"DILMÊS"


Num post antológico, Celso Arnaldo lembra as origens do dilmês e desmonta o pior discurso de todos os tempos

MINHA CASA, MINHA DILMA: NAS MORADIAS DE PAPEL CONSTRUÍDAS PELA SUPERGERENTE, NENHUMA IDEIA FICA DE PÉ
Celso Arnaldo Araújo
Trazida à superexposição de uma improvável candidatura a presidente, sem escalas, direto dos subterrâneos da Casa Civil, onde a supergerente de lendária eficiência comunicava-se apenas por interjeições, imprecações e pitos sumários, ela acusou o choque quando pisou o primeiro palanque e enfrentou o primeiro microfone.
Convidada a revelar aos brasileiros sua visão dos problemas nacionais, o espanto que se ouviu, na fala de Dilma Roussef, está fartamente documentado nos arquivos desta coluna. Fosse num palanque improvisado no sertão do Piauí ou no estúdio high-tech do Jornal Nacional no Jardim Botânico, a candidata de Lula se expressava em língua estranha, espécie de patois brasileiro, incomum em pessoa de formação universitária, investida de funções dessa importância e apresentada ao país como a primeira possibilidade de uma presidente mulher.
Começando pela dificuldade extrema em fazer uma mera saudação aos presentes ou aos ouvintes (“Oi, internautas), qualquer manifestação sua, sobre qualquer assunto, dos estritamente pessoais aos temas técnicos de apregoado domínio, esbarrava em raciocínios embotados por graves problemas de concatenação de ideias, redundância e desinformação, conseguindo reunir na mesma oração um tratado de vícios de linguagem: barbarismos, ambiguidades, cacofonias, vulgarismos, solecismos, obscuridades, apedeutismos. O dilmês causou um susto nos brasileiros que ouvem e pensam – só nesses, é claro.
Não pela oratória em si. Há pessoas preparadíssimas que não se expressam bem – preferíveis, por sinal, às que dão um show de palavreado para camuflar a falta de conteúdo. Mas o problema de Dilma parecia mais complexo. A forma primitiva da fala da candidata traía – o que era evidente, pela repetição sistemática – o primarismo do pensamento e um despreparo generalizado. Dilma não apenas falava mal – mas parecia não saber do que falava.
Eleita presidente assim mesmo, e no cargo há mais de um ano, já deveria a esta altura ter se beneficiado de um dos apanágios do cérebro humano: o aprimoramento pela repetição. Dilma, no entanto, piora a cada dia – e a desarticulação de seu governo talvez seja produto de sua incapacidade de pensar e verbalizar o Brasil. Quando fala, Dilma invariavelmente é um triste espetáculo de pensamentos rudimentares, expressos por uma combinação de palavras que desafiaria estudiosos da neurolinguística em aborígenes australianos.
Mas o discurso que fez semana passada, por ocasião da entrega de 480 unidades do Minha Casa Minha Vida em Recife, é de longe o “state of the art” do dilmês, talvez o pior discurso de todos os tempos – dela e em escala mundial, em nível presidencial.  Saísse de Obama, Santorum já poderia preparar seu altarzinho na Sala Oval da Casa Branca. De Sarkozy, e Dominique Strauss-Khan estaria autorizado a ir ao Palácio do Eliseu e ali montar uma suíte pare receber a camareira guineana como sua primeira-dama.
‘EU QUERIA CUMEÇÁ COMPRIMENTANDO’
O assunto do dia: a casa própria. Ou própia, segundo Dilma. O Minha Casa Minha vida é uma das meninas dos olhos vesgos de seu governo e, desde a campanha, um terreno minado para os limites do dilmês. Ela não vai sossegar enquanto não conseguir convencer todo brasileiro de que é melhor morar numa casa própria do que debaixo da ponte e que uma casa é mais do que uma casa. De discursos de campanha, guardei este trecho:
– Porque não é a casa. É o que tem dentro da casa, são as pessoas, né, o significado pra você duquequié tê uma casa e eu acho que é isso que faz com que a gente tem força prá continuá brigano, prá continuá, é, fazendo acontecê aquilo que a gente qué, que é que esse país cresça. É isso que eu acho que a gente qué.
Desde então, ela vem trabalhando o conceito. Em Recife, chegou perto da perfeição, já a partir do introito em legítimo dilmês:
“Eu queria cumeçá (sic) comprimentando (sic) as mulheres aqui presentes”.
Como se nota, promessa de um discurso UÓ.
Mas a média troncha feita com as mulheres merece complemento:
“Eu comprimento também nossos companheiros, queridos, nossos companheiros homens”.
Sente necessidade de explicar porque a mulher foi “comprimentada” primeiro:
“Estou cumeçando pela mulher porque aqui hoje nós tamos falando de casa. Quando a gente fala de casa, a gente fala de mulher e de criança, de família. Por isso, o meu abraço a cada uma das mães e também dos nossos pais aqui presentes”.
A imprensa comeu mosca: Peter Roussev estava na plateia e não foi notado.
Em seguida, bela puxada no governador Eduardo Campos e no prefeito de Recife e uma definição estapafúrdia sobre a palavra oportunidade – mas releve. Nosso assunto é a casa própria e agora ela se refere a uma das moradoras que haviam há pouco recebido a chave.
“A Márcia fala aquilo que toda a mulher fala quando se trata de defendê sua família”.
Eleitoras de Dilma são assim: quem fala é toda a mulher, a mulher inteira, corpo e alma integrados.
Mas fala o quê? Vejamos:
“O quequié que uma mulher qué? A mulher qué uma casa para morar e criar seus filhos, criá com sigurança seus filhos”,
Não é à toa que o lulismo descobriu o Brasil. Só neste governo “além do emprego, que é fundamental pra se mantê as famílias (…), a outra coisa fundamental é a casa própia (sic)”. Não ficou claro? Dilma explica:
“É onde morar”.
Mas isso parece tão óbvio. Porque ninguém pensou em casa própria antes, presidente? O Brasil era um país de aluguel?
“Naquela época, falar no Brasil que a gente ia fazer um programa da casa própia (sic) para a população brasileira era um verdadeiro escândalo. Primeiro, uma parte dizia que era impossível, que a gente não ia fazer. A outra parte dizia que não ia dar certo”.
‘O GOVERNO TEM DE PARTICIPA’
Ou seja: as duas partes diziam a mesma coisa. Por isso, os 22 anos de atuação do Banco Nacional da Habitação e os 25 anos seguintes em que a Caixa Econômica Federal financiou imóveis populares foram despejados da história pelos senhorios do Minha Casa Minha Vida. Um escândalo.
O que mudou com o MCMV? Dilma explica, tão clara como cristal:
“O quequié que a nossa sensibilidade política determinou? Que era para que o povo pudesse ter casa, o governo tinha de ajudá. Um simples raciocínio: é impossível, com o preço das casas, o pessoal comprá casa sozinho. Então, o governo tem de participá”.
Como ninguém pensou nisso antes? E mudou também a mecânica de financiamento, presidente? Bidu.
“É o governo passando dinheiro não para quem constrói a casa, mas para quem compra a casa. O dinheiro sai da Caixa Econômica e vai direto pra aquele que compra a casa”.
Quer dizer que os felizardos do Minha Casa Minha Vida ficam com a casa e levam também um bônus equivalente em dinheiro? É isso? Não é à toa que , como disse Dilma no histórico discurso do Recife, “iniciamos com um milhão de moradias, passamos pra dois milhões de moradias e necessariamente passaremos pra mais moradias”.
Nunca se gastou tanto papel ofício em Brasília.
PIORES MOMENTOS DO ÚLTIMO CAPÍTULO
Mas não é só. Não perca, a seguir, em “Minha Casa, Minha Dilma II, a missão”:
*A política do “se virem”, segundo Dilma: “Aquela política que entrega pro povo o problema que ele não pode resolvê”
*A cidade é uma coisa fundamental: ”Nós não podemos abandonar, não podemos deixá as nossas cidades degringolarem, que aonde a gente more não tenha aquele cuidado que a gente coloca na casa da gente”
*Dúvida cruel da presidente: “Cumé que sai de casa e vai trabalhá, cumé que sai de casa e vai passeá?”
*A frase do século: “O Brasil não pode pará”.

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