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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

"Seu Catatumba"


*LUIZ FELIPE PONDÉ (Folha de SP – 23/01/2012)
Ríamos juntos, o ‘sobrenatural’ e eu, levando um papo sobre mulher. Já falou com um exu?

Conversava eu com um exu numa festa num terreiro de candomblé quando, de repente, ele começou a falar de mulher. Grande especialista. Para quem é “consumidor” do sexo frágil, exus são grandes mestres. Você já conversou com um exu?
Recomendo conversar. Pura sabedoria popular, daquelas que marxistas menos obcecados chamariam de espírito menos alienado porque mais “orgânico”. No caso, a palavra “espírito” tem duplo sentido, e um deles é espírito como “fantasma incorporado”.
Não, exus não são demônios, são mais uma espécie de orixá que media as relações entre nós e os deuses. Alguns os relacionam a Hermes (Grécia), Mercúrio (Roma) e Thot (Egito), todos os três deuses mensageiros entre os homens e os deuses.
Como ele está em meio ao nosso mundo, é “melado” com ele, claro. Ocupa-se de nossas demandas e, por isso, são famosos por “trancarem ou abrirem as encruzilhadas da vida”.
Claro que existe aí um sincretismo, porque este exu também tem um nome próprio de “quando viveu na Terra”, e orixá africano “puro” nunca “viveu na Terra” como um encarnado.
As parceiras dos exus são as “pombagiras”, mulheres que gostam de falar de amor e sexo, que, quando vivas, tiveram muitos amantes e que representam, assim como os exus, a dimensão mais carnal e erótica da vida.
Quando elas “descem” e começam a dançar, é bonito de ver e de escutar suas músicas de lamento de amor e de desejo de sexo.
Incrível como também nessa religião de origem africana, as mulheres são especialistas em amor e sexo e só pensam “naquilo”.
Ingenuidade masculina pensar que somos mais obcecados por sexo do que elas. Se um dia você, meu caro leitor, tiver a chance de ouvir um papinho entre mulheres, você provavelmente vai se sentir um santinho inexperiente.
Então me dizia “Seu Catatumba”, o nome que ele escolheu para si mesmo depois de assumir sua função na “falange” dos exus: “Não dá para entender as mulheres!”. Imagine só: o cara é um deus numa religião africana e me disse isso num papo em que ele e eu fumávamos charutos cubanos e bebíamos cerveja.
Até os deuses sabem disso, menos elas. As mulheres são incompreensíveis. Mas essa incompreensibilidade não as atinge prioritariamente quando atuam como profissionais, mas principalmente quando relações de afeto estão envolvidas.
Dizia “Seu Catatumba”: “Quando você está dizendo a verdade, ela não acredita; quando você está mentindo, ela acredita; quando chora, é porque ri por dentro; quando ri, é porque está triste; quando você acha assim, ela acha assado, quando você acha assado, ela acha assim; quando você vai para cá, ela vai para lá; quando você vai para lá, ela vem para cá; quando diz sim, é não; quando diz não, é sim”.
Ríamos juntos, o “sobrenatural” e eu. Uma delícia levar um papo sobre mulher com o “sobrenatural”, fumando legítimos cubanos (presente meu para ele) e cerveja, e ver que nem ele sabe nada sobre o que as mulheres querem.
Meu caro Freud, você está perdoado: nem deuses africanos sabem o que a mulher quer.
“Seu Catatumba”, pelo que me disse, “morreu de mulher” (por causa de mulher). Aliás, morte bem dramática e digna de ópera: esfaqueado pelas costas. Como se dizia antigamente, “crime passional”, hoje seria apenas “crime de gênero”.
Teoria de gênero é a teoria segundo a qual não existe mulher e homem, mas sim “construções sociais” a serviço da opressão, assim como o mito do Papai Noel está a serviço das lojas de brinquedos. Para os tarados da teoria de gênero, um exu é apenas mais um machista.
Continuava “Seu Catatumba”: “Morri de mulher; passei a vida atrás delas; tentei sempre fazer o que elas queriam; sempre amei as mulheres; sempre no meio delas, atrás delas; coisa gostosa é mulher; a gente homem é bicho bobo por mulher, e sempre acaba morrendo por causa de uma”.
Não é novo o que me disse o exu, mas é encantadora a ideia de que mesmo ele, meio homem, meio deus, aliás, como uma espécie de Eros platônico em versão africana, confirma: não dá para entender as mulheres.
Você pergunta se eu acredito em exus? “Yo no creo en las brujas pero que las hay las hay.”

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