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domingo, 30 de setembro de 2012

Cotas, cotas, cotas...,


O drama de estudantes – e famílias – afetados pelas cotas

Reserva de vagas a alunos da rede pública não afeta só a vida de beneficiados: altera também planos e sonhos de jovens – ricos e pobres – que disputam um lugar nas universidades federais, mas estudam em escolas privadas

Nathalia Goulart e Lecticia Maggi
Bruna Carolina Rocco - nova lei das cotas
Bruna Carolina Rocco - nova lei das cotas (Eladio Machado)
A família de Monique Silveira, de 15 anos, tem uma renda mensal de 3.000 reais. Graças a uma bolsa de estudos, a jovem cursa o 1º ano do ensino médio em uma escola privada no município de Formiga (MG), onde vive a família. Luciana, mãe de Monique, sempre viu a bolsa como uma chance de a filha escapar da má formação oferecida pelas escolas públicas locais e, assim, chegar a uma universidade federal. Desde o dia 29 de agosto, porém, o otimismo da família cedeu lugar à incerteza. Com a entrada em vigor da lei das cotas, que assegura metade das vagas de federais a egressos de escolas públicas, Monique viu os obstáculos rumo à universidade dobrarem. Como aluna de escola privada, ela só terá direito a disputar a metade das vagas restantes. "Não procurei uma escola particular para minha filha por desfrutar de uma vida confortável: foi a má qualidade da rede pública que me obrigou a buscar uma alternativa", diz Luciana. "Agora, Monique está sendo punida por isso."
A lei das cotas traz em si uma decisão temerária: estabelece que 120.000 das 240.000 vagas mantidas nas federais não serão mais ocupadas segundo o mérito acadêmico dos candidatos. Em sua face mais evidente, pretende beneficiar alunos que, sem o benefício, dificilmente chegariam às federais devido à má qualidade do ensino básico que recebem na rede pública – que, a cada ano, forma 7,1 milhões de jovens. Em sua face menos evidente, a lei toca a vida de outros milhares de estudantes e de suas famílias: alguns deles estão retratados nesta reportagem. A exemplo de Monique e Luciana, eles investiram dinheiro e forças num projeto de educação a longo prazo e agora veem o planejamento desmoronar com a nova regra. Entre esses brasileiros, há famílias de classe A, cujos filhos poderão eventualmente seguir para universidades privadas. Mas também há famílias de parcos recursos que usam tudo o que têm para manter os filhos em uma escola privada, numa tentativa de escapar do desastre do ensino público, além de pais e mães cujos rebentos conquistaram bolsas de estudos em unidades particulares, caso de Monique. Esses não terão o benefício da lei. Ao contrário.
Desde o início da vida escolar dos filhos, Suvi Alves controla o rendimento familiar de 5.000 reais para garantir a manutenção de Giovanna, de 18 anos, e Gabriel, de 16, em instituições privadas em São Paulo. Encontrou uma escola do tamanho do seu bolso: mensalidades de 400 reais para cada estudante. "Abri mão de viver com um certo conforto para que meus filhos pudessem estudar em uma escola melhor", diz Suvi. Giovanna sonha com uma vaga na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A novidade das cotas, porém, tornou tudo mais difícil aos olhos dela. Neste ano, das 121 vagas oferecidas no vestibular, 15 estarão reservadas a candidatos oriundos de escolas públicas. Se ela não entrar desta vez e tentar nova chance no futuro, enfrentará concorrência ainda maior. Em 2016, por exemplo, 60 lugares estarão reservados aos estudantes de unidades públicas, e a concorrência para alunos como Giovana aumentará muito. "Essa situação me deixa apreensiva, para dizer o mínimo", diz. Continue a ler a reportagem

Mais estudantes e famílias afetados pelas cotas

1 de 3

Família Seabra

Lucas e a mãe, Vivian: investimento alto em educação de qualidade e frustração (Ivan Pacheco)
Investir na educação dos filhos sempre foi prioridade para a funcionária pública Vivian Seabra, de 48 anos, e ela não poupou esforços nesse projeto. Colocou os gêmeos Lucas e Felipe, ambos de 20 anos, em um conceituado colégio de São Paulo. Em valores atuais, os doze anos do ensino básico saem por cerca de 250.000 reais por aluno. Lucas, disputa pela terceira vez uma vaga no curso de medicina. Ele já chegou a ser aprovado em uma faculdade particular, mas recusou-se a ingressar na instituição porque preferiu realizar novo vestibular para a faculdade federal, sinônimo de qualidade. A chegada da lei de cotas deixou o jovem revoltado. "Empenhei anos da minha formação estudando duro. A lei desequilibra a competição", diz. Vivian conta que toda a família tem acompanhado os esforços do garoto – e sofrido com ele. "Com esse novo sistema, parece que todo o sacrifício que fizemos não será reconhecido."

Apesar do revés imposto pelas cotas, Suvi diz que não se arrepende da decisão de manter os filhos na rede privada. Se tivesse de começar de novo, escolheria a mesma opção, pagando o mesmo preço. Rejeita, assim, a tese do governo de que as cotas trariam como subproduto a migração de parte dos alunos da rede privada para a pública, em busca do benefício. Uma vez na rede pública, segue o raciocínio do governo, as famílias dos estudantes recém-chegados pressionariam pela melhoria do sistema. É uma ideia a ser verificada. Mas já há especialistas a duvidar.
"O ensino médio público está falido, é uma fábrica de abandono. É questionável se famílias com condições de pagar por uma escola particular confiariam no sucesso dessa transferência", diz Maria Helena Guimarães, especialista em educação e ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). "E ainda que houvesse tal migração de alunos, isso não provocaria um incremento expressivo da qualidade da educação: afinal, esses estudantes fariam a mudança motivados apenas pelo benefício da lei."
Já se sabe o efeito das cotas sobre o ensino superior: colocar alunos da rede pública nas federais. A lei, contudo, nada faz para aprimorar o ciclo médio, de onde saem os alunos que irão para aquelas universidades. Indicadores que constatam tal fragilidade não faltam. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), por exemplo, divulgado recentemente, apontou que a nota média dos alunos do nível médio da rede pública brasileira é de 3,4 pontos; entre os estudantes das unidades privadas que participaram da avaliação, a nota foi 5,7. Não está claro o que as cotas podem fazer para desfazer essa situação.

sábado, 29 de setembro de 2012

A Solidão Amiga


A solidão amiga

A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, "parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis". A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: "Como se comporta a Sua Solidão?" Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você." Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim: "Por muito tempo achei que a ausência é falta./ E lastimava, ignorante, a falta./ Hoje não a lastimo./ Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim./ E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,/ que rio e danço e invento exclamações alegres,/ porque a ausência, essa ausência assimilada,/ ninguém a rouba mais de mim.!"

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que "o inferno é o outro." Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

"Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz - ela me fala com ternura e felicidade!

Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas.

Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

Ali as palavras e os tempos/poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar."

E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, "certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa - garrafa, prato, facão - era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (...) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia."

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: "As obras de arte são de uma solidão infinita." É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

"...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília..."

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão...

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.
* Rubem Alves

O Silêncio é de ouro

‘O silêncio é de ouro’, por J.R. Guzzo

PUBLICADO NA EDIÇÃO DA REVISTA EXAME DESTA QUINZENA
J.R. GUZZO
O deputado federal Romário de Souza Faria, do Rio de Janeiro, destacou-se nos seus tempos de jogador profissional de futebol por ser um craque e por duas características pessoais. A primeira é que tinha o hábito de pensar. A segunda é que costumava dizer exatamente o que pensava. Entre o muito que disse, uma de suas melhores frases ficou gravada até hoje: “O Pelé calado é um poeta”. Foi a sua maneira de recordar um velho e sábio ditado: ” O silêncio é de ouro”. As palavras do deputado poderiam ser perfeitamente aplicadas, hoje, à presidente Dilma Rousseff. Em diversas ocasiões, ela achou melhor não falar nada em relação a assuntos delicados ─ não chegou a ser, nesses casos, uma poeta, mas mostrou-se certamente uma boa chefe de Estado.
Nunca disse uma palavra, por exemplo, sobre a hostilidade contra a imprensa livre que o PT, guiado pelo ex-presidente Lula, faz questão de ficar exibindo em público o tempo todo. Seu silêncio, aí, tem o peso de 1 tonelada ─ informa ao comitê central do partido, ao manter a boca fechada, que ela está fora dessa e que é melhor não contarem com seu apoio na cruzada pelo “controle social” da mídia. Tem guardado, também, um silêncio de carmelita sobre o julgamento do mensalão. O recado, no fundo, é o mesmo: não esperem que eu convoque as “forças populares” para pressionar o STF nem queiram que eu tente salvar o couro de ninguém.
Quando a presidente resolve falar, porém, muita gente logo lembra a frase de Romário em relação a Pelé. Dilma, em muitos desses momentos, continua não sendo uma poeta ─ e deixa de ser uma boa chefe de Estado. Ainda recentemente, por exemplo, teve a ideia de vir com um documento oficial ─ uma nota da Presidência da República ─ para repreender um artigo do ex-presidente Fernando Henrique em O Estado de S. Paulo no qual ele refletia sobre a herança horrorosa que Lula deixou para o atual governo. Para que isso? A nota até foi educada, mas Dilma perdeu, aí, uma bela oportunidade de acrescentar uma terceira medalha de ouro à sua coleção. Sua função é presidir o Brasil, e não ficar respondendo a artigos de jornal ─ afinal de contas, Fernando Henrique pode ser um ex-presidente muito benquisto, mas, tecnicamente, é hoje um mero cidadão comum. Além disso, não escreveu nada de mais; deu apenas algumas opiniões, sem ofender ninguém. Se Dilma ficar aborrecida com esse tipo de coisa, vai passar o resto de seu governo escrevendo notas de protesto.
A maior chance recente que perdeu de ficar calada, porém, apareceu na presente campanha eleitoral. Dilma, no programa obrigatório de propaganda na televisão, e investida de toda a majestade de seu cargo, disse que há nos cofres do governo federal muita verba destinada a São Paulo ─ e que, se o candidato do PT à prefeitura ganhar, tais recursos serão entregues ao município. Como assim? De duas, uma: ou esse dinheiro não existe, e aí a presidente mentiu; ou existe, e aí ela tem a obrigação de entregá-lo já, pois pertence à população de São Paulo, e não a seu patrimônio pessoal. Segurar recursos públicos devidos a um município, sobretudo à sua população mais pobre, e ameaçar os eleitores de só soltar a verba se votarem em quem ela quer, é provavelmente contra a lei e certamente contra a decência comum. Estaria a presidente dizendo que há dois tipos de pessoa no Brasil ─ as que votam no PT e são bem tratadas por seu governo e as que votam contra e tornam-se cidadãos de segunda classe?
Dilma nunca se lembra de que quase 44 milhões de brasileiros não votaram nela na eleição presidencial, a única em que foi candidata. Seria bom que lembrasse de vez em quando, pois essas pessoas não podem ser desintegradas e sumir no espaço; continuam sendo cidadãos do Brasil, pagam impostos e têm exatamente os mesmos direitos dos outros 56 milhões que lhe deram seus votos. A presidente pode não gostar disso, mas tem pouco a ganhar deixando tão claro que não gosta. É só recordar as virtudes do silêncio.

Rede de Escândalos

Acompanhe – e relembre – os grandes escândalos de corrupção do país, com seus principais personagens e desdobramentos.

Leiam aqui:
http://veja.abril.com.br/infograficos/rede-escandalos/rede-escandalos.shtml

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Até quando vão continuar mentindo?

À mentira contada por Haddad, eu oponho a verdade. E com provas! Lula dizia que bolsas eram “esmolas” e deixavam o pobre vagabundo, sem vontade de “plantar macaxeira”
Fernando Haddad, o candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, tentou demonstrar ontem seu lado, vamos dizer assim, viril. No absurdo ato em que alunos beneficiados por um programa federal foram reunidos numa universidade privada, beneficiária desse programa (ver post), o homem resolveu falar. Com que energia! Transcrevo abaixo um trecho de reportagem do Estadão Online. Volto em seguida para dar uma aulinha rápida ao professor Haddad.
(…)
O candidato petista também endureceu em relação ao PSDB e à oposição. Atacou os críticos do “bolsa-esmola” e disse que Lula promoveu uma revolução na educação. “Essa revolução não seria feita por um doutor conservador, tinha de ser feita por um operário”, afirmou. Ao chamar a oposição de “xarope” por “torcer para que as coisas deem erradas”, o petista alfinetou o senador tucano Aécio Neves (MG). “Se o Aécio quer ser presidente, estuda um pouquinho. Lê um livro por semana. Dá uma lidinha em Copacabana.”
À plateia formada por bolsistas do ProUni, o candidato fez uma ligação entre o programa e sua passagem como chefe de gabinete da Secretaria de Finanças da gestão Marta Suplicy. Haddad disse que o embrião do ProUni seria um programa de desconto no ISS em troca de bolsas universitárias, mas a ideia não vingou.
Voltei
Por que Haddad atacou Aécio Neves num ato em favor de sua candidatura à Prefeitura de São Paulo? Não tenho a menor ideia! Pelo que entendi, para ser presidente, é preciso ler um livro por semana. Numa entrevista célebre, Lula confessou que, se livro fosse veneno, desse mal ele não morreria. Dormiu, confessou, com um romance de Chico Buarque nas mãos. Tá… Nesse caso, não foi culpa dele. É melhor do que Stilnox. Adiante.
Haddad conta uma mentira quando diz que a oposição chamou o Bolsa Família de “bolsa esmola”. Até porque os programas de bolsas foram criados por FHC. Quem chamava os programas de bolsa de “esmola” era Lula. O candidato do PT não pode provar o que diz. Eu posso. Vejam o vídeo. Lula se refere ao Bolsa Família em dois momentos: em 2009 e em 2000.
Lula achava que programas de bolsa deixavam os beneficiários vagabundos porque não iriam querer “plantar macaxeira”. Haddad não pode provar o que diz, eu posso, como evidencia este discurso que o Apedeuta fez em 9 de abril de 2003, em companhia de Ciro Gomes, no agreste nordestino. Leiam (em vermelho).
Eu, um dia desses, Ciro [Gomes, ministro da Integração Nacional], estava em Cabedelo, na Paraíba, e tinha um encontro com os trabalhadores rurais, Manoel Serra [presidente da Contag - Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura], e um deles falava assim para mim: “Lula, sabe o que está acontecendo aqui, na nossa região? O povo está acostumado a receber muita coisa de favor. Antigamente, quando chovia, o povo logo corria para plantar o seu feijão, o seu milho, a sua macaxeira, porque ele sabia que ia colher, alguns meses depois. E, agora, tem gente que já não quer mais isso porque fica esperando o ‘vale-isso’, o ‘vale-aquilo’, as coisas que o Governo criou para dar para as pessoas.” Acho que isso não contribui com as reformas estruturais que o Brasil precisa ter para que as pessoas possam viver condignamente, às custas do seu trabalho. Eu sempre disse que não há nada mais digno para um homem e para uma mulher do que levantar de manhã, trabalhar e, no final do mês ou no final da colheita, poder comer às custas do seu trabalho, às custas daquilo que produziu, às custas daquilo que plantou. Isso é o que dá dignidade. Isso é o que faz as pessoas andarem de cabeça erguida. Isso é o que faz as pessoas aprenderem a escolher melhor quem é seu candidato a vereador, a prefeito, a deputado, a senador, a governador, a presidente da República. Isso é o que motiva as pessoas a quererem aprender um pouco mais.
Como o Fome Zero deu com os burros n’água, o Babalorixá de Banânica editou, no dia 20 de outubro de 2003, uma medida provisória e surrupiou todos os programas de FHC e os juntou no Bolsa Família. Haddad não pode provar o que diz. Eu posso. Segue o texto da lei.
(…) programa de que trata o caput tem por finalidade a unificação dos procedimentos de gestão e execução das ações de transferência de renda do Governo Federal, especialmente as do Programa Nacional de Renda Mínima vinculado à Educação - “Bolsa Escola”, instituído pela Lei n.° 10.219, de 11 de abril de 2001, do Programa Nacional de Acesso à Alimentação - PNAA, criado pela Lei n.° 10.689, de 13 de junho de 2003, do Programa Nacional de Renda Mínima vinculado à Saúde – “Bolsa Alimentação”, instituído pela medida provisória n.° 2.206-1, de 6 de setembro de 2001, do Programa Auxílio-Gás,instituído pelo Decreto n.° 4.102, de 24 de janeiro de 2002, e do Cadastramento Único do Governo Federal, instituído pelo Decreto n.° 3.877, de 24 de julho de 2001.
Encerro
Eu desminto Haddad. Mas ele não tem como negar o que escrevo. Se tem, quero ver.
Texto publicado originalmente às 5h25
Por Reinaldo Azevedo

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Nova Classe Média...,


‘Sorria, aqui é tudo alegria’

*CARLOS BRICKMANN
Se o caro leitor não puder almoçar seu arroz com feijão, salada, bife e sobremesa, resolva o problema com uma folha de alface, duas ervilhas e um grão de milho. Pode não ser satisfatório, mas o caro leitor não deixou de almoçar. Se o caro leitor ganha muito pouco e está abaixo da linha da pobreza, resolva o problema com as estatísticas do Governo Federal: de acordo com a Secretaria de Assuntos Estratégicos da presidente Dilma Rousseff, quem ganha mais de R$ 291 mensais integra a classe média. Assim foi possível fazer com que 35 milhões de brasileiros se alçassem à classe média nos dez anos de Governo petista.
É simples assim: uma pessoa não precisa ganhar mais de dez reais por dia para entrar na classe média. Um casal que ganhe, em conjunto, R$ 582 mensais será também de classe média.
Pronto: no Brasil, só é pobre quem quer.
Mas há limites para ser de classe média. Quem ganhar a partir de R$ 1.019,10 por mês será de classe alta. A história de achar que classe alta é coisa para Eike Batista está errada: neste país em que se plantando tudo dá (especialmente notícias), até professor, mesmo ganhando o que ganha, pertence à classe alta. O pessoal que tem recursos para comprar deputado mensaleiro, dar carona de jatinho a quem toma decisões sobre concorrências, fotografar a esposa usando sapatos de sola vermelha, esse nem chega a ter classificação. Político corrupto, dos que trocam apoios por Ministérios, está tão alto que a verdade se restabelece sozinha: este não tem classe, nem categoria.
A classe média (de verdade) paga a conta.




Desespero total, pânico..., quem deve, treme!

Senador petista ataca STF e reclama de “ministros nomeados por nosso governo que votam contra”. Ele ainda não entendeu o que é uma República
Os irmãos Viana, do Acre, o Tião e o Jorge, foram hábeis em cultivar a fama de petistas modernos, moderados, diferenciados, essas coisas. Não por acaso, faz parte de seu grupo no estado a ex-senadora Marina Silva, que hoje se dedica à “nova política”, seja lá o que isso significa — novo ingrediente da floresta para creme antirrugas? Talvez. Mas, evidentemente, os irmãos Viana têm a sua natureza, não é.
Quando VEJA trouxe à luz as conversas que Marcos Valério anda tendo por aí, segundo as quais Lula era o verdadeiro chefe do mensalão, Jorge decidiu protestar. Ontem, voltou à tribuna para afirmar que “setores da mídia” — sempre ela!!! — usam o julgamento no STF para “sabotar o PT”.
Huuummm… Jorge decidiu ensinar a imprensa a fazer o seu ofício. Leiam:
“Cobrar, exigir dos que ocupam cargos públicos, eu acho que é uma das funções mais nobres da imprensa. E isso é feito diariamente. Mas daí a querer conduzir a opinião pública, a explicitar, na véspera de uma eleição, uma intolerância com uma figura como a do presidente Lula, aí isso é sabotagem”.
A que ele está se referindo? Certamente à reportagem da VEJA da semana passada. Os petistas acham que tanto o STF como a imprensa não podem exercer seu ofício em ano eleitoral caso eles achem que isso prejudica o seu partido. Assim, a melhor maneira que o STF teria de servir à democracia seria servindo ao PT, não julgando. E a melhor maneira que a imprensa teria de servir à democracia seria servindo ao PT, não noticiando.
No momento mais revelador da sua fala, afirmou:“Só não vale nossos governos indicarem ministros do Supremo, e eles chegarem lá e votarem contra por pressão da imprensa”.
Não é fabuloso?
Não foi a Presidência da República que indicou ministros, aprovados pelo Senado. Nada disso! Foi “o nosso (deles) governo”. E, como ele deixa claro, os petistas os nomearam para que votassem “a favor”. Como qualquer totalitário vulgar, Jorge não acredita que um ministro possa estar sinceramente convencido de seu voto. 
Ele reclamou ainda do “endeusamento dos ministros do Supremo” e os acusou de querer virar políticos. Jorge Viana, como a gente vê, segue sendo monoteísta. Afinal, pode haver um único Deus: Lula!
Fico tão feliz de jamais ter caído na conversa de gente como esse senador… Sempre me pareceu do tipo que finge largueza de espírito para que possa ser tacanho sem temer por sua reputação. Eis aí!
Texto publicado originalmente às 5h55
Por Reinaldo Azevedo

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Fracasso articulado


O Estado de S.Paulo
Vai se desfazendo rapidamente a imagem que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva construiu de si mesmo no poder, e que parecia indestrutível. As dificuldades eleitorais que os candidatos por ele impostos ao seu partido enfrentam em várias capitais são uma demonstração de que, menos de dois anos depois de deixar o poder com índice inédito de popularidade, pouca valia tem seu apoio. A isso se soma a substituição gradual, por sua sucessora Dilma Rousseff - também produto de sua escolha pessoal -, de práticas e políticas que marcaram seu governo. Concretamente, o fracasso da gestão Lula está explícito no abandono, paralisia, atraso e dificuldades de execução de seus principais planos, anunciados como a marca de seu governo. Eles vão, de fato, moldando a marca de seu governo - a do fracasso.
Trata-se - como mostrou reportagem do jornal Valor (24/9) - de um fracasso exemplar, articulado, minucioso, que quase nada deixa de positivo dos grandes projetos de Lula na região em que nasceu e onde ele e sua sucessora obtiveram suas mais estrondosas vitórias eleitorais - o Nordeste. As deficiências desses projetos eram conhecidas. O que a reportagem acrescenta é que, frutos do apetite político-eleitoral do ex-presidente e da sistemática incompetência gerencial de seu governo, essas deficiências são comuns aos vários projetos.
Ferrovias, rodovias, obras de infraestrutura em geral, transposição do Rio São Francisco, refinarias, tudo foi anunciado com grande estardalhaço, com resultados eleitorais espetaculares para o governo, mas com pouco, quase nenhum proveito para o País até agora. Como se fossem partes de uma ação cuidadosamente planejada, essas obras têm atraso médio semelhante, enfrentam problemas parecidos e, todas, geram custos adicionais astronômicos para os contribuintes.
Os grandes empreendimentos do governo Lula para o Nordeste somam investimentos de mais de R$ 110 bilhões. Excluídos os projetos cuja complexidade impede a fixação de novo prazo de conclusão, eles têm atraso médio de três anos e meio. Isso equivale a sete oitavos de um mandato presidencial. Obras que Lula prometeu inaugurar talvez não sejam concluídas nem na gestão Dilma. Veja-se o caso das refinarias anunciadas para a região, a Premium I (no Maranhão) e a Premium II (no Ceará), que devem custar quase R$ 60 bilhões. A do Maranhão, cujas obras foram "oficialmente" iniciadas em janeiro de 2010, deveria estar pronta em 2013, mas agora está classificada como "em avaliação" pela Petrobrás, ou seja, já não é nem mesmo certo que ela será construída. A do Ceará, lançada em dezembro de 2010, deveria estar pronta em 2014, mas foi adiada.
A refinaria que está em obras, a de Abreu e Lima, em Pernambuco, transformou-se num poço de problemas e atrasos. Resultado de um acordo que Lula fez com o venezuelano Hugo Chávez, a refinaria deveria ser construída em parceria pela Petrobrás e a estatal venezuelana PDVSA, mas esta, até o momento, não aplicou nenhum centavo. O custo previsto atualmente para a obra equivale a cinco vezes o orçamento original.
Na área de infraestrutura, estão atrasadas as duas ferrovias em construção no Nordeste, a Nova Transnordestina, com 1.728 quilômetros, e a Oeste-Leste, que se estende de Ilhéus, no litoral da Bahia, até Figueirópolis, no Tocantins. A primeira, que teve substituída a empreiteira, tem um trecho paralisado no Ceará e enfrentou problemas com o atraso na liberação de recursos, mas seu andamento, assim mesmo, é considerado "adequado" nos balanços periódicos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do qual faz parte. Pode-se imaginar a situação da segunda, considerada "preocupante" pelos gestores do PAC.
A transposição do São Francisco, cujos problemas têm sido apontados com frequência pelo Estado, faz parte desse conjunto. O que ele exibe é uma sucessão de projetos incompletos, contratos mal elaborados, descuido da questão ambiental, fiscalização inadequada. O resultado não poderia ser diferente: atrasos, paralisação de obras por órgãos ambientais, aumento de custos. É parte da herança deixada pelo governo Lula.

Mordaça...,


Irmão de Genoino, aquele do assessor com dólares na cueca, cansou! Ele quer controlar a mídia por bem ou por mal

O deputado José Guimarães (PT-CE), aquele cujo assessor, um pobre-coitado, foi flagrado com a cueca recheada de dólares, está bravo. Leiam o que informa Daniel Carvalho, na Folha. Volto depois.
Em vídeo publicado no site do PT, o deputado federal José Guimarães (PT-CE), irmão do réu do mensalão José Genoino, disse que depois das eleições o partido retomará o debate sobre a regulamentação da mídia, “quer queiram, quer não queiram”. Segundo o congressista, o partido está sendo alvo de uma “ação orquestrada” dos meios de comunicação. “Passadas as eleições, nós do PT vamos tomar uma medida quer queiram, quer não queiram. É a regulamentação da questão da comunicação no país. Vamos ter que enfrentar esse debate porque foi além do limite”, declarou.
Publicado no sábado, o vídeo é uma resposta à reportagem da revista “Veja” que atribuiu ao empresário Marcos Valério afirmações sobre a atuação de Lula no mensalão. Guimarães ganhou destaque nacional em 2005, quando seu então assessor foi detido no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com R$ 200 mil numa mala e US$ 100 mil escondidos na cueca.
O caso, no auge da crise da mensalão, foi o estopim da saída de Genoino da presidência nacional do PT. No vídeo Guimarães faz um apelo aos militantes: “Temos que mobilizar a militância, fazer um apelo aos democratas deste país porque a mídia não pode ser partido político”.
(…)
VolteiUuuiii… Que medo! Daqui a pouco ele sai por aí fazendo quebra-quebra. Mas eu gostei mesmo foi do motivo alegado: ele só quer controlar a mídia porque, disse ele, o PT seria alvo de uma “ação orquestrada”. Ah, bom! Pensei que sua intenção fosse intimidar toda a imprensa, mas não é. A que fala bem do PT pode continuar a fazer normalmente o seu trabalho. Não sei se entenderam a sutileza…
Texto originalmente publicado às 4h59
Por Reinaldo Azevedo

terça-feira, 25 de setembro de 2012

"Adeus, Lula"


‘Adeus, Lula’, por Marco Antonio Villa

Transcrevo o esplêndido artigo de MARCO ANTONIO VILLApublicado no Globo desta terça-feira. É um texto que eu gostaria de ter escrito. *Augusto Nunes 
A presença constante no noticiário de Luís Inácio Lula da Silva impõe a discussão sobre o papel que deveriam desempenhar os ex-presidentes. A democracia brasileira é muito jovem. Ainda não sabemos o que fazer institucionalmente com um ex-presidente. Dos quatros que estão vivos, somente um não tem participação política mais ativa. O ideal seria que após o mandato cada um fosse cuidar do seu legado. Também poderia fazer parte do Conselho da República, que foi criado pela Constituição de 1988, mas que foi abandonado pelos governos ─ e, por estranho que pareça, sem que ninguém reclamasse.
Exercer tão alto cargo é o ápice da carreira de qualquer brasileiro. Continuar na arena política diminui a sua importância histórica ─ mesmo sabendo que alguns têm estatura bem diminuta, como José Ribamar da Costa, vulgo José Sarney, ou Fernando Collor. No caso de Lula, o que chama a atenção é que ele não deseja simplesmente estar participando da política, o que já seria ruim. Não. Ele quer ser o dirigente máximo, uma espécie de guia genial dos povos do século XXI. É um misto de Moisés e Stalin, sem que tenhamos nenhum Mar Vermelho para atravessar e muito menos vivamos sob um regime totalitário.
As reuniões nestes quase dois anos com a presidente Dilma Rousseff são, no mínimo, constrangedoras. Lula fez questão de publicizar ao máximo todos os encontros. É um claro sinal de interferência. E Dilma? Aceita passivamente o jugo do seu criador. Os últimos acontecimentos envolvendo as eleições municipais e o julgamento do mensalão reforçam a tese de que o PT criou a presidência dupla: um, fica no Palácio do Planalto para despachar o expediente e cuidar da máquina administrativa, funções que Dilma já desempenhava quando era responsável pela Casa Civil; outro, permanece em São Bernardo do Campo, onde passa os dias dedicado ao que gosta, às articulações políticas, e agindo como se ainda estivesse no pleno gozo do cargo de presidente da República.
Lula ainda não percebeu que a presença constante no cotidiano político está, rapidamente, desgastando o seu capital político. Até seus aliados já estão cansados. Deve ser duro ter de achar graça das mesmas metáforas, das piadas chulas, dos exemplos grotescos, da fala desconexa. A cada dia o seu auditório é menor. Os comícios de São Paulo, Salvador, São Bernardo e Santo André, somados, não reuniram mais que 6 mil pessoas. Foram demonstrações inequívocas de que ele não mais arrebata multidões. E, em especial, o comício de Salvador é bem ilustrativo. Foram arrebanhadas ─ como gado ─ algumas centenas de espectadores para demonstrar apoio. Ninguém estava interessado em ouvi-lo. A indiferença era evidente. Os “militantes” estavam com fome, queriam comer o lanche que ganharam e receber os 25 reais de remuneração para assistir o ato ─ uma espécie de bolsa-comício, mais uma criação do PT. Foi patético.
O ex-presidente deveria parar de usar a coação para impor a sua vontade. É feio. Não faça isso. Veja que não pegou bem coagir: 1. Cinco partidos para assinar uma nota defendendo-o das acusações de Marcos Valério; 2. A presidente para que fizesse uma nota oficial somente para defendê-lo de um simples artigo de jornal; 3. Ministros do STF antes do início do julgamento do mensalão. Só porque os nomeou? O senhor não sabe que quem os nomeou não foi o senhor, mas o presidente da República? O senhor já leu a Constituição?
O ex-presidente não quer admitir que seu tempo já passou. Não reconhece que, como tudo na vida, o encanto acabou. O cansaço é geral. O que ele fala, não mais se realiza. Perdeu os poderes que acreditava serem mágicos e não produto de uma sociedade despolitizada, invertebrada e de um fugaz crescimento econômico. Claro que, para uma pessoa como Lula, com um ego inflado durante décadas por pretensos intelectuais, que o transformaram no primeiro em tudo (primeiro autêntico líder operário, líder do primeiro partido de trabalhadores etc, etc), não deve ser nada fácil cair na real. Mas, como diria um velho locutor esportivo, “não adianta chorar”. Agora suas palavras são recebidas com desdém e um sorriso irônico.
Lula foi, recentemente, chamado de deus pela então senadora Marta Suplicy. Nem na ditadura do Estado Novo alguém teve a ousadia de dizer que Getúlio Vargas era um deus. É desta forma que agem os aduladores do ex-presidente. E ele deve adorar, não? Reforça o desprezo que sempre nutriu pela política. Pois, se é deus, para que fazer política? Neste caso, com o perdão da ousadia, se ele é deus não poderia saber das frequentes reuniões, no quarto andar do Palácio do Planalto, entre José Dirceu e Marcos Valério?
Mas, falando sério, o tempo urge, ex-presidente. Note: “ex-presidente”. Dê um tempo. Volte para São Bernardo e cumpra o que tinha prometido fazer e não fez. Lembra? O senhor disse que não via a hora de voltar para casa, descansar e organizar no domingo um churrasco reunindo os amigos. Faça isso. Deixe de se meter em questões que não são afeitas a um ex-presidente. Dê um bom exemplo. Pense em cuidar do seu legado, que, infelizmente para o senhor, deverá ficar maculado para sempre pelo mensalão. E lá, do alto do seu apartamento de cobertura, na Avenida Prestes Maia, poderá observar a sede do Sindicato dos Metalúrgicos, onde sua história teve início. E, se o senhor me permitir um conselho, comece a fazer um balanço sincero da sua vida política. Esqueça os bajuladores. Coloque de lado a empáfia, a soberba. Pense em um encontro com a verdade. Fará bem ao senhor e ao Brasil.

CONTRABANDISTA

*João Simões Lopes Neto
Batia nos noventa anos o corpo magro mas sempre teso do Jango Jorge,
um que foi capitão duma maloca de contrabandistas que fez cancha nos
banhados do Ibirocaí.
Esse gaúcho desabotinado levou a existência inteira a cruzar os campos
da fronteira: à luz do sol, no desmaiado da lua, na escuridão das noites, na
cerração das madrugadas...; ainda que chovesse reiúnos acolherados ou que
ventasse como por alma de padre, nunca errou vau, nunca perdeu atalho,
nunca desandou cruzada!...
Conhecia as querências, pelo faro: aqui era o cheiro do açouta-cavalo
florescido, lá o dos trevais, o das guabirobas rasteiras, do capim-limão; pelo
ouvido: aqui, cancha de graxains, lá os pastos que ensurdecem ou estalam
no casco do cavalo; adiante, o chape-chape, noutro ponto, o areão. Até pelo
gosto ele dizia a parada, porque sabia onde estavam águas salobres e águas
leves, com sabor de barro ou sabendo a limo.
Tinha vindo das guerras do outro tempo; foi um dos que peleou na
batalha de Ituzaingo; foi do esquadrão do general José de Abreu e sempre
que falava do Anjo da Vitória ainda tirava o chapéu, numa braçada larga,
como se cumprimentasse alguém de muito respeito, numa distância muito
longe.
Foi sempre um gaúcho quebralhão, e despilchado sempre, por ser
muito de mãos abertas.
Se numa mesa de primeira ganhava uma ponchada de balastracas,
reunia a gurizada da casa, fazia - pi! pi! pi! pi! - como pra galinhas e
semeava as moedas, rindo-se do formigueiro que a miuçalha formava,
catando as pratas no terreiro.
Gostava de sentar um laçaço num cachorro, mas desses laçaços de
apanhar a paleta à virilha, e puxado a valer, tanto, que o bicho que o tomava,
ficando entupido de dor, e lombeando-se, depois de disparar um pouco é
que gritava, num - caim! caim! caim! - de desespero.
Outras vezes dava-lhe para armar uma jantarola, e sobre o fim do festo,
quando já estava tudo meio entropigaitado, puxava por uma ponta da toalha
e lá vinha, de tirão seco, toda a traquitanda dos pratos e copos e garrafas e
restos de comidas e caldas dos doces!...
Depois garganteava a chuspa e largava as onças pras unhas do bolicheiro, que
aproveitava o vento e le echaba cuentas degran capitãn...
Era um pagodista!
Aqui há poucos anos - coitado - pousei no arranchamento dele.
Casado ou doutro jeito, estava afamilhado. Não nos víamos desde muito
tempo.
A dona da casa era uma mulher mocetona ainda, bem parecida e mui
prazenteira; de filhos, uns três matalotes já emplumados e uma mocinha -
pro caso, uma moça -, que era o - santo-antoninho-onde-te-porei! -
daquela gente toda.
E era mesmo uma formosura; e prendada, mui habilidosa; tinha andado
na escola e sabia botar os vestidos esquisitos das cidadãs da vila.
E noiva, casadeira, já era.
E deu o caso, que quando eu pousei, foi justo pelas vésperas do
casamento; estavam esperando o noivo e o resto do enxoval dela.
O noivo chegou no outro dia, grande alegria; começaram os aprontamentos, e
como me convidaram com gosto, fiquei pro festo.
O Jango Jorge saiu na madrugada seguinte, para ir buscar o tal enxoval
da filha.
Aonde, não sei; parecia-me que aquilo devia ser feito em casa, à moda
antiga, mas, como cada um manda no que é seu...
Fiquei verdeando, à espera, e fui dando um ajutório na matança dos
leitões e no tiramento dos assados com couro.
Nesta terra do Rio Grande sempre se contrabandeou, desde em antes
da tomada das Missões.
Naqueles tempos o que se fazia era sem malícia, e mais por divertir e
acoquinar as guardas do inimigo: uma partida de guascas montava a cavalo,
entrava na Banda Oriental e arrebanhava uma ponta grande de eguariços,
abanava o poncho e vinha a meia-rédea; apartava-se a potrada e largava-se o
resto; os de lá faziam conosco a mesma cousa; depois era com gados, que se
tocava a trote e galope, abandonando os assoleanos.
Isto se fazia por despique dos espanhóis e eles se pagavam desquitando-se do
mesmo jeito.
Só se cuidava de negacear as guardas do Cerro Largo, em Santa Tecla,
no Haedo... O mais, era várzea!
Depois veio a guerra das Missões; o governo começou a dar sesmarias
e uns quantíssimos pesados foram-se arranchando por essas campanhas
desertas. E cada um tinha que ser um rei pequeno... e agüentar-se com as
balas, as lunares e os chifarotes que tinha em casa!...
Foi o tempo do manda-quem-pode!... E foi o tempo que o gaúcho, o
seu cavalo e o seu facão, sozinhos, conquistaram e defenderam estes pagos!...
Quem governava aqui o continente era um chefe que se chamava o
capitão-general; ele dava as sesmarias mas não garantia o pelego dos
sesmeiros...
Vancê tome tenência e vá vendo como as cousas, por si mesmas, se
explicam.
Naquela era, a pólvora era do el-rei nosso senhor e só por sua licença é
que algum particular graúdo podia ter em casa um polvarim...
Também só na vila de Porto Alegre é que havia baralhos de jogar, que
eram feitos só na fábrica do rei nosso senhor, e havia fiscal, sim, senhor,
das cartas de jogar, e ninguém podia comprar senão dessas! Por esses tempos antigos também o tal rei nosso senhor mandou botar pra fora os ourives da vila do Rio Grande e acabar com os lavrantes e
prendistas dos outros lugares desta terra, só pra dar flux aos retnois...
Agora imagine vancê se a gente lá de dentro podia andar com tantas
etiquetas e pedindo louvado pra se defender, pra se divertir e pra luxar!...
O tal rei nosso senhor não se enxergava, mesmo!...
E logo com quem!... Com a gauchada!...
Vai então, os estancieiros iam em pessoa ou mandavam ao outro lado,
nos espanhóis, buscar pólvora e balas, pras pederneiras, cartas de jogo e
prendas de ouro pras mulheres e preparos de prata pros arreios...; e ninguém
pagava dízimos dessas cousas.
Às vezes lá voava pelos ares um cargueiro, com cangalhas e tudo, numa
explosão de pólvora; doutras uma partilha de milicianos saía de atravessado
e tomava conta de tudo, a couce d’arma: isto foi ensinando a escaramuçar
com os golas-de-couro.
Nesse serviço foram-se aficionando alguns gaúchos: recebiam as
encomendas e pra aproveitar a monção e não ir com os cargueiros debalde,
levavam baeta, que vinha do reino, e fumo em corda, que vinha da Bahia, e
algum porrão de canha. E faziam trocas, de elas por elas, quase.
Os paisanos das duas terras brigavam, mas os mercadores sempre se
entendiam...
Isto veio mais ou menos assim até a guerra dos Farrapos; depois vieram
as califórnias do Chico Pedro; depois a guerra do Rosas.
Aí inundou-se a fronteira da província de espanhóis e gringos emigrados.
A cousa então mudou de figura. A estrangeirada era mitrada, na regra,
e foi quem ensinou a gente de cá a mergulhar e ficar de cabeça enxuta...;
entrou nos homens a sedução de ganhar barato: bastava ser campeiro e
destorcido. Depois, andava-se empandilhado, bem armado; podia-se às vezes
dar um vareio nos milicos, ajustar contas com algum devedor de desaforos,
aporrear algum subdelegado abelhudo...
Não se lidava com papéis nem contas de cousas: era só levantar os
volumes, encangalhar, tocar e entregar!...
Quanta gauchagem leviana aparecia, encostava-se.
Rompeu a guerra do Paraguai.
O dinheiro do Brasil ficou muito caro: uma onça de ouro, que corria
por trinta e dois, chegou a valer quarenta e seis mil-réis!... Imagine o que
a estrangeirada bolou nas contas!...
Começou-se a cargueirear de um tudo: panos, águas de cheiro, armas,
minigâncias, remédios, o diabo a quatro!... Era só pedir por boca!
Apareceram também os mascates de campanha, com baús encangalhados e canastras,
que passavam pra lá vazios e voltavam cheios, desovar
aqui...
Polícia pouca, fronteira aberta, direitos de levar couro e cabelo e nas
coletarias umas papeladas cheias de benzeduras e rabioscas...
Ora... ora!... Passar bem, paisano!... A semente grelou e está a árvore
ramalhuda, que vancê sabe, do contrabando de hoje.
O Jango Jorge foi maioral nesses estropícios. Desde moço. Até a hora
da morte. Eu vi.
Como disse, na madrugada véspera do casamento o Jango Jorge saiu
para ir buscar o enxoval da filha.
Passou o dia; passou a noite.
No outro dia, que era o do casamento, até de tarde, nada.
Havia na casa uma gentama convidada; da vila, vizinhos, os padrinhos, autoridades, moçada. Havia de se dançar três dias!... Corria o amargo e
copinhos de licor de butiá.
Roncavam cordeonas no fogão, violas na ramada, uma caixa de música
na sala.
Quase ao entrar do sol a mesa estava posta, vergando ao peso dos pratos
enfeitados.
A dona da casa, por certo traquejada nessas bolandinas do marido,
estava sossegada, ao menos ao parecer.
As vezes mandava um dos filhos ver se o pai aparecia, na volta da estrada,
encoberta por uma restinga fechada de arvoredo.
Surgiu dum quarto o noivo, todo no trinque, de colarinho duro e casaco
de rabo. Houve caçoadas, ditérios, elogios.
Só faltava a noiva; mas essa não podia aparecer, por falta do seu vestido
branco, dos seus sapatos brancos, do seu véu branco, das suas flores de
laranjeira, que o pai fora buscar e ainda não trouxera.
As moças riam-se; as senhoras velhas cochichavam.
Entardeceu.
Nisto correu voz que a noiva estava chorando: fizemos uma algazarra
e ela - tão boazinha! - veio à porta do quarto, bem penteada, ainda num
vestidinho de chita de andar em casa, e pôs-se a rir pra nós, pra mostrar que
estava contente.
A rir, sim, rindo na boca, mas também a chorar lágrimas grandes, que
rolavam devagar nos olhos pestanudos...
E rindo e chorando estava, sem saber por quê... sem saber por que,
rindo e chorando, quando alguém gritou do terreiro:
- Aí vem o Jango Jorge, com mais gente!...
Foi um vozerio geral; a moça porém ficou, como estava, no quadro da
porta, rindo e chorando, cada vez menos sem saber por quê... pois o pai
estava chegando e o seu vestido branco, o seu véu, as suas flores de noiva...
Era já fusco-fusco. Pegaram a acender as luzes.
E nesse mesmo tempo parava no terreiro a comitiva; mas num silêncio,
tudo.
E o mesmo silêncio foi fechando todas as bocas e abrindo todos os
olhos.
Então vimos os da comitiva descerem de um cavalo o corpo entregue
de um homem, ainda de pala enfiado...
Ninguém perguntou nada, ninguém informou de nada; todos entenderam tudo...;
que a festa estava acabada e a tristeza começada...
Levou-se o corpo pra sala da mesa, para o sofá enfeitado, que ia ser o
trono dos noivos. Então um dos chegados disse:
- A guarda nos deu em cima... tomou os cargueiros... E mataram o
capitão, porque ele avançou sozinho pra mula ponteira e suspendeu um
pacote que vinha solto.., e ainda o amarrou no corpo... Aí foi que o crivaram
de balas... parado... Os ordinários!... Tivemos que brigar, pra tomar
o corpo!
A sia-dona mãe da noiva levantou o balandrau do Jango Jorge e
desamarrou o embrulho; abriu-o.
Era o vestido branco da filha, os sapatos brancos, o véu branco, as flores
de laranjeira...
Tudo numa plastada de sangue... tudo manchado de vermelho, toda
a alvura daquelas cousas bonitas como que bordada de cobrado, num padrão
esquisito, de feitios estrambólicos... como flores de cardo solferim esmagadas
a casco de bagual!...
 Então rompeu o choro na casa toda.