Brasil maravilha, o paraíso perfeito!


‘O noticiário da TV me faz agradecer aos céus por não ter nascido na Europa’, de Mauro Pereira


 MAURO PEREIRA
Depois de assistir aos principais telejornais, todos patrocinados por alguma estatal e veiculando nos intervalos de generosas propagandas de algum dos 40 ministérios, agradeci aos céus por não ter nascido europeu: de acordo com os informativos televisivos, trata-se do continente mais subdesenvolvido do planeta. Reportagens extensas e minuciosas me permitiram conhecer mais a fundo o atraso cultural, a instabilidade política e a miséria social que vêm flagelando alemães, ingleses, franceses, dinamarqueses, holandeses ao longo de suas histórias. Mais uma vez minha presidente me encheu de orgulho ao dar uma descompostura naqueles governantes medíocres, incompetentes e corruptos, e ensinar-lhes o que fazer com seus dólares.
Tive a oportunidade, também, de avaliar como sou privilegiado por residir num país que pratica uma das políticas de distribuição de renda mais avançadas do mundo. Responsável direta pela erradicação da pobreza, foi concebida sob a ótica revolucionária do capitalismo de resultado, principalmente o eleitoral. Descobri que vivo em uma nação cuja população está condenada a ser rica: a pobreza caminha celeremente para ganhar status de contravenção penal. Um único senão fica por conta de meia dúzia de miseráveis que agora deu para querer andar de avião, transformando os saguões dos moderníssimos aeroportos nacionais num inferno.
O desenvolvimento espetacular do sistema educacional garantiu a mais de 20% dos adolescentes a alternativa inovadora de concluir o ensino fundamental sem sequer ter frequentado salas de aula, além de criar um método particular no ensino médio que estimula o potencial intelectual do aluno obrigando-o a percorrer os limites da compreensão para sair ileso das provas do ENEM. Sou um cidadão despreocupado e protegido e os investimentos pesados na segurança pública, confesso, até me fazem sentir saudade dos tempos em que religiosamente me prostrava em frente à televisão para assistir aos brasís urgentes.
Coisas do passado. A excelência no serviço de saúde oferecido pelo governo federal atingiu um estágio de excelência tão avançado que nossas autoridades são as primeiras a dar o exemplo. Quando necessitam de atendimento médico não hesitam em usar o Sistema Sírio-Libanês de Saúde. Estamos próximos da perfeição! Porém, inquestionavelmente é no plano político e na seara administrativa que percebo o maior de todos os avanços.
O Congresso Nacional é uma beleza! Constituído por homens públicos de integridade moral acima de qualquer suspeita, meus deputados e senadores são notáveis. Sobressaem-se pelo respeito devotado aos cidadãos quando nomeiam para suas Comissões os melhores quadros da Casa. A de Justiça, por exemplo, é comandada por um réu em processo de corrupção, e a da Educação tem como destaque um parlamentar que não se acovardou ante a dificuldade extrema imposta por uma oposição invejosa, utilizando menos que hora e meia para desenhar o seu nome diante de um juiz eleitoral. Há momentos em que o ufanismo se exacerba e não consigo me conter, reiterando minha gratidão por ter nascido no meu país!
O Executivo é o meu maior orgulho. Só presidentes como os meus seriam tão competentes para produzirem, sozinhos, quase duas dezenas de ministros corruptos em pouco mais de nove anos. E escaparem ilesos! O desempenho dos ministros é assombroso e o índice de aprovação apurado junto a fornecedores e ONGs companheiras sempre os premia com notas altíssimas. Uns ganham as de 50; outros, as de 100. É virtude demais. Posso estar errado, mas sou capaz de apostar que no relacionamento internacional o governo do meu país é reconhecidamente o único entre todas as nações que só funciona quando leva um pé no traseiro.
Sou duplamente abençoado, pois, além de ter nascido no meu país, habito o continente mais desenvolvido entre todos a América. Desconsiderando-se o Norte, que míngua à própria sorte, sou bafejado pela fortuna por viver na outra ponta continental e compartilhar de uma vizinhança da mais alta qualidade. Mais ao centro, percebe-se uma explosão de democracia, e é concedido aos oposicionistas o direito de morrerem de fome, sem nenhuma interferência governamental. Ao Sul, estende-se uma malha invisível que dá guarida a democratas legendários e inquestionáveis. Kirchner, a Evita de Nestor; Morales, A Grife do Índio; Lupo, O Pai de Todos; Chavez, O Tio Sam de Boina e Correa, O Peito de Aço. É democracia demais. E futuro de menos.
Como desgraça pouca é bobagem, de tempos em tempos todos se juntam à Dona da Pensão em algum ponto dessa América destroçada para se autoproclamarem heróis nacionais, dissertarem sobre as delícias do socialismo capitalizado e ofender os americanos do norte. Entre um descuido e outro, até comentam a miséria extrema que devasta a América. A América que eles devastaram. Éter na mente, latino-americano!
Quando termina o último dos quatro telejornais vai-se junto a sensação de êxtase que deles emana e fica apenas a certeza de que esse é o meu país. Mas, decorrente dessa convicção, sei, também, que esse jamais será o meu governo!

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