Rolando Boldrin


Eu amo os atores que sabem
que a única recompensa que podem ter
– não é o dinheiro, não são os aplausos
– é a esperança de poder rir todos os risos
e poder chorar todos os prantos
Plínio Marcos

Tenho grande admiração por Rolandro Boldrin, apesar de não conhecê-lo pessoalmente. Formidável carreira. Inspiradora contribuição a Música Popular Brasileira, a arte em geral, a dinâmica que perpetua nossa cultura... Já usei a frase: "Vamos tirar o Brasil da gaveta", de Boldrin aqui no Blog Diário da Música. Frase excepcional de multiplos significados e significantes, ontem, hoje e sempre.

Vida marvada - Rolando Boldrin


Rolando Boldrin (São Joaquim da Barra, 22 de outubro de 1936) é um compositor, cantor, ator e apresentador de televisão brasileiro.

Marcou época na TV com a brilhante interpretação do inesquecível barão Leôncio, na novela Os deuses estão mortos.

Atualmente apresenta o programa Sr. Brasil da Rede Cultura de São Paulo às 22h das terças-feiras, e às 10h dos domingos o programaViola minha viola.

Em 2010, foi tema do desfile da escola de samba Pérola Negra no carnaval de São Paulo com o enredo "Vamos tirar o Brasil da gaveta". O seu empenho em ressaltar a cultura nacional foi um dos pontos centrais do desfile.


Rolando Boldrin: Vamos tirar a memória musical desse artista da gaveta

O Começo

Vá, caboclinho... ...e muito juízo por lá.”

Às vezes de brincadeira, tiro conclusões, mas é para justificar o fato do velho Amadeu e de Dona Alzira chegarem a uma “dúzia” de filhos, justamente no “atravanco” da época braba da segunda grande guerra, quando havia até racionamento de açúcar, farinha e automóvel movido a gasogênio. Lembro da casa de quarto e cozinha de chão batido, sem fogão a gás, sem geladeira nem rádio.

Doze crianças, seis homens e seis mulheres, esparramados em “riba” de colchões de palha de milho com travesseiros de pena de galinha. E eu acabei sendo o sétimo filho, nascido em 22 de outubro de 1936, o único na família, por força do destino, “encarregado” de cantar e contar a minha terra em verso e prosa desde muito cedo.

Onze horas da manhã, as vozes dos locutores Lafayette Leandro e Airton Gouveia se faziam ouvir. -- E com vocês...a dupla de ouro...a dupla que vale ouro, a dupla que é um verdadeiro... tesourooooooo:BOY e FORRRRR...MIGA! Era o programa de auditório de uma hora de duração, com direito até a jingle do patrocinador e cachê artistico.

A fama dos dois meninos de vozes ardidas crescia tanto que já eram convidados para apresentações em palcos de cinemas de outras cidades. O Boy da dupla, na sua infantilidade varonil, fazia sua exigência determinante: - O filme da tela tem de ser “brasileiro”, senão não canto.

O Boy era...eu.

A vinda “pras capitá” foi um pouco cedo demais, para um moleque de 16 anos.

O velho Amadeu num surpreendente gesto de apoio, tira do bolso lá dele uma nota de 100 mil réis, entrega ao menino para em seguida estender as costas da mão direita de mecânico cheirando a gasolina, insinuando um beijo de “benção”. Ainda, com forças emocionais, recomendou carinhosamente:
-Vá, caboclinho. E muito juízo por lá.

O desembarque em São Paulo, foi às 6 horas da madrugada do dia seguinte na barulhenta Estação da Luz. A procura de um emprego qualquer de sapateiro, profissão iniciada em São Joaquim, ou de entregador de roupas de tinturaria, nas imediações do bairro da Luz, foi como tinha de ser. A pé.

E eu...bem, eu como não “sonhava” outra coisa senão ser um ATOR, continuei perseguindo este destino.

Depois de enfrentar empregos diferentes como os de: sapateiro, frentista de posto de gasolina de bêra de estrada, auxiliar de armazém na área cerealista de São Paulo, este último emprego inaugurando a carteira de trabalho novinha, depois de muitas idas e voltas pelo interior, lendo, cantando e declamando coisas que emocionam... Fui procurar as emissoras de São Paulo para testes do que desse e viesse.

Podia ser de cantor ou ator de novelas de rádio, ou mesmo de programas humorísticos, o que, aliás, não faltava.

Nas rádios de São Paulo, América, Itapetininga, Record, em todas elas, deixava minha voz registrada para teste, e durante meses aguardava ansiosamente algum retorno de notícia que não veio.

A última tentativa foi na Rádio e TV Tupi, a pioneira no Brasil. TV Tupi Canal 3, onde habitavam os grandes mestres dessa arte maluca que é transmitida vinda do espaço, passando por dentro de fio elétrico, coisa que me espantava só de imaginar como podia ser isso...

Em 1958 fui incluído no quadro de figurantes com direito a um teste pra Rádio também. A primeira tentativa pra cantor aos olhos do Heitor, tendo ao piano o Maestro Élcio Álvares, foi um notório fiasco. Também quem mandou me aventurar num bolero do Gregório Barrios. Bem feito. Ainda se tivesse tentado um sambinha de breque, que nesta época era o meu forte ou mesmo uma toada do “Mourão da Porteira”.

Entre uns 300 colegas figurantes nessa luta estavam alguns artistas que depois se tornariam meus amigos imortais: Plínio Marcos, Fúlvio Stefanini, Chico de Assis, Walter Negrão e muitos outros. A maioria ia desistindo no meio do caminho tão difícil que era virar artista de verdade nesse tempo.

Era um “trabalho” de artista. Fui me familiarizando com esse meio e vendo que não era uma coisa do outro mundo, tudo era mundo natural, mesmo tentando imaginar como minha imagem passava pelo fio...

1966 foi o ano de rompimento temporário com a televisão, numa arrancada corajosa, por que além de perder a estabilidade do emprego fixo, que já durava 8 anos, ficara prejudicada a projeção artística conseguida a duras penas na Emissora da “moda”, a TV Tupi de São Paulo. Mas, os teleteatros e novelas da Tupi, ou de outros canais, agora tinham ficado para outro tempo.

A estréia foi no TBC entre feras do Grupo Oficina na peça “Os inimigos”, de Máximo Gorki, escritor russo da terra do grande Eugênio Kusnet, que também estava no elenco. A direção era de Zé Celso Martinez Corrêa.

O “salto” seguinte foi para o famoso Teatro de Arena, marca registrada do grande ator e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri, lugar onde se podia “ brincar” de ator com grandes companheiros em vários espetáculos. Agora sim. Estava do jeito que eu queria.

Peça de autores brasileiros num importante movimento da classe teatral na resistência heróica à revolução militar de 64, quando nós atores nos palcos levávamos “pancadas” na cacunda e ampolas de gás ardido nos olhos, junto a um público solidário nas idéias revolucionárias dos anos 70.

Depois de ter vivido um montão de personagens na televisão, mais a experiência no teatro, até que poderia acontecer algum convite pra cinema...

Mas isso demorou um pouco.

Foi em 1978 que o João Batista de Andrade apareceu lá em casa de “pareia” com meu amigo David José, um roteiro nas mãos e perguntou o que eu achava do meu país.

Tomamos café coado, falamos amenidades, rimos um pouco com meus “causos” de São Joaquim, e o João entrou no assunto sério começando por dizer que o cinema brasileiro era pobre, dinheiro curto etc... mas que queria me ver na tela grande interpretando o ferroviário de sua história: O “Pereira”.

Para a filmagem a gente ficou residindo por várias semanas num “vagão” entre a fumaça das “locobreques” da estaçãozinha de Paranapiacaba.

Eu, numa espécie de laboratório para interpretação, passei a beber pinga com Cambuci, jogar bilhar com os ferroviários autênticos da estação, barganhando com os mesmos as roupas novas do figurino, e a barba por cortar.

O convívio gostoso com os companheiros de TV Irene Ravache e Antonio Fagundes, o triângulo amoroso desta história do João Batista, e estava feito “Doramundo”. E eu... o “Pereira maquinista”.

Foi talvez devido ao sucesso do “Doramundo” que logo depois (20 anos apenas), em 1998, o mesmo João Batista reapareceu. Desta vez o personagem seria um velho coronel das bandas de Pirenópolis, em Goiás, com uma barba lembrando Karl Marx: O Tronco.



Som Brasil

O projeto musical teve início em 1981, na Rede Globo, com o “Som Brasil”. Bem que poderia ter nascido exatamente onde hoje ele, Sr.Brasil, se “aninha” com sucesso.

“Um causinho”

Em 1980, a TV Cultura convidou-me para apresentar um programa “sertanejo”, pois que a minha fama de “Cantadô” rodava por aí por conta de alguns discos gravados com modas “caipiras” e canções antológicas. A proposta da Cultura com o novo programa era a de concentrar suas atrações no universo único da “Viola”, através das centenas de duplas “sertanejas” existentes no mercado fonográfico, com uma música de grande apelo comercial desde sempre.

Justifiquei a recusa ao honroso convite, usando como argumento a amplitude do meu projeto musical, que era exatamente o contrário do “histórico” “Viola minha Viola” (sucesso há 27 anos). O “Som Brasil”, que eu havia criado para oferecer a uma Emissora de TV, tinha como o próprio título induz a pensar a idéia de um grande mapeamento musical e cultural, devido à grande diversidade dos ritmos e músicas do país. E ainda, minha recusa baseava-se no fato de considerar-me apenas um ator. Um contador de histórias. Nunca um apresentador.

Aproveitando a “dêxa” daquele convite, sugeri para o meu lugar, nessa empreitada de apresentador do “Viola minha viola”, da TV Cultura, dois artistas pelos quais tinha e tenho o maior apreço e profunda admiração: Inezita Barroso e o saudoso radialista Moraes Sarmento.


Estação Brasil
CNT, 1997


Estação Brasil veio muitos anos depois. Foi uma experiência em terras do Paraná, na CNT, emissora que prometia uma grande investida no campo das TVs. A gente gravava em Curitiba.

Na criação do novo (velho) programa eu quis fazer uma homenagem ao Rádio, deixamos de lado o cenário de um Empório e criamos (eu e José de Anchieta) um estúdio de Rádio com direito à sonoplastia jingle e tudo (daí o título "Estação").

O sonoplasta era um funcionário da Globo, o Adauto, um ótimo imitador de vozes que batizei de Zé Repetéco. Ele fazia uma ponte para os meus causos etc. O programa era muito divertido. Recebemos muito carinho dos Curitibanos. Mas, e sempre haverá um "mas", durou também apenas um ano a nossa brincadeira de "Rádio".

Daí pra frente viria o tempo em que ficaríamos todos na "GAVETA". E diga-se de passagem, foram uns 10 anos, para...finalmente em 2005 , agora num dueto mais feliz do que nunca, uma "pareia" com uma criadora de sonhos verdadeiros como eu, a produtora e cenógrafa, Patrícia Maia, tirarmos da GAVETA um BRASIL empoeirado e, consequentemente, ainda mais "empoeirado" do que o BRASIL este "CAPIAU" "desacorsoado"que antes da "volta" era Eu.

Nasce assim em 2005, o SR. BRASIL. E justamente no lugar onde deveria ter nascido em 1981. Na TV que leva o nome fundamental para um programa que canta apenas e tão somente a nossa CULTURA BRASILEIRA.


Empório Brasileiro
TV Bandeirantes, 1984


O Empório Brasileiro foi na TV Bandeirantes, em 84, 06 meses depois da saída da Globo.

Um seguimento do Som Brasil, apenas com outro título. Foi a primeira experiência no horário noturno, todas as terças-feiras às 21h00. Valeu por um ano. A gravação era no teatro do SESC Pompéia, o mesmo onde hoje se "aninha" o atual Sr. BRASIL da TV Cultura. Havia reprise do Empório aos domingos de manhã com a intenção de atender o público acostumado com as manhãs do Som Brasil, na TV Globo. O mesmo acontece também nos dias de hoje na TV Cultura. As manhãs de domingo viraram tradição desses programas regionais.

Alí na Band a gente permaneceu por um ano apenas. Era notório a falta de “interesse" do público em virar o botão e mudar de Canal. A Globo persistira com o Som Brasil tendo o Lima Duarte (meu compadre) no alinhavo do programa.(briga fácil pra Globo)

Empório Brasil
SBT, 1989


Depois de um tempo de aproximadamente quatro anos só cantando e contando histórias ao vivo nos palcos de teatros etc, êis que por insistência e teimosia do grande artista gráfico, o compade Elifas Andreato, a gente se aportou (eu e ele-Elifas) num dueto feliz no SBT, quando o dono Silvio ainda nem suspeitava quem seria "Almeida Junior". Ele pensava que o dito-cujo fôsse o criador do cenário (que era do Elifas) só por que havia uns quadros antológicos do grande pintor de Itú no belíssimo cenário do Elifas. "O caipira picando fumo" e “O Violeiro".

Alí, a gente tirou o "Brasileiro" do título do programa anterior, substituindo por Brasil, o que vinha a ser a mesma coisa, e ficou Empório Brasil. Também as terças com reprise aos Domingos. Tudo igual. Como tinha nascido em 1981 na TV Globo.

Correu um "boato" (como na minha canção-tema) que naquela época, 1989, devido á muita comparação negativa por parte do público que cobrava o Som Brasil original, a Globo resolvera então descartar o histórico musical que nascera comigo lá pros lados de São Joaquim e de Guaira, acho que muito antes de existir a Televisão.

No SBT também ele duraria apenas um ano.


Sr. Brasil
TV Cultura, 2005-2008


O projeto dos musicais começou em 1981 e seguiu em outros canais com outros títulos e caminhou comigo, e caminha ainda hoje, com o mesmo propósito: Divulgar os ritmos, os temas, os artistas e as culturas regionais. E vale tudo já escrito em prosa, verso e música – e histórias a serem contadas. O programa é aberto e receptivo... só não se permite nele o que não seja genuinamente nacional.

Assim no Sr. Brasil... na TV Cultura, desde 2005, apresento músicos de todos os cantos, de todos...

O cenário traz uma grande exposição do artesanato brasileiro...


Leia mais aqui:

DISCOGRAFIA

Shows
Festivais e resistência ou Compositor e cantadô
A censura era extremante ridícula, proibia tudo, fosse na música, no teatro, na literatura... na vida. E os atores resistindo, o pessoal do Arena, do Oficina. Fazíamos reuniões em teatros lotados, até de manhã.

Tinha o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) que não deixava os artistas em paz. Estávamos sempre a postos para rebater. Os artistas se davam as mãos e enfrentavam até tiros...(LEIA mais aqui)

Causos do Rolando e muito mais.

Almir Sater contando causos com Rolando Boldrin, no Sr. Brasil



Fragmento do programa Senhor Brasil, apresentado por Boldrin, com participação de Canarinho.


Atuação no cinema
1999 - O Tronco .... Pedro Melo
1987 - Ele, o boto .... narrador
1978 - Doramundo .... maquinista Pereira

Atuação na televisão
1981 - Os imigrantes .... Décio
1980 - Pé de vento .... Junqueira
1980 - Cavalo Amarelo .... Alberto
1979 - Cara a cara .... Orestes
1978 - Roda de fogo .... João Luiz
1977 - O espantalho .... Juca
1977 - O profeta .... João Henrique
1975 - A viagem .... Alberto
1975 - Fatalidade
1975 - Ovelha negra .... Júlio Monteiro
1974 - Os inocentes .... Otávio Queiróz
1973 - Mulheres de areia .... César
1972 - Quero viver .... Alfredo
1972 - O tempo não apaga .... Bernardo
1971 - Quarenta anos depois .... Leôncio
1971 - Os deuses estão mortos .... barão
1970 - As pupilas do senhor reitor .... padre José
1969 - Algemas de ouro .... Cícero
1969 - Seu único pecado
1968 - Ana .... César
1968 - O direito dos filhos .... Ernesto
1966 - Calúnia .... Belot
1965 - Olhos que amei .... Alexandre
1964 - Gutierritos, o drama dos humildes
1964 - O direito de nascer .... Ricardo
1964 - Quem casa com Maria? .... Igor
1964 - Se o mar contasse .... padre Juca
1964 - Alma cigana .... Afonso
1963 - Moulin Rouge, a vida de Tolouse Lautrec .... Van Gogh
1962 - A estranha Clementine

TV de Vanguarda
1959 - Senhorita Reed .... Johnson
1958 - O mordomo e a dama
1958 - O comediante .... Cornier
1958 - O preço da glória .... Resfriado
1958 - O grande amor de Maria Waleska
1958 - Os miseráveis

Os Valores da Vida


FONTE

Diário da Música


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