Economia...,

A mãe das distorções

14 de junho de 2013 | 20h00
Celso Ming

Cada um do seu modo, um grande número de economistas brasileiros entende que a mãe de todas as distorções da economia é o câmbio excessivamente valorizado.
É um preço muito alto em dólares para a moeda brasileira, que encarece demais em moeda estrangeira o produto exportável e barateia demais em reais os importados.
Entre aqueles que mais vêm advertindo para o problema estão os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo, Yoshiaki Nakano e Luiz Carlos Bresser-Pereira.
Argumentam tratar-se de um fator central, que distorce os preços relativos na economia. Essa distorção produz outras: enfraquece a indústria, obriga o governo a compensar a falta de competitividade com favores tributários (desonerações) e subsídios com juros. É também o que vem combalindo gradativamente o balanço de pagamentos, porque reduz as exportações e aumenta as importações. É, ainda, o que destrói o equilíbrio fiscal, puxa a inflação e obriga o Banco Central a empurrar os juros para cima e a evitar novas desvalorizações da moeda (alta do dólar) porque a prioridade passa a ser combater a inflação.
Que o câmbio é preço central e estratégico da economia não há dúvida. E se nele há um desvirtuamento, isso extravasa para toda a economia.
No entanto, é preciso observar que, anterior ao câmbio fora de lugar, há o fato de que a indústria brasileira sempre teve baixa competitividade, porque está obrigada a enfrentar custos desproporcionalmente mais altos do que a indústria dos países riscos e, até mesmo, de muitos emergentes. Até recentemente, em vez de corrigir essas distorções originais (impostos altos demais, infraestrutura cara e ruim, altos custos trabalhistas, etc.), o governo preferiu compensar com “mais câmbio”. O problema é que, de uns tempos para cá, essa manobra ficou bem mais difícil, não propriamente por perversão dos administradores da economia, mas por outros motivos: porque o governo gasta demais, não poupa e não investe; porque a economia cresce pouco e arrecada pouco para o tamanho das contas públicas; porque a indústria está atrasada e descuidou de sua inserção na rede global de produção e suprimentos; porque os juros, por um punhado de razões, são altos demais e atraem capital externo que, por sua vez, valoriza o real; porque… Enfim, a lista é enorme.
Também é preciso entender que a desvalorização cambial pretendida não pode ser produto de um ato de vontade política. Mesmo que o governo queira, e isso está sendo visto no atual arranjo da economia, há limites estreitos para um movimento que procurasse desvalorizar a moeda e recolocar o câmbio “no lugar”. Novas distorções aconteceriam: como dependem de suprimento de peças, conjuntos, componentes e capital de giro do exterior, uma desvalorização mais forte do câmbio produziria uma devastação nas finanças das empresas, como os balanços passados da Petrobrás bem demonstraram. Além disso, puxaria para cima a inflação, aumentaria a dívida externa em moeda nacional e desestimularia o investimento externo.
CONFIRA:
Mais embaixo. Como vem advertindo o economista Samuel Pessoa, da FGV, o índice de poupança do brasileiro está reduzido. Não passa de 17% do PIB (na China é de 50% e o padrão asiático é superior a 30% do PIB).
Desequilíbrio. O brasileiro come parte do que poderia exportar, investe muito pouco e depende demais de capital estrangeiro. É também o que puxa para cima as despesas do governo federal, desequilibra as contas públicas e impede que o Estado brasileiro invista mais do que 1% do PIB.
Mais poupança. Uma drástica correção de rotas passa por mais austeridade fiscal e por uma política abrangente de crescimento da poupança. Será apenas com um folgado superávit fiscal que haverá condições para regras estáveis de jogo que darão suporte ao crescimento sustentável; que a carga tributária, insuportável hoje, pode cair; que os juros podem ser derrubados a níveis civilizados; e que haverá confiança suficiente para o investimento.

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