Plano de fuga

– Vamos fugir daqui, minha linda?

– Haha, louco…
– Não, sério. Não estou aguentando mais. As grandes metrópoles viraram o fio, percebe? Já foram o auge da civilização, agora são caldeirões de barbárie. Imagine que hoje eu dei bom-dia para o motorista de táxi, e sabe o que ele respondeu?
– Será que eu entendi bem? Você encontrou um motorista de táxi grosso e quer ir embora pro mato?
– Não me trate como idiota, amor. É uma decisão madura, uma coisa que eu venho pensando faz tempo. E agora ainda tem o país nessa crise braba, esse atentado nojento em Paris, a quantidade de vômito que passa por opinião nas redes sociais… sei lá. É como se o mundo que eu imaginava existir não existisse mais. Nem aqui nem em lugar nenhum.
– Ah, então não basta ir para um mato qualquer. Tem que ser um mato sem acesso à internet.
– Claro! Tendo internet não adiantaria fugir, a podridão do mundo ia nos alcançar lá também.
– Sei. Livro pode levar?
– Claro, livro pode e deve. Muitos livros, muitos discos.
– E quando você enjoasse de ler e ouvir música, o que ia fazer nesse seu mato desconectado?
– Ué, o que a gente faz no mato. Plantar e colher coisas orgânicas, cozinhar refeições saudáveis…
– Aham.
– Além de fazer amor, né? Muito amor o dia inteiro.
– Cara, que plano perfeito! Boa sorte, mande notícias.
– Engraçadinha. Você vem comigo, lógico.
– Nem morta!
– Mas eu te amo! Sem você eu não vou a lugar nenhum.
– Ótimo, então você fica. Na próxima, em vez de táxi, experimente ir a pé.
– A pé?
– Pra perder a barriga. E que tal cozinhar agora uma daquelas refeições saudáveis pra gente? Descobri um site que tem receitas incríveis.
– Mas…
– Boiajoia-ponto-com. Me alcança ali o telefone que eu te mostro.


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