Guerra e Paz de Candido Portinari

Guerra e Paz em Paris

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Cai a noite em uma tremenda terça-feira de labuta em Paris. O Salão de Honra do Grand Palais, o maior espaço para exposições de arte da capital francesa, parece mais diminuto. Há mais gente reunida nos 1.200 metros quadrados que a população de Brodowiski em 1903, quando Candido Portinari nasceu em uma fazenda de café próximo ao município paulista. São mais de 700 pessoas.
A razão é inédita na Europa — e não existe previsão para acontecer de novo. Talvez nunca mais. Depois de restaurado no Brasil e antes de voltar ao lugar de origem, a sede das Nações Unidas em Nova York, o díptico monumental Guerra e Paz — dois painéis de 14 metros de altura por 10 de largura — a derradeira obra de Portinari, o principal pintor brasileiro, está à mostra em Paris.
Guerra
Guerra
Até 9 de junho os visitantes do Grand Palais — estima-se que eles serão mais de 300 mil — terão o privilégio reservado só aos delegados onusianos que, quando se dirigem à Assembléia Geral percebem Guerra e quando deixam o recinto, vislumbram Paz. O público que visita a ONU não tem acesso à obra de Portinari, os dois conjuntos de óleo pintados entre 1952 e 1956 em 28 compensados navais que medem, em sua maioria, 2,20 por 5 metros.
Em 2008, a possibilidade de uma exposição de arte brasileira com alto nível em Paris, só equivalente à mostra do barroco mineiro no ano Brasil-França, era remota. Voltando da Escandinávia, onde fez palestra sobre o pai, o obstinado João Cândido Portinari, de 75 anos de idade, decidiu fazer escala em Paris para encontrar o amigo José Maurício Bustani, embaixador brasileiro na França.
João propôs a José convencer os franceses expor a obra paterna. Em um primeiro instante, Bustani — durante 7 anos, quanto foi diretor-geral da Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ), o diplomata flertou frequentemente com o Guerra e Paz na ONU — achou a proposta ousada, mas não impossível.
Os tempos eram propícios. Sarkozy se entendia maravilhas com Lula. Queria vender caças Rafale aos brasileiros e implementar a “parceria estratégica” com o fabrico de submarinos e helicópteros. Por que não cogitar que poderia haver margem para agrado? Seria oportunidade, na visão do Itamaraty, colocar em prática o “soft power” brasileiro no exterior mais comum pela via do futebol pentacampeão mundial e a MPB.
A idéia chegou aos ouvidos de Lula que assuntou Sarkozy. Durante viagem a Brasília, o ex-presidente francês prometeu ao colega brasileiro: “Vamos inaugurar a exposição juntos em Paris.” Mas a confluência dos astros não ajudou. O Salão Nobre do Grand Palais com seu pé direito de 17 metros, o único espaço capaz de receber os painéis, estava em reformas, dessas que ainda são possíveis na França. O tempo passou. Sarkozy perdeu a eleição para Hollande. Lula deixou o governo ou quase isso. Dilma escolheu os caças suecos Gripen NG. O projeto não decolou, submergiu.
Contudo, ele não caiu no esquecimento, ao menos, não para o filho João. Em julho do ano passado, ele apresentou o projeto à ministra da Cultura Marta Suplicy. Em escala em Paris, quase sempre obrigatória na rota de autoridades brasileiras, Marta usou seu francês de colégio de freiras em favor de Portinari junto à ministra da cultura da França Aurélie Filippetti. Marta contou ao Blog de Paris que os nativos alegavam um obstáculo técnico: “Os franceses diziam que os painéis de Portinari tinham dezesseis metros de altura.”
Paz
Paz
Na verdade o ministério da Cultura francês considerava Portinari pouco conhecido para atrair público ainda que com entrada franca ao Grand Palais, conhecido pelas filas de INSS que provocam suas exposições. Desfeito o mal entendido, o projeto rumou novamente para a pista de decolagem. Mas faltava combustível. Ou melhor, dinheiro para montagem.
“O projeto foi aprovado em dezembro do ano passado, um mês cuja atenção está mais voltada para festas de fim de ano”, disse João Cândido ao Blog de Paris. Um task force foi montado para captar recursos. Em apenas três meses, uma “vaquinha” do Banco do Brasil (2 milhões de reais), BNDES ( 2 milhões), Petrobrás (1 milhão), Caixa Econômica (1 milhão), GDF Suez Grupo Casino (1 milhão), Alstom (500 mil) reuniu os 8,5 milhões de reais necessários para levar o Guerra e Paz para Paris em três aviões de carga.
Coube à arquiteta carioca, especializada em museografia e funcionária do Museu d’Orsay, Virgínia Fienga, fazer a cenografia do Guerra e Paz no Grand Palais com a preciosa ajuda do iluminador franco-brasileiro, Thomas Klug. Foi necessário 10 toneladas de metal para montar as estruturas que sustentam os dois painéis monumentais. “O sucesso da montagem está escondido do público”, disse Fienga ao Blog de Paris.
A arquiteta ergueu em frente aos painéis um muro de 17 metros de altura por 50 metros de comprimento e colou placas de espelhos que refletem as pinturas. O efeito provoca a sensação de um espaço mais amplo. Ademais, a espessura de 1,5 metros do muro oco, permitiu instalar ali, toda parafernália eletrônica controlada por computadores, os projetores dos vídeos, holofotes e os cabos elétricos.
João Cândido tem ainda outro sonho antes do Guerra e Paz voltar definitivamente para seu lugar de origem: expor a obra do pai na estação de trens Grand Central, em Nova York, por onde passam diariamente 900 mil pessoas. “Somos favoráveis, mas o problema maior é a segurança”, disse ao Blog de Paris, Micheal Adlerstein, Subsecretário Geral da ONU. “Em um museu se pode controlar quem entra, não é o caso de uma estação de trens.” Mas há outro impecílio, o custo. A começar pelo mais barato, o aluguel: 25 mil dólares por dia.
Guerra e Paz no Grand Palais
Guerra e Paz no Grand Palais
Por Antonio Ribeiro
http://veja.abril.com.br/blog/de-paris/arte/guerra-e-paz-em-paris/

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