‘A água que essa onça bebe’ e outra notas seis de Carlos Brickmann

‘A água que essa onça bebe’ e outra notas seis de Carlos Brickmann

CARLOS BRICKMANN
Operação Erga Omnes — a expressão latina usada pela Polícia Federal significa “Contra Todos”, ou “A Todos Atinge”. E já atingiu boa parte do todo: os grupos Odebrecht e Andrade Gutierrez. Um dos detidos é Alexandrino Alencar. De acordo com publicação oficial da Odebrecht(anúncio em O Globo de 13 de abril de 2014), Alencar é seu diretor de Relações Institucionais e foi quem contratou o ex-presidente Lula para participações remuneradas em eventos no Exterior; e, “neste tipo de ação, de estímulo à exportação de bens e serviços, é comum que fornecedores e subcontratistas participem dos esforços e arquem com alguns custos” (OK: quando uma empresa contrata alguém, paga suas despesas, além da remuneração. A Odebrecht contratou também Fernando Henrique e o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González. Mas três delatores premiados da Operação Lava-Jato citaram Alexandrino Alencar como pagador de propinas no Exterior já na época dos Governos petistas. A Odebrecht é a empreiteira que obteve mais empréstimos do BNDES lulista para obras no Exterior. A segunda é a Andrade Gutierrez.
Empreiteiras sempre tiveram boas relações com todos os Governos. Mas a Andrade Gutiérrez, atingida agora, tem relações ainda melhores com Lula. Foi em Paris, na casa de Marília Andrade, da família controladora da Andrade Gutiérrez, que a filha de Lula, duramente exposta na campanha eleitoral que elegeu Collor, passou quase um ano; o então marido de Marília, Luís Favre, trotsquista, se ligou a Lula, e levou boa parte dos trotsquistas brasileiros para o PT.
Onde mora o perigo
Marcelo Odebrecht está preso, à disposição do juiz Sérgio Moro, que já obteve várias delações premiadas. Mas a questão é outra: o pai de Marcelo, Emílio Odebrecht, presidente do Conselho da empresa, não tem paciência com tergiversações.
Se achar que as coisas passaram dos limites, haverá problemas.
Erga omnes
E que ninguém se iluda: tanto a Odebrecht quanto a Andrade, se têm excelentes relações com o PT, têm também ótimo relacionamento com os demais partidos. Fernando Henrique, como Lula, fez palestras e viagens remuneradas pela Odebrecht. E as duas empresas, embora tenham ganho grande impulso nos Governos petistas, não entraram nos negócios só em 2003, quando Lula assumiu seu primeiro mandato.
Se quiserem falar, têm o que contar e sobre quem contar.
Maduro, quase podre
Há coisas espantosas na violência praticada por hordas fascistas na Venezuela contra senadores brasileiros que foram visitar presos políticos. A primeira é a rapidez com que bolivarianos brasileiros, ávidos em demonstrar fidelidade ao presidente venezuelano, tentaram ridicularizar a visita, minimizar as agressões e fingir acreditar na fábula do congestionamento de trânsito que ocorria por acaso bem na hora do desembarque. O sumiço do embaixador brasileiro no momento do cerco foi muito conveniente. E a servil nota oficial do Governo Dilma, pedindo por favor à Venezuela que preste “os devidos esclarecimentos” é coroada por um ato falho: diz que o embaixador brasileiro, chamado ao aeroporto pelos senadores, retornou ao aeroporto e “os despediu”.
A vontade de governar sem Congresso é tanta que acham que um diplomata pode demitir parlamentares.
O lado ruim
Viajar é bom, é de graça, rende diárias, dá notícia. E outro grupo de senadores decidiu ir a Caracas “com isenção e imparcialidade”. Quem são os isentos e imparciais? Roberto Requião, fã declarado de Maduro, Lindbergh Farias (o antigo cara-pintada), Vanessa Grazziotin, do PCdoB e Randolfe Rodrigues, do PSOL (o de Luciana Genro).
Bolivarianamente imparciais e isentos e doidos para viajar.
O lado bom
Mas a ação hostil em Caracas tem aspectos positivos: tira a máscara do Governo venezuelano, acaba com aquela frase de Lula, de que na Venezuela há democracia até demais, mostra quem são os brasileiros que, por motivos ideológicos, se subordinam a um Governo estrangeiro. E pode causar danos ao Mercosul – uma boa ideia que se esclerosou, se ideologizou e isolou o Brasil dos principais movimentos do comércio internacional, que tanto beneficiam o Chile e o Peru.
Um erro, uma vida
O deputado cearense Paes de Andrade fez uma bela e corajosa carreira. Na fase mais difícil da ditadura, foi um dos líderes do Grupo Autêntico do MDB, que se opôs com decisão aos militares (e teve muitos integrantes cassados por isso). Formou afinada dupla com Ulysses Guimarães, o Senhor Diretas, líder da resistência pacífica ao autoritarismo — tanto que, quando Ulysses deixou a Presidência da Câmara, apoiou Paes de Andrade para substituí-lo.
Paes de Andrade estava no cargo quando o presidente Sarney viajou para o Exterior e coube-lhe substituí-lo. Cedeu então ao provincianismo: voou no avião presidencial para sua cidade, Mombaça, Ceará, para ser aclamado e lembrado como primeiro presidente a visitá-la. Caiu no ridículo. Foi apelidado de Mombaça.
E ao morrer, dia 17, o fato mais lembrado em sua biografia foi a desnecessária viagem presidencial.

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