'Há uma sensação de chega de PT’, diz Geddel

Candidato ao Senado pelo PMDB, ex-ministro da Integração critica centralismo da presidente Dilma Rousseff e aposta no desgaste da gestão Jaques Wagner para se eleger em uma chapa de oposição

Laryssa Borges, de Salvador
O candidato ao governo do Estado da Bahia, Geddel Vieira Lima (PMDB)
Geddel Vieira Lima: "No dia em que quiser ser um grande partido, o PMDB tem que disputar uma eleição e, se perder, ficar na oposição. Infelizmente falta coragem". (Agência A Tarde/VEJA.com)
"Dilma quer ser presidente da República, presidente da Caixa, ministra da Fazenda, da Integração e do Planejamento. As coisas acabam não acontecendo, os ministros se amedrontam diante dela e o país para. Importantes conquistas que tivemos nos governos Lula e Fernando Henrique estão indo embora por causa do estilo dela"
Líder nas pesquisas por uma vaga ao Senado na Bahia, Geddel Vieira Lima é um raro caso de político do PMDB que decidiu romper com o PT depois de ocupar cargos no governo federal. Mais que enfrentar as eleições na oposição, ele é fiador de uma chapa com PSDB e DEM no maior colégio eleitoral do Nordeste, onde o PT foi campeão de votos nas últimas eleições. Ex-ministro da Integração Nacional e ex-vice-presidente da Caixa Econômica Federal, Geddel afirma que a má avaliação do governo Jaques Wagner (PT) não será revertida até a data das eleições: "Há uma sensação de ‘chega de PT’", diz o baiano em entrevista ao site de VEJA.
Como se tornou possível a aliança entre DEM, PSDB e PMDB na Bahia? Nos últimos anos, tudo foi ruim no governo estadual. A violência aumentou muito, a saúde vai muito mal, é uma chaga social. A educação é muito ruim. O governo Jacques Wagner foi de muita propaganda, mas, como as coisas não aconteceram, houve fadiga de material. Há uma sensação, natural e democrática, de ‘chega de PT’. Isso nos uniu. 
PT e PMDB, o seu partido, têm uma aliança no plano nacional. O senhor teve cargos importantes nos governos Lula e Dilma. Por que aderir assim a um projeto de oposição? O primeiro caminho que eu procurei, por acreditar que tenho maturidade política, foi viabilizar o meu nome para ser candidato. Ainda acho que essa é uma ambição legítima. Mas não consegui apoio suficiente, e não poderia deixar meu desejo encobrir esse fato. Então, procurei outro caminho. O que me pautou foi uma avaliação objetiva dos resultados da gestão petista na Bahia. Essa gestão não deu certo. Jaques Wagner não deu certo. 
Há quem o descreva como oportunista. Não vou perder o sono por causa disso. Em futebol, por exemplo, o maior elogio que se pode fazer a um centroavante é chamá-lo de oportunista. Ele se posiciona com inteligência e aproveita a oportunidade para fazer o gol. Em política não é tão diferente. Nós temos um país com uma tradição partidária deficitária. O discurso ideológico também não é claro. Nesse cenário, ficar sempre no mesmo lugar representa apenas uma pseudocoerência. Não é melhor buscar novos caminhos quando as oportunidades se apresentam? 
Então, esperar lógica nas alianças entre partidos no âmbito regional é cobrar tão somente uma ‘pseudocoerência’? Exigir que não se mude nunca é querer uma pseudocoerência. Coerência para mim diz respeito a princípios basilares, como não matar e respeitar pai e mãe. Agora, não estou fazendo uma aliança com o Hitler. E quando estava aliado com o PT, não era o mesmo que fazer uma aliança com o Stálin. Sempre me falam que fui aliado de Jaques Wagner e que agora sou adversário. Sim. Mas o governador foi se desgastando politicamente e terminou fazendo aliança com todo mundo. Ele misturou muita gente, perdeu a identidade. O PT era um partido que se dizia puro e que cresceu em sua pureza. Assim que Jaques Wagner ganhou, ele fez uma aliança com adversários do carlismo. Depois, virou mais carlista do que todo mundo e começou a se afastar do PMDB. Foi o PT que iniciou a geleia geral, contra o discurso que fez a vida inteira.
Ao contrário do senhor, uma grande parcela do PMDB marcha com a presidente Dilma Rousseff. O PMDB é um partido que orbita o poder? Com a reeleição do presidente Lula, o PMDB quis ficar. Ele conseguiu unificar o PMDB em torno do projeto dele. E o PMDB terminou marchando com o projeto dele praticamente unido. Só que o Lula era o Lula. Ressalvadas as diferenças ideológicas de Lula e Fernando Henrique Cardoso, os dois têm essa noção de que os problemas do presidente da República são criar consensos ou administrar dissensos. Não é o caso da presidente Dilma. Claro que o PMDB tem problemas, como todos os partidos brasileiros. Isso é próprio de partidos que não são estruturados. No dia em que quiser ser um grande partido, o PMDB tem de disputar uma eleição e, se perder, ficar na oposição. Infelizmente falta coragem, falta tradição. Não se lança candidato próprio se você ficar sempre na linha do governo. Partidos podem e devem fazer alianças, mas quando tiverem a chance, que lancem um candidato próprio. Hoje, o PMDB não tem um nome nacional capaz de se lançar candidato. Por isso o PMDB fica orbitando o poder.
Por que o senhor participou do governo Dilma, como vice-presidente da Caixa Econômica, se é tão crítico da presidente? Nem sempre fui tão crítico. Participei do governo e saí. Fiz o teste e não gostei. Minhas posições estão lá no Conselho Deliberativo da Caixa. Eu achava que estavam no caminho errado e tentei resolver. Quando você não faz, você sai. Na contramão do que a imprensa chama de fisiologismo, eu não fui para o poder, eu saí do poder. Saí do poder com Jaques Wagner, saí do governo da presidente Dilma. Não vejo onde está a incoerência nisso. Aliás, o povo muda. Tanto que as pessoas não votam sempre no mesmo candidato. Volto a dizer: eu não sou preso a essa pseudocoerência.
Em 2010, a presidente Dilma participou da convenção que confirmou seu nome como candidato ao governo, mas depois bancou apenas Jaques Wagner. Ficou uma mágoa?Se alguém deve explicação, não sou eu à presidente Dilma, mas Dilma a mim. Na eleição de 2010, ela esteve aqui na Bahia depois de um acordo com o meu partido em nível nacional para dizer que havia dois palanques. Veio à minha convenção e declarou que havia dois palanques. Declarou apoio e, em determinado momento, quando achou que não precisava mais, voltou à Bahia para dizer que só tinha um palanque. Então eu não devo nada à Dilma. Isso não é mágoa, é uma constatação. Quando eu fui para a Caixa Econômica, eu não fui por favor da Dilma. Eu conquistei esse espaço.
O senhor foi próximo do PT e hoje encarna o anti-petismo. Como foi a mudança? Há uma diferença de estilo entre os presidentes eleitos pelo PT. O presidente Lula, a quem servi, tinha uma noção de que presidente da República tem que assumir responsabilidades, mas delegar ações. A presidente Dilma tem um estilo voluntarista. Ela quer centralizar tudo e fica com uma posição errática na gestão e na administração. Ela quer ser presidente da República, presidente da Caixa, ministra da Fazenda, da Integração Nacional e do Planejamento. As coisas acabam não acontecendo, os ministros se amedrontam diante dela e o país para. Importantes conquistas que tivemos nos governos Lula e Fernando Henrique Cardoso estão indo embora por causa do estilo dela de administrar e gerenciar. 
Na disputa pelo governo da Bahia, é mais fácil para a oposição enfrentar o petista Rui Costa, que nunca disputou um cargo majoritário? Jaques Wagner só escolheu Rui Costa para manter sua influência política em um eventual governo. O Rui é marionete dele. Mas minha avaliação hoje é que se nosso adversário fosse Chico, Francisco ou Paulo, não importa, eles perderiam. Assim como do lado de cá, se fosse João, Manoel ou Joaquim, ganharíamos, tal é o desgaste do projeto petista na Bahia. Em um estado governado por um sindicalista, como Jaques Wagner, ele erra onde não podia errar, nas greves. Supostamente o governador teria um diálogo franco com os sindicatos. Foram duas greves da Polícia Militar em uma corporação cujas regras são a hierarquia e a disciplina.

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