sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Brasília se livrou de Dilma. E Lula não escapará de Curitiba.

Duas ótimas notícias iluminaram o Sete de Setembro do Brasil que pensa: a Assombração do Alvorada se foi e a Lava Jato continua pelo menos por mais um ano.


Duas notícias especialmente bem-vindas tornaram mais luminoso o Sete de Setembro do Brasil que pensa. A primeira: Dilma Rousseff enfim caiu fora do Palácio da Alvorada. Na véspera do Dia da Independência, despachou seus pertences para Porto Alegre em cinco caminhões de mudança e, na última viagem gratuita como freguesa da FABTur, decolou rumo à capital gaúcha, que dividirá com o Rio o duvidoso privilégio de hospedar a ex-presidente.
Lá, terá todo o tempo do mundo para retribuir as manifestações de apoio dos companheiros. Poderá, por exemplo, enfeitar o palanque de Raul Pont e, com duas ou três aparições, dinamitar as esperanças eleitorais do candidato do PT à prefeitura. Também estará disponível para consolar os nostálgicos da governante desgovernada com discurseiras de improviso  em atos de protesto contra golpistas em geral, festanças de casamento ou festinhas de batizado. Há espaços na agenda para tudo.
A segunda notícia é ainda mais animadora para o país que presta: por decisão do Conselho Superior do Ministério Público Federal, foi estendido até 8 de setembro de 2017 o prazo de validade da Operação Lava Jato, que deveria vencer nesta semana. Os bandidos que sonhavam com o fim da insônia provocada pelo medo de cadeia ficarão sem dormir pelo menos mais um ano. Lula, por exemplo, continuará a ser atormentado, com os olhos abertos, por pesadelos em meio aos quais ouve batidas na porta às seis da manhã ou a voz de Sérgio Moro formulando perguntas sem respostas.
Não é o atual presidente da República o verdadeiro Grande Satã da seita que, despejada do poder, ordenou a seus devotos que atravessem os dias berrando “Fora Temer”. Quem o Mestre e seus discípulos querem ver pelas costas (e fora dos tribunais) é Sérgio Moro, e com ele todos os procuradores e policiais engajados na Lava Jato. Lula e sua turma sabem que a fonte de suas angústias não está em Brasília. Funciona em Curitiba.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A ESCOLA DOS MEUS SONHOs

 
 
A ESCOLA DOS MEUS SONHOS

Lá no fundo dos meus sonhos existe uma escola com amplas portas sempre abertas, onde encontram-se os professores, no início do turno, recebendo seus alunos com um caloroso abraço e um sorriso sincero de boas-vindas.
Na escola dos meus sonhos, que fica lá no fundo da minha mente e num cantinho todo especial do meu coração, existe um amplo jardim, onde crianças e jovens interagem com a natureza amando-a, respeitando-a e preservando-a de uma forma tão sólida que se reflete em seus lares voluntária e naturalmente... Lá não se vê nenhum papel no chão e todo o lixo é reciclado...
Nesta escola situada lá nos confins do meu cérebro utópico e bem no meio do meu coração apaixonado pela educação, cada professor tem a sua sala personalizada e a cada troca de turma, vai esperar, na porta, aqueles que são a razão de seu trabalho, cumprimentando-os novamente com um sorriso sincero estampado em seu rosto... Lá os professores e funcionários não se importam em “perder” parte do tempo com o relacionamento humano... Na minha “escolinha”, o professor torce e luta pelo crescimento pessoal dos seus alunos que ocupam o lugar reservado a grandes amigos em seu coração e não se importa de fugir do conteúdo e aconselhá-los de vez em quando, de uma forma despretensiosa e sincera... No educandário dos meus sonhos só se aceita professores que tenham, além da formação acadêmica, o amor ao próximo no seu currículo...
Na escola dos meus sonhos não existe livro-ponto, pois as pessoas que lá trabalham, amam o que fazem, nunca faltam e quando precisam ausentar-se por motivos inevitáveis, sentem uma grande angústia por estarem longe da sua paixão... Nesta escola, o professor é valorizado e respeitado, trabalha com uma estrutura completa, sabe fazer uso de todas as tecnologias e nunca se cansa de aprender...
Na minha escola, escondida no meio das minhas utopias, tem uma biblioteca ampla, arejada, mobiliada e (principalmente) cheia de livros, onde o aluno encontra-se com seus mestres, pois é lá que eles estão na tal “hora atividade”.
Na escola dos meus pensamentos grandiosos, não se usa mais o divã da sala dos professores, aliás nem existe tal lugar, somente um ambiente altamente agradável onde professores, alunos e funcionários passam o mesmo recreio, comem o mesmo lanche e participam das mesmas conversas... Lá no fundo da minha mente e bem no meio do meu coração, tem uma escola onde todos lutam pelos mesmos ideais, caminham na mesma estrada, rumo ao conhecimento que não se importa com a quantidade de dias letivos, acessível a todos de forma eclética e dinâmica...
De repente minha mente pára, meu coração retoma o compasso monótono, volto para a realidade e percebo que parte da escola dos meus sonhos já existe... Só a casca... Ainda está verde... E as intempéries não a deixam amadurecer como deveria.

Rubem Alves

A casa que educa

As lições que se aprendem “construindo”
Escrevo para vocês, crianças! O Amyr Klink é um navegador. Navega num barco a vela. Vela é uma armadilha para pegar o vento. O vento tem força. Os barcos a vela navegam movidos pela força do vento. O vento vem, bate nas velas e empurra o barco. Mas, o que fazer quando o navegador quer ir para o sul e o vento sopra para o norte? Peça a um professor para lhe explicar isto. Antes das velas era preciso remar para o barco navegar. Dava muita canseira. Mas aí um dos nossos antepassados descobriu que o vento faria o serviço dos remos e o homem poderia fazer outras coisas…
Toda a nossa história passada, desde os tempos das cavernas, é a história dos homens aprendendo a fazer a natureza fazer o trabalho por eles. Os moinhos de vento, os moinhos de água, o arco e a flecha, as alavancas, os monjolos, o fogo… O Amyr Klink não é só navegador. Ele pensa sobre as escolas. Perguntaram ao Amyr Klink: “Qual é a escola que você desejaria para os seus filhos?”. Ele respondeu: “Uma escola que há na Ilha Faroe, entre a Inglaterra e a Islândia. Lá as crianças aprendem tudo o que devem aprender  construindo uma casa viking…” Quem eram os vikings? Eram navegantes ousados. Há uma aventura do Asterix e do Obelix, heróis gauleses, entre os vikings. Muito divertida!
O Amyr Klink disse que as crianças aprendem “construindo” uma casa. Concordo. Para aprender uma coisa é preciso fazê-la. As crianças da ilha Faroe aprendiam o que precisavam saber para viver construindo uma casa! Mas não será muito difícil construir uma casa? É difícil. Mas há um truque: a gente pode “imaginar” a casa que a gente quer construir. Tudo o que a gente faz começa na imaginação: um quadro, um avião. Santos Dummont imaginou o 14-Bis antes de construí-lo. Uma viagem, uma técnica cirúrgica, um foguete, uma música, um livro… –  tudo começa na imaginação. Quando vou fazer um papagaio, a primeira coisa é imaginá-lo na minha cabeça: o seu tipo (há papagaios do tamanho de uma casa!), as suas cores, as ferramentas de que vou precisar e os materiais que vou usar: tesoura, canivete, serra, linha, cola, papel… O mesmo vale para uma casa. A primeira coisa é imaginar a casa, como se estivesse pronta. O Oscar Niemeyer, que planejou os edifícios fantásticos de Brasília, a primeira coisa que faz é “desenhar” no papel o edifício que ele vê com os olhos da imaginação. Imagine a casa que você gostaria de construir. Terá um ou dois andares? As telhas serão vermelhas? E a paredes? De que cor serão? Terá uma chaminé para um fogão de lenha ou uma lareira? Terá um jardim na frente? Para que lado estará virada? Na sua cidade, qual é a direção do sul? E do oeste? Onde nasce o sol? Onde se põe? Mas o sol se põe? Esses são os pontos cardeais. É importante saber onde estão os pontos cardeais por causa da luz do sol. Aí é preciso desenhar essa casa no papel, para que os pedreiros e carpinteiros saibam como a imaginei. O desenho torna a imaginação visível. Quem faz esse desenho é o arquiteto. Aí será preciso fazer uma lista dos materiais que você terá de usar para construir sua  casa.  Começando com tijolo, cimento, areia, e sem se esquecer dos pregos. Não se esqueça do dinheiro, sem o qual não se compra nada. Seu pai e sua mãe terão prazer em ajudá-lo.
Rubem Alves 
Educador e escritor

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

J. R. Guzzo: Zero na saída

O que se viu até o último minuto do último ato, foi Dilma Rousseff no papel de Dilma Rousseff.

De tudo o que houve de ruim no governo do segundo presidente da República deposto legalmente do cargo na história deste país, o pior, feitas com calma todas as contas, parece ter sido a saída. É uma alta proeza, sem dúvida, quando se leva em conta a espetacular ruindade do desempenho de Dilma Rousseff em seus cinco anos e tanto de estada na Presidência — alguém é capaz de citar, falando sério, um outro governo pior que o seu em 127 anos de República? A deposição, quando enfim chegou, na semana passada, foi uma cerimônia de encerramento perfeitamente adequada à miséria do espetáculo em cartaz. Em momentos de trauma político de primeira linha, como deveria ser a deposição legal de uma presidente da República eleita, o protocolo prevê alguns instantes de drama intenso — ou, pelo menos, uns quinze minutos de grandeza por parte de quem está sendo posto na rua. Foi o contrário disso tudo.
Na sessão decisiva do Senado Federal que acabou por cassar seu mandato, Dilma Rousseff gastou o dia inteiro que tinha à disposição para fazer sua defesa enchendo a paciência dos ouvintes com a leitura do que deveria ser a obra magna de sua carreira política — e acabou sendo apenas mais uma montoeira de afirmações desesperadamente chatas, com atividade cerebral mínima e na maior parte do tempo incompreensíveis, neuróticas ou positivamente falsas. De uma presidente à beira da desgraça pública seria possível esperar algum momento mais caprichado em matéria de “falar bonito”; imaginava-­se, talvez, que tentasse “fazer um gesto”, algo como um “saio da vida para entrar na história”, por exemplo, ou coisa parecida. Nada disso. O que se viu na prática, até o último minuto do último ato, foi Dilma Rousseff no papel de Dilma Rousseff.
“Não é 30% dos recursos da exploração”, resolveu dizer a ex-presidente a certa altura daquele que deveria ser, no seu mundo, o equivalente ao discurso de Marco Antônio no funeral de Júlio César. Que diabo “recursos da exploração” e outras miudezas desse tipo estariam fazendo num pronunciamento que pretendia tornar-se histórico? Bem, o discurso era dela — e ela tinha o direito de enfiar ali o que bem entendesse. Foi o que fez. O resultado é que essa história dos “30%” em sua fala de defesa promete sobreviver como um dos maiores clássicos do “dilmismo” em todos os tempos. Eis o que disse Dilma: “Não é 30% da receita da exploração. É 30% de 25%. Ou 30%… de 30%, portanto não é 30%. Está entre 7,5% ou um pouco mais de 12%. Não se trata de 30%”. Como de costume, a ex-presidente serviu esse angu de números com a cara brava, a voz irritada e um tom geral de impaciência; parecia que ela estava com raiva das porcentagens, coitadas. Ninguém entendeu coisa nenhuma, como sempre, mas aí é que está: Dilma Rousseff, na hora de ir embora, foi a Dilma Rousseff de sempre. A ex-presidente apareceu como ela é — e seu governo apareceu como ele foi. É essa a pessoa que nos governou até a semana passada. Não poderia dar certo.
A saída foi pior que a estada, também, quando se considera a contabilidade final da cassação. Não é fácil para ninguém, claro, ser demitido da Presidência da República. Mas demitido por 61 a 20? É, de novo, uma surra com cara de Brasil e Alemanha na Copa de 2014 — e que, por sinal, mostra a perda de tempo sem limites que foi levar a sério o noticiário sobre “placar apertado”, as capacidades sobrenaturais de Lula para “virar a votação” e outras bobagens do mesmo tipo. O que o painel de votação do Senado mostrou na vida real é que Dilma não conseguiu encontrar mais que vinte senadores, num total de 81, dispostos a absolvê-la dos crimes de fraude fiscal pelos quais perdeu o mandato. Como governar o Brasil desse jeito?
Some-se a isso, para completar, o “apoio das ruas” que deveria salvar o mandato de Dilma e o seu “projeto de sociedade” — e com o qual, no discurso em modo de rancor extremo que fez após a condenação, Dilma ameaça guerrear o governo legítimo que lhe sucedeu. Todo esse apoio somou um grande zero. Na hora suprema da resistência, o máximo que conseguiu mostrar foi uma fileira de pneus queimados atrapalhando o trânsito de uma avenida em São Paulo. É um retrato que combina perfeitamente com um governo em ruínas. Dilma deixa a mais demorada recessão que a economia do Brasil já conheceu, 11 milhões de desempregados e uma destruição sem paralelo no patrimônio público — a começar pela Petrobras, privatizada em favor da corrupção confessa e contabilizada. Combina, sobretudo, com aquilo que esse governo realmente foi — uma minoria.

Abandonado pela segunda vez, labrador não se mudou com Dilma

Abandonado pela segunda vez, labrador não se mudou com Dilma

Aos 14 anos, o cão Nego está com a saúde frágil e não pôde se submeter a uma longa viagem, segundo jornal.

Entre os pertences levados pela ex-presidente Dilma Rousseff na mudança de Brasília para Porto Alegre, nesta terça-feira, não estava o labrador Nego, estrela da campanha presidencial de 2010.
http://veja.abril.com.br/brasil/abandonado-pela-segunda-vez-labrador-nao-se-mudou-com-dilma/

"Felizes os cães, que pelo faro descobrem os amigos."
*Machado de Assis

Diz o ditado: "O pior cego é aquele que não quer ver."

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Fernão Lara Mesquita: O Brasil real e o ‘da narrativa’

O Brasil está arrebentado pelo inchaço além de qualquer limite suportável não só do numero de funcionários públicos, mas também do excesso de privilégios que lhes foram concedidos

Por: Augusto Nunes  
Publicado no Vespeiro.com
Ricardo Lewandowski é o Eduardo Cunha do Judiciário. Não que seja venal ou tenha aquela atitude temerária do outro, mas, no escurinho, anda sempre “tinindo nos cascos” para manipular regimentos e votações colegiadas para “amaciar” penas para meliantes e transformar alhos em bugalhos.
Na semana passada deu um susto no Brasil quando emergiu dos mais recônditos bastidores da “narrativa do golpe” cheio de anotações e deu um tirombaço abaixo da linha d’água do “seu” próprio STF, guardião da Constituição, colocando-a – e a ele até segunda ordem – abaixo do regimento interno do Senado de Renan Calheiros e pondo a bandidagem política como um todo em festa.
Se os seus presididos aceitarem essa demissão virtual por “extinção de função” ou jogarem nas costas do Brasil o ônus do golpe que houve, como querem os autores da “narrativa” do golpe que não houve, terá sido o fim final da batalha épica para fazer a lei e a segurança jurídica imperarem um dia no Brasil.
Esperemos que não o façam. Se alguém tem de ficar desmoralizado, porque não há como sair da encalacrada sem isso, que não sejam o STF, a Constituição e o Brasil. Quem pariu Mateus que o embale…
No mais, vamos perdidos, como sempre, no vácuo entre o Brasil real e o Brasil “da narrativa”, que não se restringe à do golpe ou não golpe.
O governo Temer, tangido pela opinião pública ou por iniciativa própria, tem voltado sempre para o canal certo, até porque não há alternativa para ele fora do canal certo.
O barulho todo que o PT fez, como não se cansam de repetir seus batedores de bumbo, era apenas para “construir a narrativa do golpe” a ser usada mais adiante, quando levar ao nível de saturação do costume a atribuição aos bombeiros do incêndio que ateou. Na verdade, precisa livrar-se do desastre ambulante Dilma Rousseff tanto quanto você e eu e, mais que dela, da herança desses 13 anos de tramoias para nos impor, pela tangência das instituições democráticas, esse “socialismo do século 21” que assola os países que retiraram seus embaixadores em solidariedade ao Chefe de Todos os Chefes caído. Mas não quer dizer que tenham desistido do poder em que tão gostosamente se têm lambuzado.
O impeachment é a única chance de sobrevivência do PT. Se tivesse de descascar sozinho o abacaxi que plantou, não sobraria nem o pouco que sobrou. O problema é que deixar ao PT o comando do naufrágio do navio cujo casco arrombou implicava o suicídio do Brasil, e já. De modo que, com ou sem vaidades e más intenções na carona, assumir a “trolha” era inevitável. Assim se inverteram os papéis: evitar o naufrágio passou a ser a única chance de sobrevivência da oposição. E não há como evitá-lo senão fazendo a coisa certa e, mais ainda, na dose certa.
O Brasil está arrebentado pelo inchaço além de qualquer limite suportável não só do numero de funcionários públicos, mas também do excesso de privilégios que lhes foram concedidos, especialmente à minoria dentro dessa minoria, os “comissionados” e chefetes de encruzilhadas estratégicas do “Sistema” que constituem o núcleo duro da militância do PT que nunca caiu, antes ou depois da ascensão ou da queda do partido. Segundo especialistas acima de qualquer suspeita como Ricardo Paes de Barros, formulador do programa Bolsa Família, esse grupo desfruta salários diretos e indiretos e vantagens tais que “distorcem a estatística de distribuição da renda nacional”. Trata-se, portanto, de uma minoria dentro da minoria que é o funcionalismo como um todo, menos de 5% da população que consome quase a metade do PIB (46% contado só o “por dentro”) e não devolve aos 95% dos quais surrupia esse balúrdio senão humilhações, escândalos e o cipoal legislativo, tributário e burocrático tramado com o propósito específico de impedi-los de trabalhar a menos que comprem por bom preço a isenção a esse inferno.
No campo da Previdência a distorção é maior ainda. Apenas 980 mil aposentados e pensionistas da União produzem um déficit anual de R$ 93 bi, mais que o gerado pelos 32,7 milhões de aposentados e pensionistas do setor privado somados. E há ainda os dos 25 Estados e 5.570 municípios…
Este, não obstante, continua sendo um “não problema” que os governantes e administradores públicos não podem sequer mencionar porque, sendo esse tema uma pauta rigorosamente banida de uma imprensa decidida a não enxergar aquilo que lhe bate na cara, essas contas e a sua tradução “cênica” de tão ricas possibilidades mobilizatórias são mantidas fora do horizonte consciente do brasileiro médio, o que tira dos políticos e administradores públicos bem-intencionados o “álibi” que se requer dentro dessa ditadura velada em que vivemos para jogar a favor dos 95%. Falar do tema por iniciativa própria dentro de qualquer instância política, partidária ou de governo é morte certa.
Prevalece, assim, “a narrativa”, que a imprensa e seus “especialistas” amestrados coonestam, que fala numa vaga “desorganização da economia” herdada de Dilma Rousseff, sem nunca mencionar uma causa localizada, precisa e escandalosamente definida como é de fato a única que existe e, consequentemente, só pode ser combatida por “medidas impopulares” ou “de redução de direitos” não de quem permanece flutuando acintosamente por cima da crise e exigindo mais sangue, mas de quem já está morrendo de anemia.
Se o seu jornal ou canal de TV está entre os que lhe servem toneladas de matérias para demonstrar, por exemplo, que o maior problema do país mais miscigenado e libertino do mundo são o racismo e a repressão sexual, e nem um grama de manchetes e cenas pungentes para cotejar as agruras da “via-crúcis” em que penam os 95% com as doçuras da abundância e da segurança inabalável em que permanecem escondidos os 5% que fabricam crises, mas não as vivem, ele é um dos que estão cometendo o crime de responsabilidade que mantém o País refém dessa máfia. Você deveria cobrá-lo com o rigor que um crime desses merece.

domingo, 4 de setembro de 2016

Id, Ego e superego

Os Níveis de Personalidade
id, Ego e superego – Nos primeiros trabalhos, Freud sugeria a divisão da vida mental em duas partes: consciente e inconsciente. A porção consciente, assim como a parte visível do iceberg, seria pequena e insignificante, preservando apenas uma visão superficial de toda a personalidade. A imensa e poderosa porção inconsciente – assim como a parte submersa do iceberg – conteria os instintos, ou seja, as forças propulsoras de todo comportamento humano.
ID: Constitui o reservatório de energia psiquica, é onde se localizam as pulsões de vida e de morte. As características atribuídas ao sistema incosciente. É regido pelo princípio do prazer (Psiquê que visa apenas o prazer do indivíduo).
EGO: É o sistema que estabelece o equilíbrio entre as exigências do id, as exigências da realidade e as ordens do superego. A verdadeira personalidade, que decide se acata as decisões do (Id) ou do (Superego).
SUPEREGO: Origina-se com o complexo do Édipo, apartir da internalização das proibições, dos limites e da autoridade. (É algo além do ego que fica sempre te censurando e dizendo: Isso não está certo, não faça aquilo, não faça isso, ou seja, aquela que dói quando prejudicamos alguém, é o nosso “freio”.)
Nos trabalhos posteriores, Freud reavaliou essa distinção simples entre o consciente e o inconsciente e propôs os conceitos de *Id, **Ego e ***Superego. O “ID“, grosso modo, correspondente à sua noção inicial de inconsciente, seria a parte mais primitiva e menos acessível da personalidade. Freud afirmou: “Nós chamamos de (…) um caldeirão cheio de excitações fervescentes. [O id] desconhece o julgamento de valores, o bem e o mal, a moralidade” (Freud, 1933, p. 74). As forças do id buscam a satisfação imediata sem tomar conhecimento das circunstâncias da realidade. Funcionam de acordo com o princípio do prazer, preocupadas em reduzir a tensão mediante a busca do prazer e evitando a dor. A palavra em alemão usada por Freud para id era es, que queria dizer “isso”, termo sugerido pelo psicanalista Georg Grddeck, que enviara a Freud o manuscrito do seu livro intitulado The book of it (Isbister, 1985).
O id contém a nossa energia psíquica básica, ou a libido, e se expressa por meio da redução de tensão. Assim, agimos na tentativa de reduzir essa tensão a um nível mais tolerável. Para satisfazer às necessidades e manter um nìvel confortável de tensão, é necessário interagir com o mundo real. Por exemplo: as pessoas famintas devem ir em busca de comida, caso queiram descarregar a tensão induzida pela fome. Portanto, é necessário estabelecer alguma espécie de ligação adequada entre as demandas doid e a realidade.
O ego serve como mediador, um facilitador da interação entre o id e as circunstâncias do mundo externo. O ego representa a razão ou a racionalidade, ao contrário da paixão insistente e irracional doid. Freud chamava o ego de ich, traduzido para o inglês como  “I”  (Eu”  em português). Ele não gostava da palavra ego e raramente a usava. Enquanto o id anseia cegamente e ignora a realidade, o ego tem consciência da realidade, manipula-a e, dessa forma, regula o id. O ego obedece ao princípio da realidade, refreando as demandas em busca do prazer até encontrar o objeto apropriado para satisfazer a necessidade e reduzir a tensão.
O ego não existe sem o id; ao contrário, o ego extrai sua força do id. O ego existe para ajudar o id e está constantemente lutando para satisfazer os instintos do id. Freud comparava a interação entre o ego e oid com o cavaleiro montando um cavalo fornece energia para mover o cavaleiro pela trilha, mas a força do animal deve ser conduzida ou refreada com as  rédeas, senão acaba derrotando o ego racional.
A terceira parte da estrutura da personalidade definida por Freud ,o superego,desenvolve-se desde o inicio da vida,quando a criança assimila as regras de comportamento ensinadas pelos pais ou responsáveis mediante o sistema de recompensas e punições. O comportamento inadequado  sujeito à punição torna-se parte da consciência da criança, uma porção do superego. O comportamento aceitável para os pais ou para o grupo social e que proporcione a recompensa torna-se parte do ego-ideal, a outra porção do superego. O comportamento aceitável para os pais ou para o grupo social e que proporcione a recompensa torna-se parte do ego- ideal, a outra porção do superego. Dessa forma, o comportamento é determinado inicialmente pelas ações dos pais; no entanto, uma vez formado o superego, o comportamento é determinado pelo autocontrole. Nesse ponto, a pessoa administra as próprias recompensas ou punições. O termo cunhado por Freud para o superego foi über-ich, que significa literalmente “sobre-eu”.
O superego representa a moralidade. Freud descreveu-o como o “defensor da luta em busca da perfeição – o superego é, resumindo, o máximo assimilado psicologicamente pelo indivíduo do que é considerado o lado superior da vida humana” (Freud, 1933, p. 67). Observe-se então, que, obviamente, osuperego estará em conflito com o id. Ao contrário do ego, que tenta adiar a satisfação do id para momentos e lugares mais adequados, o superego tenta inibir a completa satisfação do id.
Assim Freud imaginava a constante luta dentro da personalidade quando o ego é pressionado pelas forças contrárias insistentes. O ego deve tentar retardar os ímpetos agressivos e sexuais do id, perceber e manipular a realidade para aliviar a tensão resultante, e lidar com a busca do superego pela perfeição. E, quando o ego é pressionado demais, o resultado é a condição definida por Freud como ansiedade.
*Id: fonte de energia psíquica e o aspecto da personalidade relacionado aos instintos.
**Ego: aspecto racional da personalidade responsável pelo controle dos instintos.
***Superego: o aspecto moral da personalidade, produto da internalização dos valores e padrões recebidos dos pais e da sociedade.

Intelectuais em extinção? Não, eles estão se proliferando sem controle.

O capitalismo não nos tornou menos questionadores. Pelo contrário: nos deu tempo e recursos para problematizar qualquer picuinha da vida pública.

O escritor argentino Alberto Manguel disse esta semana em São Paulo que “o intelectual é uma espécie em extinção. Vivemos em um mundo estruturado em torno da máquina comercial”. Ele acredita que o capitalismo nos tornou menos questionadores. “Não diria que já tivemos uma sociedade justa. Mas no passado havia um esforço para questionar momentos injustos.”
Foi um solavanco ler essas declarações, pois são o oposto do que acredito. Não, os intelectuais não estão em extinção. Um traço contemporâneo é a proliferação sem controle de intelectuais – e isso acontece justamente por causa do capitalismo.
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Cada vez mais gente tem tempo e dinheiro para gastar legislando sobre a vida alheia e problematizando qualquer picuinha da vida pública. Da continência dos medalhistas olímpicos até o Kinder Ovo para meninas, tudo é problema, tudo é injustiça e motivo para mais leis, mais intervenção, mais receitas de um mundo melhor.
Até três séculos atrás, três quartos da população trabalhavam produzindo comida. A noite chegava e ainda era preciso cortar a lenha: não havia tempo para ler ou escrever. Não havia livros. Com uma ou outra exceção, só nobres ou apadrinhados pela nobreza desfrutavam o luxo de serem intelectuais.
Hoje só 3% dos trabalhadores produzem comida. A tecnologia fez o esforço humano render mais e liberou milhões de pessoas comuns do trabalho pesado. Deu a elas a possibilidade de ler romances, escrever, fazer cursos de filosofia, gastar horas problematizando no Facebook ou frequentar palestras de Alberto Manguel.
E o que fazem esses intelectuais que só existem por causa do aumento da produtividade criado pelo capitalismo? Gastam a vida reclamando do capitalismo.
@lnarloch

sábado, 3 de setembro de 2016

Articulação pró-Dilma foi informada a Lewandowski 9 dias antes da sessão

No último dia 22 de agosto, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Ricardo Lewandowski, abriu uma fenda na agenda para encaixar uma visita. Recebeu em seu gabinete a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO). Autorizada pela amiga Dilma Rousseff, Kátia foi conversar sobre a sessão de julgamento do impeachment, que ocorreria dali a nove dias, na manhã do dia 31.
Ex-ministra da Agricultura de Dilma, a senadora informou a Lewandowski que os aliados de Dilma apresentariam um requerimento inusitado aos 45 minutos do segundo tempo do julgamento do impeachment. Desejava-se votar separadamente a deposição de Dilma e a punição que poderia bani-la da vida pública por oito anos. Confirmando-se o afastamento da presidente, Kátia tinha a esperança de livrá-la do castigo adicional.
A senadora foi à presença de Lewandowski acompanhada de João Costa Ribeiro Filho, um personagem cujo anonimato não faz jus ao protagonismo que desempenhou no enredo que produziu mais uma jabuticaba brasileira: o impeachment de coalizão, no qual o PMDB, partido do “golpista” Michel Temer, juntou-se ao PT para suavizar a punição imposta à “golpeada” Dilma, preservando-lhe o direito de ocupar funções públicas mesmo depois de deposta.
DivulgaçãoPartiu de João Costa —um advogado mineiro que cresceu em Brasília e entrou para a política no Tocantins— a ideia de fatiar o julgamento do impeachment. Por ironia, o autor da tese que atenuou o suplício de Dilma já pertenceu aos quadros do tucanato. Em 2010, filiado ao PSDB, tornou-se suplente do senador Vicentinho Alves (PR-TO). Em 2011, trocou o ninho pelo PPL, Partido da Pátria Livre. Chegou a assumir a poltrona de senador por alguns meses, entre outubro de 2012 e janeiro de 2013.
Até ser apresentado à tese de João Costa, Lewandowski não cogitava realizar senão uma votação no julgamento do impeachment. Assim pedia o parágrafo único do artigo 52 da Constituição: “Nos casos previstos nos incisos I e II, funcionará como presidente o do Supremo Tribunal Federal, limitando-se a condenação, que somente será proferida por dois terços dos votos do Senado Federal, à perda do cargo, com inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública, sem prejuízo das demais sanções judiciais cabíveis.”
Quatro dias antes da visita a Lewandowski, João Costa telefonara para Kátia Abreu. Pedira para ser recebido. Atendido, abrira a conversa afirmando à interlocutora que a defesa de Dilma cometia um erro comum nos tribunais de júri: preocupava-se obsessivamente com o mérito da acusação, sem atentar para a pena. Ele havia estudado a matéria. Apresentou um roteiro que levaria à votação fatiada. Passava, em essência, pelo regimento interno do Senado, que prevê o DVS (destaque para votação em separado) e pela Lei 1.079, que contempla a votação em fatias.
Kátia Abreu, até então mergulhada no esforço para tentar conquistar os 28 votos que enterrariam o pedido de impeachment, impressinou-se com os argumentos de João Costa. “Liguei para a Dilma”, recordou a senadora, numa conversa com o blog. “Preciso ir aí, tenho um assunto seríssimo para falar com a senhora. É particular, sem ninguém por perto.” Kátia rumou para o Palácio da Alvorada. Levou João Costa a tiracolo. Imaginou que a amiga reagiria mal à prosa. Falar sobre dosimetria de pena àquela altura significava admitir que a condenação era mesmo inevitável. “Para minha surpresa, ela entendeu e recebeu muito bem.”
Sabendo-se praticamente cassada, Dilma autorizou Kátia Abreu a dar sequência à articulação. Por sugestão da senadora, organizou-se uma reunião com José Eduardo Cardozo, o advogado petista de Dilma. Que também reagiu com naturalidade. Firmou-se um pacto de sigilo. A notícia de que Dilma já guerreava pela atenuação do castigo seria interpretada como símbolo da rendição. Algo que a confinada do Alvorada preferia não admitir em público.
AbrInformado da articulação por Dilma, Lula comentaria mais tarde, em privado, que enxergou sensatez na estratégia de cuidar também da pena que poderia ser imposta a Dilma. A própria Kátia Abreu cuidou de comunicar os planos ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Apresentado ao roteiro, Renan entusiasmou-se. Disse que considerava “certíssimo” livrar a ex-aliada da proibição de ocupar cargos públicos por oito anos. “A Dilma merece que a gente faça isso por ela.”
Kátia pediu calma a Renan. Esclareceu que o fatiamento ainda era o Plano B. “Não entrego o jogo antes da hora. Vamos até o final.” Sem alarde, um assessor da liderança do PT foi acionado para elaborar o requerimento para desmembrar a votação do impeachment em duas. O documento foi formalmente apresentado pelo líder do PT, Humberto Costa (PE).
Na conversa com Lewandowski, Kátia Abreu testemunhou um telefonema do presidente do Supremo para o secretário-geral da Mesa do Senado, Luiz Fernando Bandeira, um dos principais assessores de Renan nas sessões plenárias. O ministro pediu-lhe que estudasse o tema. A ordem foi cumprida com esmero. No dia da sessão, Lewandowski estava munido de um autêntico tratado. Não havia questão levantada pelos rivais de Dilma que ele não trouxesse a resposta na ponta da língua.
Afora os encaminhamentos de praxe —dois senadores a favor e outros dois contra—Renan Calheiros discursou, ele próprio, em defesa do abrandamento da punição de Dilma. ''No Nordeste, costumamos dizer uma coisa: 'Além da queda, coice'. Não podemos deixar de julgar, mas não podemos ser maus, desumanos.'' Foi nesse diapasão que os senadores livraram Dilma do coice da inabilitação para o exercício de funções públicas depois de tê-la derrubado da Presidência da República. Tudo com o aval de Lewandowski.

Impeachment põe fim ao ciclo do PT no poder


O PT nunca se sentiu tão poderoso como em 2010. Naquele ano, o presidente Lula terminava seu segundo mandato como recordista de popularidade e lançava a candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República. Havia dois objetivos. A curto prazo, a eleição da primeira mulher pelas mãos do primeiro representante genuinamente popular a chegar ao posto. Um simbolismo caro à esquerda. A longo prazo, comandar o país por pelo menos vinte anos, justamente a meta traçada anteriormente, e não alcançada, pelo PSDB. Entre os aliados de Lula e Dilma, havia até quem trabalhasse com horizontes mais ambiciosos. O ministro de Comunicação Social, Franklin Martins, dizia que “o ciclo virtuoso de crescimento com inclusão social” renderia frutos duradouros. Festejada na propaganda oficial, a nova classe média, dínamo do crescimento de 7,5% em 2010, despejaria votos nos petistas por anos a fio, talvez décadas: oito anos de Lula, oito anos de Dilma, a volta de Lula, a consagração de Fernando Haddad… O roteiro estava traçado. Nele, eternizar-se no poder não era mera figura de linguagem.
Na quarta-feira passada, esse enredo foi dramaticamente abreviado. Por 61 votos a 20, os senadores aprovaram o impeachment de Dilma e encerraram um período de treze anos de governo do PT, atendendo ao clamor de milhões de brasileiros que foram às ruas em manifestações históricas. A sentença apareceu no painel eletrônico do plenário às 13h35. Uma hora depois, o senador Vicentinho Alves (PR-TO), primeiro-secretário do Senado, chegou ao Palácio da Alvorada para notificar Dilma de que ela se tornara o segundo presidente a ter o mandato cassado desde a redemocratização. Na recepção, um segurança orientou Alves, que votou a favor do impedimento, a estacionar na garagem, “um lugar mais discreto”. O ex-ministro Jaques Wagner, encarregado de recepcioná-lo, pediu para ver o ofício. “É melhor eu ir sozinho para evitar atrito com o nosso pessoal que está lá com ela”, disse. Alves explicou que não seria possível. Dez minutos depois, ele foi autorizado a entrar. Dilma assinou o documento com um ar de indiferença. Eram 15h05 quando ela atestou o óbito do ambicioso plano de hegemonia política do PT. Um plano que, desde a chegada do partido ao Planalto, estava assentado num pecado original, que não foi inventado pelo PT, não foi implantado pelo PT, mas foi executado com rigor e método nunca antes vistos neste país: a corrupção da classe política com recursos públicos.
Em 2005, VEJA mostrou um funcionário dos Correios recebendo propina. A estatal era fatiada entre PT, PMDB e PTB. Cada partido controlava uma diretoria, recolhendo dinheiro sujo em sua área. A verba subornava parlamentares no Congresso. Era o mensalão. “O governo acabou”, sentenciou José Dirceu, o então poderoso chefe da Casa Civil, preocupado com os desdobramentos do caso. Dirceu, dirigentes partidários, deputados e empresários foram condenados à prisão. Mas o governo sobreviveu. Lula declarou-se traído e inocente, de nada sabia. Reelegeu-se em 2006, fez um governo aplaudido pelo eleitorado e ajudou Dilma a conquistar dois mandatos. Seu plano era voltar a comandar o país em 2018 e permanecer no posto até 2026. O obstáculo essencial, agora, está no avanço inexorável da Lava-Jato. Deflagrada em 2014, a operação descobriu um esquema de corrupção montado nos mesmos moldes do mensalão, só que 200 vezes maior em volume de dinheiro roubado. Outra diferença: a investigação, pelo menos até aqui, não tem poupado ninguém.
Os maiores empreiteiros do país foram presos e dividiram o espaço das celas com mais um ex-tesoureiro do PT. Lula está indiciado por corrupção, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Ele e Dilma são investigados por tentativa de obstrução da Justiça e acusados por delatores de financiar suas campanhas com propinas derivadas de contratos da Petrobras. Na semana passada, o ex-senador Delcídio do Amaral prestou depoimento à Lava-Jato. Confirmou o que VEJA antecipara em março: Lula era o chefe do esquema de corrupção.
Em pouco mais de cinco anos de mandato, Dilma jogou o país no atoleiro. Sua tolerância à inflação, em nome do crescimento, deu fôlego ao dragão, que voltou a superar a casa dos dois dígitos. A renda caiu, o desemprego subiu e parte da nova classe média, que consolidou o PT no poder e lá o manteria, voltou para a base da pirâmide social. Dilma perdeu o mandato pelo conjunto da obra. Formalmente, o impeachment foi aprovado porque ela cometeu crime de responsabilidade ao usar recursos de bancos públicos para pagar despesas do Tesouro, prática conhecida como pedalada fiscal, e ao liberar créditos suplementares sem a autorização prévia do Congresso. É por causa da discrepância entre a razão técnica (orçamentária) e a motivação real (corrupção e recessão) que Dilma se diz vítima de um golpe parlamentar tramado por “desleais”, “traidores” e “covardes”. Ao defender-se no Senado na segunda-fei­ra, numa sessão que durou catorze horas, ela jurou inocência, disse que não cometeu crime de responsabilidade e afirmou que só o povo, por meio de eleições livres e diretas, poderia destituir um mandatário devido ao “conjunto da obra”. “Por duas vezes, vi de perto a face da morte. Quando fui torturada por dias seguidos, submetida a sevícias que nos fazem duvidar da humanidade e do próprio sentido da vida. E quando uma doença grave e extremamente dolorosa poderia ter abreviado minha existência. Hoje, eu só temo a morte da democracia”, declarou.
Ela não impediu o impeachment, mas, graças a uma esdrúxula articulação dos presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, conseguiu evitar a aprovação de sua inabilitação para o exercício de funções públicas. Preservou, assim, o direito de assumir cargos públicos e disputar eleições, ao contrário do entendimento adotado pelo STF no caso de Fernando Collor, destituído da Presidência em 1992.
O presidente Michel Temer, agora em definitivo, tucanos e outros expoentes do novo governo não gostaram dessa decisão, que já está sendo contestada judicialmente. Dilma, mantida por enquanto no jogo político, também recorreu ao STF para anular o impeachment e prometeu uma oposição “enérgica e incansável”. De saída, citou Vladimir Maiakovski, o poe­ta futurista da Revolução Russa: “Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado. As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las. Rompê-­las ao meio, cortando-as como uma quilha corta”. É belo, mas também um autêntico réquiem.
Com reportagem de Laryssa Borges e Hugo Marques
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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O triunfo de um doutor em bravura

Aos 94 anos, Hélio Bicudo não pôde ver de perto o desfecho da luta pelo impeachment.

Um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, o jurista Hélio Bicudo foi impedido por problemas de saúde de acompanhar no plenário do Senado, neste 31 de agosto, o desfecho vitorioso da batalha que desencadeou aos 93 anos, em parceria com Janaína Paschoal e Miguel Reale Jr. Em homenagem ao grande ausente, a coluna republica o post que saudou, em setembro de 2015, a chegada desse doutor em bravura à linha de frente da resistência democrática.
helio-bicudo1
Publicado em 24/09/2015
SEJA BEM-VINDO À FRENTE OPOSICIONISTA QUEM TIVER COMPREENDIDO, NÃO IMPORTA QUANDO, QUE É PRECISO COMBATER O BOM COMBATE
Leitores da coluna reagiram com indignação a uma notícia que decerto expandiu a epidemia de insônia que grassa no clube dos cafajestes no poder: a portentosa frente oposicionista acaba de incorporar duas figuras exemplarmente íntegras. Aos 93 anos, o jurista Hélio Bicudo, antigo expoente do PT, alvejou Dilma Rousseff com o mais sólido pedido de impeachment. Também aos 93, o advogado Tito Costa, ex-prefeito de São Bernardo e amigo de Lula desde 1979, expôs a nudez do reizinho numa carta aberta publicada pela Folha.
Por que Bicudo não fez isso antes? irritaram-se veteranos antipetistas. Por que Tito Costa só viu agora a face horrível do arrivista patológico?, zangaram-se oposicionistas de primeira hora. Se o critério que fundamentou o veto aos recém-chegados valesse para todos os que tiveram vínculos com o lulopetismo, o deputado Eduardo Cunha, por exemplo, deveria ser proibido de atrapalhar a vida de Dilma. Até recentemente, o presidente da Câmara serviu ao governo Lula. Nenhum dos inquisidores de Bicudo e Tito Costa se encolerizou com o despertar tardio do figurão do PMDB.
Pior ainda seria se tais exigências e restrições se estendessem à população inteira. Nessa hipótese, a resistência democrática estaria condenada ao confinamento perpétuo no gueto dos 7% em que sobreviveu por tanto tempo por imposição das pesquisas de opinião. O que fez surgir o colosso oposicionista que hoje abrange quase 80% dos brasileiros foi a adesão de milhões de eleitores que votaram em Lula e ajudaram a instalar no Planalto o poste fabricado pelo chefão.
Vale a pena ler o que a nossa Valentina de Botas escreveu sobre essa ─ mais uma ─ paradoxal brasileirice:
Não pergunto a quem vem, de alguma forma, me ajudar numa luta, a razão de ter demorado. Se preciso da ajuda, se o essencial é a luta que travo ─ e o essencial é exatamente isso ─, não me atenho com quando ou como. Talvez não seja como eu tenha desejado, talvez não tenha sido quando eu pedi, talvez nem seja suficiente, mas a coisa está aí e pronto. Claro, sempre saberemos quem são os combatentes de primeira hora e a partilha com eles é de outra qualidade; dos tardios, quero apenas o essencial.
Falando especificamente de Hélio Bicudo, ele tem 93 anos, poderia deixar para lá, não arrumar para a cabeça a essa altura da vida. Contudo, ele está sendo linchado nas redes sociais e por determinado jornalismo, chamado de traidor para baixo, até um dos filhos expôs grosseira e publicamente a discordância. Para quê? Para fazer o que acha certo, o que encorpa a nossa luta. Ah, mas só agora? É e ainda bem que foi. Poderia ter sido antes? Talvez. Ninguém sabe o que vai na consciência de cada indivíduo nem os desdobramentos do tempo e dos acontecimentos.
Eu saúdo a coragem de Hélio Bicudo que pode ser, para confirmar que ninguém controla a história, o fator com potencial para antecipar o triunfo de uma luta, até aqui, inglória.
É isso. A porta de entrada do Brasil oposicionista está aberta a qualquer aliado de boa fé. Sejam bem-vindos todos os que tiverem compreendido, não importa quando, que é preciso combater o bom combate.