A plateia do Petrolão saúda a chegada de Dirceu e exige a entrada em cena da dupla que modernizou o faroeste à brasileira

Arte: Tiago Maricate
Arte: Tiago Maricate
Em meados do século 20, auge do faroeste americano, nunca faltaram serviço e dinheiro a atores que, embora esbanjassem talento em qualquer papel, pareciam ter acabado de chegar de um círculo de carroções sitiado por índios, de uma perseguição a cavalo nas pradarias do Wyoming, de um tiroteio no saloon de Abilene ou de um assalto ao banco de Kansas City. Como em obras de ficção ninguém morre ou continua na cadeia, faziam um filme atrás do outro.
Todo clássico do gênero inclui no elenco integrantes dessa tropa de elite. Em Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, 1960), por exemplo, lá estão Steven McQueen, James Coburn, Charles Bronson e Eli Wallach. Hoje é impossível imaginá-los fora da história. Sem o quarteto, pareceriam desfalcados tanto o grupo de pistoleiros que se juntam para livrar do inferno um vilarejo mexicano quanto o bando de vilões que o inferniza.
Neste início de século, auge do faroeste à brasileira, sobram serviço e dinheiro a personagens nascidos e criados para o papel de bandido na vida real. Esses meliantes vocacionais atuam com o desembaraço de quem começou roubando chupetas no berçário, atravessou a adolescência esvaziando o cofrinho da avó e virou PhD em assalto a cofres públicos com vinte e poucos anos. Para os delinquentes de estimação do governo lulopetista, é tão longa a vida quanto curto o castigo ─ quando acontece.
É compreensível que a elite desse clube dos cafajestes protagonize uma safadeza atrás da outra ─ e  que os donos dos prontuários mais notáveis apareçam num escândalo como o Petrolão, que transformou a maior estatal do país na mais produtiva usina de maracutaias do mundo. Até esta terça-feira, faltava no elenco do grande momento do faroeste à brasileira o imprescindível José Dirceu. A ilustração inspirada no inesquecível faroeste americano atesta que o destino enfim completou o grupo de sete pecadores envolvidos na maior ladroagem desde o Descobrimento.
Graças à devassa da movimentação financeira das empreiteiras do petrolão e da JD Assessoria e Consultoria, controlada pelo ex-chefe da Casa Civil, Dirceu entrou no script encarnando um consultor especializado em negociatas bilionárias. Entre 2006, já despejado do Planalto, e 2013, quando passou a hospedar-se na Papuda por decisão do STF, o ex-capitão do time do Lula faturou 29,2 milhões de reais. A Justiça e o Ministério Público Federal descobriram que boa parte dessa bolada lhe foi repassada pelos saqueadores da Petrobras.
Em 2012, já acossado pelo julgamento do Mensalão, o consultor embolsou 7 milhões de reais. Em 2013, condenado por corrupção a sete anos e onze meses de prisão, amealhou outros 4,159 milhões de reais sem sair da cela. Não é pouca coisa. Mas a façanha não surpreendeu quem acompanha de perto a carreira do artista. À promissora estreia no cult que revelou Carlinhos Cachoeira e Valdomiro Diniz seguiu-se a extraordinária performance como chefe da quadrilha de mensaleiros. Dirceu vai brilhar no Petrolão. E tem tudo para encarnar mais de um personagem relevante.
Como tudo no moderno faroeste à brasileira, o Petrolão é coisa de Lula e Dilma Rousseff. Produtor, roteirista e diretor, o ex-presidente faz de conta que também desta vez não sabe de nada. Melhor perguntar a Dilma, sugere. A assistente de produção finge que a obra lhe caiu no colo pronta e acabada ─ e jura que não tem nada de extraordinário. A plateia discorda. Neste domingo, quase 2 milhões de brasileiros gritaram nas ruas os nomes dos dois realizadores que insistem em manter distância dos holofotes.
Logo o país inteiro saberá que o mais repulsivo dos escândalos não teria existido sem Lula e Dilma. Os espectadores saudarão a entrada em cena da dupla com uma vaia do tamanho do Petrolão.       

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