MENSALÃO!

Combatam uma trapaça que está em curso: não é o governo Lula que está sendo julgado, ainda que merecesse! Essa afirmação, na verdade, busca deslegitimar o processo e intimidar os ministros do STF
O julgamento dos mensaleiros prossegue hoje no STF. A defesa começa a falar. Estão previstas as intervenções dos advogados de José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares. Fiquemos atentos. Vamos ver se há chicanas guardadas na algibeira para empurrar a coisa adiante, num esforço deliberado para cassar o voto de Cezar Peluso. É a agenda do dia. Não estou aqui para tratar de calendário, mas para contestar uma tese que me parece furadíssima, errada mesmo, que já vi até na boca e na pena de pessoas sensatas, interessadas, como todos nós, no fim da impunidade. E que tese é essa? Aquela segundo a qual é o governo Lula que está em julgamento no tribunal. Assim, se Dirceu e os petistas forem condenados, isso significará uma condenação dos oito anos de mandato do Apedeuta. Errado!
Essa avaliação acaba servindo ao propósito dos mensaleiros, se querem saber. Se ministros do Supremo levarem isso em conta, sopesando defeitos e qualidades da era Lula, acabarão concluindo que as coisas não foram tão mal assim… Talvez, então, seja o caso de absolver… Errado! Não é o governo Lula que está em julgamento, mas os 36 que participaram de uma articulação criminosa para fraudar a democracia e o próprio estado de direito. O que o tribunal vai definir é se aquelas práticas eram ou não criminosas. Se eram, atendiam por quais nomes? Como não há crimes sem autores, estes têm de ser punidos.
Ora, o governo Lula jamais foi atacado por ter mantido, por exemplo, alguns fundamentos da economia, na contramão de todas as bobagens que o PT havia afirmado antes, certo? Isso não estará em julgamento no tribunal.
O governo Lula jamais foi atacado por ter feito a coisa certa, desistindo do Fome Zero (que nem chegou a existir) e aderindo aos programas sociais de bolsas que herdou, unificando-os e tornando-os mais amplos. Fez um detestável uso eleitoral disso, mas esse é outro problema. Isso não estará em julgamento no tribunal.
O governo Lula não está no tribunal nem mesmo pelas besteiras que fez — e foram muitas. Em suma, suas qualidades e seus defeitos não estão sob julgamento. Os ministros do Supremo cuidarão de outra coisa. Transferir uma dinheirama do Banco do Brasil para agências de Marcos Valério, sem a devida prestação de serviço, pode ou não pode? E simular empréstimos de bancos para tentar lavar a origem pública — ilegalmente surrupiada — da grana? É legal? É aceitável? E a compra — o nome é esse — de políticos e de partidos? Devemos consagrar a prática como corriqueira, como o nosso modo de ser e de fazer política?
Os próprios petistas espalham por aí que o julgamento é uma tentativa de mandar o governo Lula para o banco dos réus. Há uma penca de más intenções nessa afirmação. Pretende-se, com ela, emprestar à denúncia do mensalão ares de conspiração política, o que é mentira. As enormidades aconteceram. Tenta-se, também, intimidar os ministros, já que foi uma gestão sabidamente popular — se justa ou injustamente, aí é outro papo. Como as excelências do Supremo ousariam, então, condenar aquilo que o povo aprovou? Há, ainda, um esforço para mobilizar a militância em defesa daquele governo — defesa essa que se traduziria, então, no apoio aos mensaleiros.
Não caiam nessa esparrela. Os anos Lula serão, sim, julgados, mas será por outro tribunal: o da história, que nem sempre faz justiça, note-se — Getúlio, cujo governo (entre 1937 e 1945) censurou, prendeu, torturou e matou, não está no berço dos heróis? Infelizmente, Lula, ele próprio, não foi denunciado. Embora, segundo a lei, o candidato seja o responsável último por contas de campanha, parte da sua foi paga a Duda Mendonça, em 2003, quando o Babalorixá de Banânia já estava assentado no Palácio do Planalto. A dinheirama foi depositada por Marcos Valério, em dólares, numa conta no exterior. É claro que deveria ter sido impichado. Mas não foi. E agora nem ele nem seu governo são réus.
Os 11 do Supremo vão dizer se é bom, belo e justo cometer uma penca de crimes para usar o dinheiro público a serviço de um partido, de seus interesses, de seu projeto de poder. E vão dizer se os homens e mulheres que operaram esse esquema  vão ou não permanecer impunes. Lula, infelizmente, não é 37º passageiro, embora devesse ser o primeiro.
Por Reinaldo Azevedo

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