terça-feira, 14 de setembro de 2021

A NUDEZ DAS CORTES

Percival Puggina

 

Expostos a sucessivos choques de realidade, os opositores mais ferrenhos do presidente da República estão atarantados. Projetaram sobre ele seus fantasmas pessoais. Para todos os efeitos, o futuro do país resultaria das ações desse terrível personagem no ambiente a ser criado pelo projeto político oposicionista. Ora, quem conta estórias sobre o que vai acontecer na vida real acaba trombando contra o concreto duro dos fatos. É um processo autodestrutivo, que muitos estão descobrindo tarde demais. Os fatos são teimosos.

Mesmo antes da campanha eleitoral de 2018, a mídia militante brasileira cuidou de moldar em seu imaginário criativo um Bolsonaro homofóbico, xenófobo, racista, machista, misantropo.  Essas acusações, não encontrando fundamento em ações do presidente, ou em medidas do governo, foram deixadas de lado para que ele, no imaginário dos romancistas da mídia militante, virasse miliciano e genocida.

Como tampouco por aí os fatos corresponderam à conduta do personagem inventado, a criatividade dos novos autores da história passou a acusar o presidente de ser um rematado e histórico golpista.

Veio o 7 de setembro. Milhões de brasileiros saíram às ruas em todo o país. Não houve um carro arranhado, um vidro quebrado. A ninguém antes, os cidadãos brasileiros concederam tão explícito e pacífico apoio. Que uso fez dele o presidente? O teimoso, turrão, brutamontes inventado pela mídia mostrou sua musculatura política e, no passo seguinte, desmascarando os verdadeiros golpistas, derrubou os historiadores do futuro. 

O descontentamento com que receberam a Carta à Nação mostrou o real interesse de seus adversários. É inevitável, agora, a exposição dos verdadeiros golpistas e a identificação dos construtores do conflito entre os poderes.

Está doendo e visível como fratura exposta a crise da democracia representativa no Brasil. Ela é permanentemente desacreditada pelas tramas, insensibilidade, incompetência e pelo desprezo da cúpula do Congresso Nacional à “incômoda” voz das ruas. Logo após as manifestações do dia 7 de setembro, o presidente do Senado suspendeu as sessões dos dias subsequentes e fechou as portas!

Quem é golpista? Quem estica a corda? Quem desarmoniza os poderes? Qual a instituição de Estado que não cumpre seu papel? Qual a que ultrapassa os limites impostos pela Constituição? Quem quer o insucesso do governo?

Não é o rei que está nu. São as inteiras cortes de Brasília, na hora da verdade.

Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

https://www.puggina.org/artigo/a-nudez-das-cortes__17466


 

Percival Puggina, "A NUDEZ DAS CORTES"


 

"Obrigado Eric Clapton", por Guilherme Fiuza


Um homem que não é um rato se revolta contra uma tirania quando está diante dela. Mesmo que essa tirania esteja impecavelmente fantasiada de ética humanitária



Quando a humanidade mais precisou lutar pela sua liberdade, os homens sumiram. Ratos de boa aparência passaram a despontar exuberantes por toda parte — cheios de palavras solidárias, empatias e éticas embelezando seus propósitos asquerosos, como é natural em todo verdadeiro rato. De que esgoto vip saíram tantos roedores impecáveis?

De esgoto nenhum. Eles já estavam aí, circulando a céu aberto, e muitos até já mereceram a sua admiração, ou a sua amizade, ou o seu voto, ou o seu respeito. Você jamais imaginou que algum deles botaria polícia para bater em mulher na rua fingindo com isso salvar vidas; ou te fotografaria andando de bicicleta para mostrar aos linchadores sedentos que você é um pecador porque não ficou em casa.

Os ratos já estavam entre nós — e o nosso pecado foi não percebê-los como tal, por trás das suas máscaras de gente.

Eles são muitos. Estão por toda parte. Talvez sejam maioria. E quando você acha que eles já botaram toda a sua escrotidão para fora, eles te surpreendem com uma nova, mais escrota ainda. Foi assim que a humanidade chegou ao estupro vacinal. Esse não tem paralelo na história — não em tempos de paz.

Criaram uma vacina em questão de meses e saíram vacinando. Simples assim. As incertezas sobre eficácia e segurança foram todas resolvidas com propaganda e manchetes de jornal. E censura, claro, como manda o manual do cientista roedor. Seis meses de vacinação, seis meses de agravamento da pandemia. Conclusão: a vacina é ótima e deve ser obrigatória para salvar a humanidade.

Como impor à população substâncias que ainda não estão prontas? Como exigir a inoculação em alguém de algo que ninguém sabe ainda exatamente quanto funciona e que riscos totais representa? Como tornar um experimento obrigatório?

Numa democracia, dentro do Estado de Direito, seria impossível. Não existem experimentos obrigatórios na lei — pelo menos não nas sociedades livres. Foi aí que você se enganou. Ficou contemplando a bela ideia de liberdade democrática e não viu as ratazanas em forma de gente. Para um rato, um princípio humanitário é como um pedaço de carne podre: deve ser triturado e deglutido rapidamente, antes que outro mais dentuço o faça.

Se você está chegando agora a este planeta, sente-se na poltrona do seu disco voador para não cair para trás: crianças e adolescentes, com risco de morte pela nova doença em média inferior a 0,003% (ver John Ioannidis, Stanford), entraram no experimento — com muitos anos de vida pela frente para descobrir o que os supostos imunizantes causarão ao seu organismo, já que dessa vez a “humanidade” preferiu injetar primeiro e estudar depois. Não se sabe se teve sorte ou azar quem não precisou de anos para descobrir os problemas, ou pelo menos os primeiros.

Foi aí que, em meio à barulhenta população de ratos de boa aparência — empapuçados de propaganda e arrotando ciência —, surgiram alguns poucos homens. Um deles se chama Eric Clapton. Após mais de sete décadas prestando elevados serviços à arte, ele veio salvar a dignidade.

Clapton enfrentou dormências, dores agudas e paralisias após tomar a vacina contra a covid-19 — essa que os especialistas te garantem que é segura e vale a pena. Por uma coincidência incrível, este homem é um dos maiores guitarristas da história e a paralisia da vacina atingiu suas mãos. Talvez um desses especialistas dissesse: não se preocupe, você ainda tem a sua voz.

Eric Clapton anunciou que cancelará seus shows em locais proibidos a não vacinados

Mas o tipo de resposta que Clapton ouviu foi um pouco menos polido. Basicamente, o artista que estava simplesmente descrevendo o seu sofrimento físico após se vacinar passou a ser acusado de “politizar” a pandemia. Felizmente já avisamos a você que estamos falando de ratos.

Um homem que não é um rato se revolta contra uma tirania quando está diante dela. Mesmo que essa tirania esteja impecavelmente fantasiada de ética humanitária. Um tirano medonho jogaria este homem na masmorra. Os ratos de boa aparência não têm essa coragem. Eles tentam matar em vida sua vítima roendo-lhe a moral — tentando fazê-lo afundar, sucumbir, desaparecer sob um estigma paralisante como o efeito da imaculada vacina.

Eric Clapton não desapareceu. Cresceu. Se agigantou — como sempre ocorre a um grande homem quando acuado por anões morais.

O novo hit de Clapton — com mais de 1,5 milhão de visualizações em menos de uma semana — se chama This Has Gotta Stop (“Isto tem que parar”). Já foi longe demais. Se quiserem levar minha alma, vocês vão ter que vir e derrubar esta porta — avisa na canção o homem que não quis, como tantos dos seus semelhantes, virar adereço de laboratório.

Eric Clapton anunciou que cancelará seus shows em locais proibidos a não vacinados. Ele sabe que a vacina nem sequer impede o contágio. Ele sabe o que é ética, o que é saúde e o que é fascismo. Saudações a quem tem coragem.

Sigam este homem. Ele está cantando para todos ouvirem, inclusive as ratazanas da censura: me acostumei a ser livre.

Obrigado, Eric Clapton.

Muito obrigado, Eric Clapton.

 Blog do José Tomaz 

quarta-feira, 28 de julho de 2021

CORRIDA DE FUNDO, COM BARREIRAS

Vai ser difícil acusar o adversário de ladroagem se Lula foi o chefe do governo mais corrupto da história do Brasil.


Como qualquer cidadão deste país pode constatar diariamente por tudo o que lhe dizem, mostram e escrevem, Lula é o próximo presidente do Brasil. Já está, a esta altura, escolhendo seus ministros — Guilherme Boulos, por exemplo, para crescer na foto e ser o seu candidato nas eleições de 2030, ou Dilma Rousseff, aí já não se sabe por quê —, está escrevendo as “políticas públicas” do seu governo, combinando chamar de volta as empreiteiras de obras e os médicos cubanos, e fazendo aquelas coisas todas que fazem os presidentes que têm hora marcada para assumir. Pergunte ao ex-presidente Fernando Henrique, ao Datafolha ou ao Jornal Nacional — é Lula, e não se fala mais nisso.

E Jair Bolsonaro, não existe mais? Não, não existe. Todos os citados aí acima mais os cientistas políticos, as classes ilustradas e o New York Times estão certos de que ele morreu e não sabe. Sua popularidade cai a cada cinco minutos. Proibiu a compra de vacinas e, ao mesmo tempo, roubou milhões de vacinas — que, aliás, não foram compradas — embora quase 120 milhões de brasileiros já tenham sido vacinados. Tocou fogo na Amazônia. Matou mais de 500.000 pessoas, e vai matar mais. É genocida. Perseguiu os índios, os quilombolas e as mulheres. Não pôs a máscara. Vai ser expulso da Presidência por um impeachment que já está no papo; ou seja, não vai nem ser candidato.

Muito bem — mas, agora, é preciso que essas coisas todas aconteçam. Em primeiro lugar, Lula tem de vencer as eleições de 2022; não chegará lá, como tudo o que lhe acontece de bom na vida hoje em dia, por uma liminar do STF, mesmo com todo o empenho dos ministros Fachin ou Lewandowski, Toffoli ou Gilmar Mendes. Para isso terá, em primeiro lugar, de ser candidato — algo que ele quer muito, mas que pode não ser possível. Sua única vantagem competitiva de verdade, neste momento, é o desmanche de Bolsonaro. Durante os próximos quinze meses o presidente vai ter de continuar se desmanchando, e ele, Lula, vai ter de continuar crescendo — fora do mundo encantado das pesquisas. Não é uma questão de escolha: para Lula ser presidente de novo, tem de ser assim.

Lula e o PT contavam com o lema “vacina para todos”. Mas o que vai acontecer quando todos estiverem vacinados?

Há dificuldades nessa caminhada em que um tem de andar sempre para trás e o outro tem de andar sempre para a frente. Tome-se, para começar, o tema da corrupção — é complicado fazer uma campanha eleitoral no Brasil sem acusar o outro de corrupção. Lula e o PT, como se sabe, nunca viveram sem isso numa eleição; a não ser quando tiveram de suceder a si próprios, sempre jogaram tudo no “pega ladrão”. E na campanha de 2022? Vai ser difícil acusar o adversário de ladroagem se você foi o chefe do governo mais corrupto da história do Brasil, puxou cadeia por corrupção passiva e lavagem de dinheiro e tem de convencer da sua honestidade pessoal uma população notoriamente descrente das virtudes de qualquer pessoa que vai presa.

É falar de corda em casa de enforcado, e o PT sabe disso; suas lideranças, aliás, já estão dizendo que Lula vai “dar preferência”, na sua campanha, aos “temas mais ligados aos interesses diretos da população”. Gilmar Mendes, Fachin, Lewandowski & Cia. podem dizer quanto quiserem que Lula é “inocente” — quem acredita em alguma coisa que venha do STF? Para Lula, na verdade, seria melhor que nenhum deles dissesse nada a respeito do assunto de hoje até o dia da eleição. Quanto menos o nome do ex-presidente aparecer ligado a qualquer ministro do STF, melhor para a sua reputação. Ele vai ficar falando na sua “inocência”, é claro — mas roubalheira do adversário, que é bom numa campanha, não deve rolar.

Há também o problema da vacina, e não é pouca coisa. Os problemas da vacinação, reais ou imaginários, teriam de ser o carro-chefe de uma campanha eleitoral nos dias de hoje — o que poderia ser melhor, numa hora dessas, do que acusar o outro lado de não aplicar uma vacina que vai salvar “vidas”? Só mesmo a ajuda de Deus. Lula e o PT contavam, de coração, com o lema “vacina para todos”. Mas o que vai acontecer quando todos estiverem vacinados? Estamos em julho de 2021 e a vacina já está chegando aos jovens; até o fim do ano, a vacinação estará encerrada. Falar, em julho do ano que vem, que a vacina “demorou”, ou que Bolsonaro disse que não era culpa dele se alguém virasse jacaré, ou que o general Pazuello fez isso, ou não fez aquilo, não vai adiantar nada; ninguém vai nem mais lembrar quem foi o general Pazuello.

Falar da “recessão” também não está com boa cara. Em primeiro lugar, a maior criatura política da vida de Lula, a ex-presidente Dilma, criou e agravou a pior e mais longa recessão da economia brasileira, por sua pura inépcia e má gestão das autoridades econômicas. Como na ladroagem, é melhor não mexer com o assunto. Em segundo lugar, vai ser preciso haver mesmo uma recessão em 2022. Este ano, pelos cálculos feitos até agora, vai haver crescimento — de 5,2%, o maior desde 2010. Não se vê, hoje, nenhum fato indicando que em 2022 as coisas andem ao contrário. É o mesmo problema com o desemprego. É um caso de torcida: dá para aumentar os quase 15% de hoje, mas isso não é muito pior que o desemprego da recessão de Dilma. A foto de hoje também não é animadora para Lula: foi criado 1,2 milhão de empregos formais neste primeiro semestre. O enfraquecimento da covid e o avanço da vacinação, ao mesmo tempo, sugerem que essas taxas vão continuar subindo.

Propor o quê? Novas estatais? Transposição do Rio Amazonas?

Outra dificuldade é o próximo Bolsa Bolsonaro — o “auxílio de emergência”, ou “renda cidadã”, ou outro programa qualquer de entrega de dinheiro à população. É certo que o governo, que já experimentou essa substância e gostou, não vai ficar parado, olhando a paisagem. Vem mais dinheiro por aí — e, obviamente, vai ficar ruim cair de pau em cima de um governo que está dando uma mesada para os pobres, mesmo porque já caíram de pau quando o auxílio atual foi temporariamente suspenso. Vão falar que é demagogia, claro, mas e daí? Lula não pode propor que Bolsonaro pare de pagar, ou pague menos; o Congresso não vai vetar, em nome da austeridade nas contas públicas, e o STF vai ficar quietinho. É uma sinuca.

Seria preciso, também, arrumar mais 500.000 mortes para engrossar a conta do genocídio, ou de preferência 1 milhão. Lula pode contar com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, que é dirigido por um cidadão que se chama “Carlos Lula” e diz quantas pessoas morrem a cada dia de covid, em sociedade com um “consórcio” de veículos de imprensa. Mas não é fácil um negócio desses dar certo — há os relatos dos hospitais que informam sobre a ocupação de leitos nas UTIs, e outras complicações. Há, é claro, os intratáveis problemas de Bolsonaro no Congresso e a pressão, cada vez mais agressiva, para o seu impeachment — algo que começou no dia da sua posse e continua até hoje. Mas aí é preciso esperar que o presidente não faça nada para se defender, e deixe dois terços dos deputados e dos senadores votarem contra ele — isso se o pedido de impeachment chegar ao plenário.

Não se sabe até agora, enfim, qual programa de governo Lula terá para apresentar durante a campanha — coisa que sempre pode ser inventada em meia hora, mas que ainda assim precisa se sustentar em alguma coisa. Em outras palavras: é preciso dizer ao eleitor por que raios, afinal, ele deveria votar em você e não no outro. A grande esperança da esquerda, do Brasil “que pensa” e da mídia é que a rejeição a Bolsonaro resolva tudo. Lula nem precisa fazer algum esforço especial. Basta que seja candidato, fique parado e não crie nenhum grande problema; Bolsonaro vai se destruir sozinho, pelo simples fato de ser Bolsonaro. O problema com esses desejos é que a maioria do eleitorado tem de pensar do mesmo jeito.

Propor alguma coisa vai ser difícil. Propor o quê? Novas estatais? Distribuição ao povo das reservas internacionais? Perdão das dívidas pessoais? Isenção geral de aluguéis? Transposição do Rio Amazonas? Volta dos médicos cubanos? A agenda pró homossexuais-negros-índios-mulheres e contra as queimadas-agrotóxicos-militares, por outro lado, é difícil de pegar. Não funcionou na eleição de 2018. Funcionaria na eleição de 2022? Por quê? A imprensa, os intelectuais e o centro civilizado, por fim, acreditam muito em derrotar Bolsonaro falando mal da “ditadura”. Não parece ser uma grande ideia. Uma parte não acredita em golpe de Estado, regime militar e ditadura. Outra parte é a favor. Melhor deixar quieto.

Bolsonaro, pela dificuldade de olhar além do seu próprio eleitorado, governar o país com mais harmonia e menos tensão e admitir que política vai além das redes sociais e do celular, ajuda qualquer adversário. Mas é preciso, para quem quer ficar no seu lugar, ajudar a si próprio. O presidente é dado como liquidado; pode até ser que esteja mesmo. Bolsonaro, por esse modo de ver as coisas, foi eleito em 2018 porque era o anti-Lula. Lula vai ser eleito em 2022 porque é o anti-Bolsonaro. Mas o ex-presidente, o maior nome lançado contra ele até o momento, tem pela frente uma corrida de fundo, com barreiras.

J. R. Guzzo

quarta-feira, 9 de junho de 2021

CARTA AO LEITOR - REVISTA OESTE


O espetáculo do horror da CPI da Covid, o sequestro da bandeira ambiental pela esquerda e as áreas preservadas no interior das propriedades rurais brasileiras.

Tom Jobim constatou que “o Brasil não é para principiantes”. A descoberta é agravada pela suspeita de que nem especialistas em assuntos brasileiros conseguem decifrar o país. Como levar a sério, por exemplo, uma CPI do Senado presidida por Omar Aziz e conduzida pelo relator Renan Calheiros, ambos protagonistas de casos de polícia? Ou qualificar de fracassada uma campanha de vacinação que aplicou quase 70 milhões de doses em menos de três meses? Ou, ainda, acreditar que o principal candidato da oposição é um corrupto condenado duas vezes, uma delas em terceira e última instância? “Só no Brasil”, como resume o título do artigo de J. R. Guzzo.

Também é só no Brasil que qualquer notícia positiva inclui um “mas” que introduz uma ressalva destinada a piorar o fato que realmente importa. “Sob Bolsonaro, crime cai e emprego cresce, mas área social piora”, noticiou um dos três principais jornais no começo de 2020. “PIB cresce 0,4% e surpreende, mas retomada é lenta”, avisou o segundo em agosto. Na semana passada, os “vigaristas da adversativa”, na definição de Augusto Nunes, entraram novamente em ação nas primeiras páginas para impedir que os leitores se animassem com a recuperação econômica. “PIB cresce mais que esperado, mas desemprego ainda resiste”, disse o terceiro.

Não é só no Brasil, contudo, que a bandeira ambiental foi sequestrada pela esquerda, informa a reportagem de capa desta edição, escrita pela jornalista Ana Brambilla. Quem conhece a história do Brasil sabe que esse estandarte sempre foi carregado por conservadores. No livro Filosofia Verde, o escritor inglês Roger Scruton, um dos grandes pensadores de direita, responsabiliza cada habitante do planeta pela preservação da natureza, “desde o recolhimento do lixo até o cuidado com outras espécies”.

Entre as desinformações difundidas por uma esquerda carente de causas relevantes figura a fantasia segundo a qual o agronegócio brasileiro é o grande predador ambiental. A farsa é desmontada no artigo de Evaristo de Miranda, chefe-geral da Embrapa Territorial. Ele prova com argumentos consistentes que o produtor rural é quem mais preserva a natureza. Evaristo lembra que “mais de um quarto do território nacional (26,7%) está dedicado a preservar a vegetação nativa no interior dos imóveis rurais”.

Também não é só no Brasil que feministas se recolhem à mudez — “um silêncio ensurdecedor”, afirma Rodrigo Constantino em seu artigo — quando as vítimas do ataque são “conservadoras” ou “de direita”. Na CPI da Covid, o tratamento a mulheres assim definidas por bandos esquerdistas gerou um espetáculo do horror que serviu de inspiração para a crônica “A médica e o monstro”, de Guilherme Fiuza.

Decididamente o Brasil não é para principiantes. Nem para profissionais.

Boa leitura.

Os Editores.

terça-feira, 8 de junho de 2021

O cavaleiro do apocalipse

 

Extraordinárias descobertas resultaram daquelas pestes e pandemias nos diversos campos do conhecimento, sobretudo na medicina e nos sistemas de saúde pública

Durante pouco mais de um ano de confinamento, tenho lido muitos textos sobre o coronavírus, claro, mas nenhum como o de Carmen Iglesias, intitulado Historia de las Pandemias (História das Pandemias, sem tradução). São cerca de 20 páginas sem uma única linha que possa ter sido desperdiçada e que, além de traçar uma síntese muito precisa da maneira como as pestes e as epidemias coletivas acompanham a história da Europa, conseguem tirar conclusões otimistas e civilizadoras sobre esta praga e suas variantes —a britânica, a australiana, a brasileira, a indiana— que, temos a impressão, estão devastando a Europa (e o resto do mundo também).

Iglesias nos lembra de que o poema fundador de Homero, Ilíada, descreve a mortandade que cai como um castigo divino sobre os aqueus e como vingança de Apolo pelo sequestro da filha de um dos sacerdotes. Desde então, a literatura dará testemunho daquelas incompreensíveis devastações que semeavam o horror por todos os cantos do planeta, e que as pessoas, que não entendiam nada do que acontecia ao seu redor, salvo que morriam como moscas, atribuíam aquilo a um castigo dos deuses pelos pecados dos seres humanos. Procuravam-se bodes expiatórios, e certamente entre eles os judeus, as bruxas, os magos, todos os que eram diferentes e constituíam alguma forma de marginalidade. Quantas fogueiras e vítimas a ignorância causou!

Tucídides é o primeiro historiador a descrever, em sua História da Guerra do Peloponeso, com rigor e sem atribuir responsabilidade alguma aos deuses, a peste que destruiu Atenas no ano 430 antes da era cristã. Desde então, há documentos históricos registrando esses periódicos cataclismos humanos que vão devastando todas as civilizações conhecidas, das mais estáveis e firmes, como o Império Romano em tempos de Marco Aurélio (uma das vítimas da calamidade) e o Império Bizantino, do imperador Constantino, destruído pela peste bubônica, até uma Idade Média arrasada pelo cólera, o tifo, a disenteria, a febre amarela e outros males. E, poderíamos acrescentar, após longos anos, pelos cavaleiros mongóis, que invadem a Europa não apenas com facas em busca de gargantas, mas que carregam em seus alforjes todas as doenças e pandemias asiáticas que semeiam por toda parte as famosas “pestilências” da quais nos falam os romances de cavalaria.

No centro da Europa chega-se a inventar, naqueles anos terríveis, “o cavaleiro apocalíptico” que vai de cidade em cidade, de vilarejo em vilarejo, espalhando as doenças que acabam com as pessoas e mandam suas almas se queimarem no inferno. A geografia das cidades se transforma em função das pandemias, pois os sobreviventes de cada surto se adaptam a essas mudanças e fundam novos vilarejos e cidades, fugindo dos desconhecidos e invisíveis agentes do diabo que, como é o caso da lepra, destroem pouco a pouco o organismo das pessoas infectadas antes de matá-las. A passagem do tempo não admite sossego para os habitantes da Europa; com as pestes, explodem “superstições e disparates”. Mas também aumenta o espírito religioso, e muitas das longas procissões que ainda percorrem as ruas europeias nasceram para combater, com as orações dos fiéis, sacerdotes e pastores, os “castigos do céu” que chegavam à Terra em forma de doenças coletivas.

A mudança de clima às vezes provoca transtornos espetaculares na vida das cidades. Foi o que aconteceu durante os cinco séculos conhecidos como “a pequena Era do Gelo”, tempos em que se chegou a dizer que era impossível compreender as variações entre as altas temperaturas e as geadas vividas pela Europa, e com a fome que estas provocavam, como ocorreu entre 1315 e 1316, quando os países europeus foram literalmente dizimados pelos súbitos transtornos da atmosfera. Morreram tantas famílias quanto nas piores pandemias de que se tem notícia.

E, no entanto, apesar dessa tradição destrutiva, é possível dizer que a humanidade foi aprendendo. E que extraordinárias descobertas resultaram daquelas atrocidades nos diversos campos do conhecimento, sobretudo na medicina e nos sistemas de saúde pública. E que não houve nada como as pandemias periódicas às quais o mundo esteve acostumado (e talvez sempre estará), para criar os modernos hospitais e enfermarias, e fazer avançar as descobertas da ciência. A covid-19 teria produzido provavelmente cem vezes mais vítimas em todo o planeta se tivesse ocorrido antes ou ao mesmo tempo que a arbitrariamente chamada “gripe espanhola”, considerada responsável por matar mais gente que em toda a Primeira Guerra Mundial. A medicina progrediu de forma prodigiosa graças à peste, o que não impede que esta continue desafiando o saber científico, como se revelou na última pandemia. Quando acreditávamos que aquilo seria impossível nestes tempos, em que nós viajamos à Lua e vários países invadem as estrelas com suas naves espaciais, porque a natureza já não parecia ter segredos para nossos pesquisadores. Tivemos então a surpresa maiúscula, por causa, aparentemente, de um homem que numa cidade chinesa comeu ou fornicou com um morcego, criando um vírus que deixou dezenas de milhares de mortos espalhados pelo mundo inteiro.

Uma das partes mais interessantes do trabalho de Carmen Iglesias se refere à peste como incitadora dos prazeres, que ela chama o Carpe diem (Aproveite o dia). A proximidade da morte e a atração do perigo despertam apetites sexuais em certos seres humanos, uma excitação dos sentidos e uma busca irracional do prazer que transforma os palácios e castelos em bordéis de luxo, onde praticam-se todos os vícios e se morre do excesso antes que da doença. Tucídides já considerava esse fenômeno durante a epidemia que devastou Atenas no quarto século da era passada. A literatura tem sido especialmente rica ao apresentar esse aspecto mortuário e cerimonial dos prazeres em tempos descentrados pela revolução e pelas pragas, como ocorre na narrativa chamada “gótica” e nos pesadelos novelescos do Marquês de Sade.

Em seu ensaio, Carmen Iglesias cita com elogios o livro ¡Aplaca, Señor, tu ira! Lo maravilloso y lo imaginario en Lima colonial (Acalma, Senhor, sua ira! O maravilhoso e o imaginário na Lima colonial, sem tradução), do historiador peruano Fernando Iwasaki, no que diz respeito à chamada Morte Negra, o inapelável fim do mundo, que era considerado iminente e espalhava o terror e a loucura em amplos territórios, como nas distantes colônias espanholas da América. O misterioso desaparecimento de culturas e civilizações, como a dos maias na América Central e a dos mochicas no Peru, sem dúvida tem relação com esse fenômeno.

Embora relativamente pequeno, o trabalho deve ter tomado um bom tempo de Carmen Iglesias, com a revisão de velhos livros e inúmeros documentos. Ela é uma trabalhadora discreta e pertinaz que costuma produzir esplêndidos ensaios. Lendo-a, aprendi muito sobre a Espanha. Iglesias dirige a Real Academia de História e integra Real Academia Espanha. E muitos nos perguntamos como consegue ter tempo para fazer tudo o que se lhe impõe. Ela foi também professora de temas de história do atual rei da Espanha, Felipe VI. E não há dúvida, ouvindo seus discursos, de que ele aproveitou muito bem seus ensinamentos.

Madri, abril de 2021

Mario Vargas LLosa - El País



Só no Brasil

Somos o único país no mundo onde há uma CPI 'para investigar a covid' na qual o presidente, um Omar Aziz, foi investigado pela PF por corrupção XXXXL-plus na área de saúde.
No tempo em que o patriotismo ainda era um sentimento lícito, e o sujeito não precisava se esconder para dizer que gostava do Brasil e de ser brasileiro, ninguém achava nada de mais que um professor de ginásio recomendasse a leitura de algumas páginas de Porque Me Ufano do Meu País, do conde Afonso Celso. Hoje em dia, é claro, não passa pela cabeça de ninguém fazer algo parecido — principalmente numa dessas escolas que cobram mensalidades de R$ 10 mil, exigem a “inclusão social” e chamam alunos e alunas de “alunes”. O infeliz que citar um texto assim na sala de aula vai ser posto no olho da rua, sob o aplauso dos pais, acusado de vício fascista, direitista ou até bolsonarista. Já imaginaram? Melhor não imaginar nada. Tudo bem: mesmo naquela época de inocência, o texto já era visto como um belo exagero em matéria de ingenuidade. Nos dias de hoje, porém, o buraco é muitíssimo mais embaixo.

O problema não é só o risco de parecer bobo, ou de ser denunciado pela prática de crime ideológico. Com o país do jeito que está, até o patriota mais otimista não vê motivo para se orgulhar de nada — não em qualquer coisa que tenha algo a ver com a maior parte da vida pública nacional. Orgulhar-se de quê? Ao contrário. Onde se dizia que o Brasil era um lugar único no mundo, porque nosso céu tem mais estrelas, nossos bosques têm mais vida e nossa vida mais amores, hoje se diz: ”Só no Brasil é possível um negócio desses”. Você sabe muito bem o que significa esse “só no Brasil”, e que “negócios” são esses. Significa que o Brasil é o único país, entre outros mil (ou pelo menos os 200 e tantos que estão na ONU), onde acontece um certo tipo de aberração em modo extremo — tão extremo que não é possível, segundo a lógica comum, encontrar nada de equivalente em qualquer outro ponto do planeta.

A lista desses despropósitos é uma obra em aberto. Cada um pode fazer a sua, com quantos itens quiser — e a qualquer hora do dia ou da noite, mesmo fora do horário de expediente público, a relação dos tops de linha pode ser aumentada por uma alucinação novinha em folha. Feita essa ressalva, segue abaixo, com data de hoje, o pretinho básico, estritamente básico, em termos de “só no Brasil”.

 O Brasil é o único país no mundo onde há uma CPI “para investigar a covid” na qual o presidente, um Omar Aziz, tem a seguinte anotação em sua folha corrida: foi investigado pela Polícia Federal por corrupção XXXXL-plus na área de saúde. (Não é piada; é o presidente mesmo.) Mais: sua mulher foi para a cadeia acusada de meter a mão em dinheiro público, também em questões de saúde. (Também não é piada; é a mulher dele mesmo, e foi mesmo para a cadeia.) Mais: além da mulher, nada menos do que três irmãos do homem foram presos nesse mesmo rapa e, mais uma vez, não é piada. Mais: dos 81 senadores que representam as 27 unidades da Federação, o escolhido para presidir as investigações vem, justamente, do Amazonas, o lugar onde mais se roubou no Brasil, e possivelmente no mundo, por conta das despesas públicas com a covid. A PF, por sinal, acaba de realizar busca e apreensão na casa e nos escritórios do atual governador do Estado, Wilson Lima, em mais uma operação para combater a ladroagem na compra de respiradores; um dos investigados, um dono de hospital a quem ele deu um contrato, recebeu a polícia à bala.

Como é possível que uma pessoa que jamais teve problemas com a Justiça seja interrogada por alguém com a ficha de Renan Calheiros?

Não gostou do presidente? Espere, então, pelo relator. Trata-se de ninguém menos que Renan Calheiros — o “Atleta” da lista de políticos corruptos registrados nos computadores do departamento de roubalheira da empreiteira Odebrecht, e um dos senadores mais encrencados com a Justiça criminal em todo o sistema solar. A presença de Renan nesse picadeiro é ainda mais inexplicável que a de Omar; do outro, pelo menos, ninguém tinha ouvido falar até a CPI. Mas o relator já está nessa vida há 30 anos. Como é possível que ele investigue alguma coisa? Como é possível que dezenas de pessoas que jamais tiveram o mínimo problema com a polícia, ou que jamais foram processadas por alguma coisa na Justiça penal, sejam interrogadas por alguém com a sua ficha? Renan, no papel misto de delegado de polícia, promotor e juiz, frequenta todos os dias as primeiras páginas e horários nobres da mídia como se fosse um Santo Tomás de Aquino, pelo menos. Mas ele é apenas o Renan Calheiros de sempre, que no momento responde a nove processos por corrupção. (Não são dez, nem onze, nem doze: as “agências de checagem de fake news” já fizeram questão de dizer que tudo isso é notícia falsa — são só nove processos penais no lombo, nem um a mais. Ah, bom. Ainda bem que avisaram.)

 O Brasil é o único país no mundo onde o presidente da República é acusado de ser o responsável por quase 470 mil mortes causadas até agora pela covid, pelo que informam os atestados de óbito. No resto do mundo já morreram, até agora, cerca de 3,5 milhões de pessoas; segundo a oposição, os comunicadores e as classes intelectuais brasileiras, desses 3,5 milhões, por volta de 3,1 milhões não são culpa de ninguém. Só os mortos do Brasil são culpa do governo.

 O Brasil é o único país no mundo onde uma campanha de vacinação que já aplicou perto de 70 milhões de doses em pouco mais de três meses é considerada um fracasso pelos cientistas de oposição — sim, porque no Brasil há tipos de ciência diferentes, a ciência boa e a ciência ruim, conforme a opinião política do cientista. Só três países, em todo o planeta, vacinaram mais que o Brasil. Dois deles são a China e a Índia, os maiores produtores de vacinas do mundo; além disso, a China tem 1,44 bilhão de habitantes, e a Índia, 1,38 bilhão. O outro são os Estados Unidos, país que tem um PIB de 21 trilhões de dólares, mais de dez vezes superior ao brasileiro, e também está entre os maiores exportadores; o “auxílio emergencial”, lá, equivale a mais de R$ 6 mil. Por que, então, o Brasil fracassou? “Vacinas para todos”, pede oficialmente a oposição. O país, na opinião da Frente Nacional Pró-Vírus, já deveria ter vacinado a população inteira, no mínimo — mesmo sem produzir aqui um único frasco de vacina, e depender 100% da importação de matéria-prima estrangeira. Os atrasos nas exportações de insumo por parte da China não são culpa da China — são culpa “do Bolsonaro”.

Há o argumento, também único, de que o Brasil vacinou apenas um terço da sua população total até agora — e a Inglaterra, ou Israel, já vacinou quase todo mundo. A Inglaterra tem um quarto da população do Brasil, além de ser um dos países que inventaram a vacina; Israel, então, não chega a ter 10 milhões de habitantes, e sua área é um pouco maior que a ocupada pelo território de Sergipe. Faça as suas contas.

 O Brasil é o único país no mundo onde o principal candidato da oposição, do centro moderado e dos defensores da democracia às eleições para presidente de 2022 é um ladrão condenado legalmente pela Justiça, em terceira e última instância, por nove juízes diferentes, por ter praticado os crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. A mídia, o mundo político e os institutos de “pesquisa de intenção de voto também já decidiram que ele está eleito, quase um ano e meio antes da eleição —  escolhe-se, no momento, o seu ministério, e discute-se a sério qual o cargo que vai ser ocupado pela ex-presidente Dilma Rousseff, que foi, ela própria, despejada do Palácio do Planalto por fraude contábil cinco anos atrás.

O Brasil, como outros países, tem uma lei que proíbe réus condenados pela Justiça penal de ocupar cargos públicos. Mas só aqui se consegue manter uma lei em vigor e, ao mesmo tempo, permitir que os interessados não façam nada do que está escrito nela — a saída, outra solução estritamente nacional, é dizer que o réu foi julgado num lugar e deveria ter sido julgado em outro. Nem é preciso inventar que ele não cometeu os crimes pelos quais foi condenado, ou perder tempo com qualquer fato que envolva a discussão de culpa ou de inocência: basta dizer que erraram de “foro”.

 O Brasil é o único país no mundo onde um ministro do Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte de Justiça da nação — no caso, o ministro Antonio Dias Toffoli —, reúne em si próprio, e ao mesmo tempo, as seguintes condições:

• Foi reprovado duas vezes — isso mesmo: duas vezes seguidas — no concurso público para juiz de direito, o que significa o seguinte, em português claro: ele não está autorizado a julgar nem uma ação de despejo na comarca de Arroio dos Ratos, por falta de habilitação profissional, mas pode dar sentença sobre qualquer coisa no tribunal máximo do Brasil.

• Recebia, e só parou de receber depois que descobriram, uma mesada de R$ 100 mil da própria mulher, que é advogada num escritório da capital federal com causas em julgamento no tribunal onde o marido dá expediente.

• Teve reformas na sua casa em Brasília, no valor de R$ 15 mil, pagas por uma empreiteira de obras públicas, quando já era ministro do STF.

• É acusado de receber propinas no valor de R$ 4 milhões e, no julgamento que o STF fez do caso — sobre a validade da delação feita contra ele —, não achou nada de mais em julgar a si próprio. Também não achou nada de esquisito em declarar a delação inválida e, com isso, julgar-se inocente. Salvo o ministro Marco Aurélio, nenhum dos seus dez colegas de Corte Suprema imaginou que Toffoli deveria abster-se do julgamento. Ficamos assim, então. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, pode ser investigado já. O presidente da República tem cinco dias para explicar por que não usa máscara. O governo tem três anos para resolver o problema das penitenciárias no Brasil — tudo por decisão do STF. E Toffoli? Nele é proibido mexer.

∗ O Brasil é o único país no mundo onde as pessoas existem ou deixam de existir, fisicamente, conforme a percepção visual, ética e política dos jornalistas. “Milhares saem às ruas contra Bolsonaro”, anunciaram alguns relatos sobre manifestações públicas no último fim de semana. Deveria ter sido noticiado, então, que “milhares saem às ruas a favor de Bolsonaro”, quando aconteceu a mesma coisa no fim de semana anterior, certo? Errado. Fotos, vídeos e testemunhos pessoais atestam a presença de gente nas duas ocasiões. Mas, segundo a mídia militante, há duas categorias de gente, como no caso dos cientistas — a gente que existe e a gente que não existe. A gente de quem você não gosta não existe.

J. R. Guzzo - Revista Oeste

segunda-feira, 7 de junho de 2021

HÁ 77 ANOS, ACONTECIA O DIA D, O EVENTO QUE MUDOU A HISTÓRIA

 A data é considerada fundamental para o fim da Segunda Guerra Mundial. Entenda!



O dia 6 de junho de 1944 ficou marcado na história da humanidade como a data crucial para o fim da Segunda Guerra Mundial. O episódio ficou conhecido pelos ataques das forças do Reino Unido, dos Estados Unidos, do Canadá e da França contra as tropas alemãs que ocupavam o litoral norte do território francês. 

O Dia D foi a maior operação militar realizada durante este conflito, responsável por marcar o início da libertação de parte do território europeu até então dominado pelos nazistas.

Ataque inesperado

O termo militar Dia D foi usado para se referir ao primeiro dia da operação que mudaria completamente os rumos da história da humanidade. Durante aproximadamente um ano, as forças contrárias ao nazismo planejaram o ataque contra os inimigos. 

Inicialmente, o plano foi pensado para ser executado no dia 5 de junho. Até então eles consideravam ser um dia bom para o ataque, já que combinaria mar calmo e maré baixa. Contudo, uma forte tempestade mudou os planos dos Aliados, que transferiram a operação para o dia seguinte.


Durante a madrugada, tropas de paraquedistas saltaram atrás das linhas inimigas. Já no mar, milhares de navios se posicionaram na costa da Normandia. Embora os alemães esperassem pelo confronto, os aliados utilizaram táticas de defesa e ataque que confundiram os nazistas. 

No decorrer daquele dia histórico, diversas tropas desembarcaram nas praias. De acordo com a BBC, cerca de 7 mil embarcações, com 156 mil militares, foram utilizadas no ataque. Além disso, 10 mil veículos foram usados nas cinco praias ocupadas.

Perdas militares e civis  

Estima-se que somente no Dia D, cerca de 4.400 soldados das forças aliadas foram mortos e outros 9 mil soldados ficaram gravemente feridos ou desapareceram durante o confronto.

Já o número de soldados alemães que foram mortos ainda hoje é desconhecido, conforme a BBC. Contudo, estima-se que entre 4 mil e 9 mil militares nazistas tenham sido executados. 




Por outro lado, milhares de civis franceses e outros inocentes foram mortos durante a operação, principalmente em decorrência dos intensos bombardeios na região. 

Os desdobramentos

O sucesso da operação deve-se ao apoio das forças aéreas e navais dos Aliados, que sem sombra de dúvidas eram muito mais fortes do que as forças nazistas. Todavia, naquele momento, eles temiam que os alemães pudessem reverter o cenário.

Para evitar serem empurrados de volta ao mar, os Aliados reforçaram suas tropas e, aos poucos, conseguiram avançar pelas cidades. Desta forma, no fim de agosto de 1944, Paris foi libertada.

Apesar da vitória, muitas pessoas foram mortas durante o processo. Acredita-se que cerca de 10% dos 2 milhões soldados aliados que participaram do confronto foram mortos ou ficaram gravemente feridos. Além disso, muitos outros homens desapareceram.

Dia D



quinta-feira, 3 de junho de 2021

Como calcular juros de financiamento de forma simples e segura

 Conhecer as taxas de juros envolvidas na operação é fundamental para adquirir um bem sem prejudicar o seu orçamento. Entenda como fazer o cálculo.


Saber como calcular os juros de um financiamento é fundamental para quem deseja comprar um bem. Seja para adquirir um imóvel, um automóvel ou qualquer outra propriedade, saber as taxas envolvidas na operação é importante para que o comprador conheça a quantia total a ser paga. Assim, fica mais fácil se planejar financeiramente para quitar a dívida sem prejudicar o orçamento.

A seguir, mostraremos que existem diferentes maneiras de fazer o cálculo e traremos algumas orientações para que você descubra exatamente o quanto será pago pela quantia emprestada. Confira: 

Como calcular juros de financiamento? Conheça a fórmula

Quando desejam calcular os juros de um financiamento, muitas pessoas consideram a diferença de preço para pagamento à vista e a prazo e, em seguida, dividem este número pela quantidade de parcelas. Embora seja simples, a conta não traz o resultado correto. Vamos a um exemplo. 

Um consumidor deseja comprar um carro que custa 80 000 reais à vista, mas a loja também oferece a opção de adquirir o automóvel em 24 prestações de 4 000 reais. Logo, o raciocínio mais comum seria:

24 x 4 000 = 96 000 reais 

96 000 - 80 000 = 16 000 reais, ou seja, 20% a mais do que o valor para pagamento à vista

20% / 24 meses = 0,83%

Seguindo este pensamento, a taxa de juros do financiamento do veículo custaria 0,83% ao mês. No entanto, para descobrir as taxas, valores das prestações ou quantidade de parcelas envolvidas em um financiamento com valor fixo, como o de automóveis e imóveis, aplica-se a seguinte fórmula:

Valor financiado = [{1 - (1+ taxa de juros) - prazo}/ juros] x valor da prestação

Que, neste caso, ficaria assim: 

96 000 = [{1 - (1+ taxa de juros) - 24}/juros] x 4 000 

Para este exemplo, o real valor da taxa de juros envolvida na operação é de 1,51%, e não 0,83%.

Embora seja importante saber que existe uma fórmula para calcular os juros de um financiamento, há outras maneiras de chegar a esse valor sem precisar fazer uma conta tão complexa. Para facilitar a operação, o Banco Central desenvolveu a Calculadora do Cidadão, disponível na página oficial do BC e em aplicativo, onde o consumidor pode fazer contas mesmo sem acesso à internet. Para utilizá-la, o usuário deve selecionar a opção “financiamento com prestações fixas”. 

A calculadora permite que o consumidor informe três de quatro variáveis para, então, descobrir a faltante. Desta forma, além dos juros, é possível saber o número de prestações envolvidas no financiamento, valor da parcela e o total financiado.

Por que é preciso saber como calcular juros de financiamento?

Descobrir o valor das taxas de juros praticadas em qualquer operação financeira é importante para não ser atraído por um financiamento “mascarado”. Em algumas operações, instituições financeiras incluem taxas de abertura de cadastro, taxas de avaliação de crédito, seguros, entre outros - e cobram juros sobre todas elas.

O problema é que, muitas vezes, os juros praticados sobre essas taxas não são informados, e as instituições divulgam para o cliente apenas o valor da principal taxa de juros do financiamento, para que o crédito pareça mais atrativo. O custo de todo o financiamento, incluindo todas as tarifas que o cliente paga, chama-se Custo Efetivo Total, ou CET.  

Leia também | CET: saiba o que é Custo Efetivo Total e como calcular 

Onde consultar o valor total dos juros?

Para evitar que o CET fique disfarçado no financiamento, o Banco Central criou uma norma que obriga as instituições financeiras a divulgarem o Custo Efetivo Total em destaque, em todos os contratos. As exigências estão reunidas na resolução n° 3.517.

No entanto, o ideal é perguntar sobre o CET e cobrar essa informação da instituição financeira muito antes de fechar negócio, ainda na fase de pesquisas. Assim, fica mais fácil mensurar o tamanho da dívida que poderá ser assumida e, principalmente, comparar as diferentes opções disponíveis no mercado. 

Isso porque, ao compararmos operações de crédito ofertadas por duas instituições financeiras, aquela que apresenta uma taxa de juros mais baixa pode não ser a mais vantajosa para o consumidor, quando considerados todos os outros custos envolvidos. 

Leia também | Melhor empréstimo: como comparar e escolher o ideal para você

Além disso, é importante saber que operações que envolvem aquisição de bens e de serviços devem conter esse total nos informes publicitários quando forem veiculadas ofertas específicas. Fique atento às “letras miúdas” para que nenhuma informação passe despercebida. 

De acordo com norma do Banco Central, o agente financeiro também deve informar ao consumidor o cálculo feito para chegar no CET. A fórmula oficial do CMN (Conselho Monetário Nacional) para chegar ao CET é a seguinte:

Veja o que significa cada uma das letras:

  • N: prazo do contrato, contado em dias corridos
  • J: intervalo entre o desembolso inicial e a data do pagamento das quantias periódicas
  • FCj: todos os custos cobrados (juros, taxas, seguros, etc.)
  • Dj: data do pagamento
  • D0: data de liberação do crédito pela credora financeira
  • FC0: valor do crédito, deduzido das despesas

Como calcular juros de financiamento imobiliário e de veículos

As fórmulas e simuladores apresentados anteriormente podem ser utilizados para diferentes finalidades, como calcular juros de financiamento imobiliário e de veículos - as modalidades mais comuns no Brasil. 

Para todos os casos, é importante ficar atento aos elementos acrescidos à taxa principal, como os tributos, tarifas, seguros, custos relacionados a registro de contrato e outras despesas cobradas na operação - o que faz com que a taxa real da operação aumente. 

Veja, a seguir, um exemplo de financiamento imobiliário com valor líquido de R$ 200.000,00, em que a instituição financeira em questão informou as seguintes despesas para efetivar a contratação:

  • Despesas de avaliação do imóvel e jurídica = R$ 980,00
  • Despesas de cartório (notas e registro) = R$ 2.584,87
  • Seguros (DFI – Danos Físicos do Imóvel + MIP – Morte e Invalidez Permanente) = R$ 64,13 ao mês
  • Taxa de administração = R$ 25,00 ao mês
  • IOF (1,91% x valor do empréstimo + despesas de avaliação) = R$ 3.840,82
  • Taxa de juros mensal = 1,42% ao mês

Veja agora as condições do financiamento imobiliário informadas pela financeira. Vale ressaltar que as nomenclaturas utilizadas aplicam-se a uma calculadora financeira, como a HP-12C, por exemplo:

  • PV: “Valor Presente”, que significa o montante que de fato o mutuário colocou no bolso com a contratação do empréstimo ou o quanto o mutuário deixou de desembolsar ao contratar o financiamento. É o valor bruto do financiamento (Considerar o valor líquido do financiamento + despesas de avaliação + IOF) = R$ 204.830,32
  • n: Número de parcelas a pagar = 180
  • Parcela: informado pela instituição (em nosso caso: R$ 3.083,68)
  • PMT: “Payments”, ou o valor total das parcelas mensais que o mutuário terá que desembolsar para pagar o empréstimo ou financiamento, incluindo seguros e taxas. Prestação Mensal Total = Parcela + seguros + taxa administrativa (em nosso caso R$ 3.255,27)
  • i: “interest” – taxa de juros ou CET, se for isso que estamos calculando. No caso, taxa de juros mensal = 1,42%

Para o cálculo do Custo Efetivo Total são considerados não só os juros, mas todas as despesas que compõem a Prestação Mensal Total. Dessa maneira, com juros mensais de 1,42%, chegamos a um CET mensal de 1,54% (a diferença entre os dois números é o impacto das despesas adicionais). A taxa equivalente anual do CET é 20,2% ao ano.

Para que a comparação seja eficaz é necessário certificar-se de que todas as instituições informaram o Custo Efetivo Total da operação. A partir daí, embora os bancos não sejam obrigados a cobrir outras ofertas, o consumidor poderá utilizar a divulgação de forma positiva, estimulando a concorrência e beneficiando-se com melhores preços.

Para escolher a melhor opção de financiamento, faça as contas e cobre das instituições financeiras as informações completas sobre taxas envolvidas, pois é seu direito. Mais do que exigir o CET, é importante fazer o seu próprio cálculo, para garantir que não haja erros. 

Como calcular juros