Schopenhauer e a crítica ao homem

por Leandro Morena
Os pensadores gregos colocaram o homem como parte da Physis. No pensamento Medieval o homem tornou-se um ser supremo, pois foi feito à imagem do seu criador, que, por sua vez, ofereceu toda a natureza para o homem usufruir. No pensamento moderno, o egocentrismo floresceu e o mecanicismo cartesiano idealizou o homem como uma máquina perfeita. O homem “deixou” a Physis, dominou toda a natureza, e, por fim, dominou o próprio homem.
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Ao longo da história da humanidade temos observado o poderio dos papas, reis, imperadores, príncipes e tiranos, seres humanos que submergem num titulo que os engrandece e torna-os seres “divinos” e intocáveis, que não passam de doxômanos, fugindo da sua originalidade que é apenas um ser humano como qualquer outro.
O filósofo Francês Étienne de La Boétie (1530-1563) na obra O Discurso da Servidão Voluntária coloca a questão de como determinado povos submetem-se à vontade de uma única pessoa, no caso, o tirano.  La Boétie afirma que tiranos não passam de, simplesmente, seres humanos com suas doenças, fraquezas, medos, vícios e etc.
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clip_image003                O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860) faz uma crítica severa ao homem, que de certa maneira há uma conexão com o que La Boétie anteriormente expôs.  Schopenhauer vai focar sua crítica aos vícios que estão impetrados na natureza humana, quebrando a superioridade do homem, colocando-o num reducionismo solidificado que vai jogá-lo como uma anomalia da natureza. Diferentemente dos filósofos Platão (427 a.C. -347 a. C.) e Santo Agostinho (354-430), estes, por sua vez, afirmaram que a posição do homem ereta torna-o mais próximo da divindade e o faz querer as coisas superiores, tornando-o superior as demais espécies, pois os animais são curvados para baixo e por isso inferiores (ver os artigos: Especismo Platônico e a Superioridade do homem na filosofia Agostiniana),  Schopenhauer vai pensar contrariamente, e afirma sua admiração em observar como os animais andam da forma que a natureza os fez. É fato que Schopenhauer quis afirmar que os animais não fugiram da sua animalidade.
Existe no mundo apenas um ser mentiroso: o homem. Todos os outros seres são verdadeiros e sinceros, pois mostram-se abertamente como são e manifestam o que sentem. Uma expressão emblemática ou alegórica dessa diferença fundamental é o fato de que todos os animais andam em seu aspecto natural, o que contribui bastante para a impressão agradável que se tem ao vê-los; especialmente quando se trata de animais livres; tal visão enche meu coração de alegria. Em contrapartida, devido a sua vestimenta, o ser humano tornou-se uma caricatura, um monstro; o simples fato de vê-lo já é algo repugnante que se destaca até pelo branco de sua pele, não natural a ele, e pelas conseqüências repulsivas da sua alimentação a base de carne, que vai contra a natureza, bem como das bebidas alcoólicas, do tabaco, dos excessos e das doenças. Ele surge como uma mácula da natureza.
                                      
                          Tradução: Eduardo Brandão e Karina Jannini

O pensamento contemporâneo quebrou esses grilhões do egocentrismo e mostra-nos que o homem, cada vez mais, tem genes muito parecidos com os das outras espécies, diminuindo o distanciamento que por séculos vigorou.

Doravante vamos colocar as questões do homem do século 22, ele será inserido em qual lugar? Ele voltará fazer parte da Physis como os gregos antigos afirmavam? E a religião, terá os olhos voltados para as outras espécies?  E o domínio de poucos sobre muitos, será um fato consumado, ou a submissão continuará?    

Créditos:
HUISMAN, Denis. Dicionário de Obras Filosóficas. Tradução: Ivone Castilho Benedetti. Martins Fontes, São Paulo, 2002.

SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de insultar. Organização e ensaio: Franco Volpi. Tradução: Eduardo Brandão e Karina Jannini. Martins Fontes, São Paulo, 2005.

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