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domingo, 4 de dezembro de 2016

Carta sobre a felicidade (a Meneceu) - Epicuro

Carta sobre a felicidade (a Meneceu) - Epicuro
Tradução de Desidério Murcho

Epicuro envia suas saudações a Meneceu, saudações.

Que nenhum jovem adie o estudo da filosofia, e que nenhum velho se canse dela; pois nunca é demasiado cedo nem demasiado tarde para cuidar do bem-estar da alma. O homem que diz que o tempo para este estudo ainda não chegou ou já passou é como o homem que diz que é demasiado cedo ou demasiado tarde para a felicidade. Logo, tanto o jovem como o velho devem estudar filosofia, o primeiro para que à medida que envelhece possa mesmo assim manter a felicidade da juventude nas suas memórias agradáveis do passado, o último para que apesar de ser velho possa ao mesmo tempo ser jovem em virtude da sua intrepidez perante o futuro. Temos, portanto, de estudar o meio de assegurar a felicidade, visto que se a tivermos, temos tudo, mas se não a tivermos, fazemos tudo para obtê-la.
Pratica e estuda sem cessar aquilo que estava sempre a ensinar-te, tendo a certeza de que estes são os primeiros princípios da vida boa. Depois de aceitar deus como o ser imortal e bem-aventurado descrito pela opinião popular, nada mais lhe atribuas que seja estranho à sua imortalidade ou à sua bem-aventurança, mas antes acredita acerca dele seja o que for que possa sustentar a sua imortalidade bem-aventurada. 
Os deuses existem realmente, pois a nossa percepção deles é clara; mas não são como a multidão os imagina, pois a maior parte dos homens não retém a imagem dos deuses que primeiro recebem. Não é o homem que destrói os deuses da crença popular que é ímpio, mas antes quem descreve os deuses nos termos aceites pela multidão. Pois as opiniões da multidão sobre os deuses não são percepções, mas antes falsas suposições. De acordo com estas superstições populares, os deuses enviam grandes males aos perversos, e grandes bem-aventuranças aos íntegros, pois, sendo sempre favoráveis às suas próprias virtudes, aprovam quem é como eles, encarando como estranho tudo o que é diferente.
Habitua-te à crença de que a morte não nos diz respeito, dado que todo o mal e todo o bem assentam na sensação e a sensação acaba com a morte. Logo, a crença verdadeira de que a morte nada é para nós faz uma vida mortal feliz, não ao acrescentar-lhe um tempo infinito, mas ao eliminar o desejo de imortalidade.
Pois não há razão para que o homem que tem plena certeza de que nada há a recear na morte encontre algo que recear na vida. Assim, também é tolo quem diz que receia a morte não por ser dolorosa quando chegar, mas por ser dolorosa a sua antecipação; pois o que não é um peso quando está presente é doloroso sem razão quando é antecipado. 
A morte, o mais temido dos males, não nos diz consequentemente respeito; pois enquanto existimos a morte não está presente, e quando a morte está presente nós já não existimos. Nada é, portanto, nem para os vivos nem para os mortos visto que não está presente nos vivos, e os mortos já não são. Mas os homens em geral por vezes fogem da morte como o maior dos males, por vezes almejam-na como um alívio para os males da vida. 
O homem sábio nem renuncia à vida nem receia o seu fim; pois a vida não o ofende, nem supõe que não viver é de algum modo um mal. 
Tal como não escolhe a comida da qual há maior quantidade, mas a que é mais agradável, também não procura a satisfação da vida mais longa, mas sim a da mais feliz.
Quem aconselha o jovem a viver bem e o velho a morrer bem é tolo não apenas porque a vida é desejável, mas também porque a arte de viver bem e a arte de morrer bem são uma só. Contudo, muito pior é quem diz que é bom não ter nascido, mas uma vez nascido, que o melhor é passar depressa pelos portões do Hades.
Se um homem diz isto e realmente acredita nisto, por que razão não se retira da vida? Certamente que os meios estão à mão se for realmente essa a sua convicção. Se o diz a zombar, é visto como um tolo entre quem não aceita o seu ensinamento.
Lembra-te que o futuro nem é nosso nem é completamente não nosso, de modo que nem podemos contar que virá de certeza nem podemos abandonar a esperança nele com a certeza de que não virá.
Tens de considerar que alguns desejos são naturais, outros vãos, e dos que são naturais alguns são necessários e outros apenas naturais. Dos desejos naturais, alguns são necessários para a felicidade, alguns para o bem-estar do corpo, alguns para a própria vida. O homem que tem um conhecimento perfeito disto saberá como fazer toda a sua escolha ou rejeição tender para ganhar saúde do corpo e paz de espírito, dado que este é o fim último da vida bem-aventurada. Pois para alcançar este fim, nomeadamente a libertação da dor e do medo, fazemos tudo. 
Quando se atinge esta condição, toda a tempestade da alma sossega, dado que a criatura nada mais precisa fazer para procurar algo que lhe falte, nem de procurar qualquer outra coisa para completar o bem-estar da alma e do corpo. Pois só sentimos a falta de prazer quando sentimos dor com a sua ausência; mas quando não sentimos dor já não precisamos de prazer. 
Por esta razão, dizemos que o prazer é o princípio e o fim da vida bem-aventurada. Reconhecemos o prazer como o bem primeiro e natural; partindo do prazer, aceitamos ou rejeitamos; e regressamos a isto ao ajuizar toda a coisa boa, usando este sentimento de prazer como o nosso guia.
Precisamente porque o prazer é o bem principal e natural, não escolhemos todo o prazer, mas por vezes abstemo-nos de prazeres se estes forem cancelados pelas privações que se seguem; e consideramos muitas dores melhores do que prazeres quando um maior prazer virá até nós depois de termos sofrido dores demoradas. Todo o prazer é um bem dado ter uma natureza congênere da nossa; contudo, nem todo o prazer deve ser escolhido. De igual modo, toda a dor é um mal, contudo nem toda a dor é de natureza a ser evitada em todas as ocasiões. Pesando e olhando para as vantagens e desvantagens, é apropriado decidir todas estas coisas; pois em certas circunstâncias tratamos o bem como mal e, igualmente, o mal como bem.
Encaramos a autossuficiência como um grande bem, não para que possamos desfrutar apenas de poucas coisas, mas para que, se não tivermos muitas, nos possamos satisfazer com as poucas, estando firmemente persuadidos de que quem retira o maior prazer do luxo é quem o encara como menos preciso, e que tudo o que é natural se obtém facilmente, ao passo que os prazeres vãos são difíceis de obter. 
Na verdade, temperos simples dão um prazer igual ao dos banquetes pródigos quando a dor devida à necessidade for removida; e pão e água dão o máximo prazer quando uma pessoa necessitada os consome. 
Estar acostumado à vida simples e básica conduz à saúde e faz um homem ficar pronto a enfrentar as tarefas necessárias da vida. Prepara-nos também melhor para usufruir o luxo se por vezes tivermos a sorte de encontrá-lo, e faz-nos intrépidos face à fortuna.
Quando dizemos que o prazer é o fim, não queremos dizer o prazer do extravagante ou o que depende da satisfação física — como pensam algumas pessoas que não compreendem os nossos ensinamentos, discordam deles ou os interpretam malevolamente — mas por prazer queremos dizer o estado em que o corpo se libertou da dor e a mente da ansiedade. Nem beber e dançar continuamente, nem o amor sexual, nem a fruição de peixe, ou seja, o que for que a mesa luxuosa oferece gera a vida agradável; ao invés, esta é produzida pela razão que é sóbria, que examina o motivo de toda a escolha e rejeição, e que afasta todas aquelas opiniões através das quais a mente fica dominada pelo maior tumulto.
De tudo isto o bem inicial e principal é a prudência. Por esta razão, a prudência é mais preciosa do que a própria filosofia. Todas as outras virtudes nascem dela. Ensina-nos que não é possível viver agradavelmente sem ao mesmo tempo viver prudentemente, nobremente e justamente, nem viver prudentemente, nobremente e justamente sem viver agradavelmente; pois as virtudes cresceram em união íntima com a vida agradável, e a vida agradável não pode ser separada das virtudes.
Quem pensas então que é superior ao homem prudente, que tem opiniões reverentes sobre os deuses, que não tem qualquer medo da morte, que descobriu qual é o maior bem da vida e que compreende que o mais alto bem é fácil de alcançar e manter e que o extremo do mal tem limites no tempo ou no sofrimento, e que se ri do que algumas pessoas inventaram como a regente de todas as coisas, a Necessidade? Ele pensa que o poder de decisão principal nos cabe a nós, apesar de algumas coisas surgirem por necessidade, algumas por acaso e algumas pelas nossas próprias vontades; pois ele vê que a necessidade é irresponsável e o acaso incerto, mas que as nossas ações não estão sujeitas a qualquer poder. É por esta razão que as nossas ações merecem louvor ou censura. Seria melhor aceitar o mito sobre os deuses do que ser um escravo do determinismo dos físicos; pois o mito sugere uma esperança de graça através das honras concedidas aos deuses, mas a necessidade do determinismo é inescapável. Visto que o homem prudente não encara, como muitos, o acaso como um deus (pois os deuses nada fazem de maneira desordenada) ou como uma causa instável de todas as coisas, acredita que o acaso não dá ao homem o bem e o mal para fazer a sua vida feliz ou miserável, mas que fornece oportunidades para grandes bens ou males. Finalmente, ele pensa que é melhor encontrar o infortúnio quando se age com razão do que calhar a ter boa fortuna ao agir insensatamente; pois é melhor não ocorrer o que foi bem planeado nas nossas ações do que ser bem-sucedido por acaso o que foi mal planeado.
Medita nestes preceitos e noutros como estes, de dia e de noite, sozinho ou com um amigo da mesma opinião. Então nunca terás receio, de dia ou de noite; mas viverás como um deus entre os homens; pois a vida no seio de bem-aventuranças imortais não é de modo algum como a vida de um mero mortal.

Epicuro
Tradução de Desidério Murcho
Nota do tradutor
Esta é uma tradução da tradução inglesa anônima disponível  no site da Universidade da Colúmbia. Esta tradução supera claramente a tradução de Brad Inwood e L. P. Gerson (Hackett) e a mais antiga de Robert Drew Hicks, iluminando algumas partes do texto que até agora eram algo incongruentes.

Gibran Khalil Gibran



CULTURA ESPECIAL


Este ano completa-se 130 anos do nascimento de Gibran Khalil Gibran, e no último dia 10 de Abril, completou 82 anos de seu falecimento. Em sua homenagem, essa edição cultural é um especial dedicado a Gibran...

Gibran Khalil Gibran nasceu em 6 de janeiro de 1883, em uma católica família maronita da histórica cidade de Bsharri, no norte do  Líbano. Nesta época, o Líbano era uma província turca, pertencente ao domínio otomano. Porém, Bsharri, pátria dos maronitas, fazia parte do Monte Líbano, uma região autônoma e independente, desde 1861, em virtude dos constantes conflitos entre drusos e maronitas, que levaram a diplomacia europeia a pressionar o sultão Abdulmecid I a dividir o país, por religiões. 

Sua mãe, Kamileh Rahmeh, era filha de um prestigiado sacerdote maronita de Bsharri, chamado Istiphan Rahmeh. Ela era descrita como uma mulher graciosa, fina com uma ligeira palidez nas bochechas, e uma sombra de tristeza em seus olhos. Kamileh tinha uma bela voz para cantar, e era uma pessoa religiosa e muito devota. Quando ela atingiu a idade núbil, ela foi casada com um primo de seu próprio clã, chamado Hanna Abd Al-Salaam Rahmeh. 

No entanto, como muitos libaneses de seu tempo, ele emigrou para o Brasil, em busca de fortuna, mas enquanto estava lá, ele morreu, deixando Kamileh e o filho pequeno, Boutros (Pedro), sozinhos. Algum tempo depois da morte de Hanna Rahmeh, Kamileh já com 30 anos, casou-se com Khalil Gibran, e com ele, Kamileh teve Gibran, e duas filhas: Marianna em 1885, e Sultanah, em 1887. Devido à pobreza de sua família, Gibran não recebeu educação formal, os sacerdotes locais o visitavam, e o ensinavam religião, árabe e língua siríaca. 

Gibran foi uma criança solitária e pensativa, que apreciava a paisagem natural da cidade, as montanhas, a cascata, o vale do Qadisha, os vilarejos vizinhos, e os cedros, cuja beleza influenciou dramaticamente, seus desenhos e escritos. Aos dez anos, Gibran caiu de um penhasco, e feriu o ombro esquerdo, que permaneceu fraco para o resto de sua vida. Sua família amarrou uma cruz em torno do ombro durante 40 dias, o que fez com que Gibran se lembrasse das peregrinações de Cristo no deserto. Desde pequeno, Gibran foi apaixonado por desenho, no inverno, se não havia papel na casa para desenhar, ele passava horas desenhando formas e figuras na neve fresca. 

Aos quatro anos, ele cavou alguns buracos no chão, e cuidadosamente plantou minúsculos pedaços de papel, esperando que a safra do verão lhe fornecesse uma oferta abundante de papel. Quando ele tinha cinco anos, ele recebeu um canto em sua pequena casa, que ele rapidamente preencheu com uma loja de sucata perfeita, com pedras, anéis, plantas, e uma coleção de lápis de cor. Se ele ultrapassava o papel quando estava desenhando, ele improvisava, e continuava seus desenhos nas paredes. Um de seus maiores prazeres era criar imagens em chumbo, usando velhas latas de sardinha. Ele costumava colocar o chumbo no fogo para derreter, e em seguida, preenchia as duas metades da lata com areia fina, e úmida. Em seguida, pressionando a imagem entre os dois, ele raspava a areia espremida, colocando as duas metades juntas novamente, e despejando o chumbo no molde, até que a imagem esfriasse. 


Inovador e curioso, Gibran sempre inventava, e criava coisas. Aos seis anos, ele ficou fascinado por uma imagem de Leonardo da Vinci, que lhe foi dada por sua mãe. Ele nunca se esqueceu desse dia, e da paixão que ele sentiu naquele instante, com a descoberta daquele “homem incrível”, que agiu em Gibran “como uma bússola em um navio perdido nas brumas do mar”, despertando nele, o desejo de se tornar um artista. Durante toda a sua vida, ele foi fascinado tanto pela personalidade, quanto pela arte de Da Vinci.

Apesar das discussões que muitas vezes irrompiam em sua casa, Gibran lembrava-se dos dias mais felizes, quando ele acompanhava seus pais em seus passeios pelo norte do Líbano. Quando ele tinha oito anos, seus pais o levaram para ver o mar pela primeira vez. Ele lembrava-se, já na idade adulta, das impressões que ele teve, vividamente: "O mar estava diante de nós. O mar e o céu eram de uma só cor. Não havia horizonte, e a água estava cheia de grandes navios à vela do Leste, com tudo pronto. Enquanto passávamos atrás das montanhas, de repente eu vi o que parecia um céu imensurável, e os navios de vela nele". Em outra ocasião, seus pais o levaram às ruínas de Baalbek, a Cidade do Sol, na cidade de Baal. Em uma floresta perto das ruínas imponentes, e em meio ao silêncio assustador do santuário, a família acampou por quatro dias. 

Certa manhã, no pórtico de um antigo templo, Gibran encontrou um homem solitário, sentado no cilindro de uma coluna caída, olhando para o leste. Ele ousado o suficiente para lidar com o estranho, perguntou o que ele estava fazendo.  - "Eu estou olhando para a vida", foi o que o homem lhe respondeu.  - "E isso é tudo?", perguntou Gibran. - "E não é o suficiente?" perguntou-lhe o homem. Memórias como esta, ficaram com Gibran por toda a sua vida, e a "Cidade do Sol", foi citada em muitos de seus primeiros escritos. 

O pai de Gibran, um homem forte, robusto, com pele clara e olhos azuis, que havia recebido apenas o ensino fundamental, era um homem de considerável encanto físico, e um dos homens fortes da cidade, muito temido pela família, e nada amoroso. Ele trabalhava numa farmácia, mas o álcool e o vicio por jogos de azar, fizeram-no contrair dívidas, o que acabou levando-o a trabalhar num cargo administrativo para os otomanos. Porém, em 1891, após diversas reclamações, ele foi removido do cargo e investigado, e na sequência, preso por peculato. A propriedade da família foi confiscada pelas autoridades e Gibran, juntamente com sua família, foi morar com familiares.  

Kamileh tinha um temperamento forte, e mesmo após a libertação do marido, em 1894, estava decidida a seguir o irmão, e mudar-se para o EUA. O pai de Gibran não quis acompanhá-los, e Kamileh partiu sozinha com os filhos para os EUA, em Junho de 1895. Já em território americano, a família estabeleceu-se no extremo sul de Boston, onde Kamileh começou a trabalhar como vendedora ambulante de rendas, roupas de cama, e também como costureira. Crescendo em outro período empobrecido de sua vida, Gibran se lembrava do sofrimento dos primeiros anos, que deixou uma marca indelével em sua vida, e então ele passou a reinventar suas memórias de infância, dissipando a sujeira, a pobreza e os insultos. 

O trabalho das instituições de caridade, nas áreas de imigrantes pobres, permitia que os filhos de imigrantes frequentassem as escolas públicas. Gibran foi o único membro de sua família a frequentar a escola, em Setembro de 1895, ao contrário de suas irmãs que, devido às tradições do Oriente Médio, e dificuldades financeiras ficaram em casa.  Gibran foi matriculado numa classe especial para imigrantes, para aprender inglês, e erroneamente ele  foi registrado como “Kahlil Gibran”, um fato que se manteve inalterado por toda sua vida, mesmo após inúmeras tentativas de restaurar seu nome completo.  


Com o trabalho árduo de Kamileh, e o apoio emocional que ela oferecia aos filhos, uniu a pequena família, que superou as dificuldades financeiras, e permitiu inclusive, que Pedro abrisse uma loja de artigos onde as irmãs podiam trabalhar com ele. O introvertido e pensativo Gibran, pôde se misturar à vida social de Boston e explorar o mundo da arte e da literatura, e sua curiosidade o expôs ao rico mundo do teatro, da ópera e de galerias artísticas. Incitado pelas cenas culturais em torno dele, e através de seus desenhos, um hobby que ele tinha desde a infância no Líbano, Gibran chamou a atenção de seus professores, que viram um futuro artístico para o menino. 

Em 1896, entraram em contato com Fred Holland Day, um artista, editor, e fotógrafo, que passou a incentivar e apoiar Gibran, abrindo assim, seu mundo cultural e o colocando-o no caminho para a fama artística. Fred Holland Day introduziu Gibran na mitologia grega, na literatura mundial, nos escritos contemporâneos e na fotografia, sempre cutucando o curioso libanês, a buscar a autoexpressão. A educação liberal, e a exploração artística não convencional de Day, influenciou Gibran, e levantou sua autoestima, que havia sido machucada pelo tratamento que ele havia recebido por ser um imigrante, além da pobreza pela qual ele havia passado.  

Gibran era um rápido aprendiz e devorava tudo o que Day lhe dava para ler, mesmo tendo dificuldades no inglês, sua primeira crença religiosa proferida, após uma leitura oferecida por Day foi: “Eu não sou um católico, eu sou um pagão”.  Gibran, sempre incentivado por Day, passou a aprimorar seus desenhos, e a desenvolver sua própria técnica e estilo, e alguns de seus desenhos acabaram se tornando capas de alguns livros publicados na editora de Day, em 1898, o que trouxe a Gibran, uma fama em idade precoce. 
Todavia, Kamileh e Pedro, queriam que ele absorvesse mais de sua própria herança, e não apenas a cultura estética ocidental da qual ele estava tão atraído, além da preocupação com o sucesso precoce que ele vinha ganhando, e que poderia lhe causar problemas futuros. 

Decidiram então que Gibran deveria voltar para o Líbano, para terminar seus estudos e aprender o árabe. Então, aos 15 anos, Gibran voltou à sua terra natal para estudar numa escola maronita de preparação ao ensino superior em Beirute, chamada “Madrasat Al-Hikma” (A Sabedoria). 

Gibran se recusou a cumprir o currículo paroquial, exigindo que fosse feita uma restauração na sua grade individual, de acordo com suas necessidades educacionais, um gesto indicativo da natureza rebelde e individualista de Gibran. No entanto, a escola concordou com seu pedido, editando o material do curso ao agrado dele, que decidiu mergulhar na língua árabe bíblica, intrigado com seu estilo e escrita. 

Como estudante, Gibran deixou uma ótima impressão em seus professores e colegas, que ficaram impressionados com o seu comportamento estranho e individualista, sua autoconfiança, e seu cabelo longo, não convencional. Seu professor de árabe viu nele "um coração amoroso, mas controlado, uma alma impetuosa, uma mente rebelde, um olho zombando de tudo o que via". O ambiente rigoroso e disciplinado da escola não agradava Gibran, que violava os deveres religiosos, ignorava as aulas, e desenhava nos livros. Na escola Gibran conheceu Joseph Hawaik, e juntos criaram uma revista estudantil intitulada “Al-Manarah”, onde Gibran fazia a parte de ilustração. 

Enquanto isso, Josephine Peabody, uma jovem de 24 anos, que chamou a atenção de Gibran durante uma das exposições de Day, ainda em Boston, ficou intrigada com o jovem artista que dedicou um desenho para ela, e começou a se corresponder com Gibran no Líbano. Eles ficaram envolvidos romanticamente, através de correspondências, por muitos anos. Gibran terminou a faculdade em 1902, fluente em árabe e francês, e com um excelente currículo, especialmente em poesia. Sua relação com o pai se deteriorou, e ele foi morar com um primo pobre, situação que remexeu nas suas piores lembranças, que ele tanto detestava, e sentia vergonha. Sua segunda fase de pobreza no Líbano se agravou com a notícia da doença de sua família em Boston; cerca de duas semanas antes de voltar para Boston, sua irmã Sultanah de 14 anos, morreu de tuberculose, e no ano seguinte, Pedro e sua mãe morreram de câncer. 

Cronologia resumida da obra e trajetória artística de Gibran:

1903-1908 - De novo em Boston, Gibran escreve poemas e meditações para o 'Al-Muhajer' (O Emigrante), jornal árabe publicado em Boston. Seu estilo novo, cheio de música, imagens e símbolos, atraiu a atenção do mundo árabe, nessa época, ele desenhava e pintava numa arte mística, que lhe era própria. Uma exposição de seus primeiros quadros despertou o interesse de uma diretora de escola americana, chamada Mary Haskell, que lhe ofereceu custear seus estudos artísticos em Paris.

1908-1910 - Em Paris, ele estudou na Académie Julien, e trabalhou freneticamente, além de ter frequentado museus, exposições e bibliotecas. Conheceu Auguste Rodin. Uma de suas telas foi escolhida para a Exposição das Belas-Artes de 1910. Neste ínterim, morreu seu pai. Voltou a Boston e, no mesmo ano, mudou-se para Nova York, onde permaneceu até o fim de sua vida. Morava só, num apartamento sóbrio, que ele e seus amigos chamam de 'As-Saumaa' (O Eremitério). Mariana, sua irmã, permaneceu em Boston. Em Nova York, Gibran reuniu em torno de si, uma plêiade de escritores libaneses e sírios, que embora estabelecidos nos EUA, escreviam em árabe com idênticos anseios de renovação. O grupo formou uma academia literária que se intitulava 'Ar-Rabita Al-Kalamia' (A Liga Literária), e que muito contribuiu para o renascimento das letras árabes. Seus porta-vozes foram, sucessivamente, duas revistas árabes editadas em Nova York: 'Al-Funun' (As Artes) e 'As-Saieh' (O Errante).

1905-1920:  Gibran escreveu quase que exclusivamente em árabe, e publicou sete livros nessa língua: em 1905, “A Música”; em 1906, “As Ninfas do Vale”; em 1908, “As Almas Rebeldes”; em 1912, “Asas Partidas”; em 1914, “Uma Lágrima e um Sorriso”; em 1919, “As Procissões”; e em 1920, “Temporais”. Após sua morte, foi publicado um oitavo livro, sob o título de “Curiosidades e Belezas”, composto de artigos e histórias já publicadas em outros livros, e de algumas páginas inéditas.

1918 – 1931: Gibran, nesta época, havia parado de escrever em árabe, e dedicou-se ao inglês, no qual produziu também oito livros: em 1918, “O Louco”; em 1920, “O Precursor”; em 1923, “O Profeta”; em 1927, “Areia e Espuma”; em 1928, “Jesus, o Filho do Homem”; e em 1931, “Os Deuses da Terra”. Após sua morte, foram publicados mais dois: em 1932, “O Errante”; em 1933, “O Jardim do Profeta”. Todos os livros de Gibran foram lançados por Alfred A. Knopf, um dinâmico escritor americano, com inclinação para descobrir e lançar novos talentos. Ao mesmo tempo em que escreveu, Gibran se dedicou a desenhar e pintar. Sua arte, inspirada no mesmo idealismo que lhe inspirou os livros, distinguiu-se pela beleza e a pureza de suas formas. Todos os seus livros em inglês foram por ele ilustrados, com desenhos evocativos e místicos, de interpretação às vezes difícil, mas de profunda inspiração. Seus quadros foram expostos várias vezes, com êxito, em Boston e Nova York. Seus desenhos de personalidades históricas são também célebres.

Estilo e temas recorrentes:
Gibran era um grande admirador do poeta e escritor, Francis Marrash,  cujas obras ele tinha estudado em Al-Hikma, escola em Beirute. De acordo com o orientalista, Shmuel Moré, as próprias obras de Gibran ecoavam o estilo de Marrash, muitas de suas ideias, e às vezes, até mesmo a estrutura de algumas de suas obras. Muitos dos escritos de Gibran lidavam com o cristianismo, especialmente sobre o tema do amor espiritual. Mas o misticismo foi uma convergência de várias influências diferentes: o cristianismo, o islamismo, o sufismo, o hinduísmo e a teosofia. Ele escreveu: "Você é meu irmão, e eu te amo, eu te amo quando você prostra-se em sua mesquita, e ajoelha-se em sua igreja e reza em sua sinagoga. Você e eu somos filhos de uma só fé, o Espírito"


Recepção e influência:

A mais conhecida obra de Gibran é “O Profeta”, um livro composto por vinte e seis ensaios poéticos. Sua popularidade cresceu durante os anos 60, porém ele foi publicado pela primeira vez em 1923. O livro “O Profeta”, nunca esteve fora dos catálogos, e foi traduzido em mais de quarenta idiomas, é um dos livros mais vendidos do século XX, nos Estados Unidos. 

Concepções Religiosas:
Embora criado como um cristão maronita, Gibran, como um árabe, foi influenciado não só pela sua própria religião, mas também pelo Islã e, especialmente, pela mística dos sufis. Seu conhecimento da história sangrenta do Líbano, com suas lutas entre facções destrutivas, reforçou sua crença na unidade fundamental das religiões. 


Pensamento Político:
Gibran não era um político, e costumava dizer: "Eu não sou um político, nem desejo de se tornar um, poupe-me dos acontecimentos políticos e lutas de poder, como toda a terra é minha pátria e todos os homens são meus compatriotas". Porém, o nacionalismo viveu em sua mente, mesmo na fase tardia, lado a lado com o internacionalismo. 

A partir de 1923, Gibran desenvolveu um estreito relacionamento de correspondências com uma poetiza libanesa, chamada May Ziade. De fato as correspondências começaram por volta de 1912, quando ela lhe escreveu para falar como ela havia sido tocada pela história de Selma Karameh, no livro “The Broken Wings”.  May era uma escritora intelectual, e defensora ativa da emancipação feminina, nascida na Palestina, onde recebeu educação clássica num colégio de freiras, ela mudou-se para o Cairo, onde seu pai iniciou um jornal. Semelhante a Gibran, ela era fluente em árabe, inglês e francês, e desde 1911 ela começou a publicar seus poemas sob o pseudônimo de “Isis Copia”. Ela achou “The Broken Wings” muito liberal até para seus próprios gostos, mas a questão das mulheres movia sua vida, a paixão entre ela e Gibran era comum.

May passou a substituir Haskell, como editora nos anos seguintes, e em 1921, Gibran recebeu uma foto dela, eles se corresponderam até os últimos dias de vida de Gibran. O papel de Haskell na carreira literária de Gibran foi diminuindo lentamente, mas ela o socorreu quando ele fez alguns maus investimentos, ela sempre lidou com assuntos financeiros, e sempre esteve presente para livrar Gibran de sua péssima administração financeira.  Mesmo quando ela se mudou para o sul, para se casar com um fazendeiro, ele ainda continuou a confiar nela, inclusive sobre a pretensão de dar continuidade ao livro “O Profeta”, cuja segunda parte deveria se chamar “O Jardim do Profeta”, e a terceira parte, “A Morte do Profeta”. Devido ao seu estado de saúde, que foi começou a se deteriorar, e de sua preocupação com a escrita de seu maior livro em inglês, “Jesus, o Filho do Homem” a continuação de “O Profeta” foi colocada de lado.

Gibran contratou uma nova assistente, para substituir Haskell, chamada Henrietta Breckenridge, que desempenhou um papel importante após a sua morte. Ela organizou suas obras, ajudou a editar seus escritos, e conseguiu seu estúdio para ele. Em 1926, Gibran tornou-se uma figura de renome internacional, uma posição que era do seu agrado. Na época, ele tinha começado a trabalhar em um novo livro em inglês, “Lázaro e Sua Amada”, que foi baseado em um trabalho árabe anterior, e se tratava de uma coleção dramática de quatro poemas contando a história bíblica de Lázaro, sua busca por sua alma, e seu eventual encontro de sua alma gêmea.   

Em 1928, o livro foi lançado, e foi um sucesso, com ótimas críticas, mas a saúde de Gibran começou a se deteriorar ainda mais, e a dor em seu corpo, devido ao seu estado nervoso, aumentava, e isso levou Gibran a procurar alívio no álcool. Logo, beber em excesso, transformou-o em um alcoólatra, no auge do período de proibição de álcool nos EUA. Nesse mesmo ano, Gibran começou a perguntar sobre a compra de um mosteiro em Bsharri, que pertencia a Carmelitas cristãs. 

A saúde mental de Gibran, e seu vício no álcool, o fez desatar a chorar, durante uma noite de homenagem em 1929, onde lamentando a fraqueza de suas obras maduras, ele afirmou que havia perdido o seu poder criativo original. Nessa época, os médicos detectaram que a doença física de Gibran, havia se estendido para os fígados. Evitando o problema, e ignorando os cuidados médicos, ele continuou contando apenas com a bebedeira, e para se distrair ele escreveu “Três Deuses da Terra”, em 1930, e comentou com Haskell de sua intenção em abrir uma biblioteca em Bsharri, enquanto ainda planejava escrever a continuação de “O Profeta”. Ele escreve para May Ziade e revelou o seu medo da morte: “Eu sou, May, um pequeno vulcão, cuja abertura foi fechada"

Em 10 de abril de 1931, Gibran morreu aos 48 anos, no Hospital São Vicente, em Nova York, o câncer se espalhou em seu fígado, e deixou-o inconsciente. Antes de morrer, ele expressou o desejo de ser enterrado em Bsharri, e deixou uma grande quantia em dinheiro para que fosse enviada ao seu país, para que seus conterrâneos permanecessem no país ao invés de imigrar. 

As ruas de Nova York fizeram uma vigília de dois dias para a honra de Gibran, cuja morte foi lamentada nos EUA e no Líbano. Haskell, Mariana e Henrietta organizaram o estúdio de Gibran e suas obras, separaram livros, ilustrações, e desenhos, para realizar o sonho de Gibran. Marianna e Haskell viajaram em julho de 1931 ao Líbano, para enterrar Gibran em sua cidade natal. 

Os cidadãos do Líbano receberam o caixão com festa, em vez de luto, regozijavam-se pelo seu retorno à sua terra natal, pois a morte de Gibran aumentou sua popularidade. Após o retorno de Gibran, o Ministro libanês de Artes abriu o caixão e honrou o seu corpo, com uma decoração de Belas Artes. Enquanto isso, Marianna e Haskell começaram a negociar a compra do mosteiro carmelita que Gibran pretendia obter.  

Em janeiro de 1932, o mosteiro de Mar Sarkis foi comprado, e Gibran mudou-se para sua última morada. Após sugestão de Haskell, seus pertences, os livros que ele leu, e algumas de suas obras e ilustrações, foram posteriormente, enviados para fornecer uma coleção local no mosteiro, que se transformou em um Museu de Gibran. 


Museu Gibran: 
O antigo Mosteiro de Mar Sarkis, é um museu biográfico em Bsharri, norte do país, há 120 km de Beirute, e dedicado ao artista, escritor e filósofo libanês, Gibran Khalil Gibran. Fundado em 1935, o museu possui 440 pinturas e desenhos originais de Gibran, e guarda o seu túmulo. Também inclui os móveis e pertences de seu estúdio, quando ele morava em Nova York, e seus manuscritos privados. O prédio que abriga o museu e seu túmulo, a pedido de Gibran, tinha para ele um significado espiritual, por ter sido um mosteiro do século VII, do tempo do eremita Mar Sarkis (São Serge). Em 1975, o Comitê Nacional Gibran restaurou e ampliou o mosteiro, para abrigar mais exposições, e em 1995, foi novamente expandido.

Próximo ao túmulo de Gibran está escrito: 

"Eu estou vivo como você, e de pé ao seu lado... Feche os olhos e ao olhar ao redor me verá na sua frente". 



Claudinha Rahme 
Gazeta de Beirute


Leia Mais: http://www.gazetadebeirute.com/2013/04/ha-130-anos-nascia-gibran-khalil-gibran.html#ixzz4RtsMwkeO
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Nem-nem: cresce número de jovens que não trabalham nem estudam

Em 2015, um quarto da população brasileira de jovens fazia parte deste grupo. Total cresceu 20% em um ano.

O número de jovens de 15 a 29 anos que não estudavam nem trabalhavam em 2015 cresceu no Brasil, chegando a 22,5% da população dessa faixa etária. Nem mesmo procuravam trabalho 14,4% dessas pessoas. A proporção dos chamados “nem-nem” cresceu 2,5 pontos porcentuais em relação a 2014 (20%) e 2,8% comparativamente a 2005 (19,7%). O grupo de 18 a 24 anos apresentou o maior porcentual em 2015: 27,4%. Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais, que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga nesta sexta-feira, 2.
“É quase um quarto dos jovens, e os números mostram que o porcentual dos `nem-nem-nem’, que não estudam, não trabalham e não procuram trabalho, não varia mesmo em cenários diferentes”, aponta a analista do IBGE Luanda Botelho, referindo-se ao fato de os “nem-nem-nem” terem representado 12,8% dos jovens em 2005. “No caso dos `nem-nem’, a piora do mercado de trabalho influenciou o resultado. Quando a economia piora, os jovens são os mais afetados e os que mais demoram a se recuperar.”
Por conta da maternidade e da maior dedicação a afazeres domésticos, o porcentual de mulheres não estudantes e inativas em 2015 era quase o dobro do que o de homens: 29,8%, contra 15,4%. Em 2005, essas proporções eram 28,1% e 11,1%, respectivamente. Da população feminina de todas as faixas que não trabalhavam nem estudavam, 91,6% ocupava-se das tarefas da casa, incluindo aí os cuidados com os filhos.
Quando se comparam homens e mulheres que trabalham fora, a persistência da sobrecarga sobre elas quanto às atividades domésticas é evidenciada pelos dados do IBGE. De 2005 a 2015, o número de horas semanais que os homens gastaram com esse tipo de atividade não se alterou: ficou em dez horas. Já entre as mulheres o dispêndio de tempo é o dobro disso, e, somada à jornada de trabalho fora, a jornada total semanal feminina é em média cinco horas maior do que a masculina.
A Síntese é feita pelo IBGE desde 1998. Esta edição utilizou números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2015 e do Censo de 2010, entre outras publicações, e trouxe dados relativos a demografia, famílias, educação, trabalho, distribuição de renda e domicílios. O objetivo da síntese é traçar um perfil das condições de vida da população.
(Com Estadão Conteúdo)

Vídeo especial – O dia em que Sergio Moro desmascarou Lindbergh Faria

VEJA Bem com Felipe Moura Brasil a "clara intenção" de golpear a Lava Jato

Na TVeja:
“O colunista de VEJA Felipe Moura Brasil comenta e apresenta uma edição especial sobre a resposta do juiz federal Sergio Moro às acusações do petista Lindbergh Farias. Acompanhe!”
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sábado, 26 de novembro de 2016

Lula brinca com a sujeira, literalmente, para homenagear Fidel

Assista ao vídeo em que o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva escreve "Viva Fidel" com jatos de água em uma parede imunda.

O ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva publicou um vídeo em sua página no Facebook onde aparece escrevendo “Viva Fidel” com jatos de água em uma parede suja. O vídeo, gravado em seu sítio Los Fubangos, mostra Lula orgulhoso por sua homenagem ao ex-presidente cubano.
Em nota, ele também afirmou que a morte de Fidel Castro é como a perda de um irmão mais velho, de um “companheiro insubstituível”. “Morreu ontem o maior de todos os latino-americanos, o comandante em chefe da revolução cubana, meu amigo e companheiro Fidel Castro Ruiz”, disse ele.
Lula lembra que conheceu Fidel pessoalmente, em julho de 1980, em Manágua, durante as comemorações do primeiro aniversário da revolução sandinista. “Mantivemos, desde então, um relacionamento afetuoso e intenso, baseado na busca de caminhos para a emancipação de nossos povos”, ressaltou.
De acordo com ele, para os povos do continente e os trabalhadores dos países mais pobres, especialmente os homens e mulheres de sua geração, Fidel foi “sempre uma voz de luta e esperança”. Afirmou ainda que o espírito combativo e solidário de Fidel animou “sonhos de liberdade, soberania e igualdade”.
Segundo Lula, mesmo nos “piores momentos, quando ditaduras dominavam as principais nações, a bravura de Fidel e o exemplo da revolução cubana inspiravam os que resistiam à tirania”.
“Será eterno seu legado de dignidade e compromisso por um mundo mais justo. Hasta siempre, comandante, amigo e companheiro Fidel Castro”, concluiu Lula, que não informou se irá ao funeral do líder cubano.
http://veja.abril.com.br/brasil/lula-brinca-com-a-sujeira-literalmente-para-homenagear-fidel/

Se você quer ser feliz, saia do Facebook

Estudo mostra que, em apenas uma semana, quem deixa de usar a rede social tem níveis mais elevados de bem-estar.

EFE
A recomendação de se desconectar das redes sociais existe praticamente desde o nascimento dos smartphones. A facilidade e o imediatismo para ter acesso a qualquer momento, em qualquer lugar, permite que os usuários estejam permanentemente conectados e provocou diversas formas de vício tecnológico: do medo de ver, através da rede, como os seus amigos se divertem sem você até a nomofobia (medo de sair de casa sem o celular). Agora, um novo estudo do The Happiness Research Institute conclui que, em apenas uma semana, as pessoas que deixam de utilizar o Facebook se sentem mais felizes e menos preocupadas.
Os autores do estudo dividiram os 1.095 participantes em dois grupos. Os do primeiro não deveriam se conectar ao Facebook por sete dias; já os do grupo-controle continuaram usando a rede normalmente. Durante esse tempo, os pesquisadores mediram estados de ânimo como a felicidade, a tristeza, a preocupação, a raiva, o entusiasmo e os sentimentos de solidão e depressão.
No último dia do experimento, os cientistas perguntaram como os participantes se sentiam. E as mudanças foram evidentes: os que haviam deixado de usar a rede social admitiram estavam mais felizes e menos tristes e solitários. Além dos sentimentos positivos, perceberam um aumento em sua atividade social cara a cara e menos dificuldade de concentração. Também tiveram a sensação de que tinham desperdiçado menos tempo ao longo da semana do estudo.
Essas conclusões coincidem com as declarações de muitos especialistas de que os usuários das redes sociais só mostram em seu perfil a parte da vida que desejam que os outros vejam: as boas notícias – 61% das pessoas publicam só as coisas boas que lhe acontecem –, as fotos retocadas, o enquadramento pensado e que parece casual... Projetam uma vida irreal que faz com que metade dos usuários tenha inveja das experiências que os demais compartilham em seus perfis. E que um terço sinta inveja da aparente felicidade de seus contatos do Facebook. Segundo os especialistas do The Happiness Research Institute, as redes sociais “são como um canal que só transmite boas notícias, um fluxo constante de vidas editadas que distorcem nossa imagem da realidade”. Assim, o bem-estar dos usuários é condicionado pelo que os demais pensam e pelo número de likes que conseguem no fim do dia.
Uma das dificuldades dos pesquisadores para desenvolver o estudo foi a impossibilidade de controlar se os participantes se resistiam à tentação de entrar no Facebook. Em média, 94% dos usuários visitam seu perfil de maneira automática e rotineira. Por isso, os cientistas pediram que os participantes desinstalassem o aplicativo de seus aparelhos. Apesar dos conselhos e da apresentação voluntária ao experimento, 13% deles não conseguiram passar esse tempo sem entrar no perfil e checar as notificações.
Com respeito às limitações do estudo, os pesquisadores reconhecem que a predisposição pôde ter afetado os resultados. Os participantes eram voluntários – embora designados aos grupos de forma aleatória –, o que poderia significar que, de alguma forma, estavam interessados em deixar de usar o Facebook ou a começar a utilizá-lo por menos tempo. Os resultados podem se dever, em parte, ao efeito placebo: os participantes esperavam se sentir melhor ao se desconectarem.
Essa não é a primeira pesquisa indicando que muitos usuários seriam mais felizes se utilizassem menos as redes sociais. O estudo O Uso do Facebook Prediz uma Diminuição no Bem-Estar do Usuário, realizado em 2013 pela Universidade de Michigan, mostra que os níveis de satisfação com a vida dos participantes diminuiu ao longo da pesquisa com o uso constante do Facebook. Outro estudo, realizado em 2013 pela Universidade Humboldt e a Universidade Técnica de Darmstadt, ambas da Alemanha, concluiu que uma de cada três pessoas se sente mal e mais insatisfeita depois de visitar o Facebook. O estudo, A Inveja no Facebook: Uma Ameaça Escondida para a Satisfação do Usuário, descobriu que isso acontece porque eles sentem inveja, que desemboca em frustração, amargura e solidão.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Modesto Carvalhosa: O Berlusconi aterrissou em Brasília

A primeira lição haurida do arquicorrupto italiano é a da necessidade de desmoralização do Poder Judiciário.


Publicado no Estadão
A recente tradução para o português do célebre livro de Gianni Barbacetto, Peter Gomez e Marco Travaglio intitulado Mani Pulite – La Vera Storia, 2012 – tradução essa editada pela CDG Edições e Publicações, 887 páginas, sob o título Operação Mãos Limpas – suscitou uma grande excitação em Brasília, na aguerrida bancada Pro Corrupcione, que atua hegemonicamente no Congresso Nacional.
Aqueles autores italianos dedicam nada menos que 330 páginas a demonstrar, cronologicamente e em detalhes, as despudoradas manobras de toda espécie – incluindo mídia, leis, chantagens, desmoralização das instituições – empreendidas por Silvio Berlusconi, o vergonhoso primeiro-ministro da Itália em dois períodos entre 1997 e 2011, que levaram à total destruição dos benefícios da Operação Mãos Limpas, do início dos anos 2000. A Itália em 2012 ocupava a 69.ª posição entre os países mais corruptos do mundo, atrás de Gana.
Nada melhor, portanto, do que aprender com o execrável Berlusconi os métodos e os meios de destruir a Lava Jato.
Como toda a população brasileira sabe, o Congresso Nacional está dividido em dois blocos. O primeiro, o grupo dos deputados que formam a combativa Frente Parlamentar Anticorrupção, presidida pelo deputado Antonio Carlos Mendes Thame e da qual participam os deputados Onyx Lorenzoni, Joaquim Passarinho e dezenas de outros abnegados. No lado oposto, o sinistro bloco Pro Corrupcione, liderado pelo presidente do Senado, pelo líder do governo no Congresso (“é preciso estancar a sangria”) e pelo líder do governo na Câmara dos Deputados, tendo como braço seguro, no Poder Executivo, o ministro da Transparência.
A primeira lição haurida do arquicorrupto Berlusconi é a da necessidade de desmoralização do Poder Judiciário.
Entre nós, tomou essa empreitada o condestável da República, Renan Calheiros. Reuniu ele, para anunciar a missão destruidora da reputação institucional do Judiciário, nada menos que o presidente da República, o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), o futuro presidente do Congresso Nacional, etc. E ali anunciou que vai revelar, para toda a população brasileira, os supersalários dos juízes, promotores públicos, desembargadores e ministros dos tribunais superiores.
Essa medida berlusconiana, segundo ele, desmobilizará o povo, que ficará desiludido com a Lava Jato. Estará, em consequência, aberta a porta para a pôr em pauta, em regime de urgência, o famigerado Projeto 360, de Abuso de Poder, que responsabiliza pessoalmente os juízes por suas sentenças, se nelas ousarem condenar os corruptos, ou então prendê-los, ou deles homologar qualquer delação. Nessa intimidação legalizada estará incluída também a Polícia Federal, que fica de mãos atadas na sua atividade investigatória, interrogatória, de condução e de custódia.
Ademais, o grupo de trabalho Pro Corrupcione atribuiu ao lídimo líder do governo na Câmara, o deputado André Moura, mais conhecido como André Cunha Moura, por ser o principal esteio do antigo presidente daquela Casa, a missão de pôr em regime de urgência um substitutivo ao Projeto n.º 3.636, de 2015, que altera a Lei Anticorrupção. Esse sórdido substitutivo institui, a favor das empreiteiras corruptas, acordos de leniência de fachada – os famosos sham programs –, conhecidos da literatura criminal e antitruste no mundo todo. Esse sham compliance é descrito em minúcias no Guia de Programas de Compliance do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), item 3.1.2.
E mais. Por meio dessa encenação de compliance de fachada, não apenas as empreiteiras corruptas poderão voltar a contratar com o poder público federal, estadual e municipal como também os seus controladores, diretores e funcionários terão seus processos e condenações promovidos pela Lava Jato automaticamente extintos.
Para que se “aperfeiçoe” melhor esse simulacro de acordo com as empreiteiras corruptas estarão afastados da sua celebração o Ministério Público e o Tribunal de Contas, a quem cabe declarar a inidoneidade dessas empresas por irregularidade nos contratos de obras.
Essa missão do grupo Pro Corrupcione, visando a extinguir todos os efeitos dos processos levados avante pela Lava Jato, conta com a decidida contribuição do Ministério da Transparência, onde serão “celebrados” os acordos de compliance de fachada. O líder do governo André Moura declarou que tem o apoio do titular daquele ministério. Questionado pela imprensa, o ministro Torquato Jardim respondeu que a única providência que deve ser tomada é – pasmem – mudar a denominação “acordo de leniência” por um nome mais elegante, mais fino, menos chocante para as empreiteiras hipocritamente arrependidas e que agora voltam ao convívio do governo, com leis que garantem, para sempre, a corrupção.
Tudo isso em nome da moralidade pública. Um verdadeiro massacre, tal e qual ocorreu na Itália do nefasto Berlusconi. Ali o Judiciário foi humilhado, com todo o tipo de manobra, inclusive o desaforamento dos processos que corriam em Milão, para outras comarcas mais complacentes com os negócios de Berlusconi et caterva. A prescrição dos crimes de corrupção foi diminuída pela metade, as empresas corruptas puderam “regularizar” os seus balanços, sem revelar o montante de propinas que, durante décadas, pagaram aos políticos e partidos, e assim por diante.
Na Itália, legalizaram a corrupção por obra e graça do senhor Berlusconi e seus asseclas na Câmara e no Senado. No Brasil, inspirados no exemplo edificante daquele país, desejam os nossos políticos corruptos não só se eximir de sua responsabilidade criminal, mas também “reerguer” as empreiteiras corruptas, sob o pretexto de manutenção de empregos – tal como proclamava a ex-presidente Dilma – para, assim, dar continuidade ao festival eterno de corrupção nas obras públicas, sem cujo oxigênio não podem os políticos viver e muito menos sobreviver.