Na semana de divulgação do PIB, a palavra é recessão

Presidente Dilma diz que não traça perspectivas para o PIB; mas os economistas, sim. E elas são péssimas — não pessimistas

Marília Carrera
Prévia do PIB indica retração de 1,2% da economia brasileira no 2º trimestre
Prévia do PIB indica retração de 1,2% da economia brasileira no 2º trimestre (Evaristo Sá/AFP/VEJA)
O resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre deve ser divulgado na próxima sexta-feira, em meio a um cenário de pessimismo, de certa forma, inédito. Não que a economia brasileira nunca tenha passado por percalços — longe disso — mas, pela primeira vez desde a estabilização econômica, há a expectativa de recessão por razões majoritariamente domésticas. Não há uma turbulência desestabilizando os emergentes, como foi o caso das crises do México, da Rússia ou dos Tigres Asiáticos, nos anos 1990; os Estados Unidos mostram recuperação cada vez mais consistente; e os países europeus já atravessaram o pior de sua crise fiscal, que teve seu ápice em 2011. A China passa por mudanças em seu modelo econômico que continuam lhe garantindo crescimento de 7% e não são suficientes para colocar em perigo o resto do mundo. Apesar disso, no Brasil, a expectativa é de crescimento próximo de zero, com cada vez mais analistas aderindo à possibilidade de recessão. A economia brasileira tem se comportado como um doente acometido por várias pequenas infecções, umas graves, outras menos, e que, por falta de tratamento adequado, caminha para uma falência múltipla.
O governo vem atribuindo o cenário ruim ao mercado externo e tem desferido críticas públicas aos analistas que dizem o contrário, conforme mostra o episódio lamentável com o banco Santander. Tal incapacidade em reconhecer a má condução da economia apenas acentua a descrença de investidores e empresários no Brasil. Eles pararam suas máquinas e congelaram decisões de investimento no aguardo por dias melhores. Resultado da pouca confiança do setor privado no país é que a projeção para a taxa de investimento da economia em 2014, medida pela Formação Bruta de Capital Fixo, mostra queda de 2,4% na comparação com o ano anterior.
Os investimentos só devem ser destravados após o pleito eleitoral. Aécio Neves, do PSDB, mantém-se como favorito do mercado, seguido por Marina Silva, que tem demonstrado ao menos a intenção de montar uma equipe disposta a recuperar o tripé econômico. Já a presidente Dilma parece continuar vivendo no mundo de faz de conta. Em entrevista ao Jornal Nacional na última semana, como candidata à reeleição, afirmou que os indicadores antecedentes da economia apontavam uma recuperação do PIB no segundo semestre. Tais índices são compostos pela produção de indústrias de embalagens e papelão, e que apontam a tendência das encomendas da indústria. Já nesta segunda-feira, Dilma voltou atrás e disse a jornalistas em Brasília que não tem "expectativa" quanto aos novos dados do PIB. "Não faço estimativa prévia, não. Nunca fiz expectativa. Não force a barra", desconversou a presidente.
Os números (veja gráfico), contudo, mostram o contrário do que a presidente quer acreditar. O país já está, sim, em recessão técnica, segundo o monitor do PIB do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). O levantamento, divulgado na segunda-feira, acompanha os mesmos indicadores econômicos que o IBGE e aponta que a riqueza gerada no país recuou 0,45% no segundo trimestre deste ano, após ter diminuído 0,12% nos primeiros três meses de 2014. Outros indicadores mostram diagnóstico similar. O Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br), considerado uma prévia do PIB, recuou 1,2% no segundo trimestre ante o primeiro e permaneceu praticamente inalterado, com avanço de apenas 0,08%, no acumulado do ano. Já a produção industrial caiu 6,9% em junho ante igual período do ano anterior, consolidando o quarto mês consecutivo de queda e o pior resultado desde setembro de 2009, quando o indicador recuou 7,4%. No acumulado do ano, houve retração de 2,6%. O Índice de Confiança da Indústria (ICI) no Brasil teve variação negativa de 3,2% em julho ante junho, para 84,4 pontos, informou a Fundação Getulio Vargas (FGV). Trata-se do menor nível desde abril de 2009, quando o indicador atingiu 82,2 pontos. Já as vendas no varejo caíram 0,7% em junho ante maio, afirmou o IBGE. Em 12 meses, a alta é de 4,9%, número bem distante das variações de dois dígitos que costumavam ser registradas até 2012.
Ruim e realista — Diante de tantas variáveis, o diagnóstico feito por especialistas ouvidos pelo site de VEJA é ruim — e realista. A deterioração do cenário econômico entre abril e junho pode contribuir para que o desempenho da economia brasileira entre janeiro e março seja revisado para patamares negativos. Caso, além da revisão, o resultado do segundo trimestre também venha no vermelho, como apontam alguns analistas, configura-se recessão técnica. 
A economia brasileira expandiu somente 0,2% no primeiro trimestre 2014 na comparação com os três últimos meses de 2013. "Com a economia paralisada desde o segundo trimestre do ano passado, acho inevitável falar em recessão. Temos certeza de que o resultado do PIB será negativo, e uma desaceleração intensa pode acabar puxando o resultado do trimestre anterior para baixo. Com uma expansão próxima de zero, há grandes chances de ser confirmada a retração no primeiro trimestre", afirma o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. "Temos uma economia que está há quatro anos em profunda desaceleração, desde o pico de crescimento em 2010, fragilizada por questões domésticas. O ponto é que tivemos um governo muito intervencionista nos últimos anos, que protagonizou uma queda de braço com o setor privado. Investidores sentiram-se desmotivados, esperando a situação melhorar", completa. 
Ainda que a expectativa ruim não tenha oficialmente se convertido em recessão, pelo menos não até a próxima sexta, já existe o clima recessivo — que é tão nocivo quanto. "É como se o mercado enxergasse, na prática, um clima de recessão econômica. Precisamos de um governo que crie um novo ciclo de reformas que reduza o custo Brasil e aumente a taxa de investimento”, diz o economista-chefe da INVX Global Partners, Eduardo Velho. Segundo Velho, caso nenhum dos candidatos de oposição vença, a única forma de tentar dissipar a atmosfera de descrença é uma mudança brutal na equipe econômica petista — algo pouco provável, diante da própria incapacidade dos gestores em questão de reconhecer a lambança feita no país. “A convocação de profissionais pró-mercado e sensíveis às necessidades de ajustes para elevar a produtividade poderá trazer efeitos positivos para a economia brasileira", diz.
​Perspectivas - Estimativas do relatório Focus do Banco Central apontam para um crescimento de apenas 0,70% em 2014. O economista-chefe do Santander, Maurício Molan, confirma que, diferentemente de 2008, quando houve a crise financeira, o atual período de estagnação econômica é explicado por razões internas. “Os motivos da recessão de 2008 foram totalmente externos. Desta vez, estamos vendo um desempenho mais fraco e uma falta de confiança na economia por fatores predominantemente domésticos, como inflação próxima do teto da meta, falta de controle das contas públicas e elevados custos de produção.”
A previsão para o próximo ano é de que a economia se mantenha fraca, pressiona pela necessidade de reajustes na política fiscal. Economistas apontam para expansão de 1,2% em 2015. "A previsão para 2015 é de baixo crescimento econômico, dada a necessidade de reajuste fiscal. Os reajustes contribuirão para uma menor expansão da economia, já que o governo será obrigado a cortar gastos e investimentos", afirma o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno. De acordo com Rostagno, o mercado de trabalho deverá sofrer os impactos da contração econômica a partir do ano que vem. “O mercado de trabalho passará a refletir o ambiente de baixo crescimento econômico e inflação alta. A expectativa é de que ano que vem o mercado de trabalho comece a dar sinais mais consistentes de enfraquecimento com a deterioração do cenário econômico.”

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