Intelectuais em extinção? Não, eles estão se proliferando sem controle.

O capitalismo não nos tornou menos questionadores. Pelo contrário: nos deu tempo e recursos para problematizar qualquer picuinha da vida pública.

O escritor argentino Alberto Manguel disse esta semana em São Paulo que “o intelectual é uma espécie em extinção. Vivemos em um mundo estruturado em torno da máquina comercial”. Ele acredita que o capitalismo nos tornou menos questionadores. “Não diria que já tivemos uma sociedade justa. Mas no passado havia um esforço para questionar momentos injustos.”
Foi um solavanco ler essas declarações, pois são o oposto do que acredito. Não, os intelectuais não estão em extinção. Um traço contemporâneo é a proliferação sem controle de intelectuais – e isso acontece justamente por causa do capitalismo.
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Cada vez mais gente tem tempo e dinheiro para gastar legislando sobre a vida alheia e problematizando qualquer picuinha da vida pública. Da continência dos medalhistas olímpicos até o Kinder Ovo para meninas, tudo é problema, tudo é injustiça e motivo para mais leis, mais intervenção, mais receitas de um mundo melhor.
Até três séculos atrás, três quartos da população trabalhavam produzindo comida. A noite chegava e ainda era preciso cortar a lenha: não havia tempo para ler ou escrever. Não havia livros. Com uma ou outra exceção, só nobres ou apadrinhados pela nobreza desfrutavam o luxo de serem intelectuais.
Hoje só 3% dos trabalhadores produzem comida. A tecnologia fez o esforço humano render mais e liberou milhões de pessoas comuns do trabalho pesado. Deu a elas a possibilidade de ler romances, escrever, fazer cursos de filosofia, gastar horas problematizando no Facebook ou frequentar palestras de Alberto Manguel.
E o que fazem esses intelectuais que só existem por causa do aumento da produtividade criado pelo capitalismo? Gastam a vida reclamando do capitalismo.
@lnarloch

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