A LIGA DA CANELA PRETA

Para calar a boca dos racistas: até 1952 havia time no País que não aceitava jogador negro. Não mais que seis anos depois, o mundo se curvou diante de um craque - o negro Pelé

O estádio de futebol lotado do qual se aproveita covardemente o torcedor racista para ofender jogadores e manter-se no anonimato funciona como a camiseta que esconde o rosto do black bloc arruaceiro. Assim como quem vai às manifestações para depredar patrimônio não é manifestante, mas sim bandido, quem vai ao estádio e xinga atleta negro não é torcedor, é criminoso. Claro que se faz quase impossível individualizá-lo em meio à multidão, e dessa forma torna-se inviável responsabilizá-lo penalmente – resta então punir o clube, a exemplo do Mogi Mirim, que teve seu estádio interditado por tempo indeterminado devido às ofensas contra o jogador Arouca. E na mesma linha deverá ser a punição ao clube dos torcedores que colocaram bananas sobre o carro do juiz Márcio Chagas da Silva, na cidade gaúcha de Bento Gonçalves. As arenas não estão fora da sociedade e se nelas sobe a frequência do racismo (existir sempre existiu) é porque a bola da discriminação ainda rola no campo social. Demagogicamente alguns argumentam que tais atos são justamente para denunciar o falso mito da democracia racial. Balela. É só para tumultuar e reforçar o preconceito.

Causa estranheza a CBF ter protestado de bate-pronto quando o jogador Tinga, do Cruzeiro, foi ofendido no Peru e ter retirado agora o time de campo quando o crime racial aconteceu aqui. Quanto à CNBB, é óbvio que ela condena o racismo, mas surpreende ter lançado uma campanha específica para a Copa – seria mais eficiente a Igreja combater o racismo na sociedade em geral e todos os dias, em todas as missas. A criança malcriada tem de ser educada somente quando tem visita em casa? O ex-presidente da República Epitácio Pessoa proibiu em 1921 que a Seleção escalasse negros, uma vez que o atleta branco era o ideal para “projetar no Exterior a imagem do que há de melhor na sociedade brasileira”. A fala de Epitácio é da época em que os negros começavam a ingressar nos times famosos, sob a condição de que embranquecessem o rosto com pó de arroz e usassem gorros para esconder o cabelo crespo – a enlouquecedora violência psíquica da maquiagem era tanta que o negro Robson, do Vasco da Gama, desatinou. Com o rosto branco de pó de arroz, declarou antes de uma partida: “Eu que já fui preto sei o que é perseguição.”
Ao longo dos anos, Ponte Preta e Bangu disputaram o título de primeiro time a ter um jogador negro, mas factualmente a balança da história pende para o clube paulista: a Ponte nasceu em 1900 e entre seus fundadores esteve o negro Miguel do Carmo, que acumulava as funções de goleiro e presidente do clube – detalhe curioso é que o município paulista de Campinas, sede da Ponte Preta, foi a última cidade brasileira a aderir à abolição da escravatura. Depois da Ponte, o Bangu começou a escalar “não brancos” e, em 1923, o Vasco da Gama montou um time com 11 negros, conquistando o título do Campeonato Carioca (12 vitórias em 14 jogos). A equipe era eficiente, e prova disso é que, enquanto no Brasil seguia o preconceito, um esperto time espanhol veio buscar dois vascaínos: Jaguaré e Fausto. Qual foi esse time? O Barcelona. A continuar a atual onda de xingamentos e discriminação nos estádios, quem sabe Arouca e seus parceiros não organizem uma nova “Liga da Canela Preta”, como a que existiu em 1920, com a diferença de que agora ela teria o apoio das mais diversas etnias. Isso ajudaria a calar a boca dos racistas, assim como lembrá-los de que até 1952 havia time no Brasil que absurdamente não aceitava negros. Não mais que seis anos depois o mundo se curvou na Suécia à magia de um craque: o negro Pelé. Há três obras definitivas sobre o tema: “O Negro no Futebol Brasileiro” (1947), de Mário Rodrigues Filho; três volumes produzidos em alemão (1954, 1955, 1956), por Anatol Rosenfeld; e “O Desporto e as Estruturas Sociais” (1967), de José Esteves.
Antonio Carlos Prado é editor executivo da revista ISTOÉ

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