quinta-feira, 18 de julho de 2019

Cidade sem armas

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Prêmio Araponga de Jornalismo

Conversa entre dois jornalistas investigativos de último tipo:


_ E o Deltan, hein?
_ Caiu bonito!
_ Lava Jato já era.
_ A gente é bom.
_ Jornalismo é missão, meu caro.
_ Missão cumprida!
_ Como assim?
_ Ué, não era pra ferrar os menudos do Moro?
_ Era, mas não é pra falar isso.
_ Porra, só tem a gente aqui.
_ Tá, mas se amanhã alguém me compra eu posso te detonar…
_ O que?!
_ Não… “Compra” que eu digo é se alguém me encanta com uma verdade superior.
_ Ah, tá. Tipo o Lula fez com a gente.
_ É… Tipo isso.
_ Cara, mas Lula só tem um!
_ Você que pensa.
_ Ah, dane-se. Prefiro me concentrar na missão jornalística. Se mudarem a missão, eu mudo o jornalismo. Aí fica tudo igual.
_ Perfeito. Acho que você entendeu o Einstein.
_ Ele não era tão relativo assim. Mas confesso que estudei muito.
_ Seu professor de física era aquele gente boa do PSOL?
_ Não lembro se era física, mas PSOL com certeza.
_ É, não dá pra lembrar tudo.
_ Se esses caras da Lava Jato tivessem tido a formação democrática que a gente teve não tavam aí tentando censurar os outros.
_ Muito menos censurar um preso político como o Lula, perseguido injustamente no lugar de um amigo dele.
_ De um, não. De vários. O do triplex, o do sítio, o da cobertura em São Bernardo, o do terreno do Instituto Amigo do Lula, o de Angola, o da Medida Provisória, o da sonda, o da…
_ Resume aí, cara. O Lula tem um milhão de amigos. Ponto.
_ Imagina: um milhão de amigos querendo ouvir uma entrevista sua de dentro da cadeia e esses fascistas da Lava Jato tentando te censurar…
_ Pois é. Pros que tão presos também até nem faz tanta diferença, mas os que tão soltos precisam saber o que fazer com a grana…
_ Não, mas esse lance de decidir se é pra investir em pneu velho, em mortadela, em juiz, em jornalista… isso os advogados repassam.
_ Tudo bem, mas não é a mesma coisa. É angustiante ficar sem ouvir aquela voz.
_ O fato é que a Lava Jato perdeu e a entrevista foi linda!
_ Impressionante a pureza do Lula quando não tem nenhum fascista pra atrapalhar.
_ Eu acho que vi a auréola dele.
_ Aquilo é efeito.
_ De quem? Da Polícia Federal?
_ Claro que não. Quando a alma é muito honesta ela projeta uma luz que só jornalista investigativo como a gente enxerga.
_ Ah, tá. Mas então dá no mesmo.
_ É, dá no mesmo.
_ Qualquer coisa se não ficar legal a gente edita.
_ Pronto.
_ Missão é missão.
_ Se mudar, me avisa.
_ Te aviso. Ou te detono, o que for melhor pra mim.
_ Aprendo muito com o seu pragmatismo.
_ Em primeiro lugar a lealdade.
_ Ah, tanto faz. Depois a gente edita isso.
_ Ok.

https://forbes.uol.com.br/colunas/2019/07/premio-araponga-de-jornalismo/

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Bolsonaro completou seis meses de governo mostrando a que veio

https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/alexandre-garcia/bolsonaro-completou-seis-meses-de-governo-mostrando-a-que-veio/amp/#referrer=https%3A%2F%2Fwww.google.com&_tf=Fonte%3A%20%251%24s

terça-feira, 2 de julho de 2019

domingo, 27 de maio de 2018

O discurso de John Galt

Por doze anos você tem perguntado "Quem é John Galt?". Aqui é John Galt falando. Eu sou o homem que levou embora suas vítimas e assim destruiu o seu mundo. Você ouviu dizer que esta é uma era de crise moral e que os pecados do Homem estão destruindo o mundo. Mas sua principal virtude tem sido o sacrifício, e você pede mais sacrifícios a cada novo desastre. Você sacrificou a justiça em nome da misericórdia, felicidade em nome do dever. Então, porque você tem medo do mundo ao seu redor?

Seu mundo é somente o produto dos seus sacrifícios. Enquanto você estava arrastando para os altares do sacrifício os homens que tornaram possível sua felicidade, eu o venci. Eu cheguei primeiro e contei para eles o jogo que você estava jogando e onde isso iria os levar. Eu expliquei as consequências da sua moralidade de 'amor entre irmãos', que eles tinham sido inocentemente generosos demais para entender. Você não irá encontrá-los agora, quando você precisa deles mais do que nunca.

Nós estamos em greve contra seu credo de recompensas não merecidas e deveres não recompensados. Se você quer saber como eu os fiz desistir, eu contei a eles exatamente o que estou dizendo a você esta noite. Eu ensinei para eles a moralidade da Razão - que era certo buscar a própria felicidade como principal sentido da vida. Eu não considero o prazer de outros como o sentido da minha vida, nem considero que meu prazer deva ser o sentido da vida de outra pessoa.

Eu sou um comerciante. Eu obtenho tudo o que tenho em troca das coisas que eu produzo. Eu não peço nada mais nem nada menos do que eu fiz por merecer. Isto é justiça. A força é um grande mal que não tem lugar num mundo racional. Não se pode jamais forçar um ser humano a agir contra seu próprio julgamento. Se você nega a um homem o direito de raciocinar, você deve negar seu próprio direito ao seu próprio julgamento. No entanto você permitiu que seu mundo seja governado por meio da força, por homens que alegam que medo e alegria são incentivos similares, mas medo e força são mais práticos.

Você permitiu que tais homens ocupassem posições de poder no seu mundo pregando que todos os homens são maus desde o nascimento. Quando homens acreditam nisso, eles não vêem nada errado em agir como quiserem. O nome desse absurdo é 'pecado original'. Isso é impossível: o que está fora da possibilidade de escolha está também fora do alcance da moralidade. Chamar de pecado algo que independe da escolha do homem é fazer piada da justiça. Dizer que os homens nascem com livre arbítrio mas com uma tendência à maldade é ridículo. Se a tendência é uma escolha, não veio ao nascer. Se a tendência não é uma escolha, então o homem não tem livre-arbítrio.

E então surge a sua moralidade de 'amor entre irmãos'. Porque é moral servir aos outros, mas não a você mesmo? Se a felicidade é um valor, porque é moral quando sentida pelos outros, mas não por você? Porque é imoral produzir uma coisa de valor e guardar para si mesmo, quando é moral para os outros, que não a produziram, aceitá-la? Se há virtude em dar, não é então egoísmo receber?

Sua aceitação do código do altruísmo faz você temer o homem que tem um dólar a menos que você porque isso faz você sentir que esse dólar é, por direito, dele. Você odeia o homem com um dólar a mais que você porque o dólar que ele está guardando é seu por direito. Seu código tornou impossível saber quando é hora de dar e quando é hora de tomar.

Você sabe que não pode dar tudo o que tem e morrer de fome. Você se forçou a viver com uma culpa irracional e não merecida. É apropriado ajudar outro homem? Não, se ele cobra isso como se fosse um direito dele ou como algo que você deve a ele. Sim, se é a sua própria escolha, baseada no seu julgamento do valor daquela pessoa e suas dificuldades. Este país não foi construído por homens que buscavam coisas grátis. Na sua brilhante juventude, este país mostrou ao resto do mundo que a grandeza era possível ao Homem e que felicidade era possível na Terra.

Então o país começou a se desculpar por sua grandeza e começou a dar sua riqueza, sentindo-se culpado por ter produzido mais que seus vizinhos. Há 12 anos atrás eu percebi o que estava errado no mundo e onde a batalha pela Vida tinha que ser lutada. Eu vi que o inimigo era uma moralidade invertida e que minha aceitação desta moralidade era seu único poder. Eu fui o primeiro dos homens que se recusaram a desistir de buscar sua própria felicidade porque eu não queria apenas servir aos outros.

Para aqueles de vocês que ainda guardam um resquício de dignidade e a vontade de viver suas vidas por vocês mesmos, ainda há chance de fazer a mesma escolha. Examine seus valores e entenda que você deve escolher um lado. Qualquer meio-termo entre o bem e o mal somente serve para ferir os bons e ajudar os maus.

Se você entendeu o que eu disse, pare de apoiar seus destruidores. Não aceite a filosofia deles. Seus destruidores seguram você por causa de sua resistência, sua generosidade, sua inocência e seu amor. Não destrua a si mesmo para ajudar a construir o tipo de mundo que você vê ao seu redor. Em nome do melhor que há em você, não sacrifique o mundo por aqueles que irão tomar sua felicidade por causa dele.

O mundo irá mudar quando você estiver pronto para pronunciar este juramento:
Eu juro pela minha Vida e pelo meu amor por ela que nunca irei viver em função de outro homem, nem vou pedir a outro homem que viva em função de mim.

Quem é John Galt?


Em 1991 a biblioteca do congresso americano recebeu a missão de descobrir qual havia sido o livro que mais influenciara a vida das pessoas. A "Bíblia" ficou com o primeiro lugar, "Quem é John Galt?" ficou com o segundo lugar. O livro da escritora russa Ayn Rand foi lançado na década de 1950 e até hoje já vendeu milhões de exemplares ganhando dos críticos o título de "Guerra e Paz" do capitalismo.
Abaixo alguns trechos selecionados.
Por Ayn Rand
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Há doze anos vocês se perguntam: "Quem é John Galt?" Quem está falando é John Galt.

Eu sou o homem que ama a vida. Eu sou o homem que não sacrifica seu amor nem seus valores. (...) Os únicos conceitos de moralidade que vocês conhecem são o místico e o social. Vocês aprenderam que a moralidade é um código de comportamento imposto pelo capricho de um poder sobrenatural ou pelo capricho da sociedade, para servir os desígnios de Deus ou o bem-estar do próximo, para agradar a uma autoridade do outro mundo ou da casa ao lado - mas não para servir a sua própria vida e o seu próprio prazer. Vocês aprenderam que o seu próprio prazer se encontra na imoralidade, os seus próprios interesses residem no mal, e que todo código moral tem que ser voltado não para vocês, mas contra vocês, não para promover a vida, mas para abatê-la.

Durante séculos, a luta da moralidade foi travada entre aqueles que afirmavam que a sua vida pertence a Deus e aqueles que afirmavam que ela pertence ao próximo - entre aqueles que pregavam que o bem é sacrificar-se em nome de fantasmas no céu e aqueles que pregavam que o bem é sacrificar-se em nome dos incompetentes na terra. E ninguém veio para dizer-lhes que a sua vida pertence a vocês, e que o bem consiste em vivê-la.

Ambas as partes em conflito (místicos e coletivistas) estavam de acordo quanto a uma coisa: a moral exige que se abandone o interesse próprio e a mente, a moral e a vida prática são conflitantes, a moralidade não faz parte do domínio da razão, e sim da fé e da força. Ambas as partes concordavam que não é possível haver uma moralidade racional, que não há certo e errado na razão - que na razão não há razão para se agir conforme a moral.

Ainda que brigassem por vários motivos, todos os moralistas se uniam na luta contra a mente do homem. Era a mente do homem que todos os sistemas e dogmas deles visavam a saquear e a destruir. Agora vocês têm que optar: ou morrer ou aprender que ser contra a mente é ser contra a vida.

A mente do homem é o instrumento básico de sua sobrevivência. A vida lhe é concedida, mas não a sobrevivência. Seu corpo lhe é concedido, mas não o seu sustento. Sua mente lhe é concedida, mas não o seu conteúdo. Para permanecer vivo, ele tem de agir, e para que possa agir, ele tem que conhecer a natureza e o propósito de sua ação. Ele não pode obter seu alimento sem conhecer qual é seu alimento e como tem de agir para obtê-lo. Não pode cavar um buraco, nem construir um ciclotron, sem conhecer seu objetivo e os meios de atingi-lo. Para permanecer vivo, ele tem de pensar.

(...)

A felicidade é o estado de sucesso na vida; a dor é um agente da morte. A felicidade é aquele estado da consciência que decorre da realização dos valores que se têm. Uma moralidade que ousa dizer-lhes que vocês devem procurar a felicidade na renúncia à sua felicidade - valorizar o fracasso de seus valores - é uma insolente negação da moralidade. Uma doutrina que lhes dá como ideal o papel de animal a ser sacrificado em holocausto no altar dos outros lhes dá a morte como padrão. Por obra e graça da realidade e da natureza da vida, o homem - todo homem - é um fim em si, existe por si, e a realização de sua própria felicidade é seu mais elevado objetivo moral.

Mas nem a vida nem a felicidade podem ser alcançadas pela busca de caprichos irracionais. Assim como o homem é livre para tentar sobreviver de qualquer maneira aleatória - mas há de morrer se não viver de acordo com as exigências da natureza - assim também ele é livre para buscar sua felicidade em qualquer fraude irracional; nesse caso, porém, a tortura da frutração é tudo que ele encontrará, a menos que ele busque a felicidade própria do homem. O objetivo da moralidade é ensinar não a sofrer e morrer, e sim a gozar a vida e viver.

(...)

Não, vocês não são obrigados a viver como homens; esse é um ato de escolha moral. Mas vocês não podem viver como nenhuma outra coisa - e a alternativa é esse estado de morto-vivo que vocês agora vêem dentro de si próprios e a seu redor, esse estado de coisa incapaz de existir, que não é mais humano e é algo menos que um animal, que só conhece a dor e se arrasta na agonia da autodestruição irracional.

Não, vocês não são obrigados a pensar; esse é um ato de escolha moral. Mas alguém teve de pensar para mantê-los vivos; se vocês optam pela inconsequência, vocês fraudam a existência e repassam esse déficit para algum homem moralmente correto, na esperança de que ele sacrifique seu próprio bem para que vocês possam sobreviver a seu próprio mal.

Não, vocês não são obrigados a ser homens; mas hoje em dia aqueles que o são não estão mais aí. Eu retirei do mundo de vocês seus meios de sobrevivência - suas vítimas.

(...)

Do mesmo modo como sustento minha vida não por meio do roubo nem de esmolas, e sim pelo meu próprio esforço, assim também não tento basear minha felicidade na desgraça dos outros nem nos favores que os outros me concedam, porém a ela faço juz por minhas próprias realizações. Do mesmo modo como não considero o prazer dos outros o objetivo da minha vida, assim também não considero o meu prazer o objetivo das vidas dos outros. Do mesmo modo como não há contradições nos meus valores nem conflitos nos meus desejos - assim também não há vítimas nem conflitos de interesse entre homens racionais, homens que não desejam o imerecido nem se encaram uns aos outros com uma volúpia de canibal, homens que nem fazem sacrifícios nem os aceitam.

(...)

Vocês me perguntam que obrigação moral eu tenho para com os meus semelhantes? Nenhuma - senão aquela que devo a mim mesmo, aos objetivos materiais e a toda a existência: a racionalidade. Trato os homens como requerem minha natureza e as exigências deles: por meio da razão. Não busco nem desejo nada deles senão os relacionamentos nos quais eles escolham entrar por livre e espontânea vontade. Só sei lidar com suas mentes - e assim mesmo quando isso é do meu interesse - quando eles vêem que meu interesse coincide com o deles. Quando isto não acontece, não entro em relação alguma; quem discordar de mim que siga o seu caminho, que eu não me desvio do meu. Só venço por meio da lógica, e só a lógica me rendo. Não abro mão de minha razão, nem lido com homens que abrem mão da sua. Nada tenho a ganhar com idiotas e covardes; não tento ganhar nada dos vícios humanos: a estupidez, a desonestidade, o medo. O único valor que os homens podem me oferecer é o produto de sua mente. Quando discordo de um homem racional, deixo que a realidade seja nosso árbitro final; se eu estiver certo, ele aprenderá; se eu estiver errado, aprenderei; um de nós ganhará, porém nós dois lucraremos.

(...)

É apenas como retaliação que a força pode ser usada - e somente contra a pessoa que foi a primeira a usá-la. Não, não compartilho da maldade dela nem me rebaixo ao seu conceito de moralidade: apenas lhe concedo sua escolha, a destruição, a única destruição que ela tinha o diretito de escolher: a dela mesma. Ela usa a força para se apossar de um valor; eu a uso apenas para destruir a destruição. O assaltante tenta enriquecer matando-me; eu não me torno mais rico quando mato o assaltante. Não busco valores por meio do mal, nem submeto meus valores ao mal.

(...)

Vocês que cultuam o zero - vocês jamais descobriram que realizar a vida não é equivalente a evitar a morte. O prazer não é 'a ausência da dor', a inteligência não é 'a ausência da estupidez', a luz não é 'a ausência da escuridão', uma entidade não é 'a ausência de uma nulidade'. Construir não é coisa que se realize simplesmente pelo fato de não demolir; não adianta passar séculos parado, sem demolir: nem sequer uma viga se erguerá - e agora vocês não podem mais dizer a mim, o produtor: 'Produza e nos alimente, que em troca nós não destruiremos sua produção', pois eu responderei, em nome de todas as vítimas que vocês fizeram: Morram com o seu próprio vazio. A existência não é uma negação de negações. O mal, e não o valor (bem), é que é uma ausência e uma negação; o mal é impotente, e só dispõe do poder que lhe permitimos arrancar de nós. Morram, porque aprendemos que um zero não pode hipotecar a vida.

Vocês querem esquivar-se da dor. Nós queremos atingir a felicidade. Vocês existem para evitar o castigo. Nós existimos para fazer jus às recompensas. As ameaças não nos farão trabalhar; o medo não é nosso incentivo. Não queremos evitar a morte e sim viver.

(...)

O bem, dizem os místicos do espírito, é Deus, um ser cuja única definição é estar além do poder de concepção do homem - definição essa que invalida a consciência do homem e anula seus conceitos de existência. O bem, dizem os místicos dos músculos, é a Sociedade - algo que eles definem como um organismo que não possui forma física, um super-ser que não se concretiza em nenhum indivíduo específico e sim em todos em geral, mas nunca em vocês. A mente do homem, dizem os místicos do espírito, deve subordinar-se à vontade de Deus. O padrão de valor do homem, dizem os místicos do espírito, é o bel-prazer de Deus, cujos padrões estão além do poder de compreensão do homem e têm de ser aceitos pela fé. O padrão de valor do homem, dizem os místicos dos músculos, é o bel-prazer da Sociedade, cujos padrões estão além do direito de julgar do homem e têm que ser obedecidos como um absoluto. O objetivo da vida do homem, dizem ambos, é se tornar um zumbi abjeto que serve um objetivo que ele desconhece, por motivos que ele não pode questionar. Sua recompensa, dizem os místicos do espírito, lhe será dada após a morte. Sua recompensa, dizem os místicos dos músculos, será dada aqui mesmo na terra - a seus bisnetos.

O egoísmo - dizem ambos - é o mal do homem. O bem do homem - dizem ambos - é abrir mão de seus desejos individuais, negar-se a si próprio, renunciar a si próprio, render-se; o bem do homem é negar a vida que ele vive. O sacrifício - exclamam ambos - é a essência da moralidade, a mais elevada virtude ao alcance do homem.

Todo aquele que está agora ao alcance da minha voz, todo aquele que seja vítima e não assassino, que está me ouvindo falar ao pé do leito de morte da sua mente, a um passo daquele abismo negro no qual vocês agora estão se afogando, e se ainda resta em vocês o poder de lutar para não perderem os últimos vestígios daquilo que vocês tinham como seu - usem-no agora. A palavara que o destruiu é sacrifício. Use o que resta da sua força para entenderem o significado dessa palavra. Vocês ainda estão vivos. Vocês ainda têm uma chance.

(...)

Se vocês querem salvar os últimos vestígios de sua dignidade, não chamem as suas melhores ações de 'sacrifícios': esta palavra os rotula de imorais. Se uma mãe compra comida para seu filho que tem fome em vez de um chapé para si própria, isso não é sacrifício: ela dá mais valor ao filho do que ao chapéu; porém isso é um sacrifício para o tipo de mãe que dá mais valor ao chapéu, que preferia ver o próprio filho morrer de fome, e só lhe dá comida por obrigação. Se um homem morrer lutando por sua própria liberdade, isso não é sacrifício: ele não está disposto a viver como escravo; porém isso é um sacrifício para o tipo de homem que está disposto a viver como escravo. Se um homem se recusa a vender suas convicções, isso não é um sacrifício, a menos que ele seja o tipo de homem que não tem convicções.

(...)

Por que é imoral produzir um valor e ficar com ele, mas não o é dá-lo aos outros? E se é imoral para vocês ficar com esse valor, por que não é imoral para os outros aceitá-lo? Se vocês são altruístas e virtuosos quando o dão, eles não serão egoístas e maus quando o aceitam? Então a virtude consiste em servir o vício? Então o objetivo moral dos bons é imolar-se em benefício dos maus?

A resposta de que vocês se esquivam, a resposta monstruosa é: Não, os que recebem não são maus, desde que eles não mereçam o valor que vocês lhes deram. Não é imoral para eles aceitar a dádiva, desde que eles sejam incapazes de produzi-la, incapazes de merecê-la, incapazes de lhes dar algo em troca. Não é imoral para eles encontrar prazer nela, desde que eles não a obtenham por direito.

(...)

Assim como não pode haver riqueza sem causa, assim também não pode haver amor sem causa, nem nenhuma emoção sem causa. Uma emoção é uma reação a um aspecto da realidade, uma estimativa ditada pelos seus padrões: Amar é *valorizar*. O homem que diz que é possível valorizar sem valores, amar aqueles que vocês consideram desprovidos de valor, é o homem que afirma que é possível enriquecer consumindo sem produzir, e que papel-moeda é tão valioso quanto ouro.

(...)

O amor é a manifestação dos valores que se têm, a maior recompensa a que se pode fazer jus através das qualidades morais que se atingiram no caráter e na própria pessoa, o preço emocional pago por um homem pelo prazer que lhe proprocionam as virtudes de outro. A sua moralidade exige que vocês divorciem o seu amor dos seus valores e o entreguem a qualquer vagabundo, não como uma resposta a seu valor, e sim como um resposta à sua necessidade; não como recompensa, mas como esmola; não como remuneração de virtudes, mas como um cheque em branco concedido aos vícios. A sua moralidade lhes diz que o objetivo do amor é liberá-los das amarras da moralidade, que o amor é superior ao discernimento moral, que o verdadeiro amor transcende, perdoa e sobrevive a toda espéice de erro em seu objeto, e quanto maior o amor, maior a depravação permitida ao amado. Amar um homem por suas virtudes é mesquinho e humano, diz esta moralidade; amá-lo por seus defeitos é divino. Amar aqueles que são merecedores de valor não passa de interesse; amar os que não merecem amor é sacrifício.

(...)

Qual a natureza daquele mundo superior ao qual vocês sacrificam esse mundo que realmente existe? Os místicos do espírito amaldiçoam a matéria, os místicos da Sociedade amaldiçoam o lucro. Aqueles querem que os homens lucrem renunciando ao mundo; estes, que os homens herdem o mundo renunciando ao lucro. Os mundos sem matéria e sem lucros por eles propostos são terras em que nos rios correr café com leite, brota vinho das pedras quando eles assim ordenam, caem pastéis do céu quando abrem a boca. No mundo material em que vivemos, em que as pessoas correm atrás do lucro, é necessário um investimento enorme de virtude - de inteligência, integridade, energia e capacidade - para construir uma ferrovia de um quilômetro de extensão; no mundo sem matería e sem lucro que os místicos propõem, viaja-se de um planeta a outro graças à formulação de um desejo. Se uma pessoa honesta lhes pergunta 'Como?' - eles respondem, com indignação e escárnio, que 'como' é um conceito de realistas vulgares; o conceito dos espíritos superiores é 'de algum modo'. Neste nosso mundo circunscrito pela matéria e o lucro, as recompensa requerem o pensamento; num mundo libertado de tais restrições, basta desejar.

(...)

Toda vez que vocês se revoltam contra a causalidade, o que os motiva é o desejo fraudulento não de escapar dela, mas, o que é pior, de invertê-la. Vocês querem amor imerecido, como se amor, que é efeito, lher pudesse atribuir valor pessoal, que é a causa; querem admiração imerecida, como se a admiração, o efeito, pudesse lhes conferir virtude, a causa; querem riquezas imerecidas, como se a riqueza, o efeito, pudesse lhes conferir capacidade, a causa; imploram por piedade, PIEDADE não justiça, como se um perdão imerecido pudesse ter o efeito de apagar a causa do seu pedido de misericórdia. E para permitirem estas suas falsificações mesquinhas, vocês defendem as doutrinas de seus mestres, enquanto eles andam por aí proclamando que os gastos, que são o efeito, é que criam as riqueza, que é a causa; que as máquinas, o efeito, criam a inteligência, a causa; que os seus desejos sexuais, o efeito, criam os seus valores filosóficos, a causa.

(...)

A vida entre vocês é um gigantesco fingimento, uma farsa que um representa para o outro, cada um se achando o único diferente, o único culpado, cada um atribuindo a autoridade moral ao incognoscível que só os outros conhecem, cada um falseando a realidade que acha que os outros querem que ele falseie, nenhum com a coragem de quebrar o círculo vicioso.

(...)

Para vocês, a moralidade é um espantalho constituído de dever, tédio, castigo e dor, um cruzamento da primeira professora que vocês tiveram no primário com o coletor de impostos de agora, um espantalho colocado num campo estéril, sacudindo uma vara para espantar os seus prazeres - e prazer, para vocês é um cérebro empapado de álcool, uma prostituta animalesca, o estupor de um imbecil que aposta dinheiro numa corrida de animais, pois o prazer não pode ser algo moralmente correto.

(...)

Aceitem o fato de que vocês não são oniscientes, mas saibam que bancar o zumbi não vai torná-los oniscientes; aceitem o fato de que a sua mente é falível, mas admitam que livrar-se da mente não vai torná-los infalíveis; aceitem o fato de que um erro que vocês cometeram por iniciativa própria é mais seguro do que dez verdades aceitas por fé, porque a sua iniciativa lhes dá os meios de corrigi-lo, enquanto a mera aceitação destrói a sua capacidade de distinguir a verdade do erro. Substituam o seu sonho de autômatos oniscientes, aceitem o fato de que todo conhecimento que o homem adquire é fruto de sua própria vontade e de seu próprio esforço, e que isto é que o distingue no universo, esta é a sua natureza, sua moralidade, sua glória.

(...)

Aquilo que vocês não sabem não pode representar uma acusação moral contra vocês; mas aquilo que vocês se recusam a saber é marca da infâmia que cresce na sua alma. Tenham toda a tolerância possível com os erros de conhecimento; não perdoem nem aceitem nenhum deslize moral.

(...)

Um passo básico na aprendizagem do amor-próprio é encarar como sinal de canibalismo toda *exigência* de ajuda. O homem que exige ajuda de vocês está afirmando que a sua vida é propriedade dele - e por mais repugnante que isso seja, há algo ainda mais repugnante: concordar e aceitar. Perguntam vocês: é bom ajudar outro homem? Não, se ele afirma que se trata de um direito dele ou de um dever moral seu; sim, se isto é o que vocês desejam, com base no prazer egoísta que lhes proporciona o *valor* da pessoa e da *luta* do outro. O sofrimento, enquanto tal, não é valor. Só a luta do homem contra o sofrimento o é.

(...)

Direitos são um conceito moral - e a moral é uma questão de escolha. Os homens têm a liberdade de não optar pela sobrevivência do homem como padrão de sua moralidade e de suas leis, mas não a de esquivar-se do fato de que a alternativa é uma sociedade de canibais, que existe por algum tempo devorando o que ela tem de melhor e depois cai como um corpo canceroso, quando os saudávies já foram comidos pelos doentes, quando os racionais já foram consumidos pelos irracionais. Este sempre foi o destino histórico das sociedades, mas vocês se esquivaram do conhecimento da causa.

(...)

Vocês resolveram achar que era injusto que nós, que retiramos vocês das choupanas e lhes demos apartamentos modernos, rádios, cinemas e automóveis, tivéssemos palácios e iates - resolveram que vocês tinham direito a receber seu salário, mas nós não tínhamos direito de receber nossos lucros; que vocês não queriam que lidássemos com as suas mentes e sim com as suas armas, mas nossa resposta foi: 'pois que se danem!' E foi o que de fato aconteceu. Vocês se danaram.

O John Galt brasileiro é caminhoneiro?


Desde ontem conversei com muitas pessoas envolvidas nesse episódio da paralisação dos caminhoneiros. Me parece que a faísca para o processo foi o último aumento dos combustíveis e do dólar, um fenômeno global, que atingiu em cheio o elo mais fraco da corrente, já esticada ao máximo pela mais grave crise da história do país, gestada nos governos petistas, que ao invés de utilizar o seu capital político para fazer as reformas necessárias, utilizaram a situação global positiva na economia para fazer populismo, criando bonança artificial, além de montar o maior esquema de corrupção da história do mundo. A partir de 2013, a conta chegou.
Com mais pessoas desempregadas, a oferta de mão-de-obra para dirigir caminhões aumentou, pressionando as margens. A menor atividade econômica pressiona também as empresas do setor. A politica realista de preços da Petrobrás pressionou mais ainda. O petróleo subiu e a corda estourou tanto para caminhoneiros quanto para as empresas de transporte de cargas.
O apoio da esmagadora maioria da população à greve ocorre porque os caminhoneiros representam as pessoas que efetivamente trabalham nesse país e que viraram escravos do governo, através de impostos cada vez maiores, recebendo cada vez menos serviços em troca. Nem a básica ordem pública é garantida pelo Estado há muito tempo.
A Lava Jato demonstrou sem sombra de dúvida que somos governados pelos piores bandidos, verdadeiros psicopatas que pensam apenas em si e nos seus grupos de comparsas. O trabalho dos canalhas é facilitado pela estrutura socialista do país, que concentra poder exagerado nas mãos do Estado. Esse é o nosso principal problema.
Creio que não há um brasileiro decente hoje que não ficaria realizado em observar a esmagadora maioria de políticos e até mesmo juízes dos tribunais superiores indo direto para a cadeia pelos crimes cometidos nas últimas décadas, abrindo espaço para uma reforma profunda que possa restabelecer os direitos naturais dos cidadãos, a ordem e a capacidade de produzir riqueza por iniciativa própria.
O problema é como realizar tal movimento da forma menos arriscada possível, pois do caos, qualquer coisa pode brotar, tanto uma mudança para melhor quanto uma mudança para muito pior. E não falta no Brasil esquerdopatas querendo aproveitar o caos para aprofundar o desastroso projeto socialista iniciado pela Constituição de 88.
Os caminhoneiros não são socialistas, mas formam um grupo fragmentado, que tem poder de pressão pela dependência econômica do país ao seu trabalho, porém não contam com a capacidade de organizar um movimento político com as características necessárias para conduzir o processo de uma intervenção popular.
Talvez o que eles podem fazer é gerar as condições para que o governo caia de podre, abrindo espaço para que os militares assumam o poder. Mas estariam eles preparados para tal processo?
Muita gente defende que a situação precisa ser levada até as eleições desse ano, onde seria então escolhido um presidente que contaria com alguma legitimidade para refundar o Brasil em algum grau. Mas mesmo nesse caso, com esse STF e TSE que aí estão, qual é a garantia que as eleições sejam limpas? Eles descaradamente desobedeceram a lei ao negar a implementação do voto impresso, o que deixa duzentas pulgas atrás da orelha. Não implementaram o voto impresso para poder fraudar as eleições?
Além disso, como acreditar numa refundação do país se os mesmos ratos de sempre estarão no poder, já que a estrutura política foi ainda mais concentrada com as últimas mudanças que garantem bilhões de reais nas mãos dos velhos caciques para que eles escolham os candidatos que receberão recursos? Nas eleições para Câmara dos Deputados e para o Senado, a renovação será mínima. Nove entre dez políticos em Brasília só falam em como frear a Lava Jato, o que de fato já fazem, em parte contando com o STF.
Algum tempo atrás, perguntei: e se os trabalhadores do Brasil, aqueles que realmente carregam esse país nas costas cruzarem os braços, o que acontecerá? Não os mortadelas de sindicato, mas quem realmente produz riqueza. Como no romance de Ayn Rand, parece que esse dia chegou.
E agora?
Mesmo enfraquecido, o governo conta com muitos instrumentos para debelar a paralisação, como a força bruta, multas e outras punições. Parece que a PF vai até mesmo pedir a prisão de alguns líderes da greve. O exército tem autorização para usar a força. É possível que o movimento seja abafado.
Ou as coisas podem sair do controle rapidamente dado o apoio da população ao processo, que deve diminuir quando o sofrimento por conta da paralisação aumentar, inclusive causando mortes. Se o apoio não esmorecer, algum tipo de intervenção acontecerá, talvez até solicitada pelo próprio governo, que não terá mais condições nenhuma de governar.
Se for o caso, que haja uma liderança mínima para dar os passos necessários na limpeza do país e criação de uma nova estrutura de funcionamento de sociedade, com um Estado mais enxuto, eficiente e descentralizado, acabando com o regime de escravidão que nos encontramos, restabelecendo a ordem e garantindo o livre mercado.
Esse é um possível desdobramento otimista para essa grave crise, apesar de menos provável. O mais provável é que mesmo no caso de uma intervenção, seja mantida a mesma estrutura de poder, onde alguns poucos privilegiados escravizam o resto da sociedade, ao parasitar o Estado. Talvez apenas com alguns ajustes de menor profundidade, para que os escravos não se revoltem de vez. Há ainda uma terceira alternativa, a mais negativa, também menos provável, onde a esquerda dobre a aposta socialista, até mesmo pela via eleitoral. E nesse caso, a Venezuela está aí como exemplo do que pode estar por vir.
Mesmo que a atual crise seja debelada nos próximos dias, as suas causas profundas permanecerão presentes até que o país seja refundado. O modelo atual está completamente falido. Para que essa refundação aconteça, a alternativa de curto prazo é algum tipo de ruptura, com os seus riscos. No longo prazo, apenas com uma mudança de mentalidade profunda do brasileiro, combatendo a revolução esquerdopata em curso que destrói todos os nossos valores mais caros, há alguma chance de sucesso.

domingo, 8 de abril de 2018

O herói sem caráter


Há inegáveis pontos comuns entre Lula e Macunaíma, personagem de Mário de Andrade: ambos saem dos grotões do Brasil, conquistam poder e glória até se lambuzar na máquina da corrupção.

Em 1928, o escritor Mário de Andrade lançou o romance “Macunaíma — o herói sem nenhum caráter”. Ele criou o personagem que sintetizava a alma mestiça e malandra do brasileiro. O livro antecipou em literatura os estudos acadêmicos que, dali a poucos anos, ofereceriam interpretações sobre a sociedade do Brasil, como “Casagrande e Senzala” (1933), de Gilberto Freyre, e “Raízes do Brasil” (1936), de Sérgio Buarque de Holanda. Macunaíma — ao lado da tela “Abaporu”, o antropófago de Tarsila do Amaral, também de 1928 — é o símbolo modernista do Brasil que nunca chega a uma síntese perfeita. O mestiço que se identifica com o senhor da Casa Grande; o brasileiro que vive de trambiques e prefigura o homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda.
Macunaíma nasce na selva “preto retinto e filho da noite”, parido por índia tapanhuma. Desde menino, faz “coisas de sarapantar” e vive exclamando “Ai, que preguiça!”. Não tem caráter. Para compensar, pilha elementos de todas as culturas. O “herói da nossa gente” resulta da miscigenação e da imaturidade. Num belo dia, ele se banha em uma fonte, fica branco e parte para São Paulo atrás do seu amuleto, a muiraquitã, roubada pelo gigante Pietro Pietra. Na cidade grande, esquece a missão inicial e se deixa arrastar pelas seduções da sociedade moderna.
Lula encarna o Macunaíma na vida real. A exemplo da figura literária, ele parece refletir os anseios e os vícios do povo. Nasce igualmente no sertão. Faminto, parte com a família em um pau-de-arara rumo à cidade grande, na mesma São Paulo de Macunaíma. Ali, começa a escrever a própria lenda, a saga do retirante nordestino que galga postos: primeiro operário, logo dirigente sindical e deus da conjuração dos metalúrgicos que abala a ditadura e finalmente dirigente máximo do povo. Banhado na fonte do poder, Lula se metamorfoseia na maior autoridade da nação. Nem sempre de forma lícita, conquista o poder e bens materiais.
Assim como Macunaíma, Lula é um predestinado que eletriza as multidões, coleciona aliados e dá aulas de picardia. Consolida a aura mítica, em parte por sua própria lenda pessoal, em parte pela construção artificiosa dos marqueteiros. Por isso ele provoca tanta paixão e identificação de boa parte dos brasileiros, e continua a despertar paixões e intenções de votos. Macunaíma nunca sonhou em ser presidente do Brasil.
Quando Macunaíma troca os grotões pela metrópole, passa a cultuar a máquina do capitalismo nascente. Deslumbra-se com bancos, indústrias e a efervescência econômica. De forma análoga, Lula venera o mecanismo do capital: a política, a conquista das massas pela retórica, os atrativos das empreiteiras, bancos e estatais. Ele e Macunaíma se lambuzam nos excessos e nas facilidades da civilização corrompida.
No romance, Macunaíma é desmascarado. Em vez de investir na imagem de herói capenga, ele se aborrece da “terra de muita saúva e pouca saúde” e volta à mata para se transformar na constelação da Ursa Maior, indiferente ao povo que o gerou e que um dia ele representou.
Na vida real, Lula é condenado e preso por corrupção. Além de negar tudo, ele não parece nutrir o mesmo anseio humilde de se transfigurar em estrela distante. Prefere encarnar a versão do mártir de um povo que se mostra hoje mais indiferente do que ele jamais imaginaria. Lula é mais macunaímico que a criação de Mário de Andrade. É o ultra-Macunaíma.
Mas os tempos da contravenção anárquica e alegre que inspiraram por tantos décadas o folclore nacional parecem agonizar. Existe ainda o herói mítico que irá salvar o povo brasileiro? Para quem ainda se ilude, convém lembrar o que diz o narrador do romance: “Herói? Tem mais não.”
Luís Antônio Giron

domingo, 28 de janeiro de 2018

15 Melhores livros distópicos da literatura mundial

Depois de enfrentar duas grandes Guerras Mundiais e vários outros problemas oriundos a partir da Revolução Industrial, o ser humano do século XX perdeu grande parte da esperança  de um dia conseguir construir e viver numa Utopia, como sonhavam os poetas e filósofos de outrora. 
E o reflexo disso está na distopia, gênero literário que se configurou como a antítese do sonho utópico. Governos repressivos e totalitários, que moldam uma sociedade com valores morais desvirtuados e bastante assustadores, costumam fazer parte do pano de fundo das obras distópicas, que revelam um futuro pessimista para a humanidade. 
Selecionamos algumas das obras mais significativas do gênero e que também servem como ótimas críticas sobre diversos aspectos da nossa sociedade.

1. 1984 (1949)

1984 orwell
Esta obra prima de George Orwell é um dos livros mais importantes do século XX! Mesmo sendo escrito há várias décadas, não deixa de permear vários assuntos atuais vividos pela sociedade contemporânea.
Orwell criou um mundo que está centrado na figura assustadora do "Big Brother", um autocrata onipresente que lidera o regime político totalitário e repressivo que impera ao longo da história - O Partido.
É difícil não ficar chocado com a "Novilíngua" e a "Teoria das Guerras", que são conceitos apresentados pelo autor e usados pelo Partido para controlar a população que vive sob o domínio do "Grande Irmão".
Esta obra é considerada uma dura crítica ao comunismo e ao fascismo, em especial à Joseph Stalin, líder da extinta União Soviética. 
Sem dúvida, 1984 é leitura obrigatória para todos os amantes de distopias!

2. Laranja Mecânica (1962)

laranja mecanica
Autoria de Anthony BurgessLaranja Mecânica é uma forte sátira à sociedade inglesa, e outra das obras mais icônicas do século XX!
A história tem como palco uma Inglaterra futurista, onde o domínio das gangs juvenis é total, praticando sem nenhum receio a chamada "ultraviolência". E, como modo de combater este comportamento, Burgess nos apresenta o revolucionário Tratamento Ludovico, uma técnica experimental que promete "curar" Alex, o protagonista e "anti-herói sociopata" da narrativa.
Aliás, este tratamento não deixa de ser outra crítica feroz do autor contra a chamada "psicologia comportamental" (Behaviorismo). 
Ah, e vale muito a pena conferir a versão cinematográfica de Laranja Mecânica (1972), dirigida pelo incrível Stanley Kubrick!

3. A Guimba (2008)

a guimba
O britânico Will Self é o autor desta obra, descrita por muitos críticos como "profética", "satírica" e "alucinógena". 
Tom Brodzinski é um típico turista americano que vai com a sua família desfrutar as maravilhas naturais de um país fictício, que é descrito como uma mistura de Austrália e Iraque (que mistura, hein).
Mas, por causa de uma guimba de cigarro que acidentalmente acertou um dos moradores, Tom se vê rodeado por um verdadeiro pesadelo kafkiano. Este acidente aparentemente banal é o estopim para que o protagonista conheça a realidade social e política escondida sob aquele "paraíso".

4. Admirável Mundo Novo (1931)

admiravel mundo novo
Neste outro clássico da literatura, o mundo imaginado por Aldous Huxley é baseado num futuro onde os seres humanos são gerados em laboratórios e condicionados a seguir as normais sociais pré-estabelecidas pelo Estado.
As pessoas são classificadas por castas, de acordo com as características biológicas definidas desde o seu nascimento. Conceitos "antiquados" como "pai", "mãe" ou "família" são considerados repugnantes. 
Aliás, qualquer coisa que desestabilizasse o indivíduo de suas obrigações de trabalhar e produzir devia ser punida. O amor, por exemplo, não era um sentimento conhecido por esta civilização, assim como qualquer outro tipo de compromisso amoroso.
"Cada um pertence a todos" é o lema da sociedade em Admirável Mundo Novo, que não deixa de ser uma grande crítica ao extremismo do coletivismo socialista. 
Pare para imaginar como seria viver num mundo onde não existe a ideia do amor... Muito medo, não?

5. Fahrenheit 451 (1953)

farrenheit 451
A sociedade vivida em Fahrenheit 451 é o pior dos pesadelos para os fãs do Pensador!
Ray Bradubury, autor desta obra clássica, cria um mundo pós-Segunda Guerra Mundial onde o regime totalitário vigente proíbe totalmente a existência de qualquer tipo de livro!
Todas as pessoas ficam restritas a obter informações e conhecimento unicamente através de televisões, seja em suas casas ou em praças públicas. A leitura deixou de existir, assim como as críticas pessoais e a opinião própria. A expressão do pensamento individual foi totalmente suprimida.
A história do livro gira em torno de Guy Montag, um "bombeiro", que tem a função de queimar livros. Aliás, uma curiosidade: 451 é a temperatura, em Fahrenheit, usada pelas equipes de "bombeiros" para queimar o papel dos livros nesta história.
De acordo com o próprio autor, Fahrenheit 451 serve para refletirmos como a televisão pode destruir totalmente o interesse das pessoas pela leitura
E então, você concorda?

6. A Revolução dos Bichos (1945)

revolução dos bichos
George Orwell volta a "cutucar" o governo de Stalin e a ideologia do regime socialista nesta fábula satírica clássica!
Na história de Orwell, os animais de uma fazenda resolvem se rebelar contra a exploração que sofrem dos seres humanos. Assim, decidem criar uma sociedade utópica que é liderada por um grupo de porcos, mas acabam por reproduzir os mesmos comportamentos corruptos e totalitários que eram típicos dos homens.

7. A Máquina do Tempo (1895)

a maquina do tempo
Este é considerado o primeiro romance que aborda viagens no tempo através de uma máquina criada unicamente com este propósito. Esta história foi mentalizada por um dos maiores escritores de ficção-científica de todos os tempos, H. G. Wells!
Na obra de Wells, um homem desenvolveu uma máquina capaz de viajar para o futuro, chegando até o inimaginável ano de 802.601. Nesta época, o "Viajante do Tempo" se depara com civilizações remanescentes dos seres humanos, e que vivem uma realidade nenhum pouco otimista. 

8. Nós (1924)

nós
Considerado o livro que provavelmente inspirou Orwell a criar 1984Nós é uma sátira futurista ao Estado totalitário, tendo como base os eventos presenciados pelo autor desta obra, Evgueny Zamiatin, durante as revoluções russas de 1905 e 1917. 
A obra de Zamyatin descreve uma sociedade totalmente controladora e totalitária, que acredita ser o livre-arbítrio o responsável por provocar a infelicidade na vida das pessoas. Assim, todo o comportamento dos indivíduos passa a ser monitorado e controlado pelo Estado, representado pela figura do "Benfeitor".
Devido a censura imposta na União Soviética na década de 1920, Nós foi publicado pela primeira vez nos Estados Unidos, em inglês. O livro somente conseguiu ser comercializado livremente na Rússia em 1988. 

9. O Processo (1925)

o processo
Um dia você acorda e descobre que está sendo acusado de um crime, mas não é revelado qual. Como se defender de algo que você desconhece? Este é o pesadelo vivido por Josef K. em O Processo, uma das obras mais influentes de Franz Kafka
De certo modo, esta obra de Kafka profetizou os absurdos presenciados durante o nazismo, como as perseguições, prisões e extermínios sem motivo ou explicação dos judeus.

10. Eu, Robô (1950)

eu robo
Autoria do russo Isaac Asimov, esta obra é uma coletânea composta por nove contos que têm em comum a evolução da robótica numa sociedade futurista. 
As Três Leis da Robôtica, conceito muito interessante criado por Asimov, é a base das histórias narradas neste livro e que também passaram a ser adotadas por outros autores. 

11. O Senhor das Moscas (1954)

o senhor das moscas
William Golding cria uma obra simbólica e de leitura obrigatória, que retrata a existência da natureza do mal nos seres humanos
Após um avião cair numa ilha deserta, um grupo de crianças tenta se organizar sem qualquer tipo de supervisão de adultos. Ao longo do tempo, a noção de civilidade e a inocência típica desta idade é substituída pela selvageria total. 
Senhor das Moscas está recheado de simbolismos e analogias aos diferentes papéis da sociedade. Aliás, para começar, o título do livro é uma referência direta a Belzebu, nada mais nada menos que o próprio Diabo. 

12. Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (1968)

o caçador de androides
Esta obra de Philip K. Dick serviu de inspiração para o roteiro de Blade Runner (1982), dirigido por Ridley Scott, e uma das melhores produções de ficção científica de todos os tempos!
Numa Terra devastada por uma guerra nuclear, Philip K. Dick conta a história da crise moral de um caçador de androides que sonha em ter um animal de estimação, num mundo onde quase todas as espécies foram extintas. 

13. Neuromancer (1984)

neuromancer
Neuromancer é considerado o precursor do cyberpunk, um subgênero de ficção científica criado por William Gibson, e que aborda conceitos como inteligência artificial e cyberespaço. 
O mundo em Neuromancer é submerso numa "alucinação coletiva digital", onde todas as pessoas se conectam ao universo virtual para adquirir conhecimento. O livro conta a história de Case, um ex-hacker que tenta achar uma cura para o seu problema neural que impossibilita que se conecte com este cyberespaço. 
A visão criada por Gibson serviu de inspiração para várias obras do gênero, como a trilogia Matrix, por exemplo.

14. Não Me Abandone Jamais (2005)

não me abandone jamais
No universo criado por Kazuo Ishiguro, alguns seres humanos são criados em laboratórios com a finalidade única de serem doadores de órgãos no futuro. 
Pode parecer apenas uma ficção científica, mas com os avanços tecnológicos nesta area, a ideia de desenvolver clones humanos para satisfazer necessidades físicas de um grupo de pessoas se torna cada vez mais real.
Não Me Abandone Jamais nos faz refletir sobre o conceito da existência. Afinal de contas, mesmo sendo criadas em laboratórios, aquelas pessoas existem... Realmente é uma história perturbadora e que te fará pensar muito sobre os conflitos morais e éticos que esbarram nas "conquistas cientificas".

15. Submissão (2015)

submissão
Ao contrário das outras obras distópicas que retratam sociedades num futuro distante, Submissão, de Michel Houellebecq, mostra a França de 2022, liderada por Mohammed Ben Abbes, o candidato do imaginário Partido da Fraternidade Muçulmana.
A crítica central do livro é focada na chamada "população silenciosa", aquela que simplesmente aceita as imposições que servem para anular a cultura do local, impondo aquela praticada pelo regime dominador.
Ficou faltando algum livro importante na lista? Compartilhe com a gente a SUA lista com as melhores obras distópicas que já leu!