A meca dos evangélicos

Com a inauguração da réplica do "Templo de Salomão", o maior espaço religioso do Brasil, o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, procura se aproximar dos símbolos do judaísmo

Se o pentecostalismo avança Brasil afora – nos últimos 10 anos, cresceu 61,45%, ou mais 16 milhões de pessoas – e vem redesenhando o mapa religioso no País, em paralelo, Edir Macedo, 69 anos, se firma com um dos protagonistas da cena evangélica na história do País. O carioca, que, abriu a primeira e modesta portinhola da sua Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em 1977, construiu um império de 6.500 templos, controla um partido político, o Partido Republicano Brasileiro (PRB), aliado do PT há 12 anos, é proprietário de uma rede nacional de televisão, a Record, que rivaliza com a Globo, e possui diversas mídias eletrônicas. Na quinta-feira 31, às 19h, o bispo da IURD reuniu a presidente da República Dilma Rousseff, o vice presidente Michel Temer, o governador de São Paulo Geraldo Alckmin, o prefeito da capital paulista Fernando Haddad e seu antecessor Gilberto Kassab, ministros do Supremo Tribunal Federal e artistas como Gugu Liberato e Sabrina Sato. Essas e outras personalidades e autoridades públicas se embrenharam entre os 10 mil convidados para presenciar a inauguração, na capital paulista, do Templo de Salomão, agora a jóia mais cintilante do império da IURD. Trata-se de uma obra gigantesca que levou quatro anos para ser erguida em um espaço equivalente a cinco campos de futebol. Mais alta do que o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, custou R$ 680 milhões e nasceu para ser uma réplica do templo sagrado do judaísmo, destruído duas vezes na Antiguidade, em Jerusalém (leia detalhes da obra na pag, 46).
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Durante a cerimônia de abertura do templo, o bairro do Brás, situado na área central de São Paulo, uma antiga região industrial que, hoje, além do megatemplo da IURD, abriga cortiços, imigrantes nordestinos, confecções que empregam bolivianos e comércio popular, viveu uma noite de gala. Um tapete vermelho foi estendido na rua para que um cortejo transportasse uma réplica folheada a ouro da Arca da Aliança – segundo a Bíblia, dentro dela ficavam depositados os Dez Mandamentos –, para o interior do local, e o evento fosse iniciado. Helicópteros sobrevoavam a área trazendo autoridades. Agentes de trânsito e centenas de policiais cuidavam do fluxo de carros e pedestres. Na fachada do templo, revestida com pedras calcárias importadas de Hebron, na Cisjordânia, foi projetado um filme que contou a história do cristianismo. Outros detalhes conferiram ares suntuosos à arquitetura do templo, que é, a partir de agora, o maior espaço religioso do Brasil. Macedo comprou 40 imóveis, uma fábrica de cimento, um posto de gasolina, um estacionamento e, após os demolir, levantou um gigante de 72 mil m2 de área construída – 3,2 vezes maior do que o Santuário de Aparecida do Norte –, com capacidade para dez mil pessoas sentadas e cujo estacionamento comporta 1.800 veículos. Só com as cadeiras, importadas da Espanha, foram gastos R$ 22 milhões. Há 11 pavimentos dentro dessa grande casa da IURD, que abriga 60 apartamentos que servirão de moradia para bispos. Um deles, no último andar, foi feito para Edir Macedo, que fixou residência lá para acompanhar os acertos finais do templo antes da inauguração.
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PRIMEIRA FILA 
A presidenta Dilma Rousseff, entre o seu vice, Michel Temer, e o bispo Edir Macedo,
na inauguração do novo templo da Igreja Universal do Reino de Deus
Durante a inauguração, o fundador da IURD promoveu um breve culto e chamou atenção pelo visual. Edir Macedo ostentava uma barba branca comprida e estava vestido com indumentárias judaicas como o quipá, chapéu utilizado pelo povo judeu, e o talit, um xale ritualístico. “Por meio dessas importações miméticas de visual e de acessórios de rituais tradicionais do judaísmo, ele pleiteia para si a mesma majestosa aura dos velhos profetas bíblicos”, diz o sociólogo Ricardo Mariano, autor de “Neopentecostais: Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil” (Edições Loyola). Macedo sempre demonstrou grande apreço pelo Velho Testamento em suas pregações. Antes de ele subir ao altar, ex-dependentes químicos deram seu testemunho de fé e um pedido de ofertas aos presentes foi feito por outro bispo da denominação. “A teologia da prosperidade, praticada pela IURD, cresce em solo teológico judaico e não nas raízes do Novo Testamento”, diz Leonildo Silveira Campos, professor de pós-graduação em ciências da religião da Universidade Mackenzie.
Conhecer o Templo de Salomão não será privilégio para qualquer um. O candidato a visitante terá de retirar uma senha em uma unidade da IURD e aguardar o dia estipulado. Fiéis do sexo masculino estarão proibidos de entrar no local de boné, camiseta regata, de times de futebol, bermuda e chinelo. Já às mulheres estão vetados o uso de minissaias e roupas com decote. Celulares também não serão permitidos. “O templo irá se tornar a meca de uma parcela dos evangélicos”, diz o teólogo Edin Abumansur, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo. Até os anos 1990, os endereços da Universal eram rotulados, muitas vezes, de supermercados da fé, imagem reforçada pela aparência das edificações, galpões transformados em templos com fachadas de neon. Para superar essa pecha e angariar uma imagem religiosa mais respeitável, nos últimos 15 anos, a IURD passou a construir imponentes catedrais em diversas capitais do País.
Os megatemplos existem no Brasil há seis décadas e não são privilégio da Universal. “O Templo de Salomão de Edir Macedo, porém, representa o cume dessa estratégia”, diz Mariano, professor de sociologia da Universidade de São Paulo. Mesmo à revelia de suas lideranças, a nova sede deverá se transformar em um ponto turístico. “É possível que esse templo atraia tanto quanto os parques temáticos da Disney ou de outro, inaugurado por um televangelista, nos Estados Unidos, que conta inclusive com um museu da criação do mundo”, afirma Campos, do Mackenzie. Ele se refere ao Creation Museum, um gigante de 60 mil metros quadrados situado em Pittsburg, construído pelo pastor australiano Ken Ham.
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VISUAL
Macedo de barba branca comprida, quipá sobre
a cabeça e talit branco: aura profética
No caso de Macedo, além de importar 40 mil m2 de pedras da cidade israelense de Hebron, a antiga capital do reino de Davi, ele mandou erguer, ao lado do megatemplo, um museu de 630 m2 que irá contar a história das 12 tribos de Israel descritas no Velho Testamento.
A IURD, de acordo com o último Censo de 2010, registrou uma queda acentuada de fiéis, 10,8%. Aproximadamente 230 mil adeptos deixaram a denominação. O tempo dirá se, além do peso simbólico e do marco arquitetônico, o Templo de Salomão será capaz de amealhar novos súditos.
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Fotos: Leandro Martins/Futura Press; Unicom 

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