Escritores..,

14 escritores que devem ser lidos e amados: minha lista pessoal e transferível. Por Paulo Nogueira.

 
Listo no Diário os autores que mais amo — aqueles que me fizeram rir, chorar, sonhar. E que foram, e para sempre serão, meus mestres. A ordem é aleatória. É a segunda vez que a listagem é publicada — uma pequena prova de minha devoção pelos autores citados.
14 – Nelson Rodrigues
“Nelson Rodrigues foi um polemista absolutamente único entre os brasileiros”
Nelson Rodrigues foi um polemista absolutamente único entre os brasileiros. Suas bordoadas, sempre nas mesmas pessoas e pelos mesmos motivos, eram, paradoxalmente, delicadas como broncas de mãe amorosa – mas convicta e dura. Isso conta muito sobre ele. Nelson Rodrigues, nos combates que travou no campo das palavras, jamais pareceu interessado em destruir seus alvos e nem sequer em batê-los nos argumentos – mas sim em fazer os leitores pensarem, de preferência com um sorriso no rosto. Nelson Rodrigues, e este é um traço seu pouco valorizado, foi um dos melhores humoristas do país.
O humor estava presente em todas as polêmicas que travou – e também nas provocações que fez. Como toda a elite intelectual do Rio de Janeiro de seu tempo, tinha pelos paulistas uma mistura de desprezo, despeito, raiva e admiração. Traduziu tudo isso numa de suas numerosas frases memoráveis. “O pior tipo de solidão é a companhia de um paulista”, escreveu. Só um paulista muito tacanho poderia se sentir agredido por Nelson Rodrigues. Como sempre, a vergastada estava envolta num humor tão fino que subtraía quase toda a contundência – sem minar a essência da mensagem. (Sou paulista.)
Essa grande tirada sobre os paulistas ele, como de hábito, repetiria muitas vezes, quase que obsessivamente. Nelson Rodrigues produziu um número extraordinário de frases memoráveis nas polêmicas que travou e nas provocações que fez, e para ampliar sua força usava a estratégia da repetição. Se ele fosse apenas um autor de frases, como o francês La Rochefoucauld, já teria conquistado um lugar destacado nas letras brasileiras. Suas máximas abarcaram virtualmente todos os campos, da política à religião, do futebol à psicologia – isso para não falar do amor. “É preciso trair para não ser traído”, escreveu ele num de seus grandes momentos de reflexão amorosa. Como de costume, você encontra essa frase em vários textos de Nelson Rodrigues.
Não era um polemista que se movimentava conforme as circunstâncias. Isso o distinguiu, por exemplo, de Paulo Francis. Francis foi de esquerda quando era elegante ser de esquerda, nos anos 60 e 70. Na década de 80, em que o conservadorismo galvanizou boa parte do planeta na figura da primeira ministra britânica Margaret Thatcher, Francis virou um polemista de direita. O glamour tinha se deslocado da esquerda para a direita. (Hoje, em que o receituário thatcherista é apontado por muitos como uma das razões da presente crise econômica mundial e por isso perdeu grande parte do brilho, Paulo Francis provavelmente retornaria à esquerda.)
Nelson Rodrigues não tinha problema nenhum em ser chamado de reacionário numa época em que isso era um dos maiores insultos que um intelecutal poderia receber. Era um homem convicto não das virtudes do capitalismo, mas dos defeitos para ele insolúveis do socialismo. Os símbolos de esquerda de seu tempo foram uma formidável inspiração para Nelson Rodrigues. Do cardeal Dom Helder Câmara, um expoente da Teologia da Libertação – corrente esquerdista da igreja que pregava o ativismo em prol dos pobres –, ele dizia, por exemplo, que “só olhava para o céu para ver se ia chover”. O fascínio erótico que Guevara despertava nas mulheres da alta sociedade carioca – a “esquerda festiva” – também foi objeto de análises espirituosas, ferinas e divertidas.
A elegância bem humorada com que ele esgrimia contrasta intensamente com as armas de outro célebre polemista brasileiro, Carlos Lacerda. Lacerda, que na juventude foi comunista e depois na idade adulta viraria anticomunista, tinha uma agressividade destrutiva que você jamais encontra em Nelson Rodrigues. Em seu melhor e ao mesmo tempo pior momento como polemista, Lacerda comandou um ataque sangrento ao presidente Getúlio Vargas, cuja administração era segundo ele um “mar de lama”. O suicídio de Getúlio, em 1954, é a demonstração suprema da força devastadora do “mar de lama” criado por Lacerda. (Posteriormente, em 1964, Lacerda apoiaria o golpe militar na esperança de se tornar logo depois presidente. Quando os militares decidiram permanecer no poder, ele se frustrou e foi para a oposição). Compare isso com a resposta clássica de Nelson Rodrigues aos jovens rebeldes que nos anos 60 a acusavam de ser mentalmente e ideologicamente senil. “Jovens: envelheçam”. Mais uma vez, o tom firme mas doce de uma mãe que deseja o melhor para seus filhos.
Ao contrário de tantos polemistas, Nelson Rodrigues não fez barulho simplesmente sendo do contra, mesmo sabendo da fraqueza do chamado pensamento convencional. Ele expressou isso numa de suas frases mais citadas: “Toda unanimidade é burra.” Se possível traçar uma linha – ainda que torta – de Paulo Francis a Diogo Mainardi entre os polemistas, Nelson Rodrigues, lamentavelmente, não deixou sucessores. Arnaldo Jabor, que filmou algumas das histórias de Nelson Rodrigues e é um de seus mais conspícuos discípulos, bem que tentou, mas acabou ficando a uma distância considerável do mestre. Principalmente naquilo que foi talvez a maior marca de Nelson Rodrigues como polemista: o humor fino, suave que leva o leitor a refletir com uma risada e não a imprecar, seja contra ou a favor, com uma carranca.
13 – F. Scott Fitzgerald
“Fitzgerald foi tão grande como escritor que, mesmo sendo alpinista social, jamais conseguiu fingir em seus romances que o círculo ao qual ansiava por pertencer era decente, honesto, límpido.”
Francis Scott Fitzgerald retratou a frivolidade dos ricos americanos dos anos 20 e 30 com a mesma graça e talento com que Balzac mostrou o mundo da plutocracia francesa na primeira metade do século 19. Fitzgerald foi tão grande como escritor que, mesmo sendo alpinista social, jamais conseguiu fingir em seus romances que o círculo ao qual ansiava por pertencer era decente, honesto, límpido. Também nisso se igualou a Balzac.
O Grande Gatsby, de 1925, é a obra magna de Fitzgerald. Gatsby é um misto de vigarista e sonhador que vai atrás da paixão de sua juventude, Daisy. Daisy não se casou com ele porque ele era pobre. Gatsby faz fortuna vendendo bebida na época da Lei Seca – como o patriarca da família Kennedy, aliás – apenas para conquistar Daisy. Daisy – egoísta, dissimulada, interesseira, vazia – é, no romance, o símbolo supremo da riqueza e dos ricos. Gatsby acaba sozinho e destruído ao entrar num mundo que não era o seu. O único que permanece ao seu lado é Nick, o narrador, um alterego do próprio Fitzgerald.
É um romance cultuado. O escritor Hunter Thompson datilografou-o integralmente apenas para ter a sensação de escrever um livro notável. Fitzgerald morreu cedo, aos 44 anos, em 1940. Seu coração não aguentou uma vida absolutamente desregrada, repleta de bebida e de cigarro.
Também contribuiu para sua exaustão física e mental o casamento tumultuado com Zelda, desequilibrada mentalmente. A história com Zelda é a base de outro grande romance seu, Suave é a Noite, que recomendo fortamente também. Zelda acabaria num manicômio. Fitzgerald, em seus últimos anos, viveu com uma colunista social.
Fitzgerald foi o maior escritor americano do século passado, ao lado de Hemingway. Conviveram muito. Numa das passagens mais divertidas da amizade entre os dois, foram ao Louvre por sugestão de Hemingway. Fitzgerald estava em dúvida sobre a qualidade do tamanho de seu pênis, e Hemingway sugeriu que ele o comparasse com os pênis das estátuas do Louvre.
Gatsby, com todos os seus anos de existência, tem vigor juvenil: sua história continua a fascinar, a comover. Faz rir, faz sonhar e faz chorar. Assisti, há pouco tempo, uma montagem do livro no Wilton’s Music Hall – um teatro alternativo e interessantíssimo de Londres, perto das Docas e longe do tradicional West End, onde passam os musicais – que arrebatou os londrinos. A platéia é convidada a se vestir como nos anos 1920, no auge do charleston. Muitos aceitam o convite. No intervalo, dois atores se fazem de repórter e fotógrafo ao estilo de um século atrás e entrevistam a audiência como se fossem jornalistas atrás de celebridades nas míticas festas dadas por Gatsby em sua mansão no seu esforço de reconquistar Daisy.
Fui, com Erika. Ela tirou uma foto da dupla com seu iPhone. Eles perguntaram: “O que é isso?” Erika respondeu: “Uma câmera”. O fotógrafo – um ator gordo, jovem, alto, camisa fora da calça como é tão comum nas redações – riu. Gargalhou. “Hahaha. Câmera é isso!” E mostrou a sua, uma relíquia da era de Gatsby.
Em seu túmulo, está escrita a frase épica que dá fim a O Grande Gatsby. “E assim vamos todos, braços remando contra a correnteza, empurrados incessantemente rumo ao passado.” Se não fossem todas as outras virtudes, apenas por este final todo mundo deveria ler O Grande Gatsby.
12- Henry Miller
“Não me lembro de um outro escritor que tenha transmitido em sua prosa tanta adoração pelas mulheres quanto Henry Miller.”
Sempre que estou em Paris, lembro de Henry Miller.
Foi em Paris que ele construiu a maior parte de sua obra grandiosa, em que o sexo se mistura com o lirismo e daí nascem parágrafos soberbos.
Penso numa passagem específica: uma declaração de amor a Germaine, uma prostituta barata, em Trópico de Câncer. Talvez não exatamente a ela, mas à “coisa rosa” que ela levava entre as pernas, “um tesouro”, “um presente de Deus”.
Ele admirava aquele “matagal” e os lábios que o separavam tanto quando estavam unidos como quando estavam separados.
Não me lembro de um outro escritor que tenha transmitido em sua prosa tanta adoração pelas mulheres quanto Henry Miller. A mais comoventa forma de amor: incondicional. A mulher não tinha que ser linda, elegante, rica para Miller encontrar magia, encanto, beleza nela.
É o caso de Germaine.
E, no entanto, as mulheres não lêem Henry Miller, de uma forma geral. E as que rompem com a regra o desprezam como machista. Ou mesmo careca. Piada. (Miller foi vencido cedo pela calvície, conforme se pode ver no ótimo filme Henry & June.)
Eu protesto, aqui diante de cada um de vocês – eu protesto, como se fosse um advogado póstumo do grande, incomparável, insubstituível celebrador de mulheres que foi Henry Miller.
11 – Charles Dickens
“Viajante compulsivo, Dickens escreveu a um amigo que não conseguia escrever direito longe da inspiração proporcionada pelas “luzes mágicas” das ruas londrinas.”
Estou obcecado por Dickens. Por várias razões. Por sua imensa simpatia pelos pobres, pelos desfavorecidos. Pela sua generosidade pessoal. Pelo seu caráter, que fez um contemporâneo afirmar que ele jamais perdeu um amigo ou ganhou um inimigo. Pelo brilho de sua imaginação como romancista. E por ele ter descrito como ninguém a Londres de seu tempo. Viajante compulsivo, Dickens escreveu a um amigo que não conseguia escrever direito longe da inspiração proporcionada pelas “luzes mágicas” das ruas londrinas.
Por isso tenho lido romances seus e algumas biografias. (O iBooks me dá acesso a um material extraordinário de e sobre Dickens, gratuitamente.)
Mas.
Mas me ficou a sensação de que Dickens deveria ter lido Demócrito, o filósofo grego da Antiguidade. Especificamente, uma sentença de Demócrito: “Ocupe-se de pouco para ser feliz.” Dickens era claramente hiperativo, e o excesso de ação acabou por matá-lo cedo, aos 58 anos. Ele teve um derrame durante um jantar e morreu pouco depois.
Pouco tempo antes de morrer, ele escreveu para seu grande amigo John Forsters: “Não consigo sossegar senão com ação. Fiquei incapaz de relaxar. Estou convencido de que vou enferrujar, quebrar, morrer se eu me poupar. Melhor morrer fazendo coisas.”
Forsters posteriormente escreveria a primeira e melhor biografia de Dickens. Ao lê-la, uma amiga e admiradora de Dickens comentou: “Estou chocada com a agitação histérica dele. Deve ter sido terrivelmente difícil para sua mulher.” (Foi. Eles acabaram se separando, depois de vinte anos de casamento. Dickens admitiu que a fazia “inquieta e infeliz, e muitas outras coisas.”)
Dickens não fazia nada comedidamente. Quando descobriu que poderia ganhar um bom dinheiro lendo para platéias que o adoravam, levou isso a extremos. Ensaiava horas para ler trechos de seus livros. Tinha o trabalho adicional de mexer nos textos para adaptá-los à leitura pública. Interpretava ao ler, com seus dotes de ator. Terminava cada leitura aos pedaços. Tinha que deitar vinte, trinta minutos para se recompor.
Quando caminhava, coisa que adorava fazer, não era com moderação. Andava rápido, e percorria longas distâncias. Conheceu Londres e redondezas nos detalhes nestas supercaminhadas. Em David Copperfield, seu livro favorito e francamente autobiográfico, Dickens diz pela boca do protagonista: “Em tudo que fiz, me entreguei por completo, não poupei nada.”
Os amigos perceberam, a certa altura, que ele estava extenuado, e o aconselharam a reduzir o ritmo. Mas ele continuou a acelerar. Faltou Demócrito em sua vida. Ao morrer em 1870, aos 58 anos, era mais do que admirado por seus leitores – era amado por eles. Enterrado doída e solenemente no Poet’s Corner da Abadia de Westminster ao lado de outros gigantes das letras inglesas como Samuel Johnson e Thackeray, Dickens deixou o legado glorioso de sua obra magistral, mas também mostrou a todos que excesso de trabalho leva a apenas uma coisa: à morte mais cedo.
10 – Jorge Amado
“O ponto comum, entre suas duas fases distintas, foi o amor irrestrito, comovente e indelével do escritor por sua gente, a gente simples do povo.”
Jorge Amado entra na lista curta dos maiores romancistas da história. Escrever em português não o ajudou a ganhar o Nobel tão merecido. Nenhum brasileiro ganhou. Mas Saramago, com seu português de Portugal, foi premiado. Como romancista – verve, prosa, histórias que agarram o leitor pelo colarinho e não soltam, versatilidade, constância – Jorge Amado foi catedrático onde Saramago foi aluno. Jorge Amado, depois de Machado de Assis, foi o maior romancista brasileiro. Os dois ombreiam nomes como Tolstoi, Dostoievski, Flauber, Stendhal e os poucos outros que compõem a primeiríssima divisão da literatura mundial.
É o centenário do nascimento de Jorge Amado. O Brasil deveria ter um calendário rico de comemorações. Mas. De novo: mas.
Lamento.
Jorge Amado teve duas fases distintas. Na primeira, o jovem escritor comunista fez romances que embelezam qualquer biblioteca. Dois se destacam. Capitães da Areia, a saga dos meninos pobres das praias de Salvador, já mostrava nos anos 20 que o Brasil não poderia aspirar a muito sem cuidar de suas crianças desvalidas. E Mar Morto, o retrato lírico e desesperado do amor de uma mulher e um pescador, um romance que molha os olhos do leitor ao mesmo tempo que o enleva. Jorge Amado tinha um amor incondicional pela gente humilde, e isso foi uma de suas grandes marcas em todas as fases.
Ainda na fase engajada, O Cavaleiro da Esperança é a história romanceada de Luís Carlos Prestes, o maior líder comunista da história brasileira. Quando o livro foi publicado, nos anos 40, Prestes representava mais ou menos o que Lula representa hoje. A diferença é que Prestes era caçado e passou a maior parte de sua vida na ilegalidade, junto com seu Partido Comunista, ao qual Jorge Amado era filiado.
O tom da fase engajada de Jorge Amado é branco e preto, simbolicamente. Seus romances traem a sua tristeza com o país tão desigual em que vivia.
Esse ciclo terminaria no final dos anos 50, com as célebres revelações, na União Soviética, dos crimes de Stálin. Foram tais e tantos que comunistas do mundo inteiro entraram numa aguda crise existencial.
A resposta de Jorge Amado foi sair do Partido Comunista. Começaria aí a segunda fase do escritor, multicolorida, alegre, cheia de baianas desembaraçadas e fascinantes, como a Tieta de Tieta do Agreste, a Gabriela de Gabriela, Cravo e Canela e a Dona Flor de Dona Flor e seus Dois Maridos. A literatura de Jorge Amado deixa de ser triste por causa das injustiças sociais e passa a celebrar a vida porque, como mostram suas personagens extraídas da gente simples, ela pode ser bela.
A grandeza de Jorge Amado foi reconhecida internacionalmente. Foi um romancista global antes da globalização. Seus romances foram traduzidos virtualmente em várias línguas. Não acontecera antes isso com nenhum escritor brasileiro. Depois dele, a fama lá fora se repetiria com Paulo Coelho, com uma distinção. Jorge Amado se valeu de seu colossal talento e Paulo Coelho foi produto de uma mistura de marketing competente, charlatanismo intelectual e misticismo barato.
Jorge Amado foi o primeiro grande caso, no Brasil, de escritor capaz de viver apenas da literatura.
Não recebeu o Nobel, provavelmente por ignorância dos jurados, mas foi reconhecido por leitores em todo o mundo nas duas fases de sua obra. O ponto comum, entre elas, foi o amor irrestrito, comovente e indelével do escritor por sua gente, a gente simples do povo.
9 – Marco Aurélio
“Em ingênua oposição ao cerna da filosofia de Marco Aurélio – a fugacidade de tudo – ouso dizer que suas palavras são eternas.”
Marco Aurélio, que comandou o mundo no último grande momento de Roma, personificou o sonho de Platão: o imperador filósofo. Ninguém poderia tornar realidade esse sonho utópico de Platão com tanto esplendor. Como imperador, Marco Aurélio (121-180 d.C.) conduziu uma Roma já ameaçada a um período dourado. Como filósofo, escreveu, em geral em acampamentos de guerra, palavras cuja sabedoria doce e resistente desafia a passagem do tempo – eram reflexões para si próprio, frases curtas e não obstante profundas que giravam, bsicamente, sobre a efemeridade da glória e da vida. Um discípulo, depois da morte de Marco Aurélio, juntou-as num pequeno grande livro ao qual deu o nome de Meditações. Os dias haveriam de converter as Meditações de Marco Aurélio num patrimônio da humanidade.
O pensador francês Ernest Renan, do século XIX, disse que os seres humanos estariam para sempre de luto por Marco Aurélio. Não há exagero aí: conhecer Marco Aurélio é amá-lo. Suas observações são um fabuloso manual de conduta, e o que mais impressiona é que onde poderia haver um tom professoral existe, na verdade, uma imensa e comovedora doçura. Ele não condena a miséria humana, e sim a compreende. Mais do que isso, joga luzes com a força de seu exemplo sobre como lidar com ela. Nos momentos de descrença e desilusão, mas não só neles, é um conforto ter Marco Aurélio por perto.
Releio-o com frequência, e muitas vezes abro as páginas de minha velha edição ao acaso (a melhor tradução de Marco Aurélio para o Brasil é a da série Os Pensadores, da Abril Cultura: um primor). Sugestão do imperador filósofo para o começo de cada dia: “Previna a si mesmo ao amanhecer: vou encontrar um intrometido, um ingrato, um insolente, um astucioso, um invejoso, um avaro”.
Marco Aurélio é útil para uma infinidade de situações cotidianas. Somos extraordinariamente suscetíveis à ideia da glória, e é um convite ao bom senso ouvir, a esse respeito, quem foi o dono do mundo. A arrogância, mostra ele, sustenta-se apenas na ignorância e na ilusão. “Cada um vive apenas o momento presente, breve. O mais da vida, ou já se viveu ou está na incerteza. Exíguo, pois é, é o que cada um vive. Exígua, é a mais longa memória na posteridade, essa mesma transmitida por uma sucessão de homúnculos morrediços, que nem a si próprio conhecem, quanto menos a alguém falecido há muito.”
A grandeza do espírito de Marco Aurélio legou à posteridade exemplos memoráveis. Descoberta uma conspiração e executado sem seu conhecimento o mentor, ele lamentou a perda da possibilidade de perdoar o traidor. Entregaram-lhe a correspondência do conspirador. Ele a queimou ser lê-la. Sua atitude diante da discórdia é inspiradora. Estamos a toda hora brigando com alguém e sendo tomados por sentimentos de rancor e aversão. Em suas anotações, Marco Aurélio disse com majestosa sabedoria: “Sempre que você se desentender com alguém, lembre que em pouco tempo você e o outro terão desaparecido.” É um dos chamados à paz e à concórdia mais simples e mais eficiente. Em ingênua oposição ao cerna da filosofia de Marco Aurélio – a fugacidade de tudo – ouso dizer que suas palavras são eternas.
8 – Rubem Braga
“Com as pequenas pedras da crônica Rubem construiu uma catedral.”
Rubem Braga fez como ninguém poesia em prosa no Brasil. Foi o único escritor a entrar para a história da literatura brasileira unicamente pelas suas crônicas. Foi de uma fidelidade comovente a elas. Jamais as trocou por romances ou mesmo contos.
Com as pequenas pedras da crônica Rubem construiu uma catedral.
Lírico, melancólico, romântico, espirituoso, essas eram as marcas centrais do estilo de Rubem. Era um escritor que você podia caracterizar como de esquerda, não pela militância tão comum em seus dias, mas pela raiva que sentia da desigualdade social e pela imensa simpatia que dedicava aos desfavorecidos. Um homem de uma das suas histórias está com sua namorada. Ambos são jovens e humildes. Uma mulher rica e esnobe passa pelo casal e ele deixa  escapar, automaticamente: “aquela vaca”.
Os textos de Rubem estão espalhados, como é tão comum entre os cronistas. Mas há uma coletânea da Record – 200 crônicas – que reúne o melhor dele e enobrece qualquer biblioteca.
Nascido em Cachoeiro do Itapemirim, floresceu no Rio – cujos anos dourados, as décadas de 1940 e 1950, cantou em suas crônicas.
Sempre recomendei a leitura atenta de Rubem Braga a jovens jornalistas interessados em apurar a maneira de escrever. Pouca gente juntou palavras  em português de forma tão bela.  Machado de Assis, Eça de Queiroz, Nelson Rodrigues – e vamos ficando por aí.
O fascínio que Rubem e sua prosa exerciam sobre as mulheres pode ser observado em seus relatos sentimentais.  Teve muitas mulheres, entre as quais se destacou a atriz Tônia Carrero, uma das maiores belezas de sua época. Mas foi, fundamentalmente, um solitário.
Encarou a morte com a naturalidade de um filósofo.  Estava morrendo de câncer no pulmão quando foi a uma casa funerária encomendar um caixão.  O funcionário que o atendeu perguntou para quem era, e não foi sem surpresa que ele soube que era para o próprio cliente ali à sua frente.
Como Montaigne com seus Ensaios, você pode abrir Rubem em qualquer página e iniciar a leitura – da qual há grandes chances que saia encantado.
7 – Arthur Schopenhauer
“Foi, como seu conterrâneo alemão Karl Marx, não apenas um filósofo mas um estilista soberbo. Tinha a ênfase irresistível dos grandes prosadores.”
Se você acordar no inferno, vai pensar que simplesmente está levando a vida de sempre.
Este é um conceito básico de Arthur Schopenhauer, o grande escritor do pessimismo.  Schopenhauer dizia que a pior coisa que podia acontecer a alguém é nascer.
E no entanto você não sai deprimido das páginas de Schopenhauer. Porque você aprende com ele que não é só você que sofre. Todos sofremos. Todos enfrentamos dores e decepções do primeiro ao último dia.
A fonte maior de infelicidade é achar que só você enfrenta problemas enquanto todos os outros riem e vivem uma festa perene. Schopenhauer põe você na companhia de toda a humanidade. Com ele, como escreveu um biógrafo, você aprende a olhar para fora, para além de você – e isso é vital para a saúde da mente.
Foi, como seu conterrâneo alemão Karl Marx, não apenas um filósofo mas um estilista soberbo. Tinha a ênfase irresistível dos grandes prosadores. Dizia, por exemplo, que a maior parte dos livros é tão ruim que não mereciam ter sido escritos. Quando lhe perguntaram o que mais havia na sua  Berlim, respondeu: “Tolos.”
Schopenhauer entendia que tudo é fruto de nossa mente. “Posso enxergar uma coisa, e você outra. Uma terceira pessoa pode achar que estamos ambos errados, pois vê algo diferente. Estamos todos equivocados, e no entanto certos.” Com isso ele estava dizendo para que sejamos tolerantes com opiniões alheias, pois nossas verdades são mais pessoais que absolutas.
O pessimismo de Schopenhauer derivou, em boa parte, das filosofias orientais em que mergulhou jovem. Há uma afinidade clara entre suas teses e o budismo. Num caso e no outro, o sofrimento aparece como o fato primordial da existência.
Não surpreende que tenha dado o nome de Atma – alma, em sânscrito – a seu único companheiro na vida adulta, um poodle. Morto Atma, substituiu-o por uma réplica dele. Numa de suas maiores frases, Machado de Assis, outro pessimista de gênio, escreveu em Memórias Póstumas que não deixou a ninguém o legado da miséria humana. Schopenhauer fez o mesmo: jamais teve um filho. Levou a sério o que escreveu.
Num ensaio sobre o amor, disse que quando dois jovens amantes trocam olhares há um ar recolhido, quase secreto porque eles no fundo sabem que, levando adiante o que desejam, gerarão mais sofredores.
Soube viver de acordo com suas idéias e soube morrer. Poucos dias antes de sua morte, em 1860, perguntaram  a ele como achava que a posteridade o trataria. Indiferença? Desprezo?  “A posteridade me encontrará”, disse ele.
Foi uma de suas raras frases otimistas – e absolutamente certa.  A posteridade encontrou Arthur Schopenhauer e, paradoxalmente, encontrou conforto nele que foi o mais pessimista dos filósofos.
6 – Eça de Queiroz
“Eça é um autor fundamental. Numa vida breve – morreu em 1900, aos 55 anos — construiu uma soberba pirâmide literária.”
Poucos finais de romances são tão pertubadoramente belos e filosoficamente profundos como o de Os Maias, de Eça Queiroz.
Carlos e Ega, dois amigos de uma vida toda, erram pelas ruas de Lisboa. As ilusões da juventude já haviam sido trituradas pelo tempo, e eles constatam que quase nada do que sonharam tinha se tornado realidade. O grande livro que Ega escreveria – até título já tinha: Memórias de um Átomo – jamais chegou a ser escrito e publicado. Carlos não se recuperou de uma paixão alucinada, carnal por uma mulher que ele desconhecia ser sua irmã, Maria Eduarda.
A vida que se realiza não é aquela com que sonhamos, refletem. E então a frase que ficou permanentemente gravada em minha mente: “Ah, éramos jovens, éramos jovens.”
Eça é um autor fundamental. Numa vida breve – morreu em 1900, aos 55 anos —  construiu uma soberba pirâmide literária. O estilo exuberante, descritivo como mandava a escola naturalista à qual ele se filiou, se mesclou com características deliciosas em sua prosa. Eça, como os intelectuais progressista de seus dias, era fanaticamente anticlerical. Os padres e a igreja representavam, para ele, o atraso. E era absurdamente cru  na forma como tratava o sexo em seus livros. Os personagens de Eça são governados pelo anseio sexual.
O Crime do Padre Amaro, um de seus clássicos, traz tudo isso: a repulsão à batina e o império dos sentidos. Amaro seduz e consequentemente devasta uma jovem crédula, Amélia. Amaro era como a representação de todos os padres e em Amélia estava a sociedade portuguesa. Eça estava como que dizendo que Portugal fora sodomizado e atrasado pelos padres católicos.
O anticlericalismo está presente de forma bem mais divertida em outra obra de Eça, A Relíquia. Raposo é um espertalhão que pretende entrar na herança da tia rica e carola. Ele vai para Jerusalém para agradar a velha. Pega, no final da viagem espiritual, uma relíquia para ela, e tudo ia terminar bem se ele não tivesse colocado numa caixa exatamente igual a calcinha de uma mulher libertina que ele conquistara na viagem. Quando a tia abre o presente, não é a relíquia que ela encontra – mas a peça íntima de uma mulher lasciva. Antes de ser desmascarado, Raposo fizera coisas como pegar água da torneira e vendê-la em garrarinhas como se fosse água santa do Jordão.
Como outros grandes autores do século XIX, Eça criou uma adúltera notável. É Luiza, de O Primo Basílio. Basílio, um canalha total, se aproveita da fragilidade de sua prima, bem como da ausência prolongada do marido desta. O caso entre eles é descoberto pela empregada de Luiza, que a chantageia e tortura até virtualmente liquidá-la.
Machado de Assis, o grande contemporâneo brasileiro de Eça, escreveu uma crítica antológica sobre O Primo Basílio. Foi duríssimo. Disse que a única lição que se extraía do livro é que a “boa vontade dos fâmulos é essencial para a paz no adultério”. Foi a primeira vez que li a palavra “fâmulo” – empregado, servo. Machado evidentemente exagerou. Mas sua crítica, de toda forma, acabou por ampliar a repercussão do romance de Eça, em vez de diminuí-la. Outro contato extraordinário entre os dois se deu numa dedicatória que Machado fez a Eça num romance que lhe deu. É provavelmente a dedicatória mais seca que um escritor já fez: “De Machado de Assis para Eça de Queiroz”.
As comparações entre os dois gênios são inevitáveis. Machado era contido e sutil. Insinuava, em vez de afirmar. Eça jorrava. Não falava: berrava. A adúltera de Machado, Capitu, você nem tem certeza de que traiu o marido. A Luiza de Eça entregou a carne toda ao primo. Cada qual de seu jeito, eram gigantes, e é simplesmente impossível dizer qual dos dois é melhor.
Li, em minha juventude, Eça com uma caneta ao lado para sublinhar e anotar as frases que mais me marcavam. Uma delas lembro ainda hoje com vividez: “Braços que se desenlaçam em despedidas supremas”. Mais de uma vez a usei em textos de Fabio Hernandez, o “escritor barato” que foi meu pseudônimo por tantos anos. Visitei Póvoa do Varzim, a terra de Eça. Era janeiro, e o vento quase arrastava as pessoas. Fui a um cassino local jogar roleta e quase arrumo ao encrenca ao pegar, sem querer, fichas que não eram as minhas. Poucos meses atrás. numa ida a Paris em missão jornalística, acabei dando numa estátua de Eça num subúrbio. Eça viveu em Paris como diplomata. Sentei num banco e contemplei por alguns minutos Eça antes de partir.
Os Maias é meu Eça favorito.  Admiro o patriarca Afonso Maia, em cuja força interior inquebrável vejo algo de meu pai.  Tanto me marcou que quis muito dar a minha filha caçula o nome de Maria Eduarda. Fui batido pelo conselho familiar, representado por minha ex-mulher e meus dois filhos, então pequenos mas já cheios de opiniões próprias. (Acabou prevalendo Camila, e hoje digo que minha ruiva maravilhosa não poderia ter mesmo outro nome.)
Tantos anos depois de ter lido Os Maias, e ocasionalmente relê-lo, a cena final ainda me toca. Quantas vezes, ao olhar para trás, digo para mim mesmo: “Ah, éramos jovens, éramos jovens.”
5- Graham Greene
“Era um livre pensador, um filho amado e rebelde do império britânico.”
Graham Greene foi uma paixão à primeira lida.
Meu pai me deu O Cônsul Honorário quando eu era adolescente, nos anos 1970. Li, me apaixonei e acabaria lendo todo Greene nos anos seguintes.
Papai tinha uma afinidade clara com Greene: eram ambos católicos. Papai admirava em Greene a fé inquieta, heterodoxa, feita de dúvidas e questionamentos. O Vaticano admirava Greene bem menos que papai: Greene foi para o índice de autores censurados com O Poder e a Glória, um romance cujo herói é um padre bêbado, covarde e sexualmente corrupto.
É um romance passado no México revolucionário da década de 1940, quando os padres católicos foram caçados e exterminados.
Em O Poder e a Glória aparece um típico personagem de Greene que me deixaria mesmerizado: o herói relutante. O padre de Greene acaba encontrando a redenção num gesto heróico que faz contra todas as probabilidades.
Greene estava dizendo o seguinte: os seres humanos somos horríveis, mas existe sempre a possibilidade gloriosa da redenção.
Greene era um mestre também das situações românticas. Mas do seu jeito. Em O Cônsul Honorário, passado na América Latina da época das ditaduras militares, um médico, Eduardo Plarr, se apaixona por uma mulher casada. Era exatamente a mulher do cônsul honorário do título – um inglês bêbado vagabundo sem nenhuma importância que acaba sequestrado por engano por guerrilheiros. Entre os guerrilheiros está um padre, Rivera, que diz que aderiu às armas porque não aguentaria esperar por “outro João 23”. João 23 foi um papa de esquerda, claramente empenhado em lutar pelos pobres.
Rivera era outro personagem que o Vaticano abominaria.
Escrevi alguns artigos de política na Época sob o pseudônimo de Eduardo Plarr. Assim como escrevi um conto para a Vip sob o pseudônimo de Maurice Bendrix, o anti-herói de Fim de Caso.
Fim de Caso é um dos romances de Greene mais interessantes do ponto de vista dos relacionamentos amorosos. Bendrix tem um caso com uma mulher casada e católica. Quando ele descobre que ela está doente e vai morrer, passa a insultar o Deus em que ela tanto acreditava. Bendrix tem um sentimento complexo em relação ao marido dela – simpatia, piedade e ao mesmo tempo ciúme e ódio.
É algo que você encontra em Plarr. Ele sente uma coisa parecida pelo homem com cuja mulher está dormindo. E também em Os Comediantes, outro de meus Greenes favoritos. O narrador, em mais um romance passado no Haiti sob a ditadura de Papa Doc, se envolve com a mulher de um diplomata. O herói relutante de Os Comediantes é um mentiroso compulsivo que para impressionar as pessoas diz que teve passagens épicas em guerras. Ele acaba sacrificando a vida na primeira vez em que de verdade participa de uma ação militar. Morre tentando ajudar os revolucionários do país em que estava a se livrar da ditadura corrupta.
Greene, um homem de esquerda que abominava os Estados Unidos sem sentir nenhuma inclinação pela União Soviética, se beneficiou da era em que a Grã Bretanha foi um império em que o sol não se punha. Como era comum então entre os britânicos, viajou pelo mundo e pôde situar seus livros em partes distintas.
Era um livre pensador, um filho amado e rebelde do império britânico. Foi até o fim amigo e uma espécie de advogado moral de Kim Philby, o maior espião que a Inglaterra jamais conheceu. Philby, que ocupava um alto posto no serviço de inteligência britânico, o MI 5, era informante da União Soviética. Greene dizia que a verdadeira ignomínia estava em trair um amigo, e não um país.
Que ele não tenha ganho o Nobel é algo que depõe não contra ele, mas contra a Academia Sueca. Durante muito tempo, no fastígio de Greene como escritor, nos anos 60 e 70, toda vez que chegava a época de anunciar o Nobel de Literatura seu nome era citado como um forte candidato. O prêmio nunca foi dado. A versão mais acreditada que correu é que Greene pagou o preço de ter sido amante da mulher de um dos jurados da Academia Sueca.
É uma honra, um privilégio, uma alegria eu estar vivendo uma temporada na Londres de Greene.
Li, claro, as duas autobiografias que Greene escreveu. O episódio que mais me impressionou foi a roleta russa que ele fez na juventude para vencer o tédio.
Greene colocou uma bala no tambor que alojava seis, girou-o e apertou o gatilho. Nada. Fez mais uma vez, depois. Nada.
Já não queria mais então jogar esse jogo. Mas antes de se livrar do revólver considerou que era justo dar mais quatro chances a ele para igualar as coisas. Tambor de seis balas, e portanto seis vezes o gatilho tinha que ser apertado, na precisa ainda que estranha lógica de Greene.
Silêncio sempre.
Graças a Deus.
4- Sêneca
A morte de Sêneca, por Rubens
Apaixonei-me por Sêneca logo na primeira leitura. Nunca tinha visto uma combinação tão sublime de forma e conteúdo: palavras inteligentes escritas com beleza. Logo entendi por que Montaigne, o filósofo francês que ressuscitou o estoicismo em seus clássicos Ensaios, disse que sem Sêneca seu livro seria uma sucessão de páginas em branco. Montaigne dedicou a Sêneca um capítulo comovedor, defendendo-o dos que afirmaram que ele não viveu como pregava em seus escritos.
Sêneca (4a.C. – 65 d.C.) foi preceptor de Nero. No início do império deste, antes que degenerasse numa tirania sangrenta, Sêneca teve influência poderosamente positiva na vida romana. Ele esteve por trás do chamado neronian quinquenniumos primeiros e promissores cinco anos de Nero no governo de RomaDepois Sêneca foi engolfado pelo que descreveu magistralmente como “perpétuo vai-e-vem de elevações e quedas”. A queda final veio com uma ordem do antigo discípulo para que se matasse. Sêneca, que escrevera com freqüência sobre a beleza serena e corajosa da morte de figuras como Sócrates e Catão, suicidou-se cortando os punhos. Teve, no final, uma bravura que nem seus inimigos ousaram negar. Como Sócrates, ele dedicou seus últimos momentos a dar ânimo aos amigos desesperados que o cercavam. Se é discutível se ele viveu como pregou, é inegável que na morte foi inteiramente fiel aos próprios preceitos. Sua mulher decidiu se matar junto com ele.
Nero, sinistro, quis saber como seu antigo mestre recebera a sentença de morte. A resposta dificilmente terá agradado a ele. O mensageiro lhe disse que Sêneca ficou absolutamente impassível. Não implorou pela vida, não se lamuriou, não pediu nada.
Sêneca deve ser lido e relido aos poucos, com vagar. Na cama, sob um abajur, suas palavras confortam e podem trazer calor e luz em horas escuras e frias. Tenho sempre a meu lado o ensaio “Da Tranqüilidade da Alma”, parte de um volume da coleção Os pensadores, da Editora Abril. O grande teste dos escritos é sobreviver ao tempo. Sêneca é intensamente atual. Ele escreveu há quase 2 mil anos e, no entanto, suas sentenças têm um frescor que ao mesmo tempo inspira e arrebata.
No ensaio citado, admiro, particularmente, as reflexões sobre o estado de agitação em que parecemos estar condenados a viver. Sêneca começa por citar Demócrito, o filósofo grego que diante da miséria humana optava por rir em vez de chorar: “Quem quer viver com a alma tranqüila não deve ter muitas ocupações”. Num mundo em que as pessoas a um só tempo teclam no computador, falam ao telefone e comem sanduíche, eis uma frase que merece estudo. Estamos sempre estressados e, no entanto, quando paramos para ver quantas de nossas ações são realmente úteis e imperiosas, a resposta pode ser: poucas. Muitas vezes, nenhuma. Mas dificilmente conseguimos parar. Na grande frase de Pascal, que amava e odiava os estóicos, a infelicidade dos homens deriva da incapacidade que temos de ficar parados em nosso quarto.
Sêneca tem uma definição espirituosa para as pessoas que estão sempre mendigando ocupações: “preguiça agitada”. As atividades inúteis a que nos entregamos, diz, lembram “as idas e vindas das formigas ao longo das árvores, quando elas sobem ao alto do troco e tornam a descer, para nada”. Muitas vezes, confesso, subo e desço meus troncos de árvores apenas pela dificuldade de ficar parado. Quando me vejo como uma formiga, ler Sêneca é igual a um beliscão. Não raro, a prova maior de sabedoria que podemos dar não está num ato majestoso ou numa locução cintilante, mas sim em não fazer nada.
3 – Machado de Assis
“Eu próprio tenho um conto favorito, que li dezenas de vezes, Um Capitão de Voluntários, o relato de um caso de amor e traição, honra e morte, no tempo da Guerra do Paraguai.”
Se um homem vive onde estão seus livros, meu lugar é São Paulo, embora aqui em Londres eu já tenha montado uma biblioteca respeitável. A oferta de livros em Londres é inacreditável, antigos, novos, em capa dura ou em paperback. Se não bastasse, há um sebo na esquina de casa. Livros a uma libra lá, às vezes duas, e bons. Alguns, raros, são mais caros. Comprei uma biografia de  Napoleão, de um renovador do gênero, Emil Ludwig, por 20 libras, uns 60 reais. É uma obra de 1925, notável.
Trouxe uns poucos livros de São Paulo, em minha recente passagem por lá. Um deles, sei lá por que, é uma biografia de Machado de Assis pela crítica literária Lúcia Miguel Pereira, morta já há algumas décadas. Chama-se apenas “Machado de Assis”, e se eu não soube a razão pela qual o enfiei na mala, depois de relê-lo, com décadas de intervalo, me sinto amplamente recompensado.
Não creio que exista outro livro que mostre com mais agudeza Machado como homem e escritor. “O livro de Lúcia Miguel Pereira veio nos revelar um Machado de Assis que está todo nos seus livros, nos seus contos, nos seus romances”, escreveu José Lins do Rego. “Mas até Lúcia Miguel Pereira ninguém sabia disso.”
Meu exemplar traz anotações minhas de décadas atrás. É um hábito que eu deveria ter mantido. Recomendo a todos. Quando você revê um livro, as placas estão todas lá, e o aproveitamento é melhor.
Em relação ao escritor, Lúcia defende a tese de que Machado foi melhor como contista do que como romancista. Meu pai, machadiano, várias vezes me chamou a atenção para a qualidade dos contos de Machado, como O AlienistaA Cartomante e a Teoria do Medalhão, entre tantos outros. Eu próprio tenho um conto favorito, que li dezenas de vezes, Um Capitão de Voluntários, o relato de um caso de amor e traição, honra e morte, no tempo da Guerra do Paraguai. O narrador tem um caso fugaz com a mulher de um homem que ele admirava, e este decidi, desiludido, se alistar como voluntário na guerra, onde tem uma conduta heróica e suicida. O traidor é tomado por — como gosto dessa frase — “um remorso que não é grande senão por me fazer sentir pequeno”.
Mas é no romance, para mim, que Machado se agiganta e não deve nada a qualquer romancista em todo o mundo e em todos os tempos. É com o romance que o escritor ergue suas pirâmides, para usar uma expressão de Guimarães Rosa, não com contos. Dom CasmurroBrás Cubas e Quincas Borba cabem em qualquer seleção de clássicos que você tem que ler e reler. Mas ele foi bom em tudo, incluído aí o ofício de crítico literário.
Revejo minhas anotações e gosto delas.
Uma conversa numa festa mostra a presença de espírito de Machado. Ela está falando desenvoltamente quando uma mulher da sociedade observa: “Tinham me dito que o senhor é gago, mas é menos do que me disseram.” Machado responde: “Pois tinham me dito que a senhora é estúpida, mas é menos do que eu imaginava.”
Uma outra passagem me chama a atenção para o homem que foi Machado. O respeito que ele inspirava. Como crítico, Machado devastou O Primo Basílio, de Eça, seu grande contemporãneo português. A única coisa que se extraía do livro, segundo ele, era que para a “paz no adultério” era vital ter uma empregada confiável. A heroína do livro, Luiza, foi chantageada cruelmente por sua criada depois de se entregar a seu primo quando o marido viajava. Machado usou “fâmulos”, uma palavra sonora e infelizmente extinta. Significa criadagem.
É talvez a melhor crítica jamais escrita no Brasil. A mais aguda, a mais contundente, a mais sagaz.
E releio no grande livro de Lúcia Miguel Pereira — procuro no Google sinais de que tenha sido reeditado recentemente, e lamento não encontrar nada — que quando Eça teve problemas de direitos autorais no Brasil, por conta de editores inescrupulosos, encarregou de representar seus interesses ninguém menos que o crítico que massacrara uma de suas obras capitais.
É um episódio que conta muito de dois escritores portentosos — e destacá-lo é um dos muitos méritos do livro de Lúcia.
2- Balzac
12Pego um Balzac ao acaso. Numa época li compulsivamente Balzac, para mim o maior dos romancistas de todos os tempos. A Comédia Humana, sua grande obra, um número extraordinário de histórias e personagens reunidas em quase vinte volumes. As Ilusões Perdidas, parte deste conjunto majestoso, é meu romance favorito de Balzac. O título é tocante. As Ilusões Perdidas. Quem de nós não teve ou não tem ilusões, e quem de nós não as perdeu ou as perderá? Ah, você não leu As Ilusões Perdidas? Corra. Certas coisas a gente tem que fazer.  Uma delas, um amigo me disse um dia, é matar uma tarde de trabalho para ver uma sessão de cinema das duas. Era o sonho daquele amigo, e  ele não o tinha realizado até o dia em que candidamente me fez a confissão cinematográfica e vespertina. Outra coisa que a gente tem que fazer é ler As Ilusões Perdidas.
Abro ao acaso um volume da Comédia Humana. É o romance Luís Lambert. Vejo a dedicatória balzaquiana. Et nunc et semper dilectae dicatum. (Agora e como sempre dedicado à mulher amada.)  Latim. Balzac chamava de Dilecta sua primeira amante, uma mulher casada, Laure de Berny. No romance O Lírio do Vale Laure apareceu como Sra. De Mortsauf.
Amante. Que mulher não experimenta uma vibração intensa ao realizar o sonho, a fantasia ou o pesadelo de ter um amante? Madame Bovary, de Flaubert, outro dos meus romancistas amados, e um competidor sério de Balzac como o maior entre os maiores, Madame Bovary, eu dizia, gritou quando para si mesma quando consumou o adultério. “Tenho um amante, tenho um amante”. Não terminou bem ela, e nem outras adúlteras maravilhosas da literatura, como Ana Karenina e Capitu. Terão os romancistas sido fiéis à realidade dura do adultério ou ao moralismo masculino? Não sei, não sei.
Volto a  Balzac. Folheio Balzac e chego a um ensaio chamado Fisiologia do Casamento. Um trecho menor de A Comédia Humana. Mas o o menor de Balzac é grande.  Reparo num afosrimo. Reflito sobre ele, mas não chego a uma conclusão consistente. Gostaria de chamar Balzac e perguntar a ele exatamente o que ele quis dizer. Ei-lo: “Uma mulher honesta é aquela que os amantes temem comprometer”. Você entendeu melhor que eu? Sei apenas que é uma frase de gênio. Fecho Balzac. Um compromisso me chama. Uma mulher honesta é aquela que os amantes temem comprometer. A frase, que não compreendo, me enleva pela assombrosa beleza enigmática com que as palavras se encadeiam.
Balzac inventou o romance como o conhecemos. E jamais foi superado nessa sublime arte que é contar história.
1 – Michel de Montaigne
“Disse já várias vezes. Gosto de abrir Montaigne ao acaso, e ler ou reler alguns de seus ensaios.”
Como se expressar, seja escrevendo, seja falando? Essa é uma das questões presentes desde sempre para a humanidade. Na vida profissional ou amorosa, numa apresentação de trabalho a seus chefes na empresa ou numa mera conversa de bar, comunicar-se bem faz toda a diferença. Muitos sábios se detiveram nesse tema. Quase todos condenaram a verborragia, a eloquência desmedida, a suntuosidade verbal. A opção é pela simplicidade e pela brevidade. Uma pessoa afetada na maneira de falar ou escrever é afetada, em outras esferas. “A verdade precisa falar uma linguagem simples, sem artifícios, escreveu um filósofo da Antiguidade.
Disse já várias vezes. Gosto de abrir Montaigne ao acaso, e ler ou reler alguns de seus ensaios.
Montaigne (1533-1592) dedicou linhas brilhantes ao assunto em seus Ensaios. Montaigne conta duas histórias instrutivas e divertidas. Numa delas, os embaixadores de uma cidade grega tentavam convencer o rei de Esparta a aderir a um esforço de guerra. O espartano deixou-os falar longamente. Depois disse: “Não me lembro do começo nem do meio da argumentação de vocês – quanto à conclusão, simplesmente não me interessa”. Na outra história, dois arquitetos atenienses disputavam a honra de construir um grande edifício. A platéia, à qual cabia a escolha, ouviu um grande discurso do primeiro arquiteto. As pessoas já se inclinavam por ele quando o segundo disse apenas: “Senhores atenienses, o que este acaba de dizer eu vou fazer”.
Montaigne cita seu pensador predileto, o romano Sêneca, segundo o qual nos grandes arroubos da eloquência há “mais ruído do que sentido”. Escreveu Montaigne: “Gosto de uma linguagem simples e pura, a escrita como a falada, e suculenta, e nervosa, breve e concisa, não delicada e louçã, mas veemente e brusca. Uma linguagem não pedante, fradesca ou de advogado, mas de preferência soldadesca como Suetônio qualifica a de Júlio César, embora eu não perceba bem por que”.
Os espartanos eram admirados por Montaigne pela simplicidade com que viviam e se esxpressavam. Ele conta que uma vez perguntaram a uma autoridade de Esparta porque não colocavam por escrto as regras da valentia para que os jovens pudessem lê-las. A resposta foi que os espartanos queriam acostumar seus jovens antes aos feitos do que às palavras: O mundo é apenas tagarelice e nunca vi homem que não dissesse mais do que me-nos do que devia, disse Montaigne.
Outro mestre de Montaigne, Plutarco, autor de Vidas Paralelas, mostrou que falar de-mais pode ser perigoso: “A palavra expõe-nos, como nos ensina o divino Platão, aos mais pesados castigos que deuses e homens podem infligir, disse Plutarco. “Mas o silêncio jamais tem contas a dar. Nâo só não causa sede como confere um traço de nobreza”. Não falar nada é, não raro, a melhor coisa que temos a dizer, mas uma força irresistível parece sempre nos empurrar para o “mundo da tagarelice” tão bem definido por Montaigne. E então estamos condenados a produzir “mais ruído do que sentido” para lembrar a grande sentença de Sêneca.

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