikes Back, 1980) (Divulgação)
Não é só por consideração aos outros sobreviventes que eu salvaria algo de Star Wars. É porque tenho uma lembrança tão vívida do meu assombro com os Empire Walkers, gigantescos, andando sobre o gelo e fazendo a sala de cinema tremer, que até hoje a ideia de Luke enroscando as pernas deles e os fazendo tombar me dá um arrepio bom. O diretor Irvin Kershner fez uma façanha: um filme do meio que é melhor do que as pontas da trilogia.
O legado: Como …E o Vento Levou não entrou na lista e assim se perdeu uma das mais célebres frases canalhas da história (“Francamente, querida, não dou a mínima”, diz Clark Gable para Vivien Leigh), pelo menos um outro exemplar ilustre fica preservado: “I love you”, diz Leia para Solo. “I know”, responde o safado.

40. Vá e Veja

(Idi i Smotri, 1985)
(Idi i Smotri, 1985) (Divulgação)
Em 1943, os nazistas invadem a Bielo-Rússia e submetem os camponeses locais a horrores inomináveis; o pequeno Florya será testemunha e vítima de todos eles. É improvável que haja um outro filme na história do cinema feito com a cólera e a indignação desta obra-prima do diretor Elem Klimov, que em criança sobreviveu ao medonho cerco dos nazistas a Stalingrado.
O legado: Imagino a cara dos meus companheiros de apocalipse ao abrir a minha caixa de DVDs e ver que, entre os míseros quarenta filmes salvos do fim do mundo, estaria o hiper ultra lento O Sacrifício, de Andrei Tarkovski. Mas alguma coisa do magistral cinema russo tinha de entrar na lista – e este aqui concentra aquela combinação única de formalismo, pesar e desespero em que os russos são mestres.
*Isabela Boscov