Quão sustentável é Marina Silva?

Com ideais inatacáveis e biografia extraordinária, Marina Silva segue em fulminante ascensão na disputa pela Presidência pelo PSB. E os obstáculos começam a aparecer

Mariana Barros
Marina - Empate técnico com o candidato do PSDB, Aécio Neves
Marina - Empate técnico com o candidato do PSDB, Aécio Neves (Alexandre Severo/VEJA)
A cena impressiona todos os que já a presenciaram. Sempre que Marina Silva é esperada em algum lugar, à sua chegada faz-se um silêncio reverente. Interrompem-se as conversas, suspendem-se as movimentações e ninguém sai correndo para falar com ela — até que, sentada, mãos cruzadas sobre o colo, tome a iniciativa de dizer a primeira palavra. O semblante severo e o olhar beatífico inspiram esse distanciamento meio fora de lugar em um mundo onde até o papa dispensa rapapés e se mistura alegremente às multidões. Mas esse é o estilo de Marina, reafirmado por sua figura frágil de 50 quilos e 1,65 metro de altura. O que ela diz, em um tom meio palanque, meio sacristia, completa a cena. Marina defende a preservação da Floresta Amazônica, o uso da tecnologia a serviço do meio ambiente, uma política livre de fisiologismos e um mundo sem corrupção. Quem há de ser contra? Se hoje são causas das quais ninguém discorda, é certo que Marina as abraçou antes e com mais afinco que a maioria dos políticos. Bastaria isso para Marina, feita candidata a presidente pela trágica morte de Eduardo Campos, amedrontar os outros concorrentes. Ela foi candidata a presidente em 2010, quando recebeu sólidos 20 milhões de votos.
Mas tem mais.
Perto de sua trajetória de vida empalidecem outras histórias, como a do retirante que foi para São Paulo de pau de arara, virou metalúrgico, sindicalista e presidente. Marina foi seringueira, trabalhou como empregada doméstica, só aos 16 anos aprendeu a ler. Venceu a miséria, a ignorância, a doença e tornou-se líder ambientalista mundialmente reconhecida. Foi deputada, senadora, ministra. Há uma semana ela apareceu tecnicamente empatada com o senador Aécio Neves, candidato do PSDB, segundo a última grande pesquisa do Datafolha. Agora pode até mesmo estar a menos de dois meses de se eleger presidente da República, segundo os dados parciais de pesquisas, sondagens de partidos e de instituições financeiras. Com tantos atributos, circunstâncias favoráveis e experiência política, Marina é, no essencial que se exige de um chefe de Estado, uma esfinge.
VEJA analisa aqui seus pontos fortes e suas fragilidades. Com base em situações vividas por ela, mostra como a candidata do PSB pensa, decide e se posiciona diante de encruzilhadas.
Na última segunda-feira, trinta integrantes da Rede Sustentabilidade, o grupo fundado por Marina Silva, reuni­ram-se em sua sede estadual — uma sala no centro de São Paulo decorada com bandeirolas e cortinas de chita estampada, terraço e vista para a cúpula da Catedral da Sé. Em uma grande roda, sentaram-se com o objetivo de falar sobre a morte do ex-governador pernambucano Eduardo Campos, ocorrida cinco dias antes, e o que ela havia despertado em cada um. Depois das falas individuais, juntaram-se em trios para escrever o que sentiam, que desafios acreditavam ter de enfrentar a partir de agora e que palavras gostariam de dizer para confortar Marina Silva, então a vice na chapa encabeçada por Campos, do PSB, e apoiada pela Rede. A reunião durou duas horas e meia — rapidíssima para o padrão do grupo. Na Rede de Marina, não se tomam decisões com base em votação. Em vez disso, os participantes têm de chegar ao que chamam de “consenso progressivo” — o que significa que uma discussão só termina quando todos estiverem de acordo de que há um argumento vencedor. Um desses encontros, ocorrido em maio, bateu o recorde de dezoito horas de duração. Destinava-se a escolher a dupla de porta-vo­zes da Rede (no grupo, as funções não são exercidas por uma pessoa, mas por uma dupla, necessariamente formada por um homem e uma mulher, para contemplar as questões de gênero).
A Rede Sustentabilidade foi criada à imagem e semelhança de Marina Silva. Como o grupo, ela é descrita como alguém que decide lentamente. Ocupou o Ministério do Meio Ambiente de 2003 a 2008 e, durante o primeiro mandato de Lula (2003-2006), ficou famoso o seu embate com o então titular da Agricultura, Roberto Rodrigues, acerca da liberação do cultivo de alimentos transgênicos. Marina, contam testemunhas, por diversas vezes dava mostras de ter se convencido dos argumentos do colega, mas voltava atrás no encontro seguinte. Com os olhos do mundo voltados para o governo do ex-metalúrgico brasileiro e diante do prestígio internacional de que gozava Marina na área ambiental, os envolvidos tiveram de se armar de paciência. Como resultado, a discussão levou oito meses, ao final da qual Marina acabou derrotada. O cultivo de soja transgênica foi liberado a partir de 2003 e, pouco depois, o Brasil se tornou o segundo maior produtor do mundo.
Marina, porém, aos olhos até dos seus adversários, tem a virtude inestimável de “saber o que não sabe”. Há um abismo entre ter uma virtude e exerci­tá-la. Mas quem trabalhou ao lado de Marina conta que ela aceita ser desafiada em torno de uma ideia e, se convencida de que está errada, a abandona. Foi assim em relação à política de alianças, anátema para ela até 2002 (“Concordo com Lula: se os aliados são importantes para ganhar, serão também importantes para governar”, disse, depois da eleição do petista). E foi assim também no que se refere à sua visão sobre as elites e os interesses de classe. “O erro não é ter interesses, é camuflar esses interesses. O acerto é quando você tem o seu interesse, legitimamente o coloca na mesa e age de acordo com as regras democráticas”, afirmou em discurso em 2008. Em extraordinário contraste com o discurso tão em voga, arrematou: “Discordo, inclusive, de algo que, muitas vezes, a gente debate no Brasil, de que o problema aqui é a elite”.
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