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segunda-feira, 29 de junho de 2009

Brasil pior


Collor é o mesmo do século passado. O Brasil é que mudou para pior

Por AUGUSTO NUNES

Quase 20 anos depois de instalar no Palácio do Planalto um Fernando Collor de mentira, quase 17 depois de livrar-se do Fernando Collor de verdade, o país vai engolindo sem engasgos o único chefe de governo expelido por um impeachment. Os brasileiros que votaram em 1989 no candidato a presidente fantasiado de caçador de marajás podem alegar não sabiam o que estavam fazendo. Os alagoanos que votaram no candidato a senador em 2008 e o querem de volta ao governo do Estado em 2010 sabem perfeitamente o que fazem. Quem gosta da ideia de reprisar o pesadelo é um caso clínico. Quem assiste passivamente ao seu recomeço merece experimentá-lo de novo.

No restante do mundo, a História se repete como farsa. Num Brasil que se sente mais feliz de cócoras e prefere o avesso das coisas, a farsa se repete como farsa e a História faz de conta que é outra história. O modelo Senador é o modelo Presidente com o teto pintado de preto. Um Collor é um Collor, informaram o tom arrogante e o conteúdo afrontoso do discurso de estréia no Senado. Um Collor nunca muda em sua essência, reafirmaram neste junho anotações mais recentes no livro de ocorrências da Casa da Dinda.

Ali foram localizadas, no século passado, provas materiais de algumas das incontáveis delinquências promovidas por Paulo César Farias com o aval do chefe. Por exemplo, o Fiat Elba que PC incorporou à frota presidencial depois de adquiri-lo com um cheque de uma conta-fantasma ─ expediente reprisado pelo tesoureiro do reino para bancar a repaginação dos jardins de babilônia sertaneja. E ali foram encontradas, agora, evidências de que um Collor só muda de idade.

O senador financiou a montagem do esquema de segurança da Casa da Dinda com a a verba indenizatória de R$ 15 mil, destinada exclusivamente a atividades parlamentares. E é esse dinheiro que vem garantindo a comida dos empregados da propriedade particular que o patrão só frequenta nos fins de semana. E daí?, deu de ombros o sessentão reincidente. Se depois do muito que fez na Presidência foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal, não há por que se preocupar com o que anda fazendo. É o que todo mundo no Senado faz.

No discurso em que posou de vítima de uma trama política indecorosa, o pecador sem remorsos disse que as coisas tomariam outro rumo se tivesse sido mais generoso com aliados e inimigos. Em 1992, sacos de bondade talvez fossem insuficientes para evitar o impeachment. Ainda existia oposição, o PT atirava antes e perguntava depois, valores permanentes não haviam sido revogados. Hoje, Collor certamente escaparia do castigo se soubesse trocar favores. Não é difícil fazer negócio com a turma da base alugada. Nem com as messalinas com himen complacente que se disfarçaram de vestais até o escândalo do mensalão.

Derrubado em 1945, Getúlio Vargas foi eleito, meses depois, senador por dois Estados e deputado federal por sete. Apareceu quatro ou cinco vezes no Congresso, constatou que seria alvejado por ataques diários e, sem ter subido à tribuna, retirou-se para São Borja. Collor reapareceu no Senado com cara de coroinha injuriado e acusou o Congresso de golpista. Ganhou de presente a presidência da comissão incumbida de monitorar o PAC, virou destaque do cortejo governista e hoje é sócio remido do clube dos amigos do cara. Convidado pelo inimigo que qualificava de “analfabeto”, visitou no Palácio do Planalto o presidente que o qualificava de “safado” quando líder do PT. Trocaram apertos de mão, sorrisos, afagos e elogios.

Os políticos brasileiros já não enxergam diferenças entre o convívio dos contrários e a promiscuidade malandra. Não distinguem a crítica áspera do insulto imperdoável, ou o ataque que fere da infâmia que exige a ruptura. Só quem perdeu a vergonha consegue achar na meia idade amigos de infância que nunca viu. Só quem demitiu o sentimento da honra celebra alianças tão indecorosas quanto acasalamentos em clubes de swing.

Collor continua o mesmo. O que mudou para pior foi a paisagem política. O Brasil, cada vez mais, lembra uma grande Casa da Dinda.

sábado, 27 de junho de 2009

HABEAS-PINHO

Um achado, copiei do blog da Mariazita

HABEAS-PINHO

Em 1955, em Campina Grande, na Paraíba, um grupo de boémios fazia serenata numa madrugada do mês de Junho,



quando chegou a polícia e apreendeu o violão.

Decepcionado, o grupo recorreu aos serviços do advogado Ronaldo Cunha Lima, então recentemente saído da Faculdade, e que também apreciava uma boa seresta.

Ele peticionou em Juízo para que fosse liberado o violão.
Aquele pedido ficou conhecido como "Habeas-Pinho" e enfeita as paredes de escritórios de muitos advogados e bares de praias no Nordeste.

Mais tarde, Ronaldo Cunha Lima foi eleito Deputado Estadual, Prefeito de Campina Grande, Senador da República, Governador do Estado e Deputado Federal.

Eis a famosa petição HABEAS-PINHO

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca:

O instrumento do crime que se arrola
Neste processo de contravenção
Não é faca, revólver nem pistola,
É simplesmente, doutor, um violão.

Um violão, doutor, que na verdade,
Não matou nem feriu um cidadão,
Feriu, sim, a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade,
Ao crime ele nunca se mistura,
Inexiste entre eles afinidade.

O violão é próprio dos cantores,
Dos menestréis de alma enternecida
Que cantam as mágoas e que povoam a vida
Sufocando suas próprias dores.

O violão é música e é canção,
É sentimento de vida e alegria,
É pureza e néctar que extasia,
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório,
Porém seu destino se perpetua,
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório.

Mande soltá-lo pelo Amor da noite,
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno açoite
De suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão, Dr. Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito,
É crime, porventura, o infeliz
cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, e, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
perambular na rua um desgraçado
derramando ali as suas dores?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento,
Juntando esta petição aos autos nós pedimos
e pedimos também DEFERIMENTO.
Ronaldo Cunha Lima, advogado.




O juiz Arthur Moura, sem perder o ponto, deu a sentença no mesmo tom:

"Para que eu não carregue remorso no coração,
Determino que seja entregue ao seu dono,
Desde logo, o malfadado violão! “

Recebo a Petição escrita em verso
E, despachando-a sem autuação,
Verbero o ato vil, rude e perverso,
Que prende, no cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,
Nos confins de um arquivo em sombra imerso
È desumana e vil destruição
De tudo, que há de belo no universo.

Que seja Sol, ainda que a desoras,
E volte à rua, em vida transviada
Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de lua, plena madrugada,
Venha tocar à porta do Juiz.


quarta-feira, 24 de junho de 2009

SIMONAL - A BRUXA DA CAÇA COMUNISTA(II)

Um comentário e um texto de Claudio Manoel, do Casseta & Planeta, diretor do filme sobre Simonal

quarta-feira, 24 de junho de 2009 | 5:21

Claudio Manoel, do Casseta & Planeta, produtor e um dos diretores do filme Simonal - Ninguém Sabe O Duro que Dei, enviou-me ontem um comentário, informando que havia postado em seu blog um dos artigos que escrevi a respeito dos textos publicados por Mário Magalhães naFolha de domingo. Em sua página, há uma contestação técnica da tese “Simonal-enquanto-informante” e uma observação de natureza lógica. Acompanhem:

(…)
Também perguntei ao “jornalista”, já que ele estava tão interessado nos aspectos jurídicos do caso, se ele não tinha lido o arrazoado do Juiz ao proferir a sentença que condenou Simonal. Em sua argumentação final, o ilustre meritíssimo alega que não tem como julgar os agentes do DOPS, já que estávamos vivendo um estado de exceção e, por isso, não era da competência dele avaliar atos que poderiam ser de “segurança nacional”, mas Wilson Simonal, que era civil, não tinha esse tipo de “cobertura”, portanto pena de 5 anos e 4 meses pra ele.

Essa questão não seria um pouco mais intrigante para um jornalista? Se Simonal pertencesse, de fato, a algum mecanismo de repressão em plena “Era Médici”, porque ele não teve nenhuma proteção ? Seu caso foi o único processo que envolveu agentes do DOPS, tortura, prisão ilegal, que saiu em toda mídia da época. No período de censura mais dura, Simonal apanhou sem ser socorrido. Para um cara que era “amigo dos hômi” ele não foi uma presa fácil demais”.

Clique aqui para ler a íntegra do texto.

Ah, sim: Claudio me conta que apanhou um pouco por ter publicado um artigo meu no seu blog. Imagino: “Como pode? Ele é tão reacionário!”.

Pois é, Claudio. Eu ainda acabo deixando de lado a defesa dessa tal democracia representativa, auge do meu reacionarismo, e vou justificar o massacre de oposicionistas no Irã. Aí ficarei ao lado de progressistas como Lula, Chávez e Hu Jintao. Ou então sairei dizendo por aí que “Sarney não é um homem comum”. Quem sabe a esquerda passe a me achar um cara bacana…

Sabe o que essa gente não suporta? Que eu possa aqui chacoalhar meu limoeiro sem lhes pedir licença.

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Por Reinaldo Azevedo

terça-feira, 23 de junho de 2009

segunda-feira, 22 de junho de 2009

CREDO POLÍTICO

RUI BARBOSA

Meu País conhece o meu credo político, porque o meu credo político está na minha vida inteira. Creio na liberdade onipotente, criadora das nações robustas; creio na lei, emanação dela, o seu órgão capital, a primeira das suas necessidades; creio que, neste regímen, não há poderes soberanos, e soberano é só o direito, interpretado pelos tribunais; creio que a própria soberania popular necessita de limites, e que esses limites vêm a ser as suas Constituições, por ela mesma criadas, nas suas horas de inspiração jurídica, em garantia contra os seus impulsos de paixão desordenada; creio que a República decai, porque se deixou estragar confiando-se ao regímen da força; creio que a Federação perecerá, se continuar a não saber acatar e elevar a justiça; porque da justiça nasce a confiança, da confiança a tranqüilidade, da tranqüilidade o trabalho, do trabalho a produção, da produção o crédito, do crédito a opulência, da opulência a respeitabilidade, a duração, o vigor; creio no governo do povo pelo povo; creio, porém, que o governo do povo pelo povo tem a base da sua legitimidade na cultura da inteligência nacional pelo desenvolvimento nacional do ensino, para o qual as maiores liberalidades do tesouro constituíram sempre o mais reprodutivo emprego da riqueza pública; creio na tribuna sem fúrias e na imprensa sem restrições, porque creio no poder da razão e da verdade; creio na moderação e na tolerância, no progresso e na tradição, no respeito e na disciplina, na impotência fatal dos incompetentes e no valor insuprível das capacidades.

Rejeito as doutrinas de arbítrio; abomino as ditaduras de todo o gênero, militares ou científicas, coroadas ou populares; detesto os estados de sítio, as suspensões de garantias, as razões de Estado, as leis de salvação pública; odeio as combinações hipócritas do absolutismo dissimulado sob as formas democráticas e republicanas; oponho-me aos governos de seita, aos governos de facção, aos governos de ignorância; e, quando esta se traduz pela abolição geral das grandes instituições docentes, isto é, pela hostilidade radical à inteligência do País nos focos mais altos da sua cultura, a estúpida selvageria dessa fórmula administrativa impressiona-me como o bramir de um oceano de barbaria ameaçando as fronteiras de nossa nacionalidade.

"Resposta a César Zama". Discurso no Senado Federal em 13 de outubro de 1896.

domingo, 21 de junho de 2009

COMUM ou INCOMUM?


Lula adverte: não pode ser tratado como uma pessoa comum o ex-presidente que chamou de ladrão

AUGUSTO NUNES

Eleito em 1986 com a maior votação da história, o Lula deputado vivia avisando que não havia esperança de salvação para os brasileiros que existiam além das fronteiras do PT. Quem não estava filiado ao partido que detinha o monopólio da ética era inimigo do povo, quem não votava na seita era cúmplice de bandidos disfarçados de pais da pátria. Se o Brasil fosse sério, rugia o Lula oposicionista, todos estariam na cadeia.

Na ala atulhada de picaretas (”uns 300″, havia calculado Lula pouco depois do desembarque no Congresso), uma cela hospedaria o presidente José Sarney. “Ademar de Barros e Paulo Maluf poderiam ser ladrão, mas eles eram trombadinha perto do grande ladrão que é o governante da Nova República, perto dos assaltos que faz”, berrou em setembro de 1987, num improviso em Aracaju, o palanqueiro impiedoso tanto com adversários políticos quanto com regras gramaticais.

O exterminador dos plurais continua em ação, mas a guerra movida contra tudo que se movesse fora do PT acabou no dia da posse. O Lula do Planalto decretou que o céu companheiro teria vagas para todos os interessados, até para os grandes satãs que provocavam sucessivos acessos de cólera no Lula do ABC. Não há inimigos tão inimigos que não possam tornar-se amigos, repetia Getúlio Vargas quando instado a explicar alguma aliança implausível. Lula acha que é isso aí, informa a multidão dos recentíssimos amigos de infância.

O senador José Sarney, que frequenta há quase sete anos o Clube dos Íntimos do Cara, é sempre recebido com afagos e reverências que deixariam indignado o Lula de Aracaju. No comício de 1987, “o impostor que chegou à Presidência depois de assaltar o poder” foi acusado de inventar canteiros de obras para ampliar a fortuna da família. “A ferrovia Norte-Sul só serve para isso”, exemplificou o Lula do século passado. Seria desmentido pelo Lula do terceiro milênio. “Este projeto é importantíssimo para o desenvolvimento regional”, corrigiu na discurseira que festejou, no começo do ano passado, a exumação da linha de trem sepultada por falta de verbas.

“Sei que, no início das obras, você foi alvo de inúmeras críticas”, lembrou o presidente Lula com a placidez de quem não ouviu o que disse o deputado Lula. Sarney retribuiu a manifestação de afeto com o sorriso dos amnésicos profissionais. A troca de gentilezas, celebraram os caciques da base alugada, era outra evidência de que o Brasil ficou menos primitivo: já não há antagonistas irreconciliáveis. Bobagem: o país continua primitivo. Mas ficou mais cafajeste. Quando se perde a vergonha, nenhuma afronta é imperdoável.

Os códigos que regulamentam a fraternidade mafiosa prevalecem sobre normas legais e mandamentos éticas, reiteraram as comentários sobre a crise do Senado feitos por Lula durante a escala no Cazaquistão. O pastor que socorre sem pudores qualquer meliante do rebanho atacou o “denuncismo” da imprensa e inocentou o esquartejado de Aracaju. “Sarney tem história suficiente para que não seja tratado como uma pessoa comum”, deliberou o magistrado acidental. Em 1987, sem exibir nenhuma prova, ele chamou de ladrão o chefe de governo. Neste inverno, alheio ao colosso de provas, absolveu de todas as culpas presidente do Senado.

Lula e Sarney são bons companheiros desde 2003. Nesta semana, viraram comparsas.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Direto ao Ponto


Lula nem faz idéia de quem foi JK

Por Augusto Nunes

O presidente Juscelino Kubitschek foi o que o brasileiro gostaria de ser. O presidente Lula é o que a maioria dos brasileiros é. Incapaz de folhear biografias, sem paciência nem disposição para estudar a História do Brasil, Lula não faz idéia de quem foi o antecessor. Mas gosta de comparar-se a JK. Primeiro, apresentou-o como exemplo a seguir. Não demorou a descobrir-se, como reiterou no fim de semana, bem superior ao modelo (e infinitamente melhor que todos os outros).

Sedutor, inventivo, culto, cosmopolita, generoso, amante do convívio dos contrários, Juscelino não gostaria de ser comparado a um chefe de governo falastrão, gabola, provinciano, que odeia leituras, inclemente com adversários, a quem culpa por tudo, e misericordioso com bandidos de estimação, a quem tudo perdoa. Ambos nasceram em famílias pobres, ultrapassaram as fronteiras impostas ao gueto dos humildes e alcançaram o coração do poder. Esse traço comum abre a diminuta lista de semelhanças, completada pela simpatia pessoal, pelo riso fácil e pela paixão por viagens aéreas. Bem mais extensa é a relação das diferenças, todas profundas, algumas abissais.

O pernambucano de Garanhuns é essencialmente um político: só pensa nas próximas eleições. O mineiro de Diamantina foi um genuíno estadista: pensava nas próximas gerações. Lula ama ser presidente, mas viveria em êxtase se pudesse ser dispensado de administrar o país. Bom de conversa e ruim de serviço, detesta reuniões de trabalho ou audiências com ministros das áreas técnicas e escapa sempre que pode do tedioso expediente no Palácio do Planalto. JK amava exercer a Presidência, administrava o país com volúpia e paixão ─ e a chama dos visionários lhe incendiava o olhar ao contemplar canteiros de obras que Lula visita para palavrórios eleitoreiros. Lula só trata com prazer de política. JK tratava também de política com prazer.

O país primitivo dos anos 50 pareceu moderno já no dia da posse de JK. Cinco anos depois, ficara mesmo. O otimista incontrolável inventou Brasília, rasgou estradas onde nem trilhas havia, implantou a indústria automobilística, antecipou o futuro. Cometeu erros evidentes. Compôs parcerias condenáveis, fechou os olhos à cupidez das empreiteiras, não enxergou o dragão inflacionário. Mas o conjunto da obra é amplamente favorável. Com JK, o Brasil viveu a Era da Esperança.

O país moderno deste começo de milênio pareceu primitivo no momento em que Lula ganhou a eleição. Seis anos e meio depois, ficou mesmo. As grandezas prometidas em 2002 seguem estacionadas no PAC. As estradas federais estão em frangalhos. A educação se encontra em estado pré-falimentar. O sistema de saúde é lastimável. A roubalheira federal atingiu dimensões amazônicas. Mas Lula está bem no retrato, reiteram os institutos de pesquisa.

Talvez esteja. Primeiro, porque milhões de brasileiros inscritos no Bolsa-Família são gratos ao gerente do programa que os reduziu a dependentes da esmola federal. Depois, e sobretudo, porque o advento da Era da Mediocridade tornou o país mais jeca, mais brega, muito menos exigente, muito menos altivo.

Nos anos 50, o governo e a oposição eram conduzidos pelos melhores e mais brilhantes. O povo que sabia sonhar sabia também escolher melhor. Mereceu um presidente como JK. No Brasil de Lula, mandam os medíocres. O grande rebanho dos conformados tem o pastor que merece.

O NOSSO CHANCE

AIATOLÁ LULA, O NOSSO CHANCE


muito-alem-do-jardim

O mais espantoso na fala do Apedeuta sobre o Irã é que ele se mostra mais, como direi?, conservador do que o próprio Ali Khamenei, o aiatolá que manda no país. O chefão mandou apurar as acusações de irregularidade. Duvido que resulte em alguma coisa. Para quem ainda não entendeu, o Irã é uma ditadura — com características peculiares, como são todos os regimes de força. Já o aiatolá Lula acredita que a gritaria não passa de choradeira de perdedor — como num confronto, disse, entre Flamengo e Vasco.

É claro que há na comparação a idiotia típica do companheiro. Lula só fala em futebol. Suas metáforas vêm sempre do campo e passam como sabedoria para aquele bando de puxa-sacos que o cerca. Como já escrevi aqui, a exemplo da personagem Chance, do filme Muito Além do Jardim (inspirado no romance O Vidiota, de Jerzy Kosinski), Lula vê qualquer coisa pelo ângulo da sua especialidade — ou quase: o futebol.

Se você não viu, leitor, tem de assistir ao filme, dirigido por Hal Ashby. Ou ler o livro. Chance (Peter Sellers) é jardineiro e passa seus dias entre as plantas e a televisão. É analfabeto. Aprendeu o pouco que sabe de ouvido. Um dia seu patrão morre, e ele é posto na rua. É atropelado por Benjamin Rand (Melvyn Douglas), um ricaço. Quando volta a si e perguntam o seu nome, responde “Chance, o jardineiro”. Confundem o “gardener” com “Gardner” — haveria um tal Chance Gardner, homem muito sábio, chegado a tiradas filosóficas. E ele é, então, levado a conhecer o círculo de amigos de Rand — incluindo a mulher do empresário, Eve (Shirley MacLaine), que se apaixona pelo suposto Chance Gardner sem saber que se trata de “Chance, gardener”.

O filme é bom, mas o livro é mais divertido. A fita, se bem me lembro, omite ou é muito discreta nas cenas em que mais de uma pessoa tenta fazer sexo com Chance. O “gardener”, coitado, não sabe como reagir. Os seus vasos e canteiros não tinham aquelas coisas… Chance encanta os poderosos. Chega a conhecer o presidente dos EUA. É cotado para sucedê-lo porque, dizem, é preciso alguém com o seu “perfil”, acima das divergências, na política americana.

E qual é o segredo de Chance? Falar de plantas o tempo todo. Se alguém lhe pergunta como enfrentar o perigo soviético, ele manda ver (estou dando exemplos apenas possíveis; meu livro está aqui em algum lugar…): “Num jardim, as ervas daninhas têm de ser contidas antes que tomem conta de todo o canteiro”. E os presentes se espantam: “Ohhh, isso quer dizer que…” E como fazer para enfrentar aqueles que são hostis ao próprio país? “Devemos cultivar plantas de diferentes espécies porque, num jardim, a graça está na variedade”. E os ouvintes: “Ah, entendi…” E Chance vira uma referência naquele círculo de amigos. Ele percebe que dar aquelas respostas faz sucesso. Até que…

Bem, aí vejam o filme ou leiam o livro.

Dona Laila
Lembram-se de Dona Laila, a minha professora de português do ginásio, já exaltada aqui? Pois é. O Vidiota foi publicado no Brasil, pela primeira vez, em 1971. Ela me deu o livro de presente em 1972 — leitura paralela, que não estava ligada à disciplina. Eu estava na 5ª série; tinha 11 anos. Durante muitos anos, não conhecia mais ninguém que o tivesse lido. Só ficou relativamente famoso com o filme, em 1979. Não escrevo isso para exaltar a minha precocidade. Isso é besteira. Há tanta coisa neste mundo que eu já deveria ter lido e que ainda não li… Quem, de fato, via longe, era Laila. Hoje em dia, os livros para crianças de 11 anos costumam ser versões infantis da luta de classes ou aconselhamento politicamente correto para formar pequenos idiotas.

Sem querer, Laila me blindou precocemente contra os Chances que eu iria encontrar vida afora. Na ficção, vocês verão o que aconteceu com ele. Na realidade brasileira, Chance virou presidente da República.

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Por Reinaldo Azevedo

domingo, 14 de junho de 2009

A nova censura

Por Guilherme fiúza

Desde Getúlio Vargas não se via coisa igual ao blog da Petrobras. Deve ser uma homenagem ao criador da estatal.

A censura na ditadura de 64 era mais tosca. Mordaça na imprensa e na cultura, e ponto final. Péssimo do mesmo jeito, mas claramente um ato brutal – que do jeito que foi instituído, foi removido.

O Departamento de Imprensa e Propaganda de Vargas era mais sutil – e mais grave. Tratava-se de uma política de controle das formas de expressão, ou seja, a gestação de uma “cultura” da censura.

É exatamente isto o que está se vendo no governo popular, que tem nítida dificuldade em lidar com o princípio da liberdade. O presidente de esquerda passou seu primeiro mandato inteiro sem dar entrevistas, aconselhado por assessores paranóicos que enxergam golpe em cada manchete da imprensa burguesa.

Todos devem se lembrar da desastrada tentativa de Lula de expulsar do país o correspondente estrangeiro que escreveu sobre seus hábitos alcoólicos.

O Blog Big Brother da Petrobras é a maior excrescência desses 30 anos de retomada da liberdade de expressão. As mentes engenhosas do lulismo criaram um monstro moderno – a difusão da informação como forma de inibi-la.

Publicar em tempo real as conversas de funcionários da estatal com jornalistas é uma espécie de auto-arapongagem. Um aviltamento do trabalho de apuração jornalística, um rolo compressor sobre a sensibilidade e o discernimento de cada repórter, jogando toda informação numa vala comum de espionagem branca.

O pior de tudo é a tentativa de apresentar esse BBB da comunicação de massa como “democratização da informação”. Os amantes da censura nunca foram tão cínicos.

O recuo da Petrobras, ao anunciar que só vai pôr no ar a sua auto-arapongagem à meia-noite, é uma emenda que confirma a estupidez do soneto. A espionagem branca continua, adiando um pouco a entrega da muamba intelectual.

O governo popular tem horror à liberdade do conhecimento. Deve ser a democracia não contabilizada.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

"Olha o rapa"

Alguém gritou “olha o rapa!” na porta do prédio da Petrobras

9 de junho de 2009
Augusto Nunes

Entre as obsessões do grande Nelson Rodrigues figurava a reação provocada nas ruas e praças do Rio pelo grito de alerta: ”Olha o rapa!”. Era a senha que anunciava a chegada da polícia incumbida de reprimir o comércio clandestino, mas a sensação de perigo se estendia muito além dos camelôs. Antes que terminassem a desmontagem das barracas e a coleta das bugigangas, feitas em ritmo vertiginoso, já haviam saído em desabalada carreira os fregueses, os transeuntes, os desocupados, os pedintes, os moradores da vizinhança e quem mais estivesse por perto. Todo brasileiro se sente culpado, alguma já fez, deliciava-se Nelson Rodrigues.

Alguém berrou “olha o rapa!” na porta do prédio da Petrobras, sugere a correria causada pela criação da CPI concebida para vasculhar os negócios da estatal. Ficaram pálidos de espanto os diretores da estatal, os fregueses, o homem do cafezinho e a estagiária. Ficaram transidos de horror o presidente da República, ministros de Estado, senadores e deputados da base alugada, o porteiro do Palácio do Planalto, o jornaleiro do Congresso, até um bando de oposicionistas.

Sérgio Gabrielli, presidente da empresa, desandou numa discurseira sem pé nem cabeça e criou um blog para substituir a imprensa inimiga. O ministro Edison Lobão, considerado pelos leitores da coluna o ministro mais convincente no papel de socialista radical, não para de acenar a bandeirinha do Brasil e murmurar que o petróleo é nosso. Lula rebaixou a inimigos da pátria os que insistem em saber se a Petrobras andou delinquindo. Por que tanto falatório? Por que tamanha correria? Por que o medo coletivo?

Muito simples: aí tem

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Um tiro certeiro

Dora Kramer

A Petrobrás não dava um tiro tão certeiro no próprio peito desde que alguém teve a ideia de mudar o nome da empresa para PetroBrax, no governo Fernando Henrique Cardoso.

Lá, a intenção era internacionalizar, tirar a marca bras, de Brasil, de uma empresa global. A mudança, cuja qualificação mais amena recebida foi a de imbecilidade, sobreviveu dois dias entre o anúncio e o cancelamento do projeto.

Aqui, a justificativa para a criação do blog da estatal é fazer frente aos ditames da transparência por meio de modernos instrumentos interativos de comunicação. Já sobrevive há vários dias, tempo suficiente para fazer história no quesito boçalidade.

Em tese, o blog surgiu para a Petrobrás se antecipar às questões que poderiam vir a aparecer na CPI do Senado, responder às dúvidas da imprensa, manter o máximo de informações possíveis à disposição do público na internet e até para se defender de acusações.

Na prática, logo se revelou uma ferramenta a serviço de uma trincheira na luta sem quartel nem respeito a normas civilizadas contra a imprensa tida como inimiga. Embora devesse se resguardar da atuação política, atuando dentro dos princípios da sobriedade adequada a uma estrutura daquele porte, a direção da empresa optou por se desnudar em praça pública.

Pretendia anular a motivação para a existência da CPI e acabou dando razões de sobra a uma investigação acurada sobre os critérios éticos adotados na condução da administração da empresa. Sendo a ética um valor absoluto, quando não é adotada num caso específico, dificilmente é aplicada de um modo geral.

Recapitulando: a Petrobrás passou a usar o blog para divulgar, e comentar, as perguntas enviadas às empresas pelos veículos de comunicação antes de respondê-las aos interessados. Isso significa apropriação de informações pertencentes a outrem, quebra da relação de confiança e exposição das pautas em andamento, muitas vezes exclusivas.

Em duas palavras, falência ética. O procedimento não é ilegal, argumenta a empresa. Mas é altamente imoral. Algo muito semelhante ao ocorrido com os parlamentares que abusavam das passagens aéreas pagas pelo Congresso argumentando a ausência de proibição do abuso em lei.

Em matéria de tentativa (desastrada) de intimidação não se via nada igual desde que o presidente Luiz Inácio da Silva, de cima dos altíssimos saltos na eleição recente, mandou cancelar a renovação do visto do então correspondente do New York Times, Larry Rother, por causa de uma reportagem sobre os hábitos presidenciais.

Lá, as consequências caíram sobre a cabeça de sua excelência ao revelarem sua personalidade autoritária.

Aqui, os efeitos negativos recairão sobre os ombros da Petrobrás, cuja direção fez mais em termos de lesa-reputação da empresa, que qualquer investigação da CPI poderia fazer.

Revelou a vocação antiética da direção, angariou antipatias e incentivou os jornais, revistas e emissoras a não mais consultarem a área de comunicação da empresa para checar informações, dada a inexistência de segurança em relação ao indispensável sigilo quando a notícia é exclusiva ou carece de sustentação.

Portanto, aumenta-se a margem de erro ao mesmo tempo em que se reduz o espaço da Petrobrás na oitiva do outro lado.

Além disso, fica a estatal obrigada a responder a todo e qualquer questionamento, mesmo os que não queira, sob pena de desmentir a alegação de transparência.

Perde também o direito de reclamar de eventuais vazamentos de informações, da mesma forma como não pode mais pedir embargo na divulgação de coisa alguma, trato comum quando há algo importante a ser comunicado coletivamente, a partir de determinada hora ou data.

Fica estabelecido que na relação com a imprensa Petrobrás se dá por excluída da proteção constitucional ao sigilo da fonte, pois rompeu unilateralmente esse compromisso. Finalmente, no tocante à CPI, fica garantida a abertura da caixa-preta com todas as informações sigilosas sobre os negócios da empresa.

Tudo aberto, sem restrições, em nome da transparência.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

SIMONAL - A BRUXA DA CAÇA COMUNISTA



por Ipojuca Pontes
“Atrevo-me a dizer que as ditaduras de esquerda são piores, pois contra as de direita pode-se lutar de peito aberto: quem o fizer contra as esquerdas acaba acusado de reacionário, vendido, traidor” – Jorge Amado, Prêmio Stalin da Paz

Porque tive de conviver durante algum tempo, por razões profissionais, com Carlos Imperial e sua “Turma da Pilantragem”, conheci de perto Wilson Simonal, pupilo bem-sucedido e, à época, o maior e melhor “entertainer” do nosso showbizz. Por isso, e ainda por ter testemunhado boa parte do massacre infligido ao cantor pela esquerda etílica, fui ver o documentário “Simonal – Ninguém sabe o duro que dei”, realizado por Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal (Brasil, 2008).

Embora o documentário faça abordagem incompleta de episódio dos mais degradantes da vida artística nacional, ainda não devidamente explicado ao cidadão comum, “Simonal” parece ser o mais convincente produto da chamada “era da retomada” no cinema – era cujos filmes, em sua generalidade, têm por objetivo falsear a realidade histórica e manipular o inconsciente coletivo segundo preceitos da mixórdia gramsciana, que vê a produção artística como instrumento de transformação política da sociedade, a formatar um novo “senso comum” para a consolidação do socialismo pela trilha da “revolução passiva”. Haja lavagem cerebral!

Vamos por partes (como diria Jack, o Estripador, ao esquartejar mais uma de suas vítimas). O Simonal que conheci nos bastidores do showbizz, na transição dos anos 1960 para 1970, era um tipo refinado de pilantra, ostensivo no tripudiar a “plebe ignara”, quase um deboche público na sua afetação de artista popular que se sabia ídolo. Com efeito, Simonal cortejava certo tipo de presunção imatura que beirava o pernóstico, resquício, quem sabe, de mal-disfarçada insegurança, provavelmente assimilada nos desvãos de uma infância pobre, preta e suburbana.

Mas, curiosamente, no palco, ao vivo - ou em preto-e-branco, na televisão -, ocorria fenômeno invulgar: o “entertainer”, senhor de ouvido absoluto e dotes vocais infinitos, fazia do caráter deformado – bem ao modo de um Macunaíma - elemento de atração irrecorrível, seduzindo a audiência, que babava com o seu swing, a sua picardia e a divisão rítmica perfeita do fraseado musical, num prodígio de comunicação só comparável, no plano internacional, ao de um Dean Martin ou Sammy Davis Jr.

Ademais, convém ressaltar que a atmosfera do Brasil daquela época ajudava o cantor: à margem da quizília política, o país era de fato próspero e feliz, tal como o canto do próprio Simonal. Sua população, ainda não dominada pela violência generalizada e a corrupção desenfreada da Era Lula, lotava estádios, auditórios e casas de show para ver e aplaudir de perto o mais contagiante interprete da moderna música popular brasileira (MPB).

Em tais ocasiões, entoando canções descontraídas, sacolejadas por um balanço melódico carregado no recheio de “champignon com caviar” (dizia), o cantor negro levava a platéia ao delírio. Para lembrar aqui imagem cara ao psicólogo Carl Jung, o homem do Inconsciente Coletivo, Simonal ajudava a construir no país eufórico de então, a almejada junção entre o dionisíaco e o apolíneo – isto é, a erigir as bases de uma sociedade exemplar abaixo da linha do equador.

O auge da glória veio quando o artista lançou “País Tropical”, composição de Jorge Ben (hoje, Benjor), um sucesso estrondoso, sambalanço que entoava com pitadas de ufanismo o privilégio de se nascer brasileiro, sem precisar abrir mão da própria – e radiante – brasilidade. Curiosamente, foi a partir deste êxito que Simonal começou a ser devorado, em especial pelos pares sem igual talento, os invejosos e, o pior, a ralé moral comprometida com “a causa revolucionária”.

A primeira parte do documentário, que adota parcialmente a técnica do cinema investigativo, bem estruturada e melhor ainda desenvolvida, trata da ascensão e glória do cantor no meio musical, a partir de depoimentos esclarecedores de personalidades como Chico Anísio, Miele, Pelé, Tony Tornado, Castrinho, Nelson Motta, Simoninha e, entre outras tantas, a critica teatral Bárbara Heliodora, ex-patroa da mãe de Simonal.

Ao acompanhar a trajetória do cantor, de forma elíptica, mas consistente, o espectador toma conhecimento de instantes chaves de sua vida, tais como, por exemplo, o aprendizado nas fileiras do Exército, onde se fez cabo datilógrafo (imagens reproduzidas do filme “É Simonal”, de Domingos de Oliveira, produção de César Tedim); sua integração à “turma da pilantragem”; as primeiras aparições em clubes de subúrbio; as gravações de discos bem-sucedidos; o grande êxito televisivo em programa pessoal (“Show em Si... monal”, na Record), etc., tudo a culminar no dueto com a impecável Sarah Vaughan, numa interpretação primorosa de “Shadow of you smile” - razão pela qual ficamos sabendo porque Simonal era, de fato, um “entertainer” de nível internacional.

A segunda parte do filme – que adota tom ambíguo e despreza aspectos essenciais no enfoque do desencadear da caça a bruxa - diz respeito ao levantamento do massacre moral que levou Simonal ao ostracismo e à morte. Nela, cruzam-se manchetes e recortes de jornais sobre o seqüestro do contador da Simonal Produções, Raphael Viviani – o ponto reversivo do filme. Em torno do fato, seguem-se os depoimentos (evasivos, insensíveis) de Sérgio Cabral (pai), Ziraldo e Jaguar, os inquisidores do “Pasquim”, tablóide da esquerda (festiva) cevada em distorções ideológicas, fofocas, sexo, álcool, samba e rock na roll.

De fato, deu-se o seguinte: em 1971, o cantor descobriu um grande rombo nas contas da sua empresa e, na prerrogativa da justa causa, demitiu o contador que considerava responsável pelo desfalque. Este, por sua vez, negando o ilícito, entrou na justiça do trabalho, pedindo grossa indenização. Dias depois, dois policiais (um deles segurança de Simonal nas horas de folga) foram à casa de Viviani e o conduziram até uma agência do Dops. Aos sopapos, o contador confessou o desfalque.

Mas, no outro dia, a mulher do contador foi à polícia e denunciou o cantor por seqüestro e coação. Como o interrogatório ocorreu nas dependências do Dops, o caso ganhou as manchetes dos jornais e os “companheiros” militantes na imprensa, que odiavam Simonal por considerá-lo um “crioulo besta”, defensor do “Brasil Grande”, transformaram o que seria um caso policial num fato político.

A turma do “Pasquim”, por sua vez, composta por esquerdistas que industrializavam a intolerância ideológica, sem prova alguma, passou a tratar o cantor como informante da repressão (numa das capas do tablóide, aparecia o “dedo-duro” de Simonal). O hemofílico Henfil, cartunista do jornal, na secção conhecida como “cemitério dos mortos-vivos”, dava o artista como “enterrado”, ao lado de Roberto Carlos, Elis Regina (então, de “direita”), Bibi Ferreira, Marília Pêra (então - e também na Era Collor - tida como de “direita”), Roberto Carlos, Pelé, Clarice Lispector, Gilberto Freyre, Rachel de Queiroz e Nelson Rodrigues - todos considerados “simpatizantes da ditadura militar”.

No filme, os depoimentos da patota do “Pasquim” trescalam a cloaca moral. Ziraldo, o “Menino Maluquinho por Dinheiro”, querendo minimizar a sacanagem cometida, justifica-se dizendo que Simonal “queria ser o Rei da Cocada Preta” e que “ninguém (à época) tinha isenção de ânimos” – claro, uma mentira deslavada. Já Sérgio Cabral, cara de vampiro bem remunerado, confessa sem pudor que o jornaleco tinha por princípio esculhambar as pessoas que eles achavam que estavam ao lado dos militares. E o alcoólatra Jaguar, ar mefistofélico, entre risadinhas de hiena, dá a entender que o contador, afinal, podia ter mesmo roubado o cantor.

Nenhum deles manifesta a menor comoção pelo fato de terem ajudado a levar o artista à ruína, embora mais tarde, num leito de hospital, à beira da morte por cirrose hepática, Simonal apresentasse documento da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (governo Collor) que o isentava de ter sido informante do Dops.

Lá para as tantas, no documentário, aparece o ex-todo-poderoso Boni, antigo executivo da TV Globo, que abre o jogo e revela: “Simonal nunca foi julgado e vaiado pelo público, mas pela própria classe dele e pelos veículos de comunicação”. (E, naturalmente, por ele também, Boni, tendo em vista que, como diretor da poderosa emissora aliada da “ditabranda”, tinha força suficiente para fazer escalar o cantor nos programas musicais da casa. Como Pilatos, lavou as mãos).

Simonal, conforme se sabe, nunca foi “dedo-duro” (ninguém nunca apareceu para comprovar a acusação), mas, coitado, não tinha status intelectual e político (ou moral, se me permitem) para enfrentar de peito aberto a canalha vermelha, naquela altura já amplamente infiltrada nas redações dos jornais e nos púlpitos das igrejas, nas cátedras das universidades e nos palcos teatrais e telas, nos salões da grã-finagem (vide Nelson Rodrigues) e nos desvãos da urbe e do campo, onde, com o dinheiro roubado aos bancos e os sangrentos manuais de guerrilha do “Che” e Fidel à mão, tramavam com afinco o hoje “Estado Forte” da apodrecida Era Lula, esta, sim, repleta de alcagüetes, traidores, ladrões, bandidos e mentirosos contumazes. (A favor de Simonal, resta o fato de que nem mesmo o general Golbery, o “Gênio da Raça” e mentor dos militares no poder, conseguiu divisar com quem estava lidando e, na sua visão caolha, no que viria dar a imatura “abertura ampla, gradual e irrestrita”).

Pela falta de clareza política, o documentário, ainda em cartaz, não resiste a um exame crítico apurado. O tratamento ambíguo que perpassa todo o seu desenrolar não resulta no caminho mais indicado para se extrair a verdade dos fatos expostos, perpassados de interrogações – e por isso o filme perde em consistência ética e documental, visto que ao cabo da exibição, não se sabe com clareza a quem cabe a real responsabilidade pela ruína do cantor. Todos os depoentes saem pela tangente, atribuindo a culpa às “dificuldades da época”, uma abstração que não se pode punir. Por conseqüência, o espectador interessado na compreensão do caso fica no ora-veja. Talvez por conveniência, impossibilidade ou qualquer motivo ignorado, o filme isenta-se de levantar um sumário de responsabilização do massacre e adota a postura próxima a de um especialista que, dissecado o cadáver, se abstém de concluir o laudo pericial. Para citar Galileu Galileu, uma vítima consciente, “Diante da verdade, quem se contenta com a meia verdade, colabora com a mentira”.

Certo, a busca da verdade é coisa difícil, árida, trabalhosa e muitas vezes só se chega a ela quando se vence todos os temores. Queira-se ou não, a caça ao cantor Wilson Simonal, antes de ser uma questão de intolerância racial, foi um ato de terror político, nutrido, discutido e tramado no seio do entourage comunista, sedimentado na cartilha revolucionária que recomenda esmagar o que lhe aparecer como adverso, mesmo que o adverso seja, como no caso de Simonal, um inocente. E quem conhece a teoria e prática comunista, para além da pregação utópica, sabe bem da capacidade destrutiva do monstro.

De todo modo, do jeito que está, “Simonal – Ninguém sabe o duro que dei” é uma celebração ao melhor e mais livre interprete da nossa moderna música popular, que permite a platéia o (re)encontro de instantes preciosos marcados pela real alegria – coletiva e individual - de cantar e viver.

Antes tarde do que nunca.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O fazendeiro do ar

Pois é meus amigos, pra ser líder desse governo tem que ter currículo...,
Leiam...,

O fazendeiro do ar escapou


Por Augusto Nunes
Jucá está onde sempre esteve: a favor de quem governa

Jucá está onde sempre esteve: a favor do governo

Transferido do Senado para a Esplanada dos Ministérios no começo de 2005, Romero Jucá caprichou na primeira aparição como ministro da Previdência do governo Lula. Horas antes, apresentara ao presidente da República o conjunto de medidas concebidas para fechar de vez o rombo da Previdência Social. Lula gostou do que ouviu e cumprimentou Jucá por tamanha rapidez no gatilho. Foi um companheiro entusiasmado com o endosso do chefe que emergiu diante da platéia de jornalistas.

“Em dois anos, o déficit já sofrerá uma redução de 40%”, avisou, para em seguida formular a promessa audaciosa: ”Vamos fechar o cerco a todos que têm contas a ajustar”, recitou o pernambucano do Recife transformado em filho adotivo de Roraima pelo eleitorado. “Mas desta vez a ofensiva começará pelos grandes devedores”. Excelente idéia, teria aplaudido o Brasil se Romero Jucá Filho não fosse, além de ministro, o sócio mais antigo do clube dos devedores do Banco da Amazônia, o Basa.

Quem deve tem de pagar ou provar que a cobrança é improcedente, certo? Antes disso, nenhum devedor pode assumir o papel de cobrador, certo? Alheio a essas obviedades, Jucá convocou uma segunda entrevista coletiva para comemorar a fantasiosa redução de R$1 bilhão no rombo da Previdência. A festa acabou antes de começar: os jornalistas estavam muito mais interessados nas zonas de sombras que envolviam, e continuam envolvendo, um empréstimo concedido pelo Basa, em 1996, a uma empresa chamada Frangonorte.

Adquirida por Jucá em parceria com o amigo Getúlio Cruz, ex-governador de Roraima, a Frangonorte já estava em decomposição financeira quando conseguiu que a direção do Basa a presenteasse com R$ 3,152 milhões (mais de R$ 10 milhões em valores atuais). Segundo o banco, a transação só se consumou porque o senador Jucá ofereceu garantias consideradas satisfatórias. Entre elas estavam sete fazendas pertencentes ao candidato a avicultor.

Apenas a assinatura no documento pertence a Jucá, soube-se logo. Os latifúndios na selva só existiam na imaginação do fazendeiro do ar. Assustado com as dimensões da tunga, o Basa recorreu à Justiça para abrandar o prejuízo com os bens da Frangonorte. “Não havia um único frango vivo”, espantou-se um dos fiscais. Jucá já esvaziara a sala de diretor para salvar o que tem de verdade. Na entrevista em 2005, convidado a explicar-se, o enganador repreendeu o enganado: o banco deveria ter conferido o que estava no papel com mais cuidado, ensinou.

Jucá só ficou quatro meses no cargo a que chegou por indicação do presidente do Senado, Renan Calheiros. Lula gostou da folha corrida do amigo do amigo. Nascido em 1954, Jucá começou a servir a pátria em 1986, quando se tornou presidente da FUNAI no governo José Sarney. Promovido dois anos mais tarde a governador de Roraima, ajudou o território a virar o Estado que o ajudou a virar cacique. Entendeu-se bem com o presidente Fernando Collor, com o presidente Itamar Franco e com o presidente Fernando Henrique. Em 1994, no segundo ano como senador, tornou-se líder da bancada do governo. Reeleito em 2002, hoje é líder da bancada do governo. Mudaram os governantes, Jucá não mudou: ele sempre está a favor de quem governa. E se entende muito bem com Lula.

“Nunca pedi nada, só a modernização do aeroporto de Roraima”, deu de fantasiar Jucá neste maio, amuado com a degola na Infraero que deixou desempregados um irmão e uma cunhada. Deve ter esquecido o que pediu (e nunca pagou) em 1996. As ações judiciais dormiram até julho do ano passado, quando o procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, denunciou Jucá ao Supremo Tribunal Federal por crimes contra o sistema financeiro.

O processo nem começou. Em 3 de dezembro, por solicitação do Ministério Público Federal, o ministro Cezar Peluso arquivou “inquérito (Inq. 2.221) contra o Senador Romero Jucá (PMDB-RR) acusado de fraude envolvendo a empresa Frangonorte, em razão da prescrição do crime”. Livre da ameaça de pagar a conta do calote e dormir na cadeia de 2 a 6 anos, Jucá festejou o Natal e o reveillon em paz. O Banco da Amazônia não verá a cor do dinheiro. Simples assim.