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sábado, 29 de outubro de 2016

ACA. A Associação de Corruptos Anônimos

Com passos acelerados, homens de terno descem a rampa da garagem de um hotel famoso junto ao Eixo Monumental em Brasília.
Rumam para uma discreta salinha no subsolo.
A reunião acontece todas as terças, logo após as sessões do Congresso, para não atrapalhar ninguém.
O hotel cedeu o espaço como retribuição à fama que adquiriu durante a Lava-Jato.
Em seus quartos, no passado, inúmeras malas de dinheiro trocaram de mãos.
Hoje você pode escolher o quarto não pelo número, mas pelo nome das respectivas operações da Polícia Federal.
A Suite Acrônimo, por exemplo, não sai por menos de US$ 600 por noite.
O Studio Zelotes é ainda mais caro, US$ 900.
Os políticos não estão ali para se hospedar.
Ao contrário, precisam manter seus encontros secretos.
No canto da sala, sobre a mesa improvisada, uma térmica com café e alguns biscoitos.
No centro, sob uma lâmpada pendente, cadeiras de plástico estão distribuídas em círculo.
O encontro é conduzido pelo famoso juiz.
Um trabalho que começou informalmente, com alguns vereadores e prefeitos, após o fim da Lava-Jato.
A notícia se espalhou e políticos mais graúdos demonstraram interesse.
Hoje a procura é tão grande que a fila de espera é de meses.
Os encontros são gratuitos, quinze participantes no máximo.
Mais que isso vira bagunça… agora, se oferecem mais de um milhão dou um jeitinho de encaixar, porque o caso é grave – explica o juiz S.
Hoje a sessão começa com um novato que não precisaria de apresentação.
Mesmo assim, humilde, segue o ritual:
Boa noite. Meu nome é L. e não recebo propina há mais
de 6 meses!
Boa noite L.! – os participantes aplaudem sinceros.
Bem… essa é minha primeira vez aqui… não sei muito por onde começar…
Por onde quiser L. Que tal contar como tudo começou? – sugere o juiz.
Ah… muito difícil dizer. Acho que começou quando eu era jovem… dei um dinheirinho para o motorista do pau de arara que me levou para São Paulo… uns 20 cruzeiros.
Os participantes reagiram saudosos das propinas em cruzeiros.
Um deles deixou escapar “eita tempo bom…”.
O juiz pediu silencio.
L. continuou seu depoimento.
De lá para cá só piorou.
Contou toda sua carreira. Detalhes sórdidos que todos os que estavam na sala já o haviam visto desmentir inúmeras vezes na mídia.
Um depoimento chocante.
Alguns não aguentaram e saíram para vomitar.
Em prantos, L. revelou seus mais secretos estratagemas de recebimento de propina.
O juiz fez uma pausa, abismado com o que ouviu.
Tomou fôlego e continuou:
Mas L., você tem que estar orgulhoso. Você já está há mais de 6 meses limpo! Isso é muito importante.
Eu sei Seu juiz…mas é difícil.
Sim! Mas é um dia após o outro – os participantes gritaram.
Inconformado, o juiz que tantas vezes tentou condená-lo infrutiferamente, pergunta:
Mas L., me diga uma coisa… por que você nos procurou justo agora!?
A eleição, seu juiz. A eleição… pensa. Está aí e eu sei que não vou aguentar – explodiu num choro de alma.
Os participantes, um a um, levantaram e consolaram L. num bonito abraço coletivo.
Melhor do que ninguém, eles sabem como é difícil.
Boa noite. Meu nome é L. e não recebo propina há mais de 6 meses!
Boa noite L.! – os participantes aplaudem sinceros

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