Tesourinha: O "Melhoral dos Cracks"

Nascido Osmar Fortes Barcellos, em Porto Alegre, no ano de 1921, ganhou o apelido de Tesourinha em decorrência da sua participação no bloco de carnaval Os Tesouras, fundado pelo seu padrasto. 

Tesourinha participava dos desfiles em companhia do irmão mais velho, Ademar. Ambos levavam o estandarte do bloco pelas ruas da Cidade Baixa. Ademar passou a ser conhecido como Tesoura, enquanto Osmar, por ser menor e mais novo, virou Tesourinha, que passou a ser sua identidade e como se tornaria conhecido.

Fonte: Sport Club Internacional.
No dia 23 de outubro de 1939, no Estádio da Montanha (Cemitério João XXIII, atualmente), contra o Cruzeiro, Tesourinha substitui Carlitos, lesionado. Vitória de 2 x 1 para o Internacional, em jogo válido pelo Campeonato Metropolitano. Era a estreia daquele que se tornaria a grande estrela do Rolo Compressor e que como parte do pagamento, durante o período inicial de sua carreira, recebia diariamente dois litros de leite e um quilo de carne, a fim de bem nutrir o minguado atleta, cujo tamanho era inversamente proporcional ao seu futebol.

Fonte: JÚNIOR, Amaro. Almanaque esportivo do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Tipografia Esperança, 1946.
Ao lado de Carlitos, Adãozinho e Villalba formou o clássico ataque que conquistou, consecutivamente, os títulos Estaduais de 1940 a 1945 e o Bicampeonato de 1947 e 1948. O dono da camisa sete Colorada tinha um estilo de jogo fulminante e decidido, famoso tanto pela sua extrema velocidade no arranque, quanto pelos seus dribles rápidos e desconcertantes.

Fonte: JÚNIOR, Amaro. Almanaque esportivo do Rio Grande do Sul.Porto Alegre: Tipografia Esperança, 1943.
Tesourinha teve uma existência marcada pela primazia do pioneirismo. Em 1944, torna-se o primeiro atleta do Sport Club Internacional (atuando pelo clube) convocado para a Seleção Brasileira, onde compôs o ataque com Zizinho, Jair, Ademir e Heleno de Freitas. Em 1949 conquista o Sul-Americano de Seleções, quando marcou sete gols e foi escolhido como o melhor do campeonato.

Fonte: Sport Club Internacional.
No dia 15 de janeiro de 1949, em concurso nacional realizado pelo fabricante do remédio Melhoral, é eleito pelo voto popular como o Melhoral dos Cracks. O prêmio foi um apartamento na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro/RJ. No final daquele ano jogaria no Vasco da Gama, onde seria Bicampeão Carioca, o primeiro da era Maracanã, construído para a realização da Copa do Mundo no Brasil.

Em 1950, a maior decepção: o craque não pôde realizar o sonho de jogar uma Copa do Mundo. A lesão no joelho direito sepultou com as suas chances na Seleção Brasileira que disputou a competição. Muitos juram até hoje que com ele a sorte do Brasil naquele mundial teria sido diferente.

Fonte: Sport Club Internacional. 12/3/1943 - Grenal n° 76 - Inter 5 x 1 Grêmio. 
Entretanto, ainda não era o fim de sua brilhante carreira. Tesourinha realizaria mais uma façanha inédita. No dia 16 de março de 1952, marca um gol na vitória do Grêmio de cinco a três contra o Juventude. 

Esta informação seria absolutamente irrelevante, não fosse pelo fato de Tesourinha ser negro. O Grêmio, através de seu presidente Saturnino Vanzeloti, vencia o preconceito e, rompendo com disposição contida no estatuto do clube, contratava Tesourinha para vestir a camisa Tricolor.

A contratação de Tesourinha foi tão polêmica que obrigou a diretoria do Grêmio a publicar nota oficial do clube na imprensa, que destaco parcialmente:

A Diretoria do Grêmio P. A. vem trazer a conhecimento de seus associados e simpatizantes que, por decisão unânime, resolveu tornar insubsistente a norma que vinha sendo seguida de não incluir atleta de cor em sua representação de futebol. O uso que se formou, a tradição que se consolidou não podem mais prevalecer na época atual, onde um profissionalismo absoluto está a exigir sempre as mais decididas medidas para garantir da sobrevivência das agremiações. Seguimos, com a orientação que tomamos, a exemplo das mais gloriosas e tradicionais agremiações do Brasil e do Continente.

Cinco anos depois ele se despedia oficialmente dos gramados vestindo a camiseta do Nacional de Porto Alegre, numa carreira marcada por glórias e conquistas.

Em 1979, aos 57 anos, é vitimado por um câncer no estômago.

Antes, porém, teve a oportunidade de receber uma justa homenagem: em 26 de março de 1969, no jogo festivo de despedida do Estádio Eucaliptos, vestiu pela última vez a lendária camisa sete vermelha, aos 47 anos de idade, para o delírio do público presente.

Numa mescla dos craques que iluminaram o velho estádio, com as promessas que estreariam o majestoso Beira-Rio, o Sport Club Internacional, que venceu o jogo contra o Rio Grande pelo placar de 4 x 1, contou com a seguinte escalação: Gainete (Schneider); Laurício (Madureira), Pontes (Macau), Valmir e Sadi (Jorge Andrade); Lamas (Tovar), Dorinho (Rui) e Bráulio (Tesourinha); Valdomiro (Gilson Porto), Sergio (Marciano) e Urruzmendi (Cuca).

Texto: Stephanos Demetriou Stephanou Neto, historiador.

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