segunda-feira, 21 de março de 2016

Editorial do Estadão: ‘Torpe e indigno’

Qual é o verdadeiro Lula? Aquele que, sem saber que estava sendo ouvido, afirma que o STF e o STJ estão “totalmente acovardados”; cobra gratidão do procurador-geral da República pelo fato de ter sido nomeado pelo governo petista; classifica de “palhaçada” a denúncia de que é alvo por parte do Ministério Público; manda policiais e procuradores enfiar em lugar impublicável as investigações que o envolvem; ou aquele que, em “carta aberta” obviamente escrita por gente alfabetizada, tenta corrigir o devastador efeito negativo da divulgação de suas conversas telefônicas legitimamente gravadas e divulgadas – não “vazadas” – pela Operação Lava Jato?

Afirma Lula, no texto que assinou – e que devem ter lido para ele –, que como presidente da República sempre respeitou o Poder Judiciário e apela ao recurso demagógico de se fazer de vítima que tem sua intimidade “violentada por vazamentos ilegais” e apela à falsa condição de pobrezinho, pessoa humilde e bem-intencionada: “Não tive acesso a grandes estudos formais. Não sou doutor, letrado, jurisconsulto. Mas sei, como todo ser humano, distinguir o certo do errado; o justo do injusto”. Lula não diz a verdade. Ele, de fato, sabe o que é certo e o que é errado. Mas nunca quis saber como se distingue uma coisa da outra. Para ele, certo é tudo aquilo que faz e lhe dá prazer e proveito. Errado é o que não lhe apraz ou pode prejudicar.
Tem sido sempre assim. Reeleito presidente, passou a demonstrar completo desrespeito pelo Judiciário, ofendendo gravemente o STF com a afirmação de que o processo do mensalão era uma farsa que ele trataria de desmontar depois que deixasse o poder. Mas então o petrolão já estava funcionando a pleno vapor e acabou com a fanfarronice do chefão petista.
O perfil moral do ex-presidente foi descrito, em palavras duras, pelo decano da Suprema Corte, ministro Celso de Mello, ao repudiar, sem citar nomes, as “ofensas” e “grosserias” de que os ministros togados foram alvo por parte do ex-presidente: “Esse insulto ao Judiciário, além de absolutamente inaceitável e passível da mais veemente repulsa por parte dessa Corte Suprema, traduz, no presente contexto da profunda crise moral que envolve os altos padrões da República, a reação torpe e indigna, típica de mentes autocráticas e arrogantes que não conseguem esconder, até mesmo em razão do primarismo de seu gesto leviano e irresponsável, o temor pela prevalência da lei e o receio pela atuação firme, justa, impessoal e isenta de juízes livres e independentes”. Várias entidades representativas de juízes, do Ministério Público e dos policiais também repudiaram a tentativa de desqualificar o trabalho da força-tarefa da Lava Jato e do juiz Sergio Moro.
A verdade é que Lula, hábil manipulador e especialista em dizer o que as pessoas querem ouvir, subiu na vida no papel de líder populista, pragmático no pior sentido do termo, sem nenhum compromisso sério senão com a crescente volúpia pelo poder. Inculto, mas espertalhão, Lula deu um nó nos intelectuais esquerdistas que se iludiram com a possibilidade de manipulá-lo e, com indiscutível apoio popular, fingiu converter-se à política econômica que vinha produzindo resultados e se elegeu à Presidência da República para amoldar a seu feitio o “novo regime”: uma ação entre amigos com sotaque nitidamente sindical.
Enquanto a economia permitiu, o governo Lula mergulhou fundo em programas sociais indiscutivelmente meritórios, mas insustentáveis quando o panorama mundial se tornou adverso e a incompetência de Dilma Rousseff impediu as necessárias correções. Hoje, com o governo se desintegrando politicamente, inflação e desemprego crescentes e sem recursos para investir em programas estruturantes, os brasileiros caíram na real. Já não têm ilusões e isso os faz lutar por seus próprios direitos e interesses, o que significa pôr-se do lado oposto do governo responsável por suas frustrações.
Lula, porém, parece acreditar que ainda conseguirá sobreviver ao desastre político, econômico e moral que montou. Mas isso ficou muito mais difícil a partir do instante em que as autoridades começaram a revelar à Nação, com detalhes, os esquemas de corrupção que vêm sustentando o lulopetismo. E, nesse processo, ficou exposta a verdadeira face de Lula, esse populista irresponsável que procura dissimular sua verdadeira condição de abastado burguês para manter a pose de líder popular que compartilha o destino dos pobres.

J. R. Guzzo: A porta estreita

Publicado na versão impressa de VEJA

O leitor provavelmente já ouviu falar em seu círculo de amigos, ou no ambiente de trabalho, ou na esfera familiar, de gente interessada em ir embora do Brasil; se ainda não teve contato com nenhuma história dessas até agora, há grande chance de que venha a ter uma hora qualquer, e logo. Para muita gente boa, está na moda, ao que parece, pensar em refazer a vida em países como Canadá, Austrália ou Estados Unidos, entre outros que se propõem a receber de braços abertos imigrantes com dinheiro. São países que não têm vergonha nenhuma de atrair gente financeiramente bem de vida, dentro da ideia geral de que problema de imigração, mesmo, só existe com pobre. Nem é preciso, no caso, ter grande fortuna ─ nada parecido com o disponível de um milionário brasileiro de carteirinha, desses que prestam serviços ao governo, digamos, ou produzem propaganda eleitoral. Basta o equivalente a 500 000 dólares, ou algo assim, sendo até possível acertar a papelada por menos. Vale a pena, para o país que dá o visto aos estrangeiros com capital. Esse povo vai gastar seu dinheiro lá; é lá que vai pagar impostos sobre o que consome, gerar empregos, fazer rodar a economia. Em vez de gastar na economia do seu país, vai gastar na economia dos outros. Melhor para eles, pior para o Brasil. Seus governos não estão lá para resolver os problemas da presidente Dilma Rous­seff nem do ex-presidente Lula. O que querem é ajudar a si próprios.
Sobra, é claro, o problema de arrumar aqueles 500 000 dólares. Quem tem esse dinheiro? Não é qualquer um que pode, por exemplo, ganhar 27 milhões de reais em quatro anos fazendo palestras para empreiteiras de obras públicas e outros colossos da nossa elite empresarial. Para pelo menos 95% dos brasileiros, e põe otimismo nessa conta, a possibilidade real de ter 500 000 dólares durante o curso de sua vida é mais ou menos a mesma de fazer uma viagem à Lua; para o Brasil de carne e osso, dinheiro desse tamanho só existe ao acertar os seis números da Mega-Sena. Também não é fácil adotar a saída do ex-ministro da Fazenda ─ que, depois de gerir a ruína econômica do Brasil durante um ano, e ser posto no olho da rua em reconhecimento aos seus esforços, refugiou-se rapidamente em Washington, onde hoje pode ganhar a vida sossegado e sem ter reuniões com Dilma, o PT, a base aliada e por aí afora. É certo que há outros caminhos para obter um visto de residência no exterior, além de dinheiro e prestígio, mas a porta de entrada é estreita. O cidadão pode tentar pelas vias oficiais ─ e arriscar-se a ficar anos na fila, à espera de um chamado que provavelmente não virá nunca. Pode meter-se em aventuras de imigração ilegal. Pode jogar a sorte num cruzeiro pelo Mediterrâneo, a bordo de um cargueiro sírio. Como se vê, nada de muito atraente. Fazer o quê? A vida é mesmo dura neste Brasil para Todos. Aqui, no mundo das coisas práticas, há um Brasil para os que Têm Menos e um Brasil para os que Têm Mais ─ têm mais, inclusive, para ir embora do próprio Brasil.
Para o brasileiro que quer cair fora daqui mas não pode, a opção acessível no momento é emigrar para o Brasil mesmo. O grande problema é que essa solução se aplica exclusivamente ao Brasil de Dilma, de Lula e do PT, esse país imaginário onde os cidadãos têm a ventura de ser governados por um dos melhores governos do mundo, se não o melhor. Infelizmente, como é do conhecimento geral, o Brasil de Dilma etc. não existe. Só existe nas fantasias de propaganda criadas para engambelar o eleitorado; e, para complicar o teorema, o propagandista-chefe não está disponível para ajudar em nada, já que atualmente faz parte da população carcerária de Curitiba. É uma pena, pois nessa Terra do Nunca a vida é praticamente perfeita. Nosso sistema de saúde é “motivo de inveja para o mundo”. O Pré-Sal, como Dilma prometeu na campanha por sua reeleição, garantiu “recursos jamais imaginados” para a educação. A população pobre viaja dia e noite de avião, como o ex-presidente continua dizendo todo santo dia. Ele salvou sabe lá Deus quantos brasileiros da pobreza ─ e, se 12 milhões de desempregados estão hoje de volta ao fundo do poço, a culpa é da elite, claro, e provavelmente do ex-presidente Fernando Henrique. Mas nem tudo está perdido para o brasileiro que só pode emigrar para o Brasil. Olhem o último IDH mundial, divulgado faz pouco; ficamos no lugar 75 da fila que mede o bem-estar das nações. É ruim, mas seria pior se o número fosse 150. É a Tabela Periódica da Equivalência das Desgraças, e nela já não vamos tão mal.

sexta-feira, 18 de março de 2016

A descoberta da conspiração forjada por Lula e Dilma exige o imediato afastamento do bando criminoso que controla o governo

foto paulista 1
Manifestantes na Avenida Paulista (Foto: J.F.Diorio/Estadão Conteúdo)
O ex-presidente da República reduzido a caso de polícia e o caso psiquiátrico promovido a chefe de governo conspiraram sem vergonha nem cautelas para sabotar a Operação Lava Jato, impedir o desmonte do maior esquema corrupto da história e livrar do merecidíssimo enquadramento no Código Penal a obscenidade que chefia a seita lulopetista, a organização criminosa desbaratada pela Polícia Federal, a Casa Civil e, disfarçado de ministro, o governo em adiantado estado de decomposição. Ponto. O resto é vigarice de doutor de porta de cadeia, ladainha de devoto descerebrado, choradeira de fanático sem cura, conversa fiada de quem não tem mais para onde correr.
Quando Lula foi levado para o depoimento que vinha driblando na Polícia Federal da qual continuou a debochar,  os tripulantes do titanic infestado de cafajestes tentaram manipular a forma para embaçar o conteúdo. O berreiro em torno da “condução coercitiva” foi a mágica de picadeiro ensaiada para evitar que a justa fúria dos lesados desabasse sobre o prontuário. Obrigar um meliante a conversar com o delegado não tem nada de mais. Intoleráveis são as bandalheiras que vicejaram no sítio em Atibaia, as safadezas amontoadas no triplex do Guarujá, as negociatas que introduziram o camelô de empreiteira no clube dos ricaços sem profissão definida.
Abalroados pela divulgação das repulsivas conversas telefônicas, Lula, Dilma e seus comparsas sacaram do coldre o mesmo trabuco enferrujado. Pelos gemidos das carpideiras de cadáveres adiados, vilão é o juiz Sérgio Moro. Mostrar ao país o que pensam, dizem e fazem a esquisitice que virou presidente e o farsante que a pariu — como pôde a república de Curitiba autorizar tamanha enormidade? Como esquecer a folha de serviços prestados ao país pelo reizinho que se expressa em linguagem de cortiço?, rosna a matilha de rábulas do Instituto Lula e geme o que resta do rebanho do PT.
Chega de farisaísmo, retrucaram nesta quarta-feira as multidões devolvidas às ruas pela descoberta da conspiração contra o Estado Democrático de Direito. Foi a gota d’água. É hora de encerrar o velório interminável e sepultar um governo fora da lei. O Poder Executivo está sob o comando de uma organização criminosa. Que o Legislativo e o Judiciário cumpram o seu dever sem delongas nem firulas. O povo nas ruas tem pressa.

quinta-feira, 17 de março de 2016

“Exemplo a ser seguido”, diz Moro ao citar Suprema Corte norte-americana no caso Nixon


O juiz Sergio Moro emitiu um despacho no qual afirma que “nem mesmo o supremo mandatário da República tem um privilégio absoluto no resguardo de suas comunicações”.
Segundo o juiz, o exemplo a ser seguido é o da Suprema Corte norte-americana no caso Watergate, que resultou na renúncia do presidente Richard Nixon.
“Podendo ser citado o conhecido precedente da Suprema Corte norte-americana em US v. Nixon, 1974, ainda um exemplo a ser seguido”, disse.

quarta-feira, 16 de março de 2016

PMDB faz piada: Temer reclama que Dilma roubou seu papel ‘decorativo’


O PMDB faz piada com a nomeação do ex-presidente Lula.
Dizem os peemedebistas que o vice-presidente Michel Temer está chateado com Dilma Rousseff e vai mandar outra carta a ela, acusando-a de ter roubado seu papel e se transformado em uma “presidente decorativa”.

terça-feira, 15 de março de 2016

Ministério não garante foro privilegiado a Lula

O ex-presidente não terá direito ao foro privilegiado se a Justiça entender que a nomeação a um ministério foi um artifício para enrolar o processo e fugir de punição

Pode bater na trave a ideia de dar um ministério ao ex-presidente Lula para que ele tenha foro privilegiado e escape do juiz Sérgio Moro.
O foro privilegiado é uma prerrogativa constitucional que serve para proteger a dignidade dos principais cargos públicos, e não aliviar a barra de investigados. Utilizá-lo para motivos pessoais é o que os juristas chamam de “desvio de finalidade do ato administrativo”.
Se a Justiça entender que houve um abuso do direito, ou seja, que a nomeação foi um artifício para enrolar o processo e fugir da punição, o caso que envolve o ex-presidente permaneceria com o juiz Sérgio Moro.
Já houve uma decisão semelhante. Em 2010, o deputado Natan Donadon (PMDB-RO) renunciou na véspera do seu julgamento no STF para o processo contra ele voltar à primeira instância e dar tempo de prescrever. As acusações de peculato e formação de quadrilha contra ele se arrastavam havia 14 anos.
Por 8 votos a 1, os ministros entenderam que a renúncia não retiraria a competência do STF sobre o caso. A ministra Cármen Lúcia considerou a renúncia uma “fraude processual inaceitável”, pois “teria, em primeiro lugar, o objetivo de fugir à punição”. Para ela, o cargo foi “utilizado como subterfúgio para deslocamento de competências constitucionalmente definidas, que não podem ser objeto de escolha pessoal”.
O caso do ex-presidente Lula é simétrico: em vez de renunciar, ele tomaria posse do cargo de ministro, mas com o mesmo objetivo de escapar da punição.
Para o desembargador Vladimir Passos de Freitas, a validade do foro privilegiado “depende da análise das circunstâncias”. Se ficar evidente que uma pessoa foi nomeada a um cargo com o objetivo principal de trapacear a Justiça, o foro privilegiado deixa de valer.
No caso do ex-presidente Lula, parece haver poucas dúvidas quanto a isso.
@lnarloch


segunda-feira, 14 de março de 2016

O Brasil não quer mais o PT e voltará às ruas se necessário; até a cambada sair

O terrorismo do governo e seus sequazes foi inútil e só multiplicou a adesão aos atos. Nota da presidente tem seu caráter ridículo: é democracia ou é golpe, minha senhora?

A presidente Dilma Rousseff e os petistas apostaram no insucesso — lá à moda deles — da manifestação deste dia 13 e quebraram a cara. Vejam vocês! Sempre considerei um cretinismo, e considero ainda, que a manifestação da hora tenha de ser superior à anterior e menor do que a próxima.
Isso corresponde a querer transformar um movimento em adversário de si mesmo. Agride a lógica. O necessário é que seja expressivo. Ou será que, caso haja outro protesto, ele só terá importância se botar na rua mais de 3,5 milhões? Isso é uma bobagem em si.
A escolha do erro, no entanto, costuma trazer maus resultados até para quem decide ser o seu beneficiário. O governo e setores da imprensa resolveram criar esse critério idiota, saído do nada. Assim, ainda na noite de sábado, alimentava-se no petismo a esperança de que os protestos deste domingo não superariam os do dia 15 de março do ano passado. E, assim, o Palácio e seus súditos sairiam por aí a afirmar que o tema do impeachment já estaria superado.
Aqui vou abusar de um jargão: o tiro saiu pela culatra. Se um evento menor do que o maior já havido evidenciaria a morte do impeachment, o que significará então quando ele não é apenas maior, mas o dobro? Mesmo os números do Datafolha, com os quais muita gente não se conforma, apontam 500 mil na Paulista neste domingo — naquele março de 2015, teriam sido 210 mil. Ferramenta utilizada pelo Movimento Brasil Livre, que registra IPs de telefones celulares, aponta 1,4 milhão de pessoas, mesmo número estimado pela Polícia Militar.
O governo ficou perplexo e emitiu uma nota. Leiam:
“A liberdade de manifestação é própria das democracias e por todos deve ser respeitada. O caráter pacífico das manifestações ocorridas neste domingo demonstra a maturidade de um país que sabe conviver com opiniões divergentes e sabe garantir o respeito às suas leis e às instituições”.
É mesmo?
O caráter pacífico de agora repetiu o padrão das três manifestações do ano passado. Insisto nesse aspecto porque ele é subestimado — quando não é malvisto — pela imprensa: os que pedem o impeachment da presidente Dilma Rousseff são pessoas pacíficas, que estudam, que trabalham, que têm família, que respeitam as regras da civilidade, que têm apreço pelas leis democráticas, que compreendem o alcance do estado de direito, que zelam pelo patrimônio público e privado, que entendem os limites do outro, que respeitam as regras da civilidade e da cordialidade.
Assim, soou ridícula, apontei isto aqui, a conversa mole da presidente, ainda no sábado, afirmando que esperava que não houvesse violência nas manifestações. Ora, violência de quem, cara- pálida? Quem poderia promovê-la? As pessoas decentes que estavam nas ruas? Certamente não! Os únicos que poderiam querer confusão eram os petralhas, a serviço do Planalto.
Vamos ser claros? Ao vir com aquela ladainha, parece-me evidente que a quase-mandatária, que foi golpeada por Lula, esperava assustar a opinião pública. Mas ninguém caiu no truque. Como não lembrar aqui a entrevista terrorista concedida por Gilberto Carvalho à Folha, afirmando que temia que houvesse conflitos neste domingo, acenando com o risco de venezuelização do Brasil?
Ah, este senhor é aquele que confessou, também em entrevista, que, em 2013, fez várias reuniões com os black blocs, os marginais mascarados que, felizmente, não ousam dar as caras nos protestos pró-impeachment. Mas fiquem certos: eles comparecerão às manifestações das esquerdas no dia 18. Eles gostam de bandidos e lidam com eles. São seus aliados objetivos.
Volto à notaMas volto à nota da presidente Dilma. Ela tem de se decidir se o que se deu neste domingo foi uma manifestação legítima, organizada segundo os valores democráticos, ou foi uma manifestação golpista, não é mesmo? Ou não foi ela quem saiu por aí vociferando que impeachment é golpe?
Dilma, nos estertores do seu mandato, paga o preço de todos os erros. A população está, sim, indignada com a roubalheira e se espanta com o lixão em que se transformou a administração pública. Isso é suficiente para ir às ruas. Mas a indignação também é dirigida contra a arrogância do PT, que, embora minoria hoje em dia, insiste em deslegitimar o adversário. E o adversário do PT, hoje, é o povo brasileiro.
Ou não vimos João Pedro Stedile, o burguês do capital alheio, chefão do MST, a dizer a seus militantes que, neste domingo, os fascistas sairiam às ruas — hipótese, então, em que haveria ao menos 3,5 milhões de fascistas no país?
Nada funcionou. As ameaças terroristas foram inúteis. Ao contrário: quando os petistas decidiram convocar contramanifestações para este dia 13, apostando que haveria um recuo daqueles que chamam “coxinhas”, os anúncios de adesão ao protesto se multiplicaram exponencialmente. Esses caras, para o bem do Brasil, e isto conduzirá à queda da presidente Dilma, perderam o eixo.
Afirmei na madrugada deste domingo que o Brasil renunciaria a Dilma já que Dilma insiste em não renunciar ao governo do Brasil, o que encurtaria o sofrimento de todo mundo.
E foi o que se viu neste domingo. O Brasil não quer mais o PT no poder. E voltará às ruas quantas vezes for necessário fazê-lo para que triunfe a lei e para que essa cambada nos deixe em paz.

78% dos manifestantes que foram à Paulista querem nova eleição para presidente; só 11% pedem Temer

Pesquisa da Lean Survey feita por encomenda de VEJA entrevistou 380 pessoas entre 15h e 17h deste domingo. A margem de erro é de 5,03 pontos percentuais

Ilustração de grafico de pesquisa manifestacao 13 de março
"Na sua opinião, caso a presidente Dilma deixe o cargo, qual a melhor alternativa para o Brasil?", uma das perguntas da pesquisa(VEJA.com/VEJA)
Neste domingo, enquanto uma multidão (1,4 milhão de pessoas, segundo a PM; 450.000, de acordo com o Datafolha) ganhava a Avenida Paulista para protestar contra o governo Dilma, VEJA.com e a startup Lean Survey promoveram uma pesquisa para entender o que pensam e o que querem os manifestantes.
A iniciativa é a primeira a revelar o perfil dos manifestantes: eles tinham idade média de 44 anos e 82% têm ensino superior completo ou incompleto. Num dia histórico - nunca tanta gente deixou sua casa para pedir mudanças nos rumos do país - a pesquisa registrou não apenas o desejo de que a presidente Dilma Rousseff deixe o poder, mas também a crença de 91% dos entrevistados de que ela está diretamente envolvida no petrolão.
Também foi possível aferir qual a alternativa preferida para uma transição: quase 80% dos entrevistados preferem que uma nova eleição seja realizada - o que requer não o impeachment, mas a cassação da chapa vencedora nas eleições de 2014, encabeçada pela petista Dilma Rousseff e com o peemedebista Michel Temer como vice. Substituto legal em caso de impeachment efetivado até o final do segundo ano de mandato, Temer não entusiasma: é a alternativa preferida de apenas 11%.
Apesar de a nova eleição ser o caminho favorito, 63% afirmam que ainda não têm um candidato em mente. A crença na oposição não é forte: 63% disseram não acreditar que a oposição esteja pronta para tirar o país da crise. Confira os dados no quadro abaixo
Mais dados da pesquisa
Os entrevistados afirmam em maioria, pouco mais de 80%, que não veem risco à democracia brasileira na substituição de Dilma pelas vias legais - impeachment ou cassação da chapa Dilma-Temer na Justiça Eleitoral. Contudo, pouco mais de 64% acham que a saída de Dilma antes do fim do mandato, previsto para 2018, pode desaguar em confrontos de rua entre simpatizantes e críticos de Dilma.
Para a pesquisa, a empresa Lean Survey entrevistou 380 pessoas entre 15h e 17h deste domingo. A margem de erro é de 5,03 pontos percentuais, para cima ou para baixo. Os pesquisadores dividiram a avenida em nove setores, espalhando-se pela via de forma homogênea. Como não havia dados sócio-demográficos prévios sobre os participantes do protesto, os pesquisadores escolheram os entrevistados de forma aleatória. A Lean Survey utiliza tecnologia mobile e crowdsourcing para realizar pesquisas de campo. Recentemente, foi apontada pelo Movimento 100 Open Startups como a empresa nascente mais atrativa do país.

domingo, 13 de março de 2016

J. R. Guzzo: Um prodígio inédito

Publicado na revista EXAME

Não é possível, pela lógica comum, esperar nada de bom no futuro próximo de um país que caminha para completar 15 meses sem governo. Dá para esperar menos ainda quando se considera que, por exigência da lei, alguém tem obrigatoriamente de ocupar o cargo de presidente da República — o que lhe dá a oportunidade diária de tomar decisões erradas, sem que haja a menor chance de fazer alguma coisa certa, mesmo sem querer. Não dá: para profundo azar do Brasil como um todo, quem está na presidência é uma pessoa que erra com obsessão inédita há cinco anos seguidos, não consegue dizer nada que faça o menor nexo quando fala em público e perdeu, claramente, o equilíbrio mental mais rudimentar que se exige para a tarefa de governar seja lá o que for. Ainda pior, enfim, sempre pela mesma lógica, o comandante político que a colocou na cadeira mais elevada do poder público nacional, e sem o qual a atual presidente da República continuaria sendo uma cidadã perfeitamente desconhecida e provavelmente inofensiva, está, ele próprio, destruído moralmente. Enrolado de corpo, alma e cabeça com a Justiça penal, o ex-presidente Lula torna-se a cada dia um sério candidato a acabar sendo considerado o responsável pelo governo mais corrupto que o Brasil sofreu em toda a sua história. Muito bem, deu a lógica: está oficialmente confirmado que o país teve uma queda de 3,8% no PIB de 2015, a pior desde 1990. Mais que isso, com a recessão já contratada de 2016, os governos Lula, Dilma Rousseff e PT terão dado ao Brasil a mais longa série anual de retrocesso econômico de toda a sua existência como nação independente.
Dilma, por si só, é a responsável por um prodígio sem precedentes nos registros da economia mundial: sua passagem pela presidência da República já custou 1,6 trilhão de reais de prejuízo ao patrimônio geral do Brasil e dos brasileiros. É isso mesmo. O número chegou e passou a casa do trilhão, um tipo de cifra que só se consegue imaginar nas abstrações da matemática. Trata-se do que os economistas chamam de “prejuízo bruto”, ou a perda pura, simples e direta de riqueza e renda. A conta é simples. O PIB real do país no fim de 2015 deveria estar acima de 7 trilhões de reais, se tivesse havido um crescimento modestíssimo da economia nos cinco anos Dilma. Ficou abaixo do que era no final de 2013, às vésperas de sua segunda vitória na disputa pelo Palácio do Planalto. O Brasil está caminhando para inteirar oito trimestres seguidos de recessão, limite a partir do qual o vocabulário econômico começa a utilizar a palavra “depressão”. Nunca antes, na história deste país, alguém conseguiu algo parecido. A dívida pública criada por Lula e Dilma é a maior de todos os tempos, e está aumentando. Em 2015 o governo tirou dos impostos pagos pelos brasileiros mais de 500 bilhões de reais para pagar juros de sua dívida — e pagar aos “rentistas” tão odiados no palavrório oficial. Chama o que está devendo de “programa social”; na vida prática é apenas a mais espetacular transferência de renda que o Brasil já conheceu. A inflação chegou perto dos 11% ao ano. O desemprego, pelas contas de janeiro, estava rolando na base dos 100.000 demitidos por mês. Aí já é extermínio — ou, talvez, mais corretamente, anarquia, como mencionado no início da página. Dobramos a meta.
Os últimos acontecimentos políticos tornam tudo isso ainda mais funesto. O ex-presidente Lula, depois de ser levado pela polícia para um interrogatório, parece ter desistido de enfrentar seus atuais e crescentes infortúnios valendo-se da lei, como têm feito todos os acusados de corrupção pela Operação Lava Jato. Resolveu, pelo menos de boca, declarar guerra à democracia ao se recusar a obedecer as decisões da Justiça brasileira, chamar suas milícias para a violência na rua e ofender, com o linguajar de sarjeta mais agressivo que jamais tinha utilizado em público até hoje, autoridades legais, adversários e qualquer brasileiro que não se submeta a ele. A lógica disso tudo é muito ruim.

sábado, 12 de março de 2016

Neste domingo, o país renuncia a Dilma e, simbolicamente, a expulsa do Palácio

Os petistas foram eleitos para governar o Brasil e para tomar decisões que pudessem oferecer ao povo um futuro melhor. Em vez disso, por má-fé, por má consciência, por imperícia, conduziram o país àquela que pode ser a maior crise econômica de sua história.


Impeachment meu
Dilma não renuncia? Então o país renuncia a Dilma. O país assistirá neste domingo à maior manifestação política da história. Muitos milhares, talvez vários milhões, de pessoas vão às ruas em paz, em ordem, munidas de bons sentimentos e de esperança para dizer um “Basta!”. Ninguém os aguenta mais.
Os petistas foram eleitos para governar o Brasil e para tomar decisões que pudessem oferecer ao povo um futuro melhor. Em vez disso, por má-fé, por má consciência, por imperícia, conduziram o país àquela que pode ser a maior crise econômica de sua história. Mas isso não basta para os valentes: eles se mostram orgulhosos de sua obra.
A cada nova delação, o esgoto vai correndo a céu aberto. A segunda maior empreiteira do país, a Andrade Gutierrez, confessou: fez doação à campanha de Dilma em 2014 com dinheiro do propinoduto. Ainda que a transferência de recursos tenha se dado por meios regulares, os recursos provinham da máquina clandestina de superfaturar preços para poder pagar os agentes políticos.
Não! Os diretores da Andrade Gutierrez não confessam nenhuma novidade. Ricardo Pessoa, da UTC, confirmou que recorreu ao mesmo método, numa combinação, disse ele, com Edinho Silva, então tesoureiro da campanha de Dilma e hoje ministro da Comunicação Social.
Não basta o regime de permanente assalto ao estado. Há também o deboche. Investigado pelo Ministério Público Federal, denunciado pelo Ministério Público Estadual, Lula transita sem pejo por Brasília, assumindo, na prática, o papel de presidente da República. A titular do cargo deixa claro que ele assume quando quiser o ministério que lhe der na telha.
Dilma não consegue nomear um ministro da Justiça sem que a questão vire um caso de… Justiça. Assim, não bastam o assalto e o deboche, há também o ridículo, que parece não ter fim.
Enquanto isso, a economia brasileira vai afundado, os empregos vão desaparecendo, o futuro vai sendo adiado, a qualidade de vida dos brasileiros vai se deteriorando…
E tudo isso por quê? Porque o partido do poder e suas lideranças jamais abraçaram o regime democrático como o único possível numa sociedade civilizada. Ao contrário: ao longo de mais de 13 anos, tenta sabotá-lo de maneira sistemática, firme, determinada.
O Congresso brasileiro está com uma responsabilidade gigantesca nas mãos. Que os senhores parlamentares vejam bem o que está em curso e que não duvidem um só minuto: é disso para pior.
Depor Dilma, com os instrumentos que a democracia oferece, é só um primeiro passo, sem o qual não se começa a caminhar. Com sua inabilidade, com sua incapacidade de entender a política, com o passivo criminoso de seu partido, é fato que não se se segue adiante; só se vai para o fundo.
Até há duas semanas, Dilma tinha uma única agenda: não cair. Agora, ela tem duas: não cair e tentar salvar a pele de Lula. Com esse propósito, ela acorda todas as manhãs. O Brasil e os brasileiros deixaram de ser uma prioridade.
Assim, é forçoso que se reconheça: acabou! A aventura chegou ao fim. A maior manifestação da historia vai lhe dizer isso.
O melhor que ela faria em benefício de todos, até em seu próprio, seria convocar a rede nacional de rádio e TV no domingo à noite e anunciar que está passando a faixa adiante.
Mas Dilma não quer renunciar. Então nós renunciamos a Dilma.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Theodore Dalrymple: A pior pobreza é a da alma

Theodore Dalrymple: A pior pobreza é a da alma

Daniel Jelin - Veja

EM "A VIDA NA SARJETA", SEU PRIMEIRO LIVRO EDITADO NO BRASIL, THEODORE DALRYMPLE TRAÇA UM RETRATO DESENCANTADO DAS CAMADAS MAIS BAIXAS DA INGLATERRA. AO SITE DE VEJA, O PSIQUIATRA INGLÊS, EXPOENTE DA MELHOR TRADIÇÃO DO CONSERVADORISMO ANGLO-SAXÃO, EXPLICA POR QUE A "MISÉRIA MORAL" QUE IDENTIFICA ENTRE BRITÂNICOS DEVE SERVIR DE ADVERTÊNCIA PARA O BRASIL DO BOLSA-FAMÍLIA


Com um pouco de sorte, ironiza o psiquiatra, 'A Vida na Sarjeta' terá relevância para os brasileiros em alguns poucos anos
Com um pouco de sorte, ironiza o psiquiatra, 'A Vida na Sarjeta' terá relevância para os brasileiros em alguns poucos anos (PovertyCure/Reprodução)
De manhã, no hospital de um bairro pobre de Birmingham, ele atendia às vítimas. À tarde, no prédio vizinho, um grande presídio da segunda cidade mais populosa da Inglaterra, ouvia os algozes. Foi dessa perspectiva singular que Theodore Dalrymple, pseudônimo do psiquiatra inglês Anthony Daniels, investigou por 14 anos a miséria das camadas mais baixas da Grã-Bretanha. São os milhares de histórias de vida de pacientes e detentos que embasam o duro e desencantado retrato da Vida na Sarjeta (É Realizações, 280 pg, R$ 34,90), título do livro que chega ao Brasil na semana que vem.
Na obra, o psiquiatra sustenta que, se a miséria material foi praticamente varrida do mundo desenvolvido, a "pobreza da alma" se aprofunda e galga velozmente a escala social, patrocinada pelo assistencialismo irrefletido e guiada por conceitos irresponsavelmente ventilados por intelectuais de esquerda. Tendo conhecido a miséria dos países africanos, onde trabalhou quando jovem, ele é taxativo: "Nada do que vi – nem a pobreza ou a opressão ostensiva – jamais teve o mesmo efeito devastador na personalidade humana que o indiscriminado Estado de Bem-Estar Social", escreve. "Nunca vi a perda de dignidade, o egocentrismo, o vazio espiritual e emocional ou a absoluta ignorância de como viver que vejo diariamente na Inglaterra."
Dalrymple nunca havia sido editado no Brasil, embora seja um dos expoentes da melhor tradição do conservadorismo britânico – ou exatamente por causa disso...​ De qualquer forma,A Vida na Sarjeta é uma boa introdução à sua vasta bibliografia (mais de 20 títulos) e passeia por alguns dos temas que lhe são mais caros, e que critica impiedosamente, como o relativismo moral, a falência da educação, o esgarçamento dos laços familiares, o egotismo dos acadêmicos, o coitadismo, o politicamente correto, entre outros assuntos.
O livro chega com atraso de nada menos que 13 anos, mas isso, paradoxalmente, pode torná-lo mais oportuno. O Brasil do Bolsa-Família e das cotas; da "nova classe C" e do Minha Casa, Minha Vida; que viu a desnutrição recuar e a obesidade ganhar contornos epidêmicos; em que quase todas as crianças vão à escola, mas a maioria chega ao fim do ensino fundamental sem competências básicas de escrita e matemática – esse país tem muito a aprender com a miséria moral da "abundância" britânica.
O médico admite que nos países que ainda convivem com pobreza material, como o Brasil, seus argumentos podem parecer frívolos. Não são. "Com um pouco de sorte, A Vida na Sarjeta terá relevância para os brasileiros em alguns poucos anos", ironiza, em entrevista ao site de VEJA. Dalrymple aproveita para explicar a escolha do pseudônimo, com que protegeu sua identidade quando começou a assinar artigos mordazes e inconformados na imprensa britânica sobre as condições do hospital e da prisão em que trabalhava. "Theodore Dalrymple soa antigo, algo vitoriano, aristocrático, escocês. Pense em alguém muito mal-humorado, observando o mundo de seu clube em Londres, tomando uma taça de vinho do Porto, e dizendo que está tudo perdido (risos)."
Reprodução/VEJACapa de 'A Vida na Sarjeta'
Capa de 'A Vida na Sarjeta: o círculo vicioso da miséria moral', de Theodore Dalrymple
Como é a 'vida na sarjeta'? Na Europa e nos Estados Unidos, a pobreza é hoje definida em termos relativos. Em termos absolutos, os pobres já desfrutam de comodidades que teriam deslumbrado Luís XIV. Eles são pobres apenas em comparação com a média da população. Seu problema é outro: eles não sabem como viver. Não têm nenhum propósito mais elevado na vida. Não são religiosos, não têm crença política, não têm cultura própria. E não precisam lutar pela vida. Não passam fome e dá para ir levando a vida, sem grande esforço. Não falta assistência médica nem escola para os filhos. Não faz muita diferença se eles têm um emprego ou não. Eles não têm esperança de progredir economicamente, nem medo de quebrar. Vivem numa espécie de limbo, e seu mau comportamento é a única coisa que pode tornar a vida interessante.
Este fenômeno é restrito à "subclasse" (underclass, no original)? Na verdade, não gosto muito do termo 'subclasse', porque implica afirmar que há uma grande diferença entre essa parcela da população e o resto, o que não é verdade. Há uma continuidade, e eu argumento no livro que certas atitudes disfuncionais estão se disseminando pela escala social, para além do que Marx poderia chamar de 'lumpemproletariado'. Não estamos falando de cerca de 5% da população. Se fosse assim, seria muito triste para esses 5%, mas não seria tão sério para a sociedade como um todo. O que ocorre é que certos fenômenos disfuncionais se disseminaram das classes mais baixas para as mais altas, com um decréscimo do nível geral de cultura.

Por que o senhor põe a culpa nos intelectuais? Porque eles criaram essa noção, ao longo de mais de cem anos de propaganda, de que se as pessoas tivessem um lugar para morar, aquecimento adequado, comida suficiente etc., todos os problemas estariam resolvidos. Bom, eu acho ótimo que o padrão de vida das pessoas melhore, e que as pessoas tenham um lugar para morar, com aquecimento adequado etc. Mas o que acontece é que os problemas mudam de natureza. As políticas aplicadas sob influência de intelectuais liberais destruíram a família na Grã-Bretanha. Onde eu trabalhava, por exemplo, simplesmente não havia uma família em que o pai cuidasse dos filhos. Essa mudança aconteceu em pouquíssimo tempo, como efeito de políticas sociais e econômicas desastradas. Eu diria que o Estado de bem estar social foi uma condição necessária para a desagregação social a que assistimos na Inglaterra, mas não a única. Não observamos a mesma situação nos países da Escandinávia, por exemplo, e acho que há duas razões para esta diferença. Uma é escala. Você tem de lembrar que Londres é quase duas vezes a Dinamarca inteira, em termos de população. A outra razão é o nível de educação, que na Dinamarca é muito mais alto. Os dinamarqueses provavelmente escrevem melhor em inglês do que a maior parte dos ingleses. Assim, uma população com baixo nível educacional pendurada no assistencialismo, essa é a receita do desastre.
O que há de errado com as escolas britânicas? Temos muitas escolas, mas o ensino é muito ruim em várias delas, principalmente nas áreas em que a escolaridade é mais necessária, ou seja, onde não há o apoio das famílias. Cerca de 20% das crianças inglesas deixam a escola sem saber ler direito. Isso não tem nada a ver com o dinheiro que se gasta com elas. Na verdade, dá para ensinar a ler gastando muito pouco e bem depressa. E, no entanto, isso não está sendo feito. E quem mais sofre são as crianças mais vulneráveis, que vêm de famílias que não dão muita atenção à educação.

E isso também é culpa dos intelectuais? A culpa é dos educadores que impuseram às escolas métodos que não funcionam e que não mudam há 30 ou 40 anos. Nós sabemos por experiência que mesmo as crianças que vêm dos piores lares podem aprender a ler e escrever corretamente. As experiências mostram isso. E tudo que é necessário são métodos educacionais eficientes - como os que eram usados 50 anos atrás. Só que há uma teimosa recusa em reconhecer isso. No antigo sistema, crianças inteligentes e habilidosas eram selecionadas para seguir cursos acadêmicos puramente na base da competência e do mérito. Mesmo em áreas bem pobres, havia escolas muito boas, com um padrão bem alto. Foi assim durante muitos anos. Meu pai frequentou uma dessas escolas em Londres e se lembra de alunos que iam às aulas sem sapatos. Esse modelo garantia um certo grau de mobilidade social. É claro que só uma minoria de crianças era beneficiada, mas pelo menos era um sistema de genuína meritocracia.
Por que essas ideias não têm o mesmo efeito perverso sobre a classe média? Há duas razões. A primeira é que a classe média se preocupa muito mais com a educação. Se as crianças não vão bem na escola, os pais tomam alguma providência para melhorar a situação. E a segunda é que, na verdade, esses métodos não são impostos com a mesma firmeza sobre a classe média, porque ela reagiria a isso. Assim, a experiência é feita com os mais vulneráveis, que não sabem protestar, nem reclamar - a não ser através da violência física. Se fôssemos ceder à teoria conspiratória marxista, poderíamos dizer que o sistema educacional inglês é o meio pelo qual a classe média se assegura de manter fora de competição a metade mais pobre da população.

O senhor escreve que a "pobreza da alma" é muito pior que a pobreza material. Que lições países que ainda lidam com a miséria material, como o Brasil, devem tirar da "subclasse" dos países mais desenvolvidos? Mesmo em países miseráveis da África, onde trabalhei, nunca vi tamanha pobreza espiritual ou psicológica como a que observei na Inglaterra. E isso, eu acho, só pode ser explicado pela privação do sentido da vida. São pessoas capturadas por esse ciclo de dependência, em que nada parece tornar a vida melhor ou pior. Não há esperança, nem medo. Isso é algo que os brasileiros devem saber e evitar. Deixe-me dar um exemplo. Na Inglaterra, em 2006, antes da crise econômica, nós tínhamos 2,9 milhões de pessoas vivendo graças ao auxílio-doença. Elas não eram considerados desempregadas, mas doentes. Acontece que a grande maioria não tinha enfermidade nenhuma – ou teríamos mais doentes do que na 1ª Guerra Mundial. Essa corrupção moral tem um efeito profundo sobre a sociedade, tanto sobre as pessoas que pedem o benefício, como os médicos que dão os atestados e até sobre o governo, que pôde melhorar seu indicador de desemprego.
O assistencialismo tem um peso grande na vida dos brasileiros. Um em cada quatro pessoas é beneficiado por programas de transferência de renda, que praticamente todos os políticos apoiam. É possível erguer uma rede de proteção social que atenda à população necessidade sem incentivar os vícios que o senhor identifica? Eu não conheço muito bem o Brasil. Mas é certamente perigoso permitir que transferências regulares se tornem mais importantes que a renda das pessoas, porque haverá uma pressão para aumentá-las cada vez mais, em detrimento não só de toda a economia, mas também do caráter dos beneficiados. E é claro também que esses benefícios, quando elevados, acabam se tornando um direito divorciado de qualquer forma de merecimento. Se você tem direito a uma casa, renda, educação, assistência médica e tudo o mais, qual o sentido do esforço? Acho que, se bem controlada, não há razão para não ter uma rede de proteção social. O problema é que na Europa, particularmente na Grã-Bretanha, o sistema saiu de controle.
Qual o peso da revolução sexual na equação da "miséria da alma"? Não quero soar como um puritano, porque não sou, mas o verdadeiro problema é que o conceito de paternidade mudou. Na região em que eu trabalhava, nenhuma mãe levava em consideração se o pai do seu filho era adequado ou não. E isso me parece catastrófico. Quando eu perguntava para uma criança quem era o seu pai, ela às vezes dizia algo como "você quer dizer o meu pai no momento?". Nenhum pai assumia a responsabilidade por seu filho. Muitas crianças não tinham ideia do que era uma família. Para elas, o pai era um padrasto serial, que vinha e passava um tempo com elas e depois ia embora. Logo haveria um outro. Isso é terrível para as crianças. Uma geração de intelectuais vendeu a ideia de que conforto material e relacionamentos sem qualquer tipo de amarra tornariam a humanidade livre. Mas sem relações estruturadas, não pode haver confiança entre um homem e uma mulher. Isso leva ao ciúme e à violência. O custo das relações estruturadas por obrigações sociais, claro, é um certo grau de hipocrisia, porque, bem, o ser humano é o que ele é: não obedece às regras, mas finge que obedece. De qualquer forma, isso é melhor do que relações sem nenhuma amarra. Uma das razões de os homens serem tão ciumentos é que sabem o quanto eles próprios são predatórios. O tipo de promiscuidade que eu vi não seria relevante se esses homens aceitassem que a mulher também fosse promíscua, mas não é isso que acontece. Os homens querem a posse exclusiva da mulher, ao mesmo tempo que dão em cima da mulher de qualquer um, e é fácil ver que isso gera violência, tanto entre homens e mulheres como entre rivais que disputam uma mesma mulher.
Como nasceu seu interesse pela 'subclasse'? Eu trabalhava numa região complicada, como psiquiatra em um hospital. Vi algo como dez a quinze mil casos de tentativas de suicídio. E cada pessoa me falava sobre a sua vida e a vida de pessoas próximas. Isso significava ouvir a história da vida de 60, 70, 80 mil pessoas. Minha amostra é seletiva, claro, mas não é pequena. E também trabalhei numa prisão, com mais ou menos 1.400 detentos, que ficava ao lado do tal hospital. Eram prédios vizinhos. A principal diferença entre eles era que havia muito menos violência... na prisão. De manhã eu ouvia histórias de vítimas de crimes, e à tarde eu ouvia seus algozes. Foi assim que eu desenvolvi um interesse por tais assuntos.

Sente falta desse trabalho? Sim, mas resolvi me aposentar enquanto eu ainda sentia prazer em trabalhar. Isso pode parecer absurdo, mas queria parar com um certo número de boas recordações. O que eu presenciei não era lá muito agradável, mas era extremamente interessante.

Alguns textos deste livro foram publicados nos anos 1990. A sorte da subclasse melhorou desde então? Acho que continua a mesma coisa. E eu também não mudei de opinião. Aliás, para ser honesto, acho que já disse tudo que tinha a dizer sobre esse assunto. Atualmente faço crítica de arte e de literatura. E estou escrevendo minhas memórias da prisão. É que passei mais tempo na prisão do que a maioria dos presos...


'A Vida na Sarjeta' é seu primeiro livro publicado no Brasil, o que parece refletir certa hostilidade do mercado editorial contra autores conservadores. Esse viés também existe na Inglaterra. Durante muitos anos não houve uma edição inglesa de A Vida na Sarjeta. Embora trate do que vi na Grã-Bretanha, foi primeiro publicado nos Estados Unidos, assim como outro livro meu em que argumento que o vício em heroína não deve ser tratado como uma doença. Nos dias da Amazon, contudo, isso já não importa mais. De qualquer forma, espero que meu livro tenha alguma relevância para os brasileiros. Vejo que pode ser difícil para os brasileiros aceitar o tipo de coisas que afirmo, por ainda conhecerem a pobreza material. Com um pouco de sorte, porém, A Vida na Sarjeta terá relevância para os brasileiros em alguns poucos anos.