sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Reforma agrária: governo Bolsonaro distribui 280 mil títulos de propriedades

Documentos permitem que produtores assentados tenham acesso a crédito


Em 2021, governo federal distribuiu cerca de 140 mil títulos de propriedades definitivas e provisórias para famílias assentadas pela reforma agrária e produtores rurais. Isso corresponde à metade dos quase 280 mil documentos desse tipo entregues desde que Jair Bolsonaro chegou à presidência.

As famílias do assentamento Itamarati I e II, em Ponta Porã (MS), receberam no último sábado 5 os primeiros títulos que transferem os lotes em definitivo para os agricultores familiares. Criado há duas décadas e distante cerca de 300 quilômetros da capital Campo Grande (MS), esse é o maior projeto de reforma agrária do Estado.

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Primeira a receber o título durante o evento, Edinalva Gonçalves da Silva esperava há 15 anos por esse momento. “Estar com esse documento na mão é um sonho e agora quero criar minhas filhas e meu netos lá nesse assentamento”, disse a produtora de soja e milho, depois de ver o vídeo em que Bolsonaro anunciava seu nome.

“É uma nova vida que ele passa a ter, independente. Tendo o seu título, ele vai poder investir no seu lote porque agora ele é proprietário”, disse a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, durante o evento de entrega. “Essa é uma política do presidente Jair Bolsonaro que temos feito em todo o Brasil e vamos continuar fazendo”.

O mutirão no projeto Itamarati é o primeiro de muitos que serão realizados em todo o país pelo governo Bolsonaro. O objetivo é promover a regularização, visando a concessão de crédito e de títulos provisórios e definitivos.

“Estamos tentando atender essas 2,8 mil famílias assentadas [no Itamarati I e II] que nunca foram regularizadas para tentar resolver todos os problemas possíveis desses assentados”, disse Melo Filho, presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária.

Reforma Agrária 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

BOLSONARO DESAPARECEU – E DAÍ?

O presidente mandou o ministro Alexandre de Moraes (“respeitosamente”) ver se ele estava na esquina e aconteceu menos que nada.


O que aconteceria na prática se algum dia, por acaso — só por acaso, claro, sem pensar em nada de mal —, o presidente da República ficasse cheio de atender às ordens que recebe a cada 15 minutos do Supremo Tribunal Federal, para fazer isso ou explicar aquilo, e dissesse: “Eu não vou fazer nada; não me encham mais a paciência?” A Revista Oeste fez essa pergunta, umas poucas edições atrás, e chegou à conclusão de que não iria acontecer rigorosamente nada. Pois então: o tal dia chegou, mais rápido talvez do que se esperava. Bolsonaro mandou o ministro Alexandre de Moraes (“respeitosamente”) ver se ele estava na esquina e aconteceu menos que nada — não houve, sequer, a previsível indignação da mídia, da esquerda e da elite civilizada diante do desafio às instituições etc. etc. Como ficou na cara que o ministro foi desobedecido, sentou em cima da desobediência e continuaria sentado, todo mundo logo preferiu fingir que estava “tudo bem” — como se desobedecer a uma ordem do Supremo fosse a coisa mais normal deste mundo. Fazer o quê? Quando você fica no papel de bobo, a melhor coisa é mudar rápido de assunto.

É o que dá, quando se pensa um pouco nas coisas, contar com o ministro Moraes para tudo — uma hora, quando a escolha for entre o couro dele e você (você e todas as suas sagradas instituições), o homem vai saltar com o seu paraquedas. Mas isso já é uma outra história, que fica para uma outra vez. O que interessa, neste caso concreto, é que Alexandre de Moraes deu uma ordem ao presidente da República e a ordem foi ignorada — e sua reação diante da desobediência foi de exatamente três vezes zero. Quer dizer que ele não manda em todo mundo, como os comunicadores (e ele próprio) garantiam que mandava? Pois é; não manda. Manda prender o ex-deputado Roberto Jefferson, mas não manda prender o presidente. É complicado, porque agora ficam as incertezas. Moraes vai soltar outra ordem dessas e, mais uma vez, correr o risco de ver a sua ordem transformada num pedaço de papel inútil — ou vai baixar o facho? Se não soltar um decreto igual, e não soltar depressa, é sinal que baixou; fica ruim. E Bolsonaro: vai dizer de novo “chega, já deu, não perturba” para o próximo comando que receber dele? Já se viu que não acontece nada quando o presidente manda o STF para o raio que o parta. Não está claro por que ele faria diferente do que fez agora, na próxima vez que o mandarem depor numa delegacia de polícia. É, em sua embalagem mais recente, a famosa “insegurança jurídica” que os ministros criam a cada um dos seus chiliques permanentes — só que, desta vez, conseguiram criar insegurança para si próprios.

A ordem foi dada, repetida e desobedecida

Não houve mal-entendido nenhum nessa história, como vão tentar dizer ao público que houve, nem “diferenças de compreensão”, nem “defeito de comunicação” e outras desculpas que dariam vergonha a um pano de estopa. Ao contrário: nada poderia ter sido mais claro. Moraes mandou Bolsonaro depor na sexta-feira, dia 28 de janeiro, às 14 horas, na Polícia Federal de Brasília; fez questão, inclusive, de confirmar sua ordem mais uma vez, no próprio dia do interrogatório, negando um pedido de “ausência” feito na última hora pelo Palácio do Planalto. Qual é a dúvida? Não ficou dúvida nenhuma. A ordem foi dada, repetida e desobedecida. Não há jeito, agora, de Moraes botar a pasta de dente de novo “no dentifrício”, como diria Dilma Rousseff. Ele tentou dar alguma explicação, é claro, como essa gente sempre tenta; como sempre, não adiantou nada. Resmungou alguma coisa sobre “decisão no plenário”, algo jamais cogitado desde o início dessa comédia; também falou, naquele português miserável que usa em seus despachos, em “diálogo equitativo entre Estado-investigador e investigado na investigação”. Que diabo quer dizer um negócio desses? Moraes acha que é erudito. É apenas incompreensível. Sua última realização foi encaminhar à PGR uma notícia-crime contra Bolsonaro por ele ter faltado ao depoimento. Também não se sabe para o que vai servir essa coisa.

O STF piscou. E daqui para a frente? Vai piscar de novo?

A conversa do ministro não convence uma criança de 10 anos de idade, mas, no fundo, ele não precisa convencer uma criança de 10 anos de idade; basta convencer os jornalistas e demais influenciadores sociais, e esses ficaram convencidos em cinco minutos. O depoimento de Bolsonaro na Polícia Federal foi uma estupidez, só isso — e quando as coisas acabam assim é melhor não ficar perguntando nem explicando muito, porque só vai aumentar o tamanho do prejuízo, e ninguém quer aumentar o prejuízo de uma estrela do STF, não é? Em suma: Moraes mandou Bolsonaro fazer uma coisa, Bolsonaro não fez e acabou não dando em absolutamente nada. Como poderia ter dado? O ministro parece que só foi pensar nisso depois — você só pode dar uma ordem a alguém se tem certeza de que dispõe, no ato, dos meios indispensáveis para fazer com que a sua ordem seja obedecida. Moraes não tinha meio nenhum para fazer o presidente obedecer a coisa nenhuma; deu no que deu. O que ele poderia fazer? Mandar a delegada de polícia que convocou para o seu serviço pessoal, e que tem o direito de andar de revólver na cinta para cima e para baixo, ir até o Palácio e prender o presidente da República? Já que ele não vai à polícia, que tal mandar a polícia atrás dele? Não daria certo: a delegada de Moraes não passaria do porteiro do Planalto. Fora isso, o que mais? Chamar o Exército? Chamar a Interpol? (O ministro, em outra de suas ideias fixas no momento, já chamou a Interpol para prender o jornalista Allan dos Santos, alvo de inquisição no STF e hoje refugiado político nos Estados Unidos; sequer tomaram conhecimento do seu despacho.) Até o depoimento que não houve, porém, ele se achava muito bonitão na foto. Fazer o quê? É assim que a situação ficou. Moraes diz para os jornalistas publicarem que ele é o Rei da Cocada Preta e muito mais coisa ainda; os jornalistas publicam, encantados, e Moraes acredita no que mandou publicar. É o diabo. Quando a casa cai, ficam todos falando sozinhos. Desta vez ficaram.

Bolsonaro desapareceu - e daí?

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Carta de Barroso ao Telegram é devolvida

No documento, o presidente do TSE argumentou que 'circulam teorias conspiratórias' no aplicativo de mensagens

Barroso quer conversar com o CEO do aplicativo, Pavel Durov | Foto: José Cruz/Agência Brasil


A carta enviada ao aplicativo Telegram pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso, foi devolvida sem chegar ao destinatário, o CEO Pavel Durov. A informação foi divulgada pelo portal de notícias SBT News, na noite da quinta-feira 3.

Desde o envio do documento, em 16 de dezembro de 2021, ocorreram quatro tentativas de entregas, de 26 a 29 de dezembro. Em duas delas, o carteiro não foi atendido; nas outras, ninguém fazia expediente. Dessa forma, a papelada teve de voltar ao Brasil, para a mesa do presidente do TSE.

Conteúdo da carta ao Telegram

Depois de dizer que circulam “teorias da conspiração no Telegram”, além de fake news, o ministro Barroso decidiu intimidar os diretores do app. Segundo Barroso, faz-se necessário combater a desinformação na internet.

“Por meio do Telegram, teorias da conspiração e informações falsas sobre o sistema eleitoral estão sendo espalhadas no Brasil”, argumentou Barroso, na carta. “Nenhuma mídia social pode se transformar num espaço mafioso.”

Em outro trecho da papelada, o ministro sugere que o Telegram permite a circulação de conteúdos de pedofilia, venda de armas, de drogas, de notas falsas e de “campanhas de ataques à democracia”.

Sob cerco no Brasil, o Telegram pode ser proibido no país, se depender de procuradores do Ministério Público Federal.

Carta devolvida 

Petrobras: política de preço da era Dilma custou R$ 100 bi, mais que toda Lava-Jato

 


Crise financeira da estatal de 2015 foi produto de anos de superinvestimentos e caixa reduzido, devido ao congelamento dos combustíveis

O que gerou mais perdas para a Petrobras, as obras megalômanas (e superfaturadas) que estiveram no coração da Operação Lava-Jato ou a política de contenção do preço dos combustíveis da ex-presidente Dilma Rousseff (PT)? A pergunta é mais atual que nunca: o presidente Jair Bolsonaro trocou o comando da petroleira na sexta-feira após críticas à política de preços.

Acertou quem disse que foram os combustíveis. Em 2016, a estatal acumulou R$ 96 bilhões em baixas contábeis geradas por projetos que não ofereciam perspectiva de retorno, tais como a Refinaria do Nordeste (Rnest) e o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), entre tantas. Foram três anos de limpeza no balanço – 2014, 2015 e 2016.

Ainda em 2015, quando Mauro Rodrigues da Cunha, então conselheiro da estatal eleito pelos minoritários, foi depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a empresa, apontou que até aquele momento a contenção de preços havia gerado perda de R$ 100 bilhões. O cálculo inclui o que a companhia deixou de ganhar e o que gastou a mais em despesa financeira, fruto da ausência de paridade do combustível com os preços internacionais.

A petroleira, na ocasião, mantinha o preço da gasolina quase congelado como forma de segurar a inflação, enquanto seu endividamento pesava cada dia mais, uma vez que era, em sua maior parte, em moeda estrangeira.

Quando as pessoas lembram da crise financeira da estatal, que teve de correr para lidar com uma dívida líquida de US$ 100 bilhões, tendem a pensar que apenas os desmandos ligados à Lava-Jato e às super-obras foram a causa do problema. Nesse sentido, o maior escândalo acabou por nublar o tamanho do dano que é deixar a Petrobras fora da paridade internacional.

Naquela época, havia também falta de clareza a quem competia a política de preços da companhia. Atualmente, após diversas alterações no estatuto da empresa desde então, cabe à diretoria executiva aprovar a política de preços de produtos.

O novo indicado pelo presidente da República Jair Messias Bolsonaro, o general Joaquim Luna e Silva, que até então era diretor-geral de Itaipu, nem sentou na cadeira mas já deu entrevistas falando que a companhia precisa se preocupar com seu lado social, ainda que negue a existência de planos de interferência na política de preços.

Pote de ouro

Os anos passam e a Petrobras parece um pote de ouro de tentação irresistível aos governos — até mesmo do atual, que se elegeu com discurso e promessa de uma agenda liberal. Na gestão do Partido dos Trabalhadores (PT), a petroleira foi uma máquina de política industrial, com investimentos de centenas de bilhões a cada ano, e ainda como forma de contenção da inflação. A primeira parte foi conduzida diretamente pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após a descoberta do pré-sal. A segunda, pela presidente Dilma Rousseff.

A exuberância exagerada desse período foi apontada, também à CPI, pelo então presidente da UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, um dos alvos da Lava-Jato: no ano de 2013, a Petrobras investia R$ 1 bilhão a cada três dias.

Vale destacar que segurar o preço dos combustíveis na era Dilma não causou dano apenas à Petrobras. O setor sucroalcooleiro até hoje não se recuperou completamente desse período. E convive até agora esse risco, que se reflete na preocupação dos investidores e, portanto, em um custo de capital mais caro. E isso para não falar da situação do Estado do Rio de Janeiro, que sempre viveu pendurado na estatal, tanto pelos empregos como pela arrecadação.

Desde a Lava-Jato e a Dilma, uma coleção de medidas foi adotada na tentativa de que a estatal deixasse de alvo de interferências políticas. Foi aprovada a lei de governança das estatais e também um novo estatuto social — um, não, vários.

A íntegra: Aqui

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

A DESTRUIÇÃO DA DEMOCRACIA



Ninguém poderia imaginar, quando foi dada a primeira ordem de #FiqueEmCasa, que tão pouco tempo depois a tirania legalizada estaria querendo tirar os filhos dos pais

stão de volta ao mundo e ao Brasil, que até hoje vinha conseguindo evitar com relativo sucesso os surtos de tirania mais dementes dos últimos 150 anos, a estrela amarela e o pijama listado que denunciavam em público, na Alemanha nazista, o grande crime da época: “Você é judeu”. Vão dizer, é claro, que não é assim, e que a marca da maldição de 2022 é indispensável para salvar a humanidade — mas na verdade é assim mesmo que está sendo, e com viés de ficar pior. Esperar o que, se muitos dos próprios judeus, em Israel ou outros lugares — a maioria, talvez —, são os primeiros a ficarem a favor da perseguição? Não é especificamente contra eles, desta vez. A estrela e o pijama, neste retorno triunfal do nazismo da Alemanha de Hitler, ou da ditadura da Rússia comunista de Stalin, estão destinados a denunciar outro crime: “Você não tomou vacina”.

O não vacinado de hoje, por aqui e no resto do mundo, é o judeu da Berlim de 1935. O Brasil, como todos sabemos, foi largamente poupado do crime de perseguir judeus — talvez pelo seu próprio subdesenvolvimento, talvez por ficar na periferia do mundo, onde as ideias superiores da Europa civilizada, como campos de concentração ou fornos crematórios, demoram a chegar, ou não chegam nunca. Mas as “autoridades locais”, com o apoio desesperado das elites, da mídia e de tudo o que pode ser descrito como “de esquerda”, parecem obcecadas num esforço sem precedentes para tirar o atraso — perdemos nossa chance com o judeu, lá atrás, mas dessa vez nós temos pela frente o “não vacinado”. É ele a desgraça do mundo atual, aqui ou na Cochinchina. Para cima dele, então. Temos de liquidar essa raça. Não vamos perder a oportunidade — ou a gente acaba com eles, ou eles acabam com a gente. Basta olhar um jornal ou ouvir dois minutos de rádio ou televisão. O ataque, cada vez mais fanático, está lá, o tempo todo.

Os perseguidores não contam hoje em dia, para caçar não vacinados, com os meios materiais de Hitler ou de Stalin, sua cópia comunista da mesma época. Não têm sua Gestapo, nem a sua KGB, e nem outras facilidades. Vivem em democracias cada vez mais loucas para se comportarem como ditaduras, é verdade — mas é gente mole, medrosa e incapaz de ir para o pau como fazem os ditadores de verdade que gostariam de ser. Você acha que um prefeitinho desses, ou um governadorzinho meia-boca, ou um bucrocratinha com um talão de multa numa mão e carteirinha de procurador público na outra têm coragem para mostrar a sua verdadeira cara? Não têm. Eles descobriram o quanto é bom, para eles próprios, agirem como agem as autoridades fascistas — mas não têm energia moral para serem fascistas de verdade. É por isso que a polícia do governador Zé Mané ainda não está prendendo não vacinado, nem o Supremo Tribunal Federal reinventou a pena de morte e mandou alguém para a câmara de gás, ou coisa parecida. Mas, enquanto isso, fazem todo o tipo de perseguição que conseguem fazer impunemente — e que não ameace, segundo calculam, a sua própria segurança no emprego, no seu mundinho social e em tudo o mais que lhes interessa.

É tudo de uma desonestidade fundamental — com doses gigantes de hipocrisia, mentira e má intenção

A aberração mais recente, e mais sinistra, é a ameaça, por parte dessas autoridades que estão aí, de retirar dos pais a guarda dos filhos que não forem vacinados. Jamais, em 522 anos de história do Brasil, alguém propôs uma violência tão estúpida quanto essa. De novo, a lembrança é dos momentos mais negros da humanidade — as ditaduras comunistas na Rússia de Stalin ou na China de Mao Tse-tung, onde a autoridade pública se dava o direto de roubar as crianças de suas famílias para punir os pais por motivos políticos. Um despacho insano do ministro Ricardo Lewandowski, do STF, dentro do progressivo processo de demência que vem marcando as sentenças da alta e baixa justiça brasileiras, abriu a porta para esse delírio do passado voltar ao Brasil de hoje. É obvio, quando as “instituições” permitem que a lei seja rasgada, que o instinto ruim das ditaduras vai sair correndo de dentro do armário, onde fica escondido até não haver mais risco em vir para fora; é o que aconteceu, na hora.

Ricardo Lewandowski | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Para ficar apenas num exemplo, o procurador-geral da Justiça de São Paulo, Mario Sarrubbo, já ameaçou tirar dos pais que não tiverem vacinado seus filhos a “guarda temporária” das crianças. Vamos ver, agora, o que ele faz na vida real. Na teoria, ao que parece, as escolas deveriam entregar ao Ministério Público suas listas negras, delatando os pais de alunos que não apresentarem atestados de vacinação. Presumivelmente, a partir daí, o MP de São Paulo vai exigir que as famílias lhe entreguem as crianças não vacinadas. E o que o procurador Sarrubbo vai fazer com elas, a partir daí? Podem ser 1.000, ou 10.000, ou 100.000, ou mais — ninguém, a começar pelo MP e pelos juízes, tem a menor ideia de quantas sejam. Falam em entregar a guarda para “os avós”. E as crianças que não tiverem avós, ou cujos avós não puderem cuidar delas? Sugere-se, vagamente, que a meninada seja entregue “ao Estado” — um horror absoluto, que só pode passar pela cabeça dos militantes mais histéricos da caça aos “não vacinados”, e assim mesmo se eles não ficarem com o trabalho de se ocupar das crianças. O “Estado”? O Estado brasileiro não tem competência para cuidar nem das crianças abandonadas que, às dezenas de milhares, ocupam a paisagem das cidades — não consegue cuidar nem dos seus presidiários. O que o procurador Sarrubbo e seus colegas de MP vão fazer, por exemplo, com 1 milhão de crianças não vacinadas, ou seja lá quantas forem, em São Paulo e no resto do Brasil? Vão desmanchar famílias que estão perfeitamente constituídas, para criar uma multidão de crianças que não terão mais pai nem mãe? A Justiça vai ter de decidir, caso a caso, como ficam as coisas? Ou haverá cassações em massa da guarda paternal, por ordem do MP, do ministro Lewandowski ou do inspetor de quarteirão da prefeitura? É uma alucinação.

Mário Sarrubbo | Foto: Divulgação/MPSP

Esse mesmo procurador-geral, anos atrás, foi contra a reabertura das investigações sobre o assassinato do prefeito Celso Daniel, o crime que vai assombrar para sempre o PT, Lula e a esquerda brasileira. Mas agora, no caso das crianças não vacinadas, ele quer lançar contra milhares de cidadãos indefesos, que não praticaram absolutamente nenhum delito, toda a fúria da máquina de repressão do Estado — a mesma que foi proibida de incomodar os mandantes de um crime abjeto. Que sentido faz um negócio desses? Ninguém poderia imaginar, quando foi dada a primeira ordem de “#FiqueEmCasa” — ou ponha máscara, use gel, não trabalhe e cale a boca —, que tão pouco tempo depois a tirania legalizada de quem ocupa um emprego público estaria querendo tirar os filhos dos pais. É onde estamos no momento. Quais serão os próximos passos do STF, do MP e da prefeitada que se apaixonou pelo nazifascismo que está aí? Campos de reeducação para as crianças? Colônias penais infantis? Cadeia para os pais? Na verdade, é tudo de uma desonestidade fundamental — com doses gigantes de hipocrisia, mentira e má intenção. As autoridades, essas que não conseguem nem manter em funcionamento os sinais de trânsito, querem assumir a guarda familiar das crianças, num país de 200 milhões de habitantes, sem esgoto para metade da população e com sua miséria maciça exposta na cara, do Oiapoque ao Chuí. É obvio que não vão fazer coisa nenhuma; é óbvio que estão mentindo. Mas, com certeza, estão aproveitando o pânico criado pela mídia, seus “cientistas” e seus fiscais para criar, eles próprios, o seu pânico particular — e exibir o quanto podem mandar na vida das pessoas. É uma oportunidade única para a demagogia, e sem assumir risco nenhum; afinal, quanto mais estúpida a decisão, mais palmas ela recebe no Jornal Nacional e no resto da imprensa. Ninguém vai perder a chance, é claro.

É assim que o prefeito de São Bernardo, para ficar estritamente em exemplos paulistas nesta onda de boçalidade agressiva levantada para impor a vacina, tomou a prodigiosa decisão de segregar em classes separadas, nas escolas municipais, os alunos que não estiverem vacinados. Seu despacho a respeito é uma declaração de guerra à inteligência comum. Ele admite que a lei não obriga ninguém a se vacinar, e que as crianças de São Bernardo não podem ser impedidas de frequentar a escola por não estarem vacinadas. Na mesma folha de papel, porém, o prefeito diz que vai denunciar ao MP os pais de alunos não vacinados — enquanto promete, também, criar classes separadas para a população infantil do município. Os que não tiverem tomado a vacina ficarão em salas isoladas; não poderão estudar junto com os colegas, nem brincar juntos no recreio. É como se fazia, antigamente, com os alunos negros nas escolas americanas ou da África do Sul; fiquem para lá, naquele canto, separados dos brancos. Receberão o selo de párias da prefeitura de São Bernardo — “não vacinados”, filhos de inimigos da pátria, negacionistas, impuros, ameaça à saúde alheia, criminosos em potencial, direitistas, bolsonaristas. Quem deu esses poderes extraordinários ao prefeito? Que lei o autoriza a tratar desse jeito infame crianças de 8 anos de idade? Seu colega de Osasco, no mesmo tipo de depravação, criou um “Certificado de Coragem” para as crianças vacinadas — exatamente como os diplomas de “herói” que a Rússia de Stalin dava a crianças que denunciavam os próprios pais por falarem mal do governo ou prestavam outros serviços destacados ao regime. (Coisa parecida acontecia com a juventude nazista na Alemanha, ou a juventude fascista na Itália.) As crianças viravam estrelas da juventude comunista; os pais iam para o campo de concentração na Sibéria.

Orlando Morando | Foto: Reprodução

A lista de aberrações como essas poderia continuar por páginas e mais páginas — publicações digitais, como se sabe, não têm os limites físicos de publicações feitas em papel, nem dos programas que precisam obedecer ao tempo marcado no relógio. Mas quem vê o procurador de São Paulo e os prefeitos de São Bernardo e de Osasco não precisa ver mais nada, não é mesmo? É o que dá para ter, num país em que o ministro Barroso, encantado pela insensatez irresponsável que faz do STF essa delegacia de polícia de república bananeira que temos aí, proíbe os cidadãos brasileiros “não vacinados” de entrarem em seu próprio país. Foi mais um absurdo que não deu em nada, e nem poderia dar, mas sua decisão foi aplaudida pela imprensa brasileira como uma sentença do Rei Salomão. É o mesmo aplauso que os jornalistas reservam para as aberrações dos prefeitos de São Bernardo, Osasco e dezenas de outros — que contam, também, com a admiração encantada de uma parte importante da população, feliz de viver submetida a uma das maiores lavagens cerebrais já praticadas na história humana. O prefeito propõe que se volte à época da Rússia de Stalin. Recebe uma salva de palmas da imprensa, dos professores da USP e dos banqueiros de esquerda.

crianças vacinadas
Osasco na Grande São Paulo, vacina crianças com e sem comorbidades de 5 a 11 anos no drive-thru de vacinação neste domingo (23). Após ser vacinada, criança ganha um livro infantil, um certificado de coragem e um kit de medicamento caso haja alguma reação | Foto: Aloisio Mauricio/Estadão Conteúdo

Nada disso tem a ver, realmente, com a saúde pública — embora tenha muito a ver com a covardia terminal diante da morte demonstrada por tanta gente hoje em dia. O que se pode querer num mundo onde o sujeito pega uma gripe, não vai nem ao pronto-socorro, e acha que está correndo risco de vida? É o ambiente ideal para os falsários políticos. A guerra suja para impor a vacina, e todo o resto do arsenal de repressão que se montou em nome do combate à covid, é, na verdade, uma agressão direta e já sem disfarces à democracia. Não é, obviamente, algo que está acontecendo só na Grande São Paulo. Trata-se de um assalto mundial às liberdades. Não querem proteger a sua saúde — querem roubar os seus direitos. Não estão interessados em saber se a vacina funciona mais ou menos como proteção contra o vírus, da mesma forma como nunca estiveram interessados em saber se uma máscara de pano pode salvar a sua vida —, o que querem é controlar a sociedade. Querem um mundo de funcionários, de fiscais, de comitês médicos, de cientistas que não admitem discutir questões de ciência, de protocolos, de quem cria segregação de classes nas escolas.

Os direitos individuais estão sendo destruídos ativamente, num arco que vai do ministro Barroso ao prefeito de Osasco

Está acontecendo não apenas no Brasilzão primitivo, mas em lugares considerados até pouco tempo atrás como as mais exemplares democracias do mundo. Na Austrália, um ministro de terceira categoria tranca o tenista Novak Djokovic num hotel-presídio, impede que participe de um dos mais prestigiados torneios de tênis do circuito profissional e o expulsa do país como um criminoso vulgar — tudo porque ele não toma vacina anticovid e é um adepto da medicina alternativa. O que a Austrália vai fazer agora? Prender quem se trata com homeopatia? O Canadá proíbe os não vacinados de comprar bebida — ou maconha. Quer se chapar? O governo canadense exige que você mostre o seu passaporte vacinal. Na França, o presidente da República declara em público que seu objetivo é “irritar” os não vacinados. Nas mais formosas democracias europeias, essas que dão lições permanentes de conduta ao Brasil “dos militares”, da “direita” e da “destruição da Amazônia”, tocam a polícia em cima da população e criam multas ruinosas para quem não se vacina — ou querem que eles sejam processados na Justiça criminal.

É um mundo cada vez mais escuro. A democracia, a liberdade e os direitos individuais estão sendo destruídos ativamente, todos os dias, num arco que vai do ministro Barroso ao prefeito de Osasco, dos burocratas da Austrália ao jornalista militante, da empresa que descobriu a “questão social” aos cartórios de combate ao racismo, à desigualdade e ao aquecimento da calota polar. Não vão deixar que a covid passe. E, se ela passar, não têm a menor intenção de devolver as liberdades que estão destruindo agora.

Leia também “Covid para sempre”

Revista Oeste -J.R. Guzzo 

domingo, 9 de janeiro de 2022

terça-feira, 14 de setembro de 2021

A NUDEZ DAS CORTES

Percival Puggina

 

Expostos a sucessivos choques de realidade, os opositores mais ferrenhos do presidente da República estão atarantados. Projetaram sobre ele seus fantasmas pessoais. Para todos os efeitos, o futuro do país resultaria das ações desse terrível personagem no ambiente a ser criado pelo projeto político oposicionista. Ora, quem conta estórias sobre o que vai acontecer na vida real acaba trombando contra o concreto duro dos fatos. É um processo autodestrutivo, que muitos estão descobrindo tarde demais. Os fatos são teimosos.

Mesmo antes da campanha eleitoral de 2018, a mídia militante brasileira cuidou de moldar em seu imaginário criativo um Bolsonaro homofóbico, xenófobo, racista, machista, misantropo.  Essas acusações, não encontrando fundamento em ações do presidente, ou em medidas do governo, foram deixadas de lado para que ele, no imaginário dos romancistas da mídia militante, virasse miliciano e genocida.

Como tampouco por aí os fatos corresponderam à conduta do personagem inventado, a criatividade dos novos autores da história passou a acusar o presidente de ser um rematado e histórico golpista.

Veio o 7 de setembro. Milhões de brasileiros saíram às ruas em todo o país. Não houve um carro arranhado, um vidro quebrado. A ninguém antes, os cidadãos brasileiros concederam tão explícito e pacífico apoio. Que uso fez dele o presidente? O teimoso, turrão, brutamontes inventado pela mídia mostrou sua musculatura política e, no passo seguinte, desmascarando os verdadeiros golpistas, derrubou os historiadores do futuro. 

O descontentamento com que receberam a Carta à Nação mostrou o real interesse de seus adversários. É inevitável, agora, a exposição dos verdadeiros golpistas e a identificação dos construtores do conflito entre os poderes.

Está doendo e visível como fratura exposta a crise da democracia representativa no Brasil. Ela é permanentemente desacreditada pelas tramas, insensibilidade, incompetência e pelo desprezo da cúpula do Congresso Nacional à “incômoda” voz das ruas. Logo após as manifestações do dia 7 de setembro, o presidente do Senado suspendeu as sessões dos dias subsequentes e fechou as portas!

Quem é golpista? Quem estica a corda? Quem desarmoniza os poderes? Qual a instituição de Estado que não cumpre seu papel? Qual a que ultrapassa os limites impostos pela Constituição? Quem quer o insucesso do governo?

Não é o rei que está nu. São as inteiras cortes de Brasília, na hora da verdade.

Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

https://www.puggina.org/artigo/a-nudez-das-cortes__17466


 

Percival Puggina, "A NUDEZ DAS CORTES"


 

"Obrigado Eric Clapton", por Guilherme Fiuza


Um homem que não é um rato se revolta contra uma tirania quando está diante dela. Mesmo que essa tirania esteja impecavelmente fantasiada de ética humanitária



Quando a humanidade mais precisou lutar pela sua liberdade, os homens sumiram. Ratos de boa aparência passaram a despontar exuberantes por toda parte — cheios de palavras solidárias, empatias e éticas embelezando seus propósitos asquerosos, como é natural em todo verdadeiro rato. De que esgoto vip saíram tantos roedores impecáveis?

De esgoto nenhum. Eles já estavam aí, circulando a céu aberto, e muitos até já mereceram a sua admiração, ou a sua amizade, ou o seu voto, ou o seu respeito. Você jamais imaginou que algum deles botaria polícia para bater em mulher na rua fingindo com isso salvar vidas; ou te fotografaria andando de bicicleta para mostrar aos linchadores sedentos que você é um pecador porque não ficou em casa.

Os ratos já estavam entre nós — e o nosso pecado foi não percebê-los como tal, por trás das suas máscaras de gente.

Eles são muitos. Estão por toda parte. Talvez sejam maioria. E quando você acha que eles já botaram toda a sua escrotidão para fora, eles te surpreendem com uma nova, mais escrota ainda. Foi assim que a humanidade chegou ao estupro vacinal. Esse não tem paralelo na história — não em tempos de paz.

Criaram uma vacina em questão de meses e saíram vacinando. Simples assim. As incertezas sobre eficácia e segurança foram todas resolvidas com propaganda e manchetes de jornal. E censura, claro, como manda o manual do cientista roedor. Seis meses de vacinação, seis meses de agravamento da pandemia. Conclusão: a vacina é ótima e deve ser obrigatória para salvar a humanidade.

Como impor à população substâncias que ainda não estão prontas? Como exigir a inoculação em alguém de algo que ninguém sabe ainda exatamente quanto funciona e que riscos totais representa? Como tornar um experimento obrigatório?

Numa democracia, dentro do Estado de Direito, seria impossível. Não existem experimentos obrigatórios na lei — pelo menos não nas sociedades livres. Foi aí que você se enganou. Ficou contemplando a bela ideia de liberdade democrática e não viu as ratazanas em forma de gente. Para um rato, um princípio humanitário é como um pedaço de carne podre: deve ser triturado e deglutido rapidamente, antes que outro mais dentuço o faça.

Se você está chegando agora a este planeta, sente-se na poltrona do seu disco voador para não cair para trás: crianças e adolescentes, com risco de morte pela nova doença em média inferior a 0,003% (ver John Ioannidis, Stanford), entraram no experimento — com muitos anos de vida pela frente para descobrir o que os supostos imunizantes causarão ao seu organismo, já que dessa vez a “humanidade” preferiu injetar primeiro e estudar depois. Não se sabe se teve sorte ou azar quem não precisou de anos para descobrir os problemas, ou pelo menos os primeiros.

Foi aí que, em meio à barulhenta população de ratos de boa aparência — empapuçados de propaganda e arrotando ciência —, surgiram alguns poucos homens. Um deles se chama Eric Clapton. Após mais de sete décadas prestando elevados serviços à arte, ele veio salvar a dignidade.

Clapton enfrentou dormências, dores agudas e paralisias após tomar a vacina contra a covid-19 — essa que os especialistas te garantem que é segura e vale a pena. Por uma coincidência incrível, este homem é um dos maiores guitarristas da história e a paralisia da vacina atingiu suas mãos. Talvez um desses especialistas dissesse: não se preocupe, você ainda tem a sua voz.

Eric Clapton anunciou que cancelará seus shows em locais proibidos a não vacinados

Mas o tipo de resposta que Clapton ouviu foi um pouco menos polido. Basicamente, o artista que estava simplesmente descrevendo o seu sofrimento físico após se vacinar passou a ser acusado de “politizar” a pandemia. Felizmente já avisamos a você que estamos falando de ratos.

Um homem que não é um rato se revolta contra uma tirania quando está diante dela. Mesmo que essa tirania esteja impecavelmente fantasiada de ética humanitária. Um tirano medonho jogaria este homem na masmorra. Os ratos de boa aparência não têm essa coragem. Eles tentam matar em vida sua vítima roendo-lhe a moral — tentando fazê-lo afundar, sucumbir, desaparecer sob um estigma paralisante como o efeito da imaculada vacina.

Eric Clapton não desapareceu. Cresceu. Se agigantou — como sempre ocorre a um grande homem quando acuado por anões morais.

O novo hit de Clapton — com mais de 1,5 milhão de visualizações em menos de uma semana — se chama This Has Gotta Stop (“Isto tem que parar”). Já foi longe demais. Se quiserem levar minha alma, vocês vão ter que vir e derrubar esta porta — avisa na canção o homem que não quis, como tantos dos seus semelhantes, virar adereço de laboratório.

Eric Clapton anunciou que cancelará seus shows em locais proibidos a não vacinados. Ele sabe que a vacina nem sequer impede o contágio. Ele sabe o que é ética, o que é saúde e o que é fascismo. Saudações a quem tem coragem.

Sigam este homem. Ele está cantando para todos ouvirem, inclusive as ratazanas da censura: me acostumei a ser livre.

Obrigado, Eric Clapton.

Muito obrigado, Eric Clapton.

 Blog do José Tomaz 

quarta-feira, 28 de julho de 2021

CORRIDA DE FUNDO, COM BARREIRAS

Vai ser difícil acusar o adversário de ladroagem se Lula foi o chefe do governo mais corrupto da história do Brasil.


Como qualquer cidadão deste país pode constatar diariamente por tudo o que lhe dizem, mostram e escrevem, Lula é o próximo presidente do Brasil. Já está, a esta altura, escolhendo seus ministros — Guilherme Boulos, por exemplo, para crescer na foto e ser o seu candidato nas eleições de 2030, ou Dilma Rousseff, aí já não se sabe por quê —, está escrevendo as “políticas públicas” do seu governo, combinando chamar de volta as empreiteiras de obras e os médicos cubanos, e fazendo aquelas coisas todas que fazem os presidentes que têm hora marcada para assumir. Pergunte ao ex-presidente Fernando Henrique, ao Datafolha ou ao Jornal Nacional — é Lula, e não se fala mais nisso.

E Jair Bolsonaro, não existe mais? Não, não existe. Todos os citados aí acima mais os cientistas políticos, as classes ilustradas e o New York Times estão certos de que ele morreu e não sabe. Sua popularidade cai a cada cinco minutos. Proibiu a compra de vacinas e, ao mesmo tempo, roubou milhões de vacinas — que, aliás, não foram compradas — embora quase 120 milhões de brasileiros já tenham sido vacinados. Tocou fogo na Amazônia. Matou mais de 500.000 pessoas, e vai matar mais. É genocida. Perseguiu os índios, os quilombolas e as mulheres. Não pôs a máscara. Vai ser expulso da Presidência por um impeachment que já está no papo; ou seja, não vai nem ser candidato.

Muito bem — mas, agora, é preciso que essas coisas todas aconteçam. Em primeiro lugar, Lula tem de vencer as eleições de 2022; não chegará lá, como tudo o que lhe acontece de bom na vida hoje em dia, por uma liminar do STF, mesmo com todo o empenho dos ministros Fachin ou Lewandowski, Toffoli ou Gilmar Mendes. Para isso terá, em primeiro lugar, de ser candidato — algo que ele quer muito, mas que pode não ser possível. Sua única vantagem competitiva de verdade, neste momento, é o desmanche de Bolsonaro. Durante os próximos quinze meses o presidente vai ter de continuar se desmanchando, e ele, Lula, vai ter de continuar crescendo — fora do mundo encantado das pesquisas. Não é uma questão de escolha: para Lula ser presidente de novo, tem de ser assim.

Lula e o PT contavam com o lema “vacina para todos”. Mas o que vai acontecer quando todos estiverem vacinados?

Há dificuldades nessa caminhada em que um tem de andar sempre para trás e o outro tem de andar sempre para a frente. Tome-se, para começar, o tema da corrupção — é complicado fazer uma campanha eleitoral no Brasil sem acusar o outro de corrupção. Lula e o PT, como se sabe, nunca viveram sem isso numa eleição; a não ser quando tiveram de suceder a si próprios, sempre jogaram tudo no “pega ladrão”. E na campanha de 2022? Vai ser difícil acusar o adversário de ladroagem se você foi o chefe do governo mais corrupto da história do Brasil, puxou cadeia por corrupção passiva e lavagem de dinheiro e tem de convencer da sua honestidade pessoal uma população notoriamente descrente das virtudes de qualquer pessoa que vai presa.

É falar de corda em casa de enforcado, e o PT sabe disso; suas lideranças, aliás, já estão dizendo que Lula vai “dar preferência”, na sua campanha, aos “temas mais ligados aos interesses diretos da população”. Gilmar Mendes, Fachin, Lewandowski & Cia. podem dizer quanto quiserem que Lula é “inocente” — quem acredita em alguma coisa que venha do STF? Para Lula, na verdade, seria melhor que nenhum deles dissesse nada a respeito do assunto de hoje até o dia da eleição. Quanto menos o nome do ex-presidente aparecer ligado a qualquer ministro do STF, melhor para a sua reputação. Ele vai ficar falando na sua “inocência”, é claro — mas roubalheira do adversário, que é bom numa campanha, não deve rolar.

Há também o problema da vacina, e não é pouca coisa. Os problemas da vacinação, reais ou imaginários, teriam de ser o carro-chefe de uma campanha eleitoral nos dias de hoje — o que poderia ser melhor, numa hora dessas, do que acusar o outro lado de não aplicar uma vacina que vai salvar “vidas”? Só mesmo a ajuda de Deus. Lula e o PT contavam, de coração, com o lema “vacina para todos”. Mas o que vai acontecer quando todos estiverem vacinados? Estamos em julho de 2021 e a vacina já está chegando aos jovens; até o fim do ano, a vacinação estará encerrada. Falar, em julho do ano que vem, que a vacina “demorou”, ou que Bolsonaro disse que não era culpa dele se alguém virasse jacaré, ou que o general Pazuello fez isso, ou não fez aquilo, não vai adiantar nada; ninguém vai nem mais lembrar quem foi o general Pazuello.

Falar da “recessão” também não está com boa cara. Em primeiro lugar, a maior criatura política da vida de Lula, a ex-presidente Dilma, criou e agravou a pior e mais longa recessão da economia brasileira, por sua pura inépcia e má gestão das autoridades econômicas. Como na ladroagem, é melhor não mexer com o assunto. Em segundo lugar, vai ser preciso haver mesmo uma recessão em 2022. Este ano, pelos cálculos feitos até agora, vai haver crescimento — de 5,2%, o maior desde 2010. Não se vê, hoje, nenhum fato indicando que em 2022 as coisas andem ao contrário. É o mesmo problema com o desemprego. É um caso de torcida: dá para aumentar os quase 15% de hoje, mas isso não é muito pior que o desemprego da recessão de Dilma. A foto de hoje também não é animadora para Lula: foi criado 1,2 milhão de empregos formais neste primeiro semestre. O enfraquecimento da covid e o avanço da vacinação, ao mesmo tempo, sugerem que essas taxas vão continuar subindo.

Propor o quê? Novas estatais? Transposição do Rio Amazonas?

Outra dificuldade é o próximo Bolsa Bolsonaro — o “auxílio de emergência”, ou “renda cidadã”, ou outro programa qualquer de entrega de dinheiro à população. É certo que o governo, que já experimentou essa substância e gostou, não vai ficar parado, olhando a paisagem. Vem mais dinheiro por aí — e, obviamente, vai ficar ruim cair de pau em cima de um governo que está dando uma mesada para os pobres, mesmo porque já caíram de pau quando o auxílio atual foi temporariamente suspenso. Vão falar que é demagogia, claro, mas e daí? Lula não pode propor que Bolsonaro pare de pagar, ou pague menos; o Congresso não vai vetar, em nome da austeridade nas contas públicas, e o STF vai ficar quietinho. É uma sinuca.

Seria preciso, também, arrumar mais 500.000 mortes para engrossar a conta do genocídio, ou de preferência 1 milhão. Lula pode contar com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, que é dirigido por um cidadão que se chama “Carlos Lula” e diz quantas pessoas morrem a cada dia de covid, em sociedade com um “consórcio” de veículos de imprensa. Mas não é fácil um negócio desses dar certo — há os relatos dos hospitais que informam sobre a ocupação de leitos nas UTIs, e outras complicações. Há, é claro, os intratáveis problemas de Bolsonaro no Congresso e a pressão, cada vez mais agressiva, para o seu impeachment — algo que começou no dia da sua posse e continua até hoje. Mas aí é preciso esperar que o presidente não faça nada para se defender, e deixe dois terços dos deputados e dos senadores votarem contra ele — isso se o pedido de impeachment chegar ao plenário.

Não se sabe até agora, enfim, qual programa de governo Lula terá para apresentar durante a campanha — coisa que sempre pode ser inventada em meia hora, mas que ainda assim precisa se sustentar em alguma coisa. Em outras palavras: é preciso dizer ao eleitor por que raios, afinal, ele deveria votar em você e não no outro. A grande esperança da esquerda, do Brasil “que pensa” e da mídia é que a rejeição a Bolsonaro resolva tudo. Lula nem precisa fazer algum esforço especial. Basta que seja candidato, fique parado e não crie nenhum grande problema; Bolsonaro vai se destruir sozinho, pelo simples fato de ser Bolsonaro. O problema com esses desejos é que a maioria do eleitorado tem de pensar do mesmo jeito.

Propor alguma coisa vai ser difícil. Propor o quê? Novas estatais? Distribuição ao povo das reservas internacionais? Perdão das dívidas pessoais? Isenção geral de aluguéis? Transposição do Rio Amazonas? Volta dos médicos cubanos? A agenda pró homossexuais-negros-índios-mulheres e contra as queimadas-agrotóxicos-militares, por outro lado, é difícil de pegar. Não funcionou na eleição de 2018. Funcionaria na eleição de 2022? Por quê? A imprensa, os intelectuais e o centro civilizado, por fim, acreditam muito em derrotar Bolsonaro falando mal da “ditadura”. Não parece ser uma grande ideia. Uma parte não acredita em golpe de Estado, regime militar e ditadura. Outra parte é a favor. Melhor deixar quieto.

Bolsonaro, pela dificuldade de olhar além do seu próprio eleitorado, governar o país com mais harmonia e menos tensão e admitir que política vai além das redes sociais e do celular, ajuda qualquer adversário. Mas é preciso, para quem quer ficar no seu lugar, ajudar a si próprio. O presidente é dado como liquidado; pode até ser que esteja mesmo. Bolsonaro, por esse modo de ver as coisas, foi eleito em 2018 porque era o anti-Lula. Lula vai ser eleito em 2022 porque é o anti-Bolsonaro. Mas o ex-presidente, o maior nome lançado contra ele até o momento, tem pela frente uma corrida de fundo, com barreiras.

J. R. Guzzo