Os tempos de Dilma no Sion

Como foi a adolescência da candidata do PT antes de se envolver em movimentos de resistência à ditadura. Naquela época, teve uma vida de garota pacata em um dos colégios mineiros mais tradicionais - o Sion de BH, exclusivo para meninas

Solange Azevedo
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DEBUTANTE 
Dilma (no centro) dançou valsa na festa da amiga Sandra
Borges da Costa (à dir.)
 Quando Dilma Rousseff se tornou aluna do Colégio Nossa Senhora de Sion, em Belo Horizonte, o País passava por um período de relativa calmaria. Era 1955. Café Filho estava à frente da Presidência da República – assumira o posto depois do suicídio de Getúlio Vargas. Juscelino Kubitschek, o último mineiro eleito presidente pelo voto direto, governava Minas Gerais. Dilma tinha 7 anos. Embora os pais dela – um imigrante búlgaro, advogado, e uma professora fluminense – não exigissem que os filhos tivessem uma formação religiosa, faziam questão de que estudassem nas melhores escolas. O Sion – um colégio católico e exclusivo para meninas, onde se dizia “bonjour” e não “bom dia” – era um dos principais redutos das filhas da elite belo-horizontina. Além das disciplinas convencionais, as alunas tinham aulas de francês, inglês, latim e ainda aprendiam a fazer uma porção de trabalhos manuais, como bordado e tricô. Eram preparadas para se casar e incentivadas a, no máximo, se formar professoras. Tudo nos moldes das mais tradicionais e conservadoras famílias da época.
Filha do meio, Dilma vivia com os pais e os dois irmãos (Igor e Zana) em um confortável sobrado na rua Major Lopes, no bairro São Pedro, a pouco mais de um quilômetro de distância do Sion. Quando pequena, era levada de carro. Maiorzinha, conseguiu permissão da família para pegar o ônibus do colégio. Dilma não é lembrada por fazer estardalhaço ou atrair as atenções para si. Não era do tipo espevitado nem popular. Ao contrário, reunia as virtudes femininas mais valorizadas naqueles tempos. “Ela sempre foi muito discreta, contida, meio tímida. Não era de ficar dando gargalhadas ou de falar muito”, lembra a amiga Sandra Borges da Costa, 63 anos. Além de estudar na mesma escola, as duas eram vizinhas. “Eu almoçava na casa dela e ela, na minha. Brincávamos uma na casa da outra. Mas na dela era melhor porque tinha muito espaço e a dona Dilma deixava a gente arrastar os móveis do lugar”, conta Sandra. Como mãe e filha têm o mesmo nome, familiares e amigos dos Rousseff costumavam chamar a candidata do PT à Presidência da República de Dilminha.
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RELIGIÃO 
Dilma começou a estudar o catecismo com a turma do 1º ano do Sion.
A foto acima, tirada em 1955, é do dia em que ela e as amigas fizeram a primeira comunhão
No Sion, não. Ela era apenas Dilma. Uma aluna que não chega a ser apontada por antigas colegas e professoras como “brilhante”, mas bastante inteligente e estudiosa. “Dilma se sentava do lado esquerdo da sala, mais para o fundo. Tinha a letra redondinha, tamanho médio, bem feminina. Era muito dedicada. Nunca precisei chamar a atenção dela”, relata Apparecida de Almeida, professora de português e latim. “Lembro-me de vê-la andando constantemente pelo jardim do Sion. Havia árvores e pássaros cantando. Ela caminhava sozinha ou, às vezes, com três ou quatro colegas.” Uma delas, Sônia Lacerda Macedo, a acompanha até os dias de hoje. Trabalha na Casa Civil, o ministério comandado por Dilma até o final de março. Recentemente, junto com um grupo de mulheres, Sônia criou um site de apoio à candidata petista à Presidência. De acordo com as palavras de Sônia, Dilma é “divertida”, “generosa” e “muito séria também”. “Me divirto até com o stress dela”, garante.
O apreço pela leitura foi um dos pontos de união entre Dilma e Sônia no passado. As amigas do Sion acharam o máximo quando Dilma, adolescente, ganhou do pai uma coleção completa de Jorge Amado. As obras do escritor baiano, ex-militante comunista, não eram bem-vistas pelos setores mais conservadores da sociedade. “Nossa educação era direcionada. Não havia espaço para contestar, resistir. A vida era muito mascarada, cheia de fantasias, cor-de-rosa”, afirma Sandra. Ela conta que Dilma não costumava expressar com frequência suas vontades nem tomava a frente a ponto de ser uma das líderes da turma. “Levei um choque quando soube que ela caiu na clandestinidade. Dilma foi politizada fora do Sion”, afirma a professora Apparecida. “Para me provocar, algumas pessoas me mandam coisas dizendo que a Dilma foi presa, que participou de assaltos. Mas muitos políticos que estão aí foram de esquerda. O Fernando Henrique e o Serra só não ficaram presos porque partiram para o exílio.”
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AMIZADE 
Além de estudar no mesmo colégio, Sandra
(acima e abaixo, à dir.) e Dilma eram vizinhas
Além de não dispor de um ambiente favorável, as meninas do Sion não tinham idade suficiente para se preocupar com política. “Conversávamos sobre os meninos ou sobre quem já tinha ficado menstruada”, diz Sandra. Quando o colégio foi vendido e trocou de nome, em 1962, Dilma tinha apenas 14 anos. Cursava o penúltimo ano ginasial. Por causa da mudança na direção, a turma dela começou a se dispersar. Algumas amigas deixaram a escola. Dilma foi para o Colégio Estadual Central – um dos mais importantes focos de resistência da juventude mineira – em 1964. Foi aí que ela despertou para a política, justamente no ano em que o Brasil mergulhou na ditadura militar. Dilma atuou em três organizações: Polop (Política Operária), Colina (Comando de Libertação Nacional) e VAR-Palmares (fruto da fusão entre Colina e VPR). Capturada em São Paulo, foi torturada nos porões da Oban (Operação Bandeirante) e do Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Passou três anos no cárcere.
A jovem combativa que emergiu a partir do Colégio Estadual Central – e que mais tarde, graduada em economia, se tornaria secretária da Fazenda de Porto Alegre, secretária de Minas, Energia e Comunicação do Rio Grande do Sul, ministra de Minas e Energia e chefe da Casa Civil do presidente Lula – guarda poucas semelhanças com a menina recatada do Sion. Nem os óculos de aros grossos existem mais. Agora, Dilma usa lentes de contato e adotou um corte de cabelo conhecido como “new generation”, inspirado na famosa estilista venezuelana Carolina Herrera. A cara fechada, uma marca desde a infância, deu lugar a uma face mais leve – sorridente, até.
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Nenhuma das amigas do Sion chegou tão longe quanto Dilma. A maioria se tornou dona de casa. “Só percebi que eu era capaz depois dos 40 anos. Então, fui para a faculdade e me formei em administração”, afirma Sandra. Quando sente saudade das amigas, Sandra recorre a um álbum de retratos. Ali, encontra imagens das meninas do Sion. Dilma aparece em preto e branco, com uma taça na mão, de vestido longo e colar de pérolas. Ela foi uma das 15 que dançaram a valsa no baile de debutantes de Sandra. De vez em quando, o grupo se reunia para ir à missa dominical no Colégio Marista. “Era um colégio só para meninos. Daí o nosso interesse”, diverte-se Sandra. Além de assistir a celebrações católicas, andar de bicicleta e jogar queimada ou vôlei durante o recreio no Sion, algumas das meninas frequentavam o Clube Campestre. O pai de Dilma costumava levá-las e buscá-las de carro. Apenas à beira da piscina elas podiam tirar a saída de banho ou o roupão. Os maiôs eram padrão: alças largas, decote redondo um pouco maior nas costas e cavas bem-comportadas.
Se em casa e na rua as famílias não costumavam afrouxar a vigilância sobre as moças, no Sion eram as freiras que faziam marcação cerrada. A saia pregueada azul-marinho, com suspensório, tinha de estar na altura do joelho. E a camisa branca com babadinhos e botões de madrepérola, sempre impecável. De tempos em tempos, as alunas tinham de fazer três dias de uma espécie de retiro espiritual. Eram estimuladas a ficar em casa, recolhidas, falando o mínimo necessário. Apesar do controle social constante, elas davam um jeito de driblar os sentinelas para curtir as pequenas delícias da juventude. Paqueravam um dos motoristas do trólebus e os rapazes de brilhantina no cabelo que faziam plantão perto dos portões do Sion só para vê-las passar.

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