quarta-feira, 18 de maio de 2016

Recordar é viver: Para onde Lula queria remeter Collor

Dilma já pediu e obteve o direito de continuar morando no Palácio da Alvorada
Ricardo Noblat
Uma vez afastado do cargo de presidente da República para ser julgado pelo Senado, Fernando Collor, em setembro de 1992, pediu para ficar morando temporariamente na Granja do Torto, segundo reportagem publicada, hoje, pelo O GLOBO.
O que disse a respeito Lula, na época apenas presidente do PT depois de ter sido derrotado por Collor na eleição presidencial de 1989:
- Se o governo quer dar casa para o Collor, então que conceda um espaço na Casa de Detenção. Ele cometeu o que cometeu e agora vem pedir mordomias?
Collor ficou na Casa da Dinda, propriedade em Brasília de sua família. Sem direito a praticamente nada.
Dilma já pediu e obteve o direito de continuar morando no Palácio da Alvorada, que será transformado numa espécie de fortaleza do movimento contra o impeachment.
Outras “mordomias” exigidas por ela estão em estudo.

Brasil perdeu quase 24 mil leitos de internação do SUS em cinco anos

Número é o equivalente a perda de 13 leitos por dia. 
Levantamento foi divulgado pelo Conselho Federal de Medicina.

O Brasil perdeu quase 24 mil leitos de internação do SUS em cinco anos. É o equivalente a 13 leitos por dia. Essa falta de leito atinge, principalmente, a pediatria, a cirurgia geral, a psiquiatria e a obstetrícia. O levantamento foi divulgado nesta terça-feira (17) pelo Conselho Federal de Medicina.

Um mapeamento do Conselho Federal de Medicina mostrou que, em cinco anos, 18 estados e oDistrito Federal, perderam quase 24 mil leitos de internação do Sistema Único de Saúde. Em dezembro de 2010, eram 335 mil leitos de internação. Em dezembro do ano passado, o número caiu para quase 312 mil.
 
Os estados das regiões Sudeste e Nordeste foram os que mais sofreram redução. Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Paraná são os estados que mais perderam.
Para o Conselho Federal de Medicina, a falta de leitos provoca um atraso no diagnóstico do paciente, no início do tratamento. Além disso, muitos pacientes ficam em macas nas emergências dos hospitais esperando por um leito adequado.
O presidente do Conselho Federal de Medicina, Carlos Vital, diz que esses são fatores que aumentam a taxa de mortalidade. "Mortes evitáveis e perdas de uma chance. Essas são as consequências, ou seja, a população que depende do SUS, perdem oportunidades de manutenção da vida através da ausência, da carência de leitos para internação".
Nesta terça-feira (17), o ministro da Saúde, Ricardo Barros falou sobre a falta de leitos de internação no SUS. “Existem de fato Upas fechadas, existem postos de saúde fechados. Melhorar a qualidade da gestão é fundamental. É isso que vai poder promover a reativação desses leitos que eventualmente estão paralisados”.
Veja outros dados do Conselho Federal de Medicina:
SUS_JH (Foto: jornal hoje)







terça-feira, 17 de maio de 2016

Dilma e Raúl: Uma dupla e tanto em dias de cólera

Ela se tornou admiradora do irmão de Fidel quando ainda era uma guerrilheira aprendiz. Ele se esvai em derramamentos de pretendente ansioso ao topar com a mulher que o autorizou a baixar na Granja do Torto sempre que lhe der na telha


Depois da receber a ordem de despejo emitida pelo Senado, Dilma Rousseff resolveu animar a plateia de comício em vilarejo com uma frase soprada por algum marqueteiro ainda solto: “O golpe colocou no poder os sem-voto”. Além de confirmar que nunca leu as normas constitucionais sobre o impeachment, a presidente demitida por inépcia e irresponsabilidade revelou que disputou duas eleições sem ter lido o Código Eleitoral. Eis o que diz o artigo 178:
“O voto dado ao candidato a Presidente da República entender-se-á dado também ao candidato a vice-presidente, assim como o dado aos candidatos a governador, senador, deputado federal nos territórios, prefeito e juiz de paz entender-se-á dado ao respectivo vice ou suplente”.
Em 2014, portanto, o candidato a vice-presidente Michel Temer obteve os mesmos 54 milhões de votos atribuídos a Dilma, cabeça da chapa nascida da aliança entre o PT e o PMDB.  Sem-voto é, por exemplo, o cubano Raúl Castro, que resolveu enxergar numa demissão por justíssima causa um golpe igual ao ocorrido ocorrido em Cuba em 1959, só que na contramão. Aos olhos do ditador que se diz preocupado com a democracia brasileira, Dilma é uma espécie de Fulgencio Batista que reencarnou em forma de mulher e convertido ao bolivarianismo. Haja vigarice.
Comovida, a governante desgovernada, devolvida à planície porque assim quis o povo, acaba de retribuir a demonstração de afeto incondicional com o envio ao velho liberticida de outro buquê de afagos retóricos. Somadas a tirania de Batista e a ditadura comunista, Cuba não sabe o que é uma eleição de verdade há mais de 60 anos. Raúl só precisou do voto do mano Fidel para assumir a chefia do regime que enjaulou a liberdade.
Dilma e Raúl formam uma dupla e tanto. Ela se tornou admiradora do revolucionário caribenho quando ainda era uma terrorista em gestação. Ele se esvai em derramamentos de pretendente ansioso ao topar com a mulher que o autorizou a baixar na Granja do Torto sempre que lhe der na telha. Nasceram um para o outro. Talvez até acabem protagonizando uma versão circense de O Amor nos Tempos do Cólera.
Parece exagero? Pois nenhum dos romances de Gabriel Garcia Márquez é tão delirante quanto a existência de uma ilha congelada na metade do século 20, nem excede em assombros o Brasil lulopetista. Outro ponto a favor: em dias de cólera, Dilma é rima perfeita para Raúl. Além do mais, é doce sonhar com um mundo sem esses dois, nem que seja pelo curto período de uma lua de mel.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Bom começo!

Bravo!

Coluna de Renato Follador: Por que o velho é tão importante?

O que significa ser velho?

Na minha opinião, é ser mais alma que matéria, é a serenidade da experiência, a sabedoria conquistada. É a calma dos que conhecem o ritmo da vida, a visão dos que já viram quase tudo, um crepúsculo em paz.
Velho é um status conquistado a ser reverenciado.
Vejo inúmeras virtudes na velhice e acho que, quando ela chegar, devemos aceitá-la agradecidos, mas para ela criar objetivos. Sim, porque, mesmo velhos, ainda há muito caminho a ser percorrido e a viagem é melhor quando nos sentimos úteis.
Tenha, portanto, orgulho de ser velho e pena dos que ainda não conseguem admirar a velhice.
Agora, por que o velho é tão discriminado?
Simples: num país, até pouco tempo, com uma imensa maioria jovem, a minoria velha era uma exceção e não a regra.
O culto ao corpo, a busca da juventude prolongada através de cirurgias plásticas, a propaganda mostrando só jovens saudáveis confirmam o modelo.
Mas isso está mudando. Proporcionalmente os idosos estão aumentando. Hoje são quase 15% da população. Um novo e imenso mercado consumidor, ainda não percebido por um país que envelhece, mas não amadurece.

domingo, 15 de maio de 2016

Dilma passa o fim de semana em Porto Alegre

Desde que foi afastada do governo, esta é a primeira vez que Dilma Rousseff sai de Brasília; ela aproveitou a manhã deste sábado para pedalar quase uma hora ao lado de seguranças.





Presidente afastada Dilma Rousseff anda de bicicleta em Porto Alegre
Presidente afastada Dilma Rousseff anda de biciclieta acompanhada de seguranças, ao lado do estádio Beira-Rio, em Porto Alegre - 14/05/2016(Eduardo Anizelli/Folhapress)
A presidente afastada Dilma Rousseff viajou para Porto Alegre na noite da última sexta-feira para descansar ao lado da família. De acordo com sua assessoria, o objetivo da viagem de Dilma é aproveitar o final de semana ao lado da filha, Paula, e dos dois netos, Gabriel e Guilherme.
Na manhã deste sábado, ela andou de bicicleta, como costuma fazer quando está em Brasília. Dilma pedalou das 7h15 às 8h, na orla do Guaíba, acompanhada de seguranças. Depois, retornou para casa.
Esta é a primeira vez que Dilma sai de Brasília desde que foi afastada da Presidência. A capital gaúcha, onde fez carreira política e constituiu família, costuma ser o destino preferido dela durante feriados e dias de descanso nos finais de semana.
Embora a passagem por Porto Alegre tenha motivos familiares, a presidente afastada poderá aproveitar a viagem para fortalecer os laços com os movimentos sociais e mobilizar os apoiadores. No domingo passado, quando também estava na capital gaúcha para celebrar o dia das mães, Dilma atendeu a pedidos e desceu na portaria de seu edifício para receber flores de simpatizantes.

sábado, 14 de maio de 2016

Bom sábado com boa música!

Serra rebate coro bolivariano contra o impeachment; Maduro chama de volta embaixador

Novo ministro das Relações Exteriores criticou os governos que reproduzem a retórica petista do 'golpe' e propagam 'falsidades sobre o processo político interno no Brasil'

José Serra (PSDB-SP) discursa na tribuna do Senado antes da votação do impeachment
José Serra (PSDB-SP) discursa na tribuna do Senado antes da votação do impeachment(Beto Barata/Agência Senado/VEJA)
Em duas duras notas divulgadas nesta sexta-feira, o novo ministro das Relações Exteriores José Serra rebateu o discurso bolivariano de países alinhados aos governos petistas de que o processo de impeachment que afastou Dilma Rousseff do poder foi um "golpe".
Fizeram coro à retórica petista os governos da Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua, assim como da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América/Tratado de Comércio dos Povos (ALBA/TCP).
Em um dos comunicados, o Itamaraty defendeu a legitimidade do processo de impeachment e criticou os governos que propagam "falsidades sobre o processo político interno no Brasil". "Esse processo se desenvolve em quadro de absoluto respeito às instituições democráticas e à Constituição Federal. Como qualquer observador isento pode constatar, o processo de impedimento é previsão constitucional."
A outra nota repudia especificamente as declarações do secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), Ernesto Samper, que no dia do afastamento de Dilma advertiu para o risco de "ruptura democrática" no Brasil. "Os argumentos apresentados, além de errôneos, deixam transparecer juízos de valor infundados e preconceitos contra o Estado brasileiro e seus poderes constituídos e fazem interpretações falsas sobre a Constituição e as leis brasileiras", diz o comunicado. "Além disso, transmitem a interpretação absurda de que as liberdades democráticas, o sistema representativo, os direitos humanos e sociais e as conquistas da sociedade brasileira se encontrariam em perigo. A realidade é oposta."
Venezuela - Também nesta sexta-feira, o presidente venezuelano Nicolás Maduro anunciou que pediu o retorno a Caracas do embaixador do país no Brasil, Alberto Castellar, em protesto contra o afastamento de Dilma Rousseff.
"Pedi ao nosso embaixador no Brasil, Alberto Castellar, que viesse a Caracas", informou o chavista em pronunciamento. "Estivemos avaliando esta dolorosa página da história do Brasil. Tentaram apagar a história com uma jogada totalmente injusta com uma mulher que é a primeira presidente que o Brasil teve." Maduro não informou se pretende romper definitivamente os laços diplomáticos com o Brasil.
(Da redação)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Os Miseráveis - Victor Hugo



Um universo sem fim... Ligia Cademartori

Os Miseráveis, a narrativa que você vai ler agora, foi publicada, pela primeira vez, na França, em 1862. Transformou-se logo em grande sucesso. Foi traduzida para diversas línguas. Percorreu o mundo. É uma história com forte cunho social, mas o enredo, em que um ex-prisioneiro é perseguido sem tréguas por um inspetor fanático, tem elementos de trama policial.

Jean Valjean, o herói, foi condenado a trabalho forçado por roubar um pão para a família faminta. Cumpriu pena. Mesmo assim, para fugir de seu perseguidor e se reabilitar, precisou trocar de identidade. Sob disfarce, tornou-se um grande empresário. Promoveu o desenvolvimento da cidade, ajudou a todos que precisavam dele.

Mas Javert, o policial, não desistia de lhe seguir os rastros. Vivia no encalço de Jean Valjean. Criava espertas armadilhas para que a verdadeira identidade do ex-condenado fosse revelada. São muitos os episódios dessa história e você ficará à espera do que a página seguinte poderá trazer.

Ao ler este romance clássico de Victor Hugo, adaptado por Walcyr Carrasco, você vai conhecer muitas personagens: Fantine, vítima da pobreza e da injustiça; Cosette, filha dela, que Jean Valjean resgata da miséria; Marius, o jovem idealista que se apaixona por Cosette; os Thénardier, uma horrorosa família de vigaristas, e muitas outras mais. A sucessão dos acontecimentos e as difíceis circunstâncias vividas pelas personagens levantam questões sobre lei, justiça e solidariedade.

Acima de tudo, Os Miseráveis mostram como uma pessoa pode se transformar graças à ação de outra. No caso, a mudança ocorre quando um homem injustiçado recebe de alguém compreensão e generosidade. História de fugas, trapaças e armadilhas, esta também é uma história de amor entre jovens. Aqui são relatados interesses e atitudes muito mesquinhos, mas também grandes gestos de desprendimento e bondade.

Nota dos editores

Algumas histórias foram tão bem construídas e com tanta qualidade, que o valor delas foi posto à prova do tempo. Mesmo escritas há séculos, elas se mantêm sempre atuais e ganham nova vida a cada geração de leitores que tem o prazer de conhecê-las.

Encontramos em obras como
Os Miseráveis diversos aspectos da vida cotidiana das pessoas que viveram em épocas passadas: moda, costumes, dificuldades, valores, comportamentos, fatos históricos.

Durante a leitura você perceberá que existem algumas notas de rodapé. Elas foram feitas com o objetivo de explicar um pouco mais o momento em que viveu o autor e, conseqüentemente, o universo em que este romance foi criado, assim como a atuação de personagens que influenciaram diretamente o rumo da história francesa e mundial.

Aproveitamos também para lembrar a você que a consulta ao dicionário é fundamental para uma melhor compreensão de qualquer texto e para o enriquecimento de seu vocabulário.

Embarque nesta história maravilhosa criada por Victor Hugo e temos certeza de que você fará uma bela e inesquecível viagem.

"...Os Miseráveis mostram como uma pessoa pode se transformar graças à ação de outra. História de fugas, trapaças e armadilhas, esta também é uma história de amor entre jovens. Aqui são relatados interesses e atitudes muito mesquinhos, mas também grandes gestos de desprendimento e bondade." *Ligia Cademartori


Primeira Parte
A Liberdade
Capítulo 1

Jean Valjean Em um dos primeiros dias de outubro, em 1815, antes do pôr-do-sol, um homem viajava a pé. Tinha aparência assustadora. Seria difícil encontrar alguém com aspecto mais miserável. Era forte, de estatura mediana. Parecia ter de quarenta e cinco a cinqüenta anos. Na cabeça, um boné com aba de couro. A camisa, de tecido grosseiro, mal fechada deixava ver o peito cabeludo. Calças esfarrapadas. Sapatos sem meias.

Nas costas, um volumoso saco de viagem de soldado. Trazia na mão um cajado de madeira, cheio de nós. Cabeça raspada e barba crescida. O suor e o pó da estrada tornavam sua aparência ainda pior.

Chegou à cidade francesa de Digne. Lá, ninguém o conhecia na cidade. Como era hábito na época, passou na Prefeitura para se identificar. Apresentou seu documento, uma espécie de licença, exigida para viajar pelo país na época. Em seguida, procurou a melhor estalagem local, de propriedade de um tal Jacquin Labarre. Os fogões estavam acesos. A lareira aquecia o ambiente. Labarre preparava o jantar destinado aos hóspedes. Quando ouviu a porta se abrir, sem tirar os olhos do que estava fazendo, perguntou:
— Que deseja?
— Comer e dormir.
— Nada mais fácil! Olhou o recém-chegado dos pés à cabeça e fez uma observação:
— Pagando!
O homem mostrou uma bolsa de couro.
— Tenho dinheiro.
— Estou às ordens — respondeu Labarre. O recém-chegado tirou o saco de viagem dos ombros. Sentou-se perto do fogo.
Em Digne, cidade próxima à montanha, na região dos Alpes franceses, as tardes e as noites são frias. O dono da hospedaria, entretanto, não tirava os olhos do homem. Escreveu uma mensagem. Deu-a a um rapazinho que lá trabalhava. Este correu para a Prefeitura. O forasteiro, com fome, perguntou:
— E o jantar?
— Não demora — respondeu Labarre. O rapaz voltou com a resposta. O dono da hospedaria leu com atenção. Pensou um pouco. Foi até o viajante e disse:
— Senhor, não posso hospedá-lo.
O homem espantou-se.
— Se quiser, pago adiantado.
— Não tenho quarto.
— Durmo na estrebaria.
— Não é possível, está cheia de cavalos.
— Fico em um canto qualquer. Depois do jantar, combinamos.
— Mas não posso lhe servir o jantar — disse Labarre, com voz firme.
O viajante quis explicar. Falou que fizera uma longa viagem.
— Estou morto de fome e cansaço. Eu pago! Mesmo assim, não posso jantar?
— Não tenho nada para servir.
O homem deu uma gargalhada. Mostrou os fogões.
— Aquilo, o que é?
— Tudo isso já está reservado para os outros hóspedes. Pagaram adiantado.
O viajante insistiu:
— Não saio sem jantar!
O dono da hospedaria aproximou-se e falou-lhe firmemente ao ouvido:
— Vá embora! Surpreendido, o forasteiro ergueu a cabeça.
O outro continuou:
— Já sei como se chama. Seu nome é Jean Valjean! Logo na chegada, desconfiei da sua pessoa. Mandei perguntar quem é na Prefeitura, onde se identificou. Aqui está a resposta. Sabe ler?
O homem olhou o papel.
Labarre prosseguiu: — Costumo ser educado. Por isso peço mais uma vez: vá embora! Sem responder, o outro pegou o saco de viagem. Partiu. Andou pela rua principal, humilhado e triste. Não olhou para trás. Se tivesse se virado, teria visto o dono da hospedaria na porta, cercado de gente, falando enquanto o apontava com o dedo. Pelo jeito daquelas pessoas, sabia que dali a pouco seria comentado em toda a cidade. Caminhou um bom tempo pelas ruas, que não conhecia. A fome aumentou. Procurou outra estalagem, onde pudesse hospedar-se.
Por acaso, havia uma no fim da rua. Olhou pela vidraça. Viu o fogo da lareira, alguns homens que comiam e bebiam. Sobre o fogo, uma panela de ferro que soltava fumaça. Foi até a porta.
— Quem está aí? — perguntou o dono do local.
— Alguém que deseja comer e uma cama para dormir esta noite.
— Entre. Está no lugar certo.
O homem entrou. Enquanto tirava o saco de viagem, todos o observavam. Sentou-se à beira da lareira. Estendeu para perto do fogo os pés cansados de andar. Aspirou o cheiro da comida na panela. Por um instante, seu rosto teve uma leve aparência de satisfação. Mas em uma das mesas estava certo peixeiro.
  Pouco antes, passara pela outra estalagem. Fizera parte do grupo de curiosos onde se falara do homem. Fez um pequeno sinal ao dono do lugar, que se aproximou. Conversaram em voz baixa. O estalajadeiro (1) foi até o desconhecido.
Ordenou:
— Vá embora!
O viajante respondeu calmamente:
— Ah! O senhor já sabe?
— Sei!
— Não quiseram hospedar-me na outra estalagem.
— E daqui está sendo expulso!
— Para onde quer que eu vá?
— Para longe!
O homem pegou seu cajado, seu saco de viagem e saiu.
Alguns rapazes que o seguiram desde a outra hospedaria pareciam estar à sua espera. Atiraram-lhe pedras. Ele os ameaçou com o cajado. Os jovens correram. Em seguida, caminhou até a cadeia. Havia uma porta com uma sineta.
Tocou-a. Abriu-se uma janelinha na porta.
Pediu:
— Senhor carcereiro, pode fazer o favor de me abrigar esta noite?
— A cadeia não é albergue!
Dê um jeito de ser preso e dormirá aqui!
Continuou andando. Entrou em uma rua cheia de pequenos jardins. Avistou uma...

O livro na íntegra, aqui:
http://www.universitario.com.br/literatura/victor-hugo/os-miseraveis.pdf

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Ao negar liminar, Zavascki desmoraliza Cardozo

Conteúdo da decisão do ministro é humilhante para alguém que já deu aula de Direito Constitucional; tomara que atual titular da AGU deixe em paz os alunos da PUC.

José Eduardo Cardozo, que está, felizmente, se despedindo da Advocacia-Geral da União, onde fez um papelão, poderia passar sem levar um último carão de Teori Zavascki, ministro do Supremo que negou liminar a mandado de segurança impetrado pela AGU em que se alega que Eduardo Cunha exerceu “desvio de poder” naquele ato inicial de tramitação da denúncia contra a presidente Dilma Rousseff.
Cardozo é professor de Direito Constitucional. Já deu aula na PUC-SP. Se for voltar à sala de aula, espero que passe por uma reciclagem. Seus alunos não merecem seus juízos tortos, a menos que o professor seja um bom demolidor das teses do advogado-geral; a menos que o mestre saiba apontar as diatribes e chicanas daquele que levou a AGU ao ponto mais baixo de sua história.
Reproduzo abaixo um trecho da decisão de Teori (íntegra aqui). É desmoralizante:
“Como já dito, a invocação do desvio de poder como causa de pedir reclama imersão no plano subjetivo do agente público responsável pelo ato, atividade que é praticamente – senão de todo – inviável quando o ato sob contestação representa a vontade conjugada de quase 370 parlamentares, que aprovaram um relatório circunstanciado produzido por Comissão Especial, com fundamentação autônoma em relação ao ato presidencial que admitiu originalmente a representação. Generalizar vício de vontade que se alega presente nas manifestações de um parlamentar para o universo do Plenário é o mesmo que nulificar o princípio de presunção de legitimidade que é correntio em direito público. Ademais, e na esteira do que inúmeras vezes ressaltado quando o Supremo Tribunal Federal se reuniu para tratar de aspectos procedimentais do impeachment, é indispensável considerar que a atuação de parlamentares no julgamento não está dissociada de coeficiente político. Pelo contrário, está naturalmente imantada por esse elemento típico da atuação parlamentar, que se estende, também, ao Presidente da Câmara dos Deputados, responsável pela deflagração do processo.
Portanto, considerados os limites de cognição judicial da matéria no âmbito de mandado de segurança, não há como atestar plausibilidade suficiente nas alegações de que o impulso conferido ao processo de impeachment pelo Presidente da Câmara dos Deputados tenha o condão de contaminar todos os demais crivos realizados no curso do processo pelos colegiados daquela instância. Concluir nesse sentido, além de menosprezar o princípio da presunção de legitimidade das deliberações tomadas em colegiado, minimiza brutalmente a presunção, que se deve considerar presente, da aptidão para se posicionar de modo independente que assiste a cada um dos parlamentares. Mais do que isso. A mesma lógica que sustenta a narrativa descrita na inicial – e do resultado das votações até agora realizadas no Legislativo – ensejaria, em raciocínio extremado, uma conclusão diametralmente oposta àquela sublinhada pela Presidente da República: a de que o empenho político dos integrantes do Governo e dos parlamentares que o apoiam – que inegavelmente também existiu – poderia ter levado o Presidente da Câmara dos Deputados a procrastinar indevidamente o recebimento das denúncias que estavam sob sua apreciação enquanto esperava acenos favoráveis aos seus próprios interesses pessoais. “
Retomo
Em síntese, Teori diz o seguinte:
a: o Supremo não tem como entrar na alma de Eduardo Cunha para saber suas reais intenções;
b: o ato inaugural de Cunha não contaminou todas as outras instâncias decisórias;
c: partir desse princípio corresponderia a dizer que os deputados são destituídos de vontade;
d: o STF acompanhou os procedimentos do impeachment — nesse trecho, o ministro nega vícios;
e: é natural que parlamentares se manifestem como políticos…;
f: se parlamentares que apoiaram o impeachment não são independentes, por que o seriam os que se opõem ao processo?
Com outras palavras, Teori pergunta a Cardozo por que apenas um resultado favorável ao governo seria aceitável.
E é claro que Cardozo não tem resposta para isso.
Tchau, querido!
E deixe os alunos da PUC em paz. Vá fazer outra coisa!