A tradição da colheita da macela

Com a chegada da Páscoa, lembrei de alguns rituais, como a procissão de velas e a colheita de macela, tradicionalmente realizada na Sexta-Feira Santa. Meu pai me acordava cedinho, ainda escuro, tomava seu chimarrão, calçava as botas, vestia casaco, chapéu e íamos colher ramas de macela na nossa chácara ou nas montanhas que cercam a pequena Barão de Cotegipe, no Norte do Rio Grande do Sul.

Geralmente a manhã era fria, com neblina e orvalho na grama. Aliás, o orvalho é muito importante, pois a macela deve ser colhida antes de ser banhada pelos raios do sol, assim ela mantém suas propriedades medicinais. Lembro que eram muitas as famílias percorrendo os arbustos em busca da macela. Para as crianças, era uma festa. 

Aqueles que não conseguiam encontrar, ou estavam impossibilitados fisicamente de ir procurar, acabavam comprando maços de macela de guris da "reserva" que ofereciam de casa em casa. Meus pais faziam cara feia, pois não sabiam se haviam sido colhidas antes de o sol nascer. Comprar a planta não era politicamente correto. 

O tempo passou, cresci, sai de Barão de Cotegipe, meu pai faleceu, mas esta tradição não esqueci. Aproveitei para contar para meus filhos o ritual. Eles adoraram e pensam em passar a próxima Páscoa em Cotegipe para poder fazer a colheita. Aqui em Campinas, onde moro, poucos conhecem a macela. Há alguns anos ganhei da mãe um maço de presente. Como manda a tradição, pendurei-o na cozinha. As visitas ficavam curiosas em saber pra que servia aquela planta e suas propriedades medicinais. Diz a tradição que ela é muito boa no combate à má digestão, cólicas, ao alívio de dores de cabeça e até pode ser usada como enchimento de travesseiros. Lembro que inúmeras vezes tive que tomar o famoso chá, preparado com todo carinho pela mãe. O gosto não era muito bom, mas era um santo remédio. 

Devido a religiosidade que envolve a planta e suas propriedades medicinais, a macelinha foi instituída, em 2002, como a planta medicinal símbolo do Estado do Rio Grande do Sul. O nome científico da macela é Achyroclien satureioides, mas também é conhecida como macela-do-campo, macelinha, macela-amarela, camomila-nacional, carrapichinho-de-agulha, marcela, losna-do-mato, macela-do-sertão e chá-de-lagoa. 

Para minha surpresa, descobri que a colheita da macela pode estar com seus dias contados. Uma das principais causas é que ao invés de colher os galhos, as pessoas arrancam a planta com a raiz. Outro fator, segundo especialistas gaúchos, é que a macela é apanhada justamente no período de floração, impedindo que o ciclo natural se complete. Conclusão: poderá faltar marcela logo mais. Na minha infância não era muito fácil encontrá-la. Imagine agora.

Mas o Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp, aqui em Campinas, já pensou nisso e deu origem ao primeiro cultivar brasileiro de macelinha. O estudo reconhece que a planta medicinal nativa é muito utilizada para a preparação de chá com propriedades digestivas e antiespasmódicas, entre outras. De acordo com o coordenador do trabalho, o agrônomo Ílio Montanari Júnior, o objetivo foi iniciar o processo de domesticação da espécie, para que ela pudesse ser cultivada de forma comercial. 

Muito bom, pois a colheita da macela é uma tradição que não pode acabar. A solução para aqueles que querem manter a tradição, mesmo para quem mora em outros estados, é plantar macela no quintal para não ficar sem na Sexta-feira Santa. 

Boa Páscoa a todos!!!!
http://baraodecotegipe.blogspot.com.br/2012/04/colheita-da-macela.html

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