J.R. Guzzo: ‘Sem alegria’

Publicado na edição impressa de VEJA

J.R GUZZO
A história vive nos ensinando como é difícil satisfazer certos ganhadores. Quanto mais ganham, mais reclamam; por questões de temperamento pessoal, ou pelo momento político, ou pelo tumulto que criam para si mesmos e para os outros, seus triunfos tendem a gerar discórdia, neurastenia, frustração e, no fim das contas, um pote até aqui de mágoa. Um caso clássico de infelicidade na glória é o do rei Felipe II da Espanha, geralmente visto como o monarca mais bem­-sucedido de todos os tempos. Felipe II governou um império que cobria os 24 fusos horários da Terra. A bandeira espanhola estava presente nos quatro continentes conhecidos em seu tempo; em toda a América, da Califórnia à Patagônia, incluindo o Brasil, ele reinava sozinho. Era o proprietário da maior parte de todo o ouro e prata existentes no mundo. Nem a Inquisição Católica da Espanha, a mais selvagem da época, tinha coragem de se meter com ele. Mas nada disso, pelo que se sabe, foi suficiente para deixá-lo satisfeito. “Queira Deus que eu possa ser tratado melhor no céu do que nesta vida”, queixou-se Sua Majestade pouco antes de morrer, em 1598, após 42 anos seguidos no trono.
Homem difícil de agradar, esse Felipe II – o que mais ele poderia querer? Sem dúvida, mas o cidadão comum ficaria surpreso se soubesse como são frequentes os casos de baixo-astral explícito que acompanham muitas das grandes vitórias na política. Justo agora, por exemplo, temos no Brasil uma situação desse tipo. Ninguém aqui está dizendo que Dilma Rousseff, recém-vitoriosa nas eleições, é uma Felipe II, porque ela com certeza não é uma Felipe II – a começar pelo fato de que não pode ficar, como o companheiro espanhol, mais de quarenta anos no governo, o que lhe daria o equivalente a dez mandatos seguidos na Presidência da República. Mas tudo indica que seu último triunfo está sendo um desapontamento. A presidente foi reeleita. Seu patrono, o ex-presidente Lula, conseguiu um novo milagre. Seu partido ganhou pela quarta vez seguida a eleição presidencial. Ainda assim, Dilma nunca pareceu tão infeliz quanto agora. Fez duas excelentes escolhas para o seu novo ministério, Joaquim Levy para a Fazenda e Kátia Abreu para a Agricultura – mas o PT ficou irado. Meteu-se numa miserável trapaça para falsificar no Congresso os números do orçamento, e por conta disso colocou fora da lei o governo que chefia. Suas tropas atiram em si próprias com a mesma violência com que atiravam até outro dia contra os adversários da campanha eleitoral. Fantasmas do passado se associam com fantasmas do futuro.
É verdade que com um petrolão inteiro pela proa não dá para ninguém ficar animado – Dilma e Lula, a esta altura, não podem mais construir uma linha de defesa que os absolva, e os fatos já demonstraram que os governos de uma e do outro entrarão para a memória pública como os mais corruptos de toda a história do Brasil. Mas parece haver algo mais inquietante nessa síndrome de depressão pós­eleitoral. Antes ainda do resultado final, gente graúda no governo e em seu sistema de apoio garantia que a presidente só poderá salvar o seu segundo mandato de um naufrágio se “se livrar” de pessoas e de posturas que se tornaram flores no seu jardim. Dilma, por esses teoremas, precisa “livrar­se” deste ou daquele ministro, dos arquiduques desta ou daquela estatal, e por aí se vai. Perfeitamente: poderia livrar-se, aliás, dos seus 39 ministros, e ninguém iria perceber nada. O problema, falando francamente, é que para que as coisas melhorassem de verdade Dilma teria de livrar-se principalmente de si mesma – e isso, como se diz, não vai rolar.
O que complica a situação para Dilma Rousseff, e principalmente para o país a ser governado por ela nos próximos quatro anos, é precisamente Dilma Rousseff. Essa conversa toda sobre seu estilo, sua inclinação à “gerência”, sua paixão por frases que não acabam e por pensamentos que não começam etc. fica indo de lá para cá, de cá para lá, e esconde o fato essencial – o de que a presidente do Brasil, diga-se com toda a educação possível, não tem capacidade para exercer esse cargo. Há pessoas que aprendem o suficiente para ter muitas ideias, mas não o necessário para fazê-las dar certo; é o caso da presidente. Pessoas assim acabam criando uma hostilidade sem limites a tudo o que não é medíocre, e com isso se condenam a não aprender nada que as ajude. Só mudam quando são forçadas. São obcecadas por truques montados para esconder suas derrotas e negar os erros. É uma fórmula segura para viver na insatisfação.
http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/opiniao-2/j-r-guzzo-sem-alegria/

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