domingo, 21 de fevereiro de 2021

Conheça a origem do Dia do Imigrante italiano no Brasil

Publicado Anny Malagolini dia 21 de fevereiro de 2021

Conheça a origem do Dia do Imigrante italiano no Brasil

Conheça a origem do Dia do Imigrante italiano no Brasil

O “Dia do Imigrante Italiano” é celebrado em 21 de fevereiro no Brasil. Estima-se que mais de 30 milhões de brasileiros são descendentes de italianos, o que faz do Brasil o país com maior número de descendentes italianos no mundo.

A data foi instituída em 2008 para homenagear o maior movimento migratório internacional  e relembra a chegada em Vitória (ES) do navio La Sofia, em 21 de fevereiro de 1874. Este dia que ficou marcado simbolicamente como o início do processo de migração em massa de italianos para o Brasil.

No dia 21 de fevereiro de 1874, chegava ao Brasil o Vapor “La Sofia” com a primeira leva de imigrantes italianos, composta por 380 famílias. Em homenagem a esta data, desde 2008 o Brasil celebra o “Dia Nacional do Imigrante Italiano” todo 21 fevereiro.

Dia do Imigrante italiano no Brasil: origem

A imigração italiana no Brasil teve duas fases. Na primeira, famílias inteiras vieram para trabalhar no campo. Em São Paulo, Minas Gerais e Paraná, o café estava em franca expansão na segunda metade do século XIX e era a principal atividade econômica do Brasil. No sul do país, os italianos se dedicaram à produção de uva e de vinho, atividades a que já estavam familiarizados.

Mas cruzar o Atlântico em direção à América não era nada fácil: a viagem, na terceira classe do navio a vapor, podia durar até 40 dias.

Para ajudar a passar o tempo dentro do navio, tornar a viagem mais leve e evitar que o pensamento pairasse em tudo e em todos que foram deixados para trás, a cantoria era comum, e uma das músicas preferidas era a canção folclórica Mérica, Mérica: – “Mérica, Mérica, Mérica, cossa sarà ‘sta Mérica? Mérica, Mérica, Mérica”.

Por que os italianos vieram para o Brasil?

Os italianos, como todos os demais imigrantes, deixaram seu país basicamente por motivos econômicos e socioculturais. A emigração, que era muito praticada na Europa, aliviava os países de pressões socioeconômicas, além de alimentá-los com um fluxo de renda vindo do exterior, em nada desprezível, pois era comum que imigrantes enviassem economias para os parentes que haviam ficado.

No caso específico da Itália, depois de um longo período de mais de 20 anos de lutas para a unificação do país, sua população, particularmente a rural e mais pobre, tinha dificuldade de sobreviver quer nas pequenas propriedades que possuía ou onde simplesmente trabalhava,quer nas cidades, para onde se deslocava em busca de trabalho.

Nessas condições, portanto, a emigração era não só estimulada pelo governo, como era, também, uma solução de sobrevivência para as famílias. Assim, é possível entender a saída de cerca de 7 milhões de italianos no período compreendido entre 1860 e 1920.

Dia do Imigrante Italiano

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

O FRACASSO DO LOCKDOWN

 

Sem base em dados e em prejuízo dos mais pobres, autoridades insistem no fechamento de atividades econômicas

m março de 2020, para tentar conter o aumento de casos de coronavírus no Brasil, prefeitos e governadores decidiram fechar as escolas, proibir a abertura de bares e restaurantes, impedir o funcionamento de academias de ginástica e salões de beleza e restringir o máximo possível a circulação de pessoas. Passados dez meses, para tentar conter o aumento de casos de coronavírus no Brasil, prefeitos e governadores decidiram fechar as escolas, proibir a abertura de bares e restaurantes, impedir o funcionamento de academias de ginástica e salões de beleza e restringir o máximo possível a circulação de pessoas.

Uma frase atribuída a Albert Einstein diz que “insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Nada resume com mais precisão a atitude de governantes que insistem em decretar medidas drásticas de isolamento social — o chamado lockdown — para controlar a expansão da pandemia. A realidade informa que elas não foram bem-sucedidas antes. Também não o serão agora.

Quarentena escolar

No dia 13 de março do ano passado, as escolas públicas e privadas do Estado de São Paulo receberam a notícia de que, na semana seguinte, teriam de fechar as portas por tempo indeterminado. “Não sei se vai durar uma semana, duas semanas, 30 dias ou mais”, disse na época Rossieli Soares, secretário estadual de Educação, numa entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. “Vamos avaliar dia a dia, até que as autoridades de Saúde digam que as aulas poderão ser retomadas.” Assim teve início aquela que se tornaria a quarentena escolar mais longa do planeta.

Um levantamento realizado pela Unesco e divulgado em 24 de janeiro mostrou que, enquanto a maioria dos países fechou suas escolas por pouco mais de 20 semanas, no Brasil, as crianças e adolescentes ficaram longe das salas de aula pelo dobro do tempo: 40 semanas. Nesse recorde, o país só se equipara à Argentina, Chile, Moçambique e Etiópia. De acordo com o estudo, aproximadamente 800 milhões de estudantes no mundo foram afetados e as instituições de ensino passaram, em média, dois terços do ano letivo fechadas.

No Brasil, quase 50 milhões de estudantes ficaram entregues à própria sorte — particularmente os 80% matriculados em escolas públicas. Destes, cerca de 25% não têm acesso à internet. Uma pesquisa do Ibope realizada em agosto mostrou que, em domicílios com renda per capita de até meio salário mínimo, um quarto dos estudantes não teve sequer acesso à educação remota. No mês de outubro, conforme a Pnad Covid19 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 6 milhões de alunos de 6 a 29 anos, da educação básica ao ensino superior, não tiveram acesso a atividades escolares. Na educação básica, “inexistência de aulas” e “dificuldade com o acesso remoto” foram as principais causas da evasão escolar. No ano da pandemia, cerca de 4 milhões de jovens abandonaram os estudos, segundo uma pesquisa encomendada pelo banco digital C6 Bank.

Alfabetizar as crianças com aulas remotas é um dos maiores desafios. “Pessoalmente, consigo fazer com que elas sintam o som das letras; a distância, não dá”, lamentou a professora Rizomar Maria de Menezes, numa reportagem publicada na Folha de S.Paulo. “Nenhuma criança do primeiro ano conseguiu se alfabetizar. Normalmente, no final dessa série, a maioria estaria lendo e escrevendo um pouco.” Para Alexandre Schneider, ex-secretário municipal de Educação de São Paulo, as crianças não estão apenas paradas. “Muitas vão andar para trás e, para recuperar, levarão dois, três anos”, constatou na mesma reportagem. “É dramático do ponto de vista pedagógico.”

Um estudo coordenado pelo médico Fabio Jung, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e publicado em setembro de 2020, mostrou que o fechamento das escolas também ameaça a saúde psiquiátrica de crianças e adolescentes, compromete a segurança alimentar e os torna mais expostos a abusos e maus-tratos, a drogas e violência. Cerca de 30% das crianças em confinamento podem passar a sofrer de transtorno do estresse pós-traumático.

“É importante entender que a escola vai muito além da aprendizagem”, lembrou Cláudia Costin, na reportagem “A educação pode ser a maior vítima da epidemia de medo”, publicada em Oeste. “A escola é o espaço de socialização, de vivências, além de oferecer uma rede de proteção social à infância.”

Provas irrefutáveis

Pelo menos desde julho de 2020, o mundo sabe que a volta às aulas não compromete a saúde dos alunos nem acelera a transmissão do vírus. Muito menos suscetíveis à covid-19, crianças representam apenas 2% dos casos confirmados da doença e menos de 1% dos óbitos. Além disso, abaixo dos 11 anos, elas transmitem muito pouco e, quando contaminadas, são assintomáticas ou apresentam sintomas leves. O coronavírus é 4,5 vezes menos agressivo que a gripe (influenza) na faixa etária até 14 anos, por exemplo.

Um estudo realizado pela fundação suíça Insights for Education com dados de 191 países e publicado em outubro concluiu que quase todas as nações que estavam sem aulas presenciais na primeira onda da pandemia eram países pobres e que teriam um prejuízo incalculável pelo déficit educacional. A maioria dos que enfrentavam a segunda onda, entretanto, permanecia com as escolas abertas. “Esse é o caso, por exemplo, do Japão, que durante o período do estudo passou por duas ondas de infecção, com o pico da segunda sendo notavelmente mais alto que o primeiro”, mostrou uma reportagem da Gazeta do Povo. “O ápice das contaminações até então havia ocorrido em agosto, durante as férias de verão. Mas o sistema de ensino retornou normalmente às aulas mesmo com os casos ainda bastante altos.”

O economista Luís Artur Nogueira classificou a quarentena escolar como “um crime contra as crianças”. “Neste um ano de pandemia, o número de mortos e contaminados pelo coronavírus aumentou, diminuiu e voltou a crescer mesmo com as escolas fechadas”, observou. “Ou seja, elas não tiveram absolutamente nenhuma influência.” Rossieli Soares, ao lembrar que algumas escolas reabriram para atividades extracurriculares em outubro de 2020, garantiu: “Não registramos uma única contaminação dentro das escolas, nem entre alunos nem entre alunos e professores”.

Irrefutáveis, os argumentos a favor das aulas presenciais englobam constatações científicas que mostram que o afastamento do ambiente escolar prejudica, além do rendimento acadêmico, o desenvolvimento das capacidades sociais, o vínculo aluno-professor e a saúde mental. “Não deveríamos de forma alguma estar discutindo se devemos ou não voltar”, disse Rossieli. “Mas como fazemos para voltar o mais rápido possível.”

Apesar disso, o risco de as escolas permanecerem fechadas ainda ronda os estudantes. Até agora, nem todos os governadores e prefeitos se comprometeram com a retomada das aulas presenciais em fevereiro. E dezenas de sindicatos de professores espalhados pelo Brasil ameaçaram entrar em greve e paralisar aulas que ainda nem começaram. Motivo: querem estar entre os primeiros na fila de vacinação contra a covid-19.

Na quarta-feira 27, o governo de São Paulo confirmou a reabertura em 1º de fevereiro. No dia seguinte, a decisão foi suspensa pelo Tribunal de Justiça do Estado sob o argumento de que “a situação atual da crise sanitária não justifica a retomada das aulas presenciais nas escolas localizadas nas áreas classificadas nas fases laranja e vermelha, em nome da proteção ao direito à vida”. A ação foi protocolada por quatro sindicatos de professores. Nesta sexta-feira, 29, o governo recorreu e a liminar foi derrubada.

Quarentena gastronômica

Não foram apenas as escolas. Bares e restaurantes também se transformaram em bodes expiatórios, responsáveis pelo aumento das contaminações. Solução? Fechá-los. Assim, em quase todo o país, suporta-se uma “quarentena gastronômica” ainda sem prazo para acabar.

“O que está acontecendo com o setor é uma tragédia”, resumiu Percival Maricato, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em São Paulo (Abrasel-SP). “Cerca de 30% dos bares e restaurantes já fecharam as portas. Se houver um segundo lockdown, nem 20% conseguirão permanecer abertos.”

Poucos meses atrás, o governo paulista permitiu que os estabelecimentos voltassem a receber clientes de forma presencial até as 23 horas, com 60% da capacidade. Há uma semana, João Doria e seu “comitê de especialistas” mudaram de ideia. Desde 25 de janeiro, os bares e restaurantes devem encerrar as atividades às 20 horas, de segunda a sexta-feira, e permanecer fechados nos fins de semana.

Esse mesmo comitê de notáveis não enxerga muito contágio nas festas clandestinas e pancadões que proliferam pela cidade, com centenas de pessoas aglomeradas. E nenhum de seus integrantes viu nada de mais durante os eventos de campanha ou nas comemorações de vitória das eleições de 2020. O problema, para eles, são os restaurantes — onde o distanciamento social é cumprido à risca, a temperatura é medida na entrada, o álcool em gel está ao alcance dos clientes, os garçons usam uma proteção de acrílico sobre a máscara e mesas e cadeiras são desinfetadas incontáveis vezes por dia.

“Não são as 15, 20 pessoas sentadas distantes umas das outras nos restaurantes que estão causando essa pandemia”, observou Maricato. “Estão sacrificando um dos setores que mais geram empregos, atraem turistas e podem contribuir muito para a retomada econômica.” Só no Estado de São Paulo, cerca de 300 estabelecimentos entram em falência diariamente, deixando quase 2 mil desempregados. “É como se uma fábrica da Ford fechasse por semana no país”, compara.

 Uma pandemia de desemprego

O economista Luís Artur Nogueira estuda justamente as consequências do lockdown no mercado formal de empregos. “No período de março a junho de 2020, quando prefeitos e governadores adotaram severas restrições ao funcionamento das empresas, o saldo entre vagas formais abertas e fechadas foi negativo em 1,6 milhão”, escreveu. “No período seguinte, de julho a dezembro, quando houve um processo de reabertura da economia, o saldo de vagas formais foi positivo em 1,4 milhão.” Ou seja, ainda há um déficit de 200 mil empregos.

“É importante ressaltar que o quadro só não foi pior graças ao Benefício Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, criado pelo governo federal, que permitiu a suspensão de contratos de trabalho ou a redução de jornada e salário, evitando ainda mais demissões”, afirmou Nogueira. “Além disso, a sociedade, de forma solidária, tentou, quanto possível, manter o pagamento a prestadores de serviços próximos, como a manicure, a diarista, o pipoqueiro que trabalhava na porta da escola. Dificilmente haverá esse suporte num segundo fechamento.”

Para Nogueira, a ideia de lockdown até pôde ser considerada aceitável no início, durante os primeiros 30 a 40 dias, quando a pandemia era uma novidade e ninguém conhecia o vírus. “Os cidadãos ficam em casa nesse período, os cientistas estudam, descobrem as formas de lidar com essa doença, quais são os grupos de risco e as medidas preventivas”, afirmou. “Mas repetir isso agora é um absurdo, porque tivemos a prova de que não funciona. Trata-se de um assassinato de empregos, principalmente contra os brasileiros mais carentes.”

É justamente essa parte da população a maior vítima do lockdown: o estudante de escola pública sem acesso à internet, o frentista do posto de gasolina, o entregador de comida, a diarista, o caixa do supermercado. Esses não deixaram em nenhum momento de se deslocar por duas horas em ônibus, trens e metrôs superlotados para atender uma elite que pode permanecer confinada em casas com quintal, apartamentos com varanda gourmet ou casas na praia. Todos desfrutando de seu confinamento vip — como define o jornalista Guilherme Fiuza —, munidos de supercomputadores movidos a internet 4G. Estima-se que, passada a  pandemia, o mundo terá mais 150 milhões de indivíduos vivendo abaixo da linha de pobreza.

Surtos de sanidade

“Pelo menos 50% da população não conseguiu parar em nenhum momento”, afirmou o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), um dos maiores críticos do lockdown desde que a ideia do trancamento coletivo da sociedade surgiu no debate. Secretário estadual da Saúde do Rio Grande do Sul durante o surto de H1N1, ele repete há meses: “Os padrões de contágio de qualquer vírus são universais”. Sendo assim, as contaminações só vão cessar quando chegar a tão esperada imunidade de rebanho. Ou seja, quando mais de 80% da população entrar em contato com o vírus e estiver imunizada.

O que teria causado esse segundo aumento de casos? “Novas cepas”, afirmou Terra, didaticamente, ao explicar que, quando os vírus vão perdendo força, é normal que variações mais resistentes surjam para tentar sobreviver. “Depois de algumas semanas de crescimento, a curva naturalmente volta a diminuir”, concluiu. O deputado salientou que o sistema hospitalar do Amazonas entrou em colapso não apenas por causa do alto poder de contágio do vírus, mas porque já estava em frangalhos. “Com população de 2,2 milhões de pessoas, Manaus tem 300 leitos de UTI”, afirmou. “Porto Alegre, com 700 mil habitantes a menos, tem quase 600 só no SUS.”

De acordo com Terra, a prova da ineficiência do lockdown é que, nos países onde ele foi mais rígido, o número de mortes não diminuiu. A Bélgica, por exemplo, que protagonizou um dos fechamentos mais radicais do planeta, inclusive usando drones para fiscalizar se seus cidadãos estavam saindo de casa, é o campeão de mortes por milhão de habitantes (1.802). “O que vimos no mundo foi não apenas uma epidemia viral”, disse. “Houve uma epidemia de desinformação, de medo e de completa ignorância científica.”

 

O psicólogo Bruno Campello, pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco, é outro crítico do lockdown. Segundo seus estudos, o número de mortes por covid-19 sempre aumenta de quatro a seis semanas depois de instauradas medidas de isolamento social. “A princípio parece um contrassenso, mas não é”, disse. “Esse é um vírus extremamente contagioso. Mesmo se você ficar em casa a maior parte do tempo, terá contato com ele mais cedo ou mais tarde, seja numa compra de comida, na entrega de água, seja ao precisar de um serviço hidráulico ou elétrico. Portanto, não faz sentido pedir que as pessoas fiquem trancadas 24 horas e, com isso, além de aumentar os casos de depressão e ansiedade, destruir a economia.”

Para Campello, assim como em qualquer outra doença, com o coronavírus o tratamento precoce também é a melhor forma de salvar uma vida. “Negar isso é um absurdo terraplanista negacionista”, ironizou. Infelizmente, o tema extrapolou os limites da ciência e descambou para a política. Embora não haja comprovação científica, existe uma série de evidências clínicas que mostram a eficácia de medicamentos, alguns deles com mais de 50 anos no mercado, vendidos sem prescrição médica e com baixo risco. “Existem cerca de 200 estudos publicados nas mais respeitadas revistas científicas do mundo relatando o sucesso de alguns remédios no tratamento da covid-19”, observou Campello.

Um fracasso cada vez mais anunciado

Professor do Departamento de Pediatria, Divisão de Medicina Intensiva, da Universidade de Alberta e especialista em infectologia do Hospital Infantil Stollery, em Edmonton, no Canadá, Ari Joffe era um defensor do confinamento rigoroso. Depois de avaliar os resultados práticos da medida, entretanto, o médico publicou um artigo descrevendo por que mudou de ideia. Entre os motivos, Joffe destaca que “as previsões iniciais de modelagem” induziram ao “medo” e ao “efeito manada” — ou seja, o pensamento de grupo. Além disso, o professor analisou os “danos colaterais significativos” em razão da pandemia. “No estudo de Joffe foi utilizada a metodologia de análise custo-benefício e se demonstrou que o custo — em vidas, não financeiro — do lockdown horizontal é 5 a 50 vezes maior que o da própria covid-19″, explica o neurocirurgião Paulo Porto de Melo.

O estudo canadense evidencia as perdas, em termos de assistência à saúde, que as restrições acarretaram para toda a população. “Por exemplo, uma pessoa com dor no peito que não foi ao hospital por causa da pandemia e sofreu um infarto”, observou Porto de Melo. “Caso ela houvesse procurado um médico nos primeiros sintomas, poderia ter recebido tratamento rápido, evitando comprometimentos cardíacos mais graves ou até mesmo a morte.”  O terrorismo instalado por “gestores” amparados pelo suposto “rigor científico” impediu que doenças fossem diagnosticadas precocemente e tratadas de forma correta. Isso mostra que vidas também se perdem em razão da demora ou privação de assistência de saúde impostas pelo fechamento e pelo medo gerado entre os pacientes.

 

Publicado pela revista britânica The Lancet em julho de 2020, outro estudo revelou que, em uma comparação entre 50 países, a covid-19 foi mais mortal em lugares com população mais velha e com maior taxa de obesidade, mas não se observou redução de mortalidade em países que fecharam suas fronteiras ou aplicaram o “bloqueio completo”. Na Universidade de Edimburgo, na Escócia, um pesquisador concluiu que as infecções na Grã-Bretanha já estavam diminuindo antes que o lockdown começasse no fim de março. Uma análise realizada pelo Instituto de Tecnologia de Karlsruhe descobriu que as infecções na Alemanha estavam se reduzindo na maior parte do país antes do início das medidas de confinamento. Também foi provado que o toque de recolher imposto na Baviera e em outros Estados não surtiu efeito. Nos Estados Unidos, menos de 1% da população vive em lares de idosos, mas, em janeiro de 2021, essa pequena fração foi responsável por 36% das mortes por covid-19 no país. Até mesmo quem estava “protegido” entre muros não escapou do contágio.

Errar e persistir

No Estado de São Paulo, novas medidas restritivas à circulação de pessoas foram impostas à população na última sexta-feira, 22. Segundo levantamento realizado por Oeste, caso o Estado paulista fosse um país independente, o número de mortos com a covid-19 por milhão de habitantes seria maior que o do Brasil. Outro gráfico, que compara o índice de confinamento com o número de óbitos, é mais uma prova de que o confinamento não diminui a quantidade de vítimas pela doença. Mesmo assim, o governador insiste em revisitar o erro.

O gráfico mostra a taxa de isolamento social e o número de mortos por dia no estado de São Paulo entre 12 de março de 2020 e 14 de janeiro de 2021. É possível notar que a oscilação nos óbitos não é influenciada pelo crescimento ou diminuição do confinamento

Prefeitos de algumas cidades do interior paulista, contudo, passaram a se recusar a obedecer às determinações do Plano São Paulo. Doria prometeu encaminhar os casos de rebeldia ao Ministério Público Estadual. No limite, a população já não aguenta mais episódios de tirania, autoritarismo e regras sem lógica alguma.

Não é só no Brasil que a paciência se esgotou. Na Itália, donos de bares e restaurantes criaram o movimento “Eu abro”. Nas redes sociais, já são mais de 50 mil apoiadores. A associação que representa o setor informou que os empreendedores estão “esgotados” e que a situação é “grave”. Na Holanda, mais de cem manifestantes foram presos ao ir às ruas protestar contra o toque de recolher baixado pelas autoridades.

Em Portugal, o governo socialista impôs restrições severas e empresários também foram às ruas protestar pelo retorno das atividades. O país viu explodir os registros de mortes por covid-19 neste primeiro mês do ano. A situação, entretanto, já era esperada, contou a médica gaúcha Nair Amaral, que trabalha há quase três anos em Lisboa e atua na linha de frente de atendimento a pacientes com covid-19 no país europeu. “No inverno, os ambientes são menos arejados, as pessoas estão confinadas em casa, com portas e janelas fechadas; o ar dos lugares fica mais saturado e o vírus está com maior capacidade de contágio por causa da variante”, afirmou numa entrevista à Rádio França Internacional (RFI). “Este é meu terceiro inverno em Portugal, e os outros também foram caóticos.”

Embora as medidas restritivas não tenham conseguido conter a pandemia em nenhum país, os fanáticos pelo lockdown desdenham das evidências. Fingem ignorar, por exemplo, que a Suécia, onde não se adotou nenhuma medida de confinamento, não está sequer entre os dez países com mais mortes por milhão de habitantes.

A mudança no discurso

No início da pandemia, ainda sem saber como lidar com o vírus, o lockdown foi implementado com o argumento de que era preciso “achatar a curva” de contágio e evitar que várias pessoas ficassem doentes ao mesmo tempo, colapsando os hospitais. A justificativa dos governantes era que precisavam de tempo para equipar o sistema de saúde a fim de atender à nova demanda. “O problema é que o lockdown deveria ter acontecido por um período de tempo curto, para que o sistema de saúde aumentasse sua oferta de leitos de UTI e capacidade de atendimento”, lembrou Porto de Melo. “É inconcebível que em um ano um gestor público não tenha conseguido ajustar o sistema de saúde para isso.”

Na ânsia por soluções rápidas, hospitais de campanha foram construídos às pressas para desafogar o já deficiente sistema hospitalar brasileiro. Apenas em São Paulo, mais de R$ 130 milhões foram gastos na construção de estabelecimentos para o combate à covid-19. As tendas com infraestrutura improvisada (o Hospital de Campanha do Anhembi, por exemplo, não resistiu à primeira chuva forte na capital) ficaram às moscas boa parte do tempo e foram desmontadas poucos meses depois. Agora, os gestores públicos que decidiram acabar com os hospitais de campanha e se esqueceram de combinar com o coronavírus reclamam da falta de leitos para internação.

Quase um ano depois da chegada do vírus chinês, a turma do #fiqueemcasa encontra agora uma razão após a outra para insistir em fechamentos, proibições, toques de recolher e outras imposições. A mais recente defende a ideia de que a liberação total só deve acontecer depois da vacinação em massa da população. A imunização contra a covid-19, contudo, ainda se encontra no início no Brasil e está provado que as pessoas, seguindo todos os protocolos de segurança, não precisam esperar trancadas dentro de casa até que ela aconteça.

“Na ausência de informação, pode-se manter o padrão de preservar a dignidade humana, a liberdade e o estado de direito, e então ir atrás de informação”, escreveu o economista Jeffrey Tucker, colunista da Revista Oeste. “Em vez disso, fez-se a opção de paralisar a sociedade por causa de incertezas.” Infelizmente, a tese do isolamento vertical, que preserva a população de risco em casa, mas permite que pessoas saudáveis retornem ao trabalho, ainda é rechaçada por grande parte da imprensa e por gestores públicos. Será que os políticos algum dia vão admitir o erro do lockdown?

Leia também o artigo “Os tecnocratas da pandemia” 

Revista Oeste

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

FELIZ 2021!

No ano passado...

Já repararam como é bom dizer "o ano passado"? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem...Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse "tudo" se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraodinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associeted Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:

"Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados".

Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos...

Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.
Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição - morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.

*Mario Quintana(1906-1994)


 

Joãozinho Doria, o pé de feijão e a vacina

 

Joãozinho Doria, o pé de feijão e a vacina

Joãozinho, não bastante ser muito rico, tinha sonhos de grandeza. Queria ser presidente. Dinheiro sem poder é só dinheiro. Poder, sem dinheiro é só poder. E Joãozinho sofria com isso. Os anos passavam e ele circulava assiduamente em meio aos poderosos. Entre suas muitas organizações se incluía a LIDE – Grupo de líderes empresariais que reunia anualmente empresários e poderosos figurões da política nacional num paraíso de Comandatuba (BA). Mas poder, mesmo, ele não tinha. Toda noite, ao contemplar estrelas pela janela do quarto, Joãozinho antevia crescer ali fora um gigantesco pé de feijão que o levaria até elas. Ele queria ser uma estrela luminosa na constelação do poder.

Foi assim que, depois de ocupar alguns cargos, Joãozinho se elegeu prefeito de São Paulo. Glória pequena para os anseios que lhe abrasavam o coração. Assumiu com aprovação de 44% e abandonou o posto, 16 meses depois, com apenas 18%. Queria ser governador de São Paulo.

Havia, porém, uma dificuldade. Como eleger-se governador, se rejeitado pelo povo da capital onde fora prefeito? Joãozinho tinha sua fada protetora. Como todas as fadas, bruxas e gnomos, a fada madrinha de Joãozinho Doria sabia, em 2018, o que apenas os grandes meios de comunicação e institutos de pesquisa, batendo pé no chão, se recusavam a ver: Bolsonaro, tapado de votos, seria presidente da República. E a fada levou-o até ele. Nasceu, ali, para Joãozinho, o que ele imaginava ser o pé de feijão que o levaria aos píncaros do poder político.

Eleito governador, graças ao apoio do capitão, que fez mais da metade dos votos em São Paulo no primeiro turno da eleição, e quase 70% dos votos no segundo turno, Joãozinho marcou território e tomou por inimigo aquele a quem devia sua vitória.

O pé de feijão, porém, em vez de crescer, encolheu. Em seguida sua rejeição voltava a superar sua aprovação. O coronavírus secara a terra? Joãozinho ficou muito triste vendo seu pé de feijão fenecer e flexionar até voltar ao chão. Enquanto isso acontecia, resolveu adotar como modelo o pior ministro do governo Bolsonaro, idolatrado, apesar disso, pela grande imprensa. Se o Mandetta usa o vírus para aparecer diariamente na TV e encanta esse jornalismo de poucas luzes, eu posso fazer a mesma coisa, deve ter pensado ele. E armou palanque paulistano com o noticiário do vírus. Era a exaustiva e depressiva receita da moda.

E o pé de feijão de Joãozinho Doria continuava, claro, sem tomar corpo.

Certo dia, a fada madrinha, já á beira de um ataque de nervos, enviou-lhe um comerciante chinês. O esperto mercador falou de uma vacina capaz de fazer o pé de feijão sarar seus males e crescer a perder de vista. No alto, haveria à sua espera uma harpa encantada, uma galinha poedeira de ovos preciosos, um gigante a derrotar e, claro, a ambicionada faixa de usar no peito.

***

As duas últimas pesquisas presidenciais são desalentadoras para Joãozinho Dória. Segundo Paraná Pesquisas (04/12), enquanto o atual presidente tem 36% das intenções de votos, seguido por Ciro Gomes com 12%, ele tem apenas 5%; a pesquisa Poder Data/Band (23/12), posterior, mostra Bolsonaro com 36%, Haddad com 13% e ele, Joãozinho, com apenas 3%. E a Coronavac do mercador chinês parece não ser lá essas coisas. Mas isso é outra história.

 

* Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras e Cidadão de Porto Alegre, é arquiteto, empresário, escritor e titular do site Conservadores e Liberais (Puggina.org); colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Membro da ADCE. Integrante do grupo Pensar+.

*Percival Puggina

Jornal da Cidade


quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Costela em Fogo de Chão




A primeira vez em que a costela em fogo de chão foi saboreada, segundo o historiador inglês Roderick J. Barman – autor do livro Princesa Isabel no Brasil – foi quando a herdeira do trono, princesa Isabel, e o Conde d’Eu passaram a receber às segundas-feiras em sua casa, a partir do ano de 1877, políticos importantes, diplomatas estrangeiros e intelectuais conhecidos.

Nestas recepções maiores às segundas-feiras, era constante a companhia de Dom Pedro II, e o mesmo, após as reuniões, confidenciou ter feito uma refeição em uma de suas viagens ao interior da província.

Nesta província Dom Pedro II comeu carne assada em fogo de chão (costela de vacum) – tendo simplesmente se deliciado – nos reconta o historiador Barman.

Após as confidências do Imperador sobre o magnifico prato, foi solicitado aos serviçais que executassem a confecção da iguaria, resultando no famoso prato da costela em fogo de chão.

Após pesquisar o local de viagem onde foi saboreada aquela guloseima, localizou-se, em 25 de maio de 1880, como sendo a localidade de São Luiz, hoje o distrito de São Luiz do Purunã – PR.

Atualmente o prato constitui-se programa principal da região e é ofertado em muitos restaurantes de Curitiba.

Curta uma de Imperador! Você pode se deliciar com a verdadeira e original carne, servida pelo Hotel Fazenda Cainã no Restaurante Parador das Tropas – há pouco mais de meia hora da capital paranaense.

Costela Fogo de Chão

terça-feira, 25 de agosto de 2020

O EXTRAORDINÁRIO MOMENTO DO AGRONEGÓCIO


Por que e até quando vai durar o arco-íris perfeito do setor mais dinâmico da economia brasileira
21 AGO 2020, 08:57

Não são poucas as pessoas que consideram 2020 o ano da tempestade perfeita — uma rara combinação de circunstâncias que resulta num evento de consequências especialmente ruins. Já até esquecemos as mazelas do início do ano, como as enchentes no Sudeste provocadas por chuvas em volume recorde e as misteriosas mortes causadas pela contaminação de uma marca de cerveja. Eram problemas pequenos ante o que viria depois, a pandemia de covid-19 que nos levou a um cenário de tripla crise: sanitária, econômica e política, cada uma compondo com a seguinte.

Para o agronegócio, porém, a situação é praticamente a inversa: grande parte do setor vive uma espécie de arco-íris perfeito. Decerto que há chuva, há ventania, há percalços; mas eles vêm junto com um sol brilhante. E, embora não seja verdade que os arco-íris terminam num pote de ouro, este termina.

O outro vírus da China

O atual momento extraordinário do agronegócio brasileiro começou com um vírus que surgiu na China. Não o novo coronavírus, mas um vírus da família Asfarviridae, que provoca uma doença chamada peste suína africana (PSA). Como diz o nome, trata-se de uma doença primeiramente documentada na África, que já andou pelo Brasil no final da década 1970 mas foi erradicada. Ainda bem. Em comparação com ela, a covid-19 é fichinha. Imagine uma doença que se espalha de forma tão rápida como o sarampo e é tão letal quanto o ebola. Por sorte, ela não acomete os seres humanos. Mas é devastadora para os porcos. A cepa de PSA que foi detectada na China em agosto de 2018 tem letalidade de praticamente 100%. E se espalhou para 32 províncias ou regiões autônomas do país.

Em questão de semanas, entre um terço e metade do maior rebanho de porcos do mundo, com cerca de 300 milhões de cabeças, teve de ser sacrificado. A China, que produz muita carne de porco mas consome tudo o que produz, precisou recorrer à importação. “A China produz metade da carne suína do mundo”, diz Marcos Jank, professor de agronegócio global do Insper. “Perdeu quase um terço do volume de carne suína mundial. Era praticamente autossuficiente, e de uma hora para outra passou a ser o maior importador do mundo: comprou 4 milhões de toneladas.” Comprou tudo o que podia, não tudo o que queria. “O consumo dos chineses, normalmente de 50 milhões de toneladas, caiu para 35 milhões”, diz Jank.

A avidez foi tanta que o país até reduziu a taxação de suínos provenientes dos Estados Unidos, mesmo em meio à guerra comercial que trava com o governo Trump. Conforme foi se organizando, a importação foi aumentando. Entre maio de 2019 e maio deste ano, a compra de carne de porco subiu 63%. Como ainda não bastava, subiram também as importações de carne de boi e de frango.

Criou-se inclusive um fenômeno no mercado pecuarista, o “boi China”. Os frigoríficos capacitados a exportar têm pagado bônus de R$ 5 a R$ 15 por arroba dos bichos que atendem ao padrão requerido pelos chineses: o animal deve ser jovem, com no máximo quatro dentes incisivos permanentes, atestado oficial de idade abaixo dos 30 meses, livre de febre aftosa e com garantia de rastreabilidade. Dão esse bônus porque a China têm pagado quase o dobro do preço praticado no mercado interno. E comprou 53% de toda a carne bovina exportada pelo Brasil no primeiro semestre, propiciando uma receita de US$ 2,2 bilhões, 160% a mais que no mesmo período do ano passado.

Com pressa de se abastecer, os chineses agilizaram o processo de habilitação de exportadores. Em vez de demorarem anos com seguidas inspeções para averiguar o cumprimento de regras sanitárias específicas, eles autorizaram de uma tacada só, em setembro passado, 25 frigoríficos a exportar; em novembro, acrescentaram mais 13 à lista, que agora é composta de 100 frigoríficos habilitados, sendo 17 para a exportação de suínos, segundo relação da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo). Também liberaram a importação de miúdos de porco, que antes não aceitavam.

O Brasil é o maior beneficiário mundial dessa demanda chinesa. Em especial, é claro, os produtores de carne, que aproveitaram um aumento de 40% nas exportações. O Brasil como um todo também lucra, pelos impostos, pela entrada de dólares e pela ativação da economia. Mas, para o consumidor, um efeito colateral foi o aumento do preço da carne de porco no mercado doméstico, em cerca de 30%.

A bênção do clima

 É óbvio que a China não iria se acomodar à drástica redução de seu rebanho. Embarcou num tremendo esforço de reconstrução de suas matrizes. Só este ano, chegaram ao país seis aviões carregando mais de 4 mil porcos franceses, dentro do plano de produzir 20 milhões de animais em tempo recorde. As crias já estão crescendo. Mas para isso precisam de soja. Uma enorme quantidade de soja. E quem tem soja para oferecer?

Não é à toa que as vendas do principal item da lista de exportações do Brasil tenham subido 36% no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado. Foram quase 70 milhões de toneladas de soja, 73% disso para a China. Estamos falando de quase US$ 25 bilhões de receita. Esse resultado se deve não apenas ao aumento de demanda, mas principalmente ao segundo fator do arco-íris perfeito: apesar de um atraso das chuvas no início da safra, as condições climáticas favoreceram a agricultura. Este ano, o Brasil deve passar dos 120 milhões de toneladas de soja, 5% a mais do que no ano passado e recorde histórico. Cerca de dois terços desses grãos vão para fora do país, o que pode nos levar a bater o recorde de exportações, de 2018.

A soja não é a única. De acordo com estimativa divulgada em 11 de agosto pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção de grãos como um todo da safra 2019/20 caminha para um recorde de cerca de 255 milhões de toneladas, crescimento de 4,8% em relação ao ano passado. Além da soja, o milho, com mais de 100 milhões de toneladas em sua primeira safra, puxou o resultado. E várias outras colheitas estão acima do esperado: trigo, algodão, arroz, feijão…

O clima foi uma bênção, mas sozinho não seria capaz de alavancar a produção. A natureza recebe uma mão do terceiro fator do arco-íris perfeito do agronegócio: a competência de produtores, prestadores de serviço, pesquisadores, órgãos do governo, enfim, de todo o ecossistema que compõe o setor. ”Pelo terceiro ano consecutivo obtivemos um recorde de produtividade”, diz Aurélio Pavinato, diretor presidente da SLC, uma grande produtora de algodão, milho e soja. “Com a finalização da colheita, estamos efetuando mais uma revisão para cima, agora para quase 4 mil quilos por hectare”, diz.

Um raro círculo virtuoso

Esse terceiro fator não vem de agora. É fruto, ele próprio, de uma conjunção virtuosa de elementos inusitados para a realidade brasileira: políticas públicas eficientes que atravessaram vários governos, investimentos em pesquisa, empreendedores ávidos por crescer e competir com quem quer seja, abertura para capturar as inovações que vêm de fora e capacidade de formar nossos inovadores.

A própria SLC é um exemplo dessa realidade. Empresa de origem gaúcha, começou suas operações em 1977. Colhia entre 25 e 30 sacos de soja por hectare. Três anos depois, comprou terras em Cristalina, no cerrado, perto de Brasília, e começou a produzir lá também. Retirava míseros 8 sacos por hectare. “Não existia variedade de sementes para aquela região, não havia tratamento adequado do solo”, lembra Pavinato. No ano passado, a empresa colheu 62 sacos de soja por hectare. Este ano, superou-se: 65 sacos por hectare.

A história dessa evolução remonta às décadas de 1960 e 1970. Naquela época, a produtividade brasileira de grãos era baixíssima, cerca de 1 tonelada por hectare. O Brasil importava alimentos. Mas lá fora estava em pleno vapor a Revolução Verde, um acelerado processo de ganho de produtividade com a combinação de mecanização, uso intensivo de fertilizantes e defensivos químicos, melhoramento genético de sementes e monocultura de escala. Era a resposta à ameaça de fome mundial no pós-guerra. E o Brasil entrou na onda. Atrasado, mas com apetite.

Nos anos 1970, veio a mecanização. A produtividade cresceu pouco, a área plantada é que se multiplicou. Foi então que entrou o trabalho da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), desenvolvendo espécies mais adequadas para as condições brasileiras, técnicas de tratamento do solo, cursos de educação para produtores. A partir de 1997, a combinação de inovações tecnológicas e mecanização, política setorial bem-feita, linhas de crédito e controle da inflação promoveu um novo salto de produtividade.

Em resumo, como diz Celso Moretti, presidente da Embrapa, nos últimos 50 anos a produção de alimentos subiu 500%, com aumento de apenas 60% de área plantada. Entre 1975 e 2015, a produtividade total dos fatores no campo cresceu quase quatro vezes (dissecando pelos fatores: a produtividade da mão de obra foi multiplicada por 5,4; a da terra, por 4,4; a do capital, por 3,3). O agronegócio traz a mais forte evidência no país de quanto vale a pena investir em pesquisa. Segundo um estudo do ano passado do Ministério da Agricultura, um aumento de 1% nos gastos com pesquisa eleva a produtividade total em 1,1%. É o meio mais eficiente de melhorar os resultados.

Aliada à natureza privilegiada, a competência tornou nosso agronegócio o mais produtivo do mundo em larga escala. Somos o único país capaz de colher duas, até três safras por ano na mesma área. “Hoje, temos 15 milhões de hectares de dupla cultura. Até 2030, serão 30 milhões de hectares com dupla ou tripla safra. Sem irrigação”, diz Jank, do Insper.

A próxima etapa é investir em sistemas integrados: lavoura e pecuária. É um processo inédito no mundo. Planta-se, por exemplo, o milho. Quando ele está médio, planta-se o capim. Na hora de cortar o milho, o capim já está bom para servir de pasto. Isso ajuda a revigorar o solo para a próxima plantação de milho. Um avanço ainda maior é acrescentar árvores: pínus ou eucalipto. As árvores demoram mais para chegar à fase de corte, cerca de sete anos. Quando estão maiores, o pasto fica sombreado. Melhora a vida do boi, dá bem-estar à vaca. E aumenta os lucros. Vacas que pastam à sombra produzem de 10% a 15% mais leite. Em 2011, o Brasil tinha 3 milhões de hectares de sistemas integrados. Em 2017, já eram 15 milhões.

Fora aumentar a produtividade, esse tipo de produção é um sistema neutro de carbono: os gases de efeito estufa produzidos pela flatulência do gado são capturados pelas árvores em seu processo de crescimento. A Marfrig já tem um contrato com a Embrapa para receber um selo de produção carbono neutro — um diferencial para mercados mais sofisticados, como o europeu.

Vai verde, vem verde

 O quarto fator do arco-íris perfeito é verde como as plantações e andou crescendo mais do que espigas de milho. Foi a alta do dólar. O câmbio estava um pouco abaixo dos R$ 4, na média do ano passado, e subiu para algo em torno de R$ 5,20 este ano, uma valorização de 30% a 35%. Para o exportador, isso significa que a mesma venda do ano passado lá fora rende muito mais dinheiro aqui dentro. Ele não aproveita a valorização inteira, porque, no caso da agricultura, a maior parte dos insumos acompanha a alta do dólar. “Defensivos agrícolas e fertilizantes são importados, e respondem por cerca de 50% de nosso custo”, diz Pavinato. Além disso, há a variação dos preços das commodities em dólar. A soja ficou mais ou menos estável do ano passado para cá, o algodão caiu uns 8%, o milho teve redução de 6% a 8%. Considerando tudo, um exportador típico de grãos recebeu de 12% a 15% a mais por saco. Nada ruim.

Um cenário assim tão favorável poderia não ter dado em nada. Afinal, o mundo viveu (ainda vive) uma parada no esforço produtivo e queda brusca de consumo. O medo nunca foi um bom combustível para a economia. “Eu mesmo falei no começo da crise que o agronegócio ia sofrer com a ruptura das cadeias de suprimento”, diz Marcos Jank. “Pelo menos até agora, nada disso aconteceu.” Ao contrário, o que se notou é que a demanda por alimentos é menos elástica do que se pensava.

É claro que nem tudo são flores no setor. O cultivo de flores, aliás, é um dos exemplos disso. Um cálculo do Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor) apontou perda de receita de R$ 1,3 bilhão apenas até o Dia das Mães, a principal data para esse comércio. Sem congressos, seminários, formaturas, casamentos, estima-se uma queda nas vendas de algo entre 70% e 90%, quebradeira de dois terços dos produtores e dezenas de milhares de desempregados.

Basicamente, tudo o que não é alimento sofreu com a covid-19. O preço do algodão caiu, o etanol deixou de ser consumido, a borracha perdeu negócios. Mas estamos falando de menos de 20% do agronegócio. E mesmo aí há tábuas de salvação. A China retomou atividades relativamente rápido, e o preço do algodão, que havia caído quase 30% no início do ano, subiu cerca de 25% de novo (sobre uma base menor; a perda ainda está em torno de 10% em relação ao ano passado). O etanol sofre colossalmente com a queda do preço do petróleo, mas quem produz etanol pode desviar sua produção para o açúcar — cuja exportação saltou 85% em julho, chegando perto do recorde de 3,5 milhões de toneladas em um mês.

Resumindo, a covid-19 é uma péssima notícia. Mas o agronegócio tem passado por ela, se não assintomático, pelo menos com manifestações leves da doença. “Em parte isso se deve ao trabalho bem-feito de dois ministros”, avalia Jank. “Tereza Cristina, da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, abriu mais de 40 possibilidades de mercado lá fora; e Tarcísio Gomes de Freitas, da Infraestrutura, garantiu a logística.”

Se deu sorte por ser pouco afetada com queda de demanda, a maior parte dos produtores foi competente o suficiente para não deixar a oferta cair. “Desde março, ainda não havia nenhum caso por perto e nós adotamos protocolos de isolamento, com uso de álcool em gel em todos os espaços, transporte respeitando distanciamento, medição de temperatura, reuniões ao ar livre com as pessoas afastadas”, diz Pavinato.

As grandes plantações se beneficiam de um natural espalhamento do pessoal. Numa colheitadeira costuma ir uma só pessoa. Os espaços são abertos. Mesmo assim, os cuidados — por exemplo, quem vem de fora da fazenda não tem contato com ninguém de dentro — têm sido mais bem implementados que nas cidades. Até os frigoríficos do país, locais onde o ajuntamento de pessoas é maior, têm conseguido controlar bem o número de casos. Alguns tiveram de ser fechados, mas foram poucos em relação aos dos Estados Unidos, por exemplo.

Em alguns casos, a pandemia deu até um empurrão nos lucros. “Criamos formas de interagir com os clientes por meio digital, com atendimento remoto, treinamento a distância, além das visitas muito pontuais”, diz Rodrigo Iafelice dos Santos, executivo-chefe da Solinftec, uma empresa que vende tecnologia e serviços para elevar a produtividade nos campos, com uso de sensores, maquinário e softwares. “Crescemos quase 30% em relação ao fim do ano passado. E aproveitamos para incorporar algumas dessas eficiências no modelo de negócios.” A meta é ter um crescimento ainda mais acelerado no segundo semestre e em 2021.

O arco-íris é permanente?

O desempenho do agronegócio já é de encher os olhos há um bom tempo. Na comparação com os demais setores, que tombaram na crise, ele ficou ainda mais chamativo. Não tardaram a aparecer as análises de que o agronegócio pode salvar o Brasil. Que teremos uma economia puxada a tratores.

Como todas as opiniões peremptórias e unidirecionais, esta precisa ser tomada com boa dose de ceticismo. O agronegócio é um belo caso de sucesso, mas o Brasil é bem maior e mais complexo do que um setor só. Algo como cinco vezes maior. O PIB do agronegócio representa por volta de 22% do PIB do país. Com seu sucesso agora, e as dificuldades nas outras áreas, pode subir mais um pouco. Mas não dá para garantir a vida dos brasileiros.

E esse cálculo considera o agronegócio como um todo, não apenas aquilo que o cidadão médio urbano imagina como agronegócio — fazendas, pés de soja ou cana e bois no pasto. Essa parte, a agropecuária, representa cerca de 7% do PIB. Em geral, divide-se o setor em três áreas. A primeira, comumente chamada de “antes da porteira”, é composta das grandes empresas de sementes, fertilizantes, sêmen de gado, maquinário, tecnologia para melhorar a produtividade etc. A segunda, “dentro da porteira”, são as fazendas em si, os produtores. E a terceira, “depois da porteira”, é formada pelos processos de armazenamento, logística, beneficiamento, comércio.

De janeiro a maio, o PIB do agro cresceu 4,62%. Mas esse excelente resultado é desigual. A pecuária, puxada pelo apetite chinês, cresceu 9%. A agricultura, 2,51%. E dentro de cada uma delas as diferenças também despontam. Na agricultura, o setor de insumos cresceu apenas 0,85% nos primeiros cinco meses do ano, e os serviços ligados às fazendas cresceram 0,69%; o setor primário, que envolve as plantações, cresceu 15,17%; mas a agroindústria caiu 3,07%, de acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da USP. Na pecuária, sim, o crescimento foi mais assombroso: 11,53% em serviços, 9,04% na indústria, 6,20% no setor primário e 1,32% nos insumos, entre janeiro e maio.

Essas distinções deixam claro que, embora o setor seja pujante há décadas, estamos vivendo um momento muito especial. Quanto tempo ele vai durar? Assim como as tempestades, mesmo as perfeitas, um dia passam, também os arco-íris tendem a esmaecer, e depois sumir.

Não é de surpreender, portanto, que o Índice de Confiança do Agronegócio, medido pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), tenha caído no primeiro trimestre deste ano. A pontuação geral é de 100,4 pontos (sendo 100 o nível que separa o otimismo do pessimismo). Para a indústria antes da porteira, a confiança está em apenas 86,2 pontos; para a indústria depois da porteira, 92,5. Os produtores, tanto pecuários quanto agrícolas, ainda se mostravam otimistas, com 113,8 e 116,1 pontos respectivamente, mas bem menos do que no final do ano passado. É verdade que esse humor foi medido ainda no início da pandemia, quando se temia um colapso das cadeias de fornecimento. Mas há outros fatores de alerta.

Um deles é a China. É provável que os efeitos da peste suína africana ainda se façam sentir em 2021, mas depois disso não só sua produção estará refeita, o país deverá se tornar uma potência no setor. Em 2003, conforme o Manual do Criador Animal da China, 70% de toda a produção de porcos do país vinha de fazendas com menos de 50 abates por ano, e só 3% vinham de fazendas com mais de 10 mil cabeças. Em 2022, a estimativa pré-peste era de que 42% da produção viesse das grandes fazendas, e os pequenos produtores respondessem por apenas 3% do mercado. Com a peste, esse processo vai se acelerar. O governo chinês passou a encarar a reformulação da indústria como prioridade nacional: no final do ano passado, começou uma política de subsídios para a construção de grandes fazendas de porcos. Não só a questão sanitária poderá ser mais bem cuidada, sua produtividade deverá aumentar muito. As importações do Brasil, ainda que não cessem completamente, deverão diminuir.

Ainda no capítulo China, a guerra comercial com os Estados Unidos pode arrefecer, especialmente se o presidente norte-americano, Donald Trump, não se reeleger no fim deste ano. E isso significa uma concorrência maior dos norte-americanos para os produtos que o Brasil exporta.

Outro ponto de preocupação é o mercado interno. Ele responde por 60% das receitas do agronegócio. Com uma recessão que se estima atingir 5% de queda do PIB, a demanda deve cair. As pessoas trocam carne de primeira por carne de segunda e por aí vai. Além disso, num cenário recessivo há o temor de corte nas linhas de crédito. As safras deste ano já estão garantidas, mas o humor de agora afeta os resultados do ano que vem.

Finalmente, há a questão ambiental. Parte do governo a descarta como propaganda de competidores, um protecionismo disfarçado. Mas a própria corrente majoritária do agronegócio considera este um risco desnecessário para o país. “A questão ambiental existe, é verdadeira”, diz Pavinato, da SLC. “Uma parte da sociedade é muito sensível à proteção ambiental. E o Brasil é o país mais sujeito a pressão, porque aqui tem havido aumento de área plantada, embora em muito menor grau que a expansão da produção. Nós somos a maior fronteira agrícola do mundo.”

Se esses são os riscos para o agronegócio, há também os incentivos. O maior deles é a demanda mundial por alimentos. Com o aumento da população, a ONU estima que até 2050 a produção agrícola mundial precisará crescer 70%, sendo 100% nos países emergentes. E isso sem contar os biocombustíveis. A oportunidade é gritante. A Austrália, por exemplo, já iniciou um plano para que sua agricultura cresça 70% até 2030 e se torne uma indústria de US$ 100 bilhões. Mas, por seu clima, seu tamanho e pela indústria bem estabelecida, o Brasil é o principal candidato a suprir a maior parte dessa demanda futura.

Outro enorme impulso para o agronegócio é a quantidade de inovações que estão surgindo para melhorar a produtividade. Trata-se de uma revolução permanente, que tem entregado um aumento de produtividade perto dos 4% anuais. Há dezenas de startups brasileiras e estrangeiras, com soluções que vão de drones a sensores para detectar a quantidade mais eficiente de fertilizante, de manipulações genéticas das plantas a banhos de micróbios, de acompanhamento por satélite das plantações ao uso de inteligência artificial para tomar decisões sobre como, quando, quanto plantar.

Finalmente, há o dólar, com perspectiva de manter-se num patamar confortável para os exportadores por bom tempo.

Pesando prós e contras, o atual momento extraordinário do agronegócio pode até não se manter, mas não deve despencar. O setor seguirá como o mais dinâmico do país, o mais globalizado, o mais competitivo. Pode não carregar o Brasil sozinho, mas ajuda. Imagine se o Brasil — com menos burocracia, infraestrutura melhor, mão de obra mais produtiva, legislação mais simples — ajudasse de volta.

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