sábado, 29 de maio de 2021

CHECADORES DE IDEIAS

 


As agências de checagem de fatos dizem identificar fake news. Na verdade, checam se a notícia está de acordo com o pensamento progressista.

Desde que a expressão “pós-verdade” entrou para o dicionário britânico Oxford, em 2016, o mundo viu renascer a preocupação com um dos fenômenos mais antigos da humanidade: o boato. Rebatizado de fake news, o conteúdo falso assumiu as vestes do jornalismo, copiou o design das páginas de notícia e cativou leitores mais propensos a aceitar relatos com base em suas emoções do que em fatos — esta é, aliás, a definição de pós-verdade.

Impulsionadas pela facilidade de compartilhamento nas redes sociais, páginas de conteúdo falso despertaram o instinto caçador de jornalistas imbuídos no papel de justiceiros sociais. Encontrar, desmascarar e denunciar sites de fake news se tornou uma das atividades mais regozijantes dos profissionais de imprensa. Nada mais legítimo — embora não seja exatamente assim na vida real. Um profissional comprometido com a verdade não poderia assistir passivamente à proliferação de textos contando que roubo de smartphone barato não seria considerado crime ou que o papa teria dito que “Jesus fracassou na cruz”.

Assim surgiram as agências de fact checking. No âmbito global, os primeiros experimentos foram o FactCheck.org (2003) e o PolitiFact.com (2007). No Brasil, entre as operações mais conhecidas, estão as agências Aos Fatos e Lupa (2015), associadas ao Facebook e abastecidas com verba do programa de apoio ao jornalismo da big tech. O Google também financia projetos de checagem. Em março deste ano, a agência Lupa — que não respondeu às tentativas de contato para esta reportagem — anunciou ter sido o único site brasileiro selecionado pelo Google para receber parte dos US$ 3 milhões do fundo criado pela companhia em defesa da vacina contra a covid-19.

Com as alianças estabelecidas com as corporações de redes sociais, a atuação dessas agências avançou sobre a terra de ninguém chamada newsfeed — espaço que reúne todo o conteúdo postado por qualquer usuário nessas plataformas. Incapazes de gerenciar o monstro que criaram, as social big techs — prioritariamente, o Facebook — delegaram aos fact checkers o poder de escolher o que pode circular nas redes.

“É o surgimento de uma nova classificação sobre credibilidade que as big techs estão promovendo. Atualmente, essas empresas de tecnologia escolhem quais veículos podem determinar o que é verdade ou mentira e, com base nessas decisões, quais informações serão difundidas massivamente para a audiência. Ou seja, os veículos escolhidos têm de fato a palavra final sobre os jornais tradicionais.”

O alerta é de Ewandro Schenkel, gerente de jornalismo da Gazeta do Povo, do Paraná. Em 2020, o jornal centenário entrou para a lista de veículos de desinformação, criada pela CPMI das fake news. A classificação feita por agências de fact checking e por consultores legislativos não se sustentou. Bastou a equipe da Gazeta perguntar quais foram os critérios usados na decisão — nem as agências nem a relatora Lídice da Mata (PSB-BA) souberam responder.

Em tentativas como essa, de monopolizar o entendimento sobre o que é verdade, as redes sociais e empresas de fact checking são amparadas pelo Estado na criação do que Schenkel chama de “cultura de veneração pelos ‘checadores’”, o que pode gerar prejuízos e calar veículos que praticam o jornalismo em essência, como ele sempre precisou ser: com checagem de fatos prévia à publicação. Num cenário assim, a atuação dos profissionais de fact checking perde o sentido, a menos que haja outras razões para exercer a vigilância sobre o trabalho de colegas, numa espécie de censura institucionalizada.

Schenkel sublinha que boa parte da apuração feita pelas agências de checagem se debruça sobre pautas subjetivas ou temas sem consenso, como os debates religiosos, ideológicos e até referentes a avanços da ciência.

Sem critérios claros, os fact checkers tratam conteúdo jornalístico profissional da mesma forma como avaliam qualquer outro conteúdo postado por qualquer usuário nas redes sociais. Uma evidência disso ocorreu quando a agência Lupa rotulou de falsa uma imagem capturada no site de Oeste mostrando a notícia de que a OMS defende a retomada econômica. A captura de tela foi postada pelo então candidato a vereador Bruno Secco (PP-SP), que acrescentou um comentário com sua opinião a respeito da notícia.

O patrulhamento da Lupa entendeu que nada daquilo deveria estar nas redes sociais: nem a notícia de Oeste nem a opinião do usuário. Num claro ataque à liberdade de expressão, a agência demonstrou desconhecer conceitos primários da cultura digital, como o remix narrativo. Autores como Henry Jenkins e André Lemos já publicaram extensas obras abordando o protagonismo que cada indivíduo assume ao produzir sua mensagem a partir de uma colagem de outros conteúdos publicados. Completamente alheia à opinião do usuário — afinal, ele ainda tem direito a publicá-la no próprio perfil —, a Lupa expôs a marca e a notícia de Oeste de forma pejorativa e sem nenhuma justificativa jornalística.

De repente, o que era para ser checagem de fatos se transforma em jogo de opiniões. Basta que alguém se incomode com algum acontecimento noticiado e — pronto! — ele corre o risco de ser tachado de fake news. Isso acontece porque o trabalho das agências começa com a compilação de denúncias de conteúdos supostamente impróprios ou enganosos, feitas por qualquer grupo de usuários nas redes sociais, inclusive por milícias virtuais.

Por mais que o sistema que recebe as denúncias opere por machine learning, não há inteligência artificial capaz de interpretar as motivações de quem denuncia um conteúdo. Como separar denúncias feitas com base numa real desconfiança daquelas motivadas pela simples oposição a valores ideológicos?

Ao receberem a notificação dos conteúdos reportados pelos usuários, as agências de fact checking podem fazer um recorte e direcionar seus canhões àquilo que mais lhes convém ou que chancele suas convicções políticas. O cenário para criar uma narrativa oportuna é perfeito; afinal, além de elas estarem incumbidas de decidir o que é verdade e o que é mentira, não há quem cheque os checadores.

Nos sites dessas agências há inúmeras explicações sobre o processo que dizem adotar e os métodos que se comprometem a usar. Todas as explicações mencionam apartidarismo e precisão. As agências também firmam o compromisso de que seus profissionais não atuarão como apoiadores de partidos políticos, governantes ou candidatos. Tampouco vão advogar contra ou a favor de quaisquer posições políticas em quaisquer questões, exceto pela transparência e precisão no debate público — é o que estabelece a cláusula 2.4 do termo de compromisso da International Fact-Checking Network, entidade internacional que certifica a atuação de agências como Lupa e Aos Fatos.

Na vida real, entretanto, a história é diferente. Com o aquecimento da polarização política nas redes sociais, os fact checkers não se contiveram em avaliar sites e posts de boatos, mas passaram a escrutinar e classificar o trabalho de outros jornalistas. Ou melhor, o protocolo jornalístico de produção de notícia pouco importa; a preocupação maior é com o teor das pautas, o enfoque e o conteúdo apresentado pelas fontes.

Já não importa que um repórter entreviste uma autoridade, consulte documentos públicos e relate essas informações numa notícia. Se alguém nas redes sociais não gostar ou discordar do que a fonte disse ao repórter, quem paga o pato é o veículo jornalístico, que terá seu conteúdo rotulado de fake news e sofrerá punições aplicadas pela rede social.

Isso aconteceu inclusive com conteúdos da Revista Oeste.

Em janeiro deste ano, o repórter Artur Piva publicou a história da cidade mineira de São Lourenço, onde, num dia específico, não havia um só paciente internado na UTI por conta da covid-19. A informação constava em um boletim emitido pela prefeitura. A matéria trazia ainda uma declaração do prefeito, Walter Lessa (PTB), relatando a adoção do tratamento precoce em casos de suspeita da doença. Ainda que estivesse usando informações oficiais da cidade, o repórter de Oeste viu seu trabalho ser categorizado como “conteúdo enganoso” e “peça de desinformação” pela agência Aos Fatos.

O procedimento jornalístico de apuração, edição e publicação foi cumprido. O relato era verídico e todos os dados foram atribuídos a fontes oficiais. Mas a equipe de Aos Fatos discordava do prefeito ouvido na matéria, o que foi suficiente para atestar que a notícia era falsa. Tão falsa como se o repórter tivesse inventado o fato de as UTIs de São Lourenço estarem vazias ou simplesmente criado uma declaração de alguma autoridade. A contestação da agência, entretanto, concentrou-se basicamente em questionar a validade do tratamento precoce e, mergulhada na bandeira ideológica, esqueceu de avaliar o jornalismo.

O mais curioso é que, no final do texto publicado por Marco Faustino no site de Aos Fatos, a informação trazida por Oeste é confirmada: “Em 15 de março, de fato não há habitantes da cidade na UTI, mas os boletins entre os dias 22 de fevereiro e 2 de março mostram um caso de internação”. A notícia foi feita e publicada no dia 15 de março; o escopo da pauta não era de um mês antes. A propósito: o objeto do jornalismo sempre foi a atualidade.

Outro lapso de tempo foi protagonizado quando Aos Fatos comparou uma matéria de Oeste sobre as queimadas na Amazônia com o conteúdo reportado por boa parte da mídia mainstream. Em 20 de julho de 2020, a editora de Oeste Branca Nunes publicou: “Imagem da Nasa prova que a floresta amazônica não está em chamas”. A fonte de Branca era uma fotografia captada pelo Fire Information for Resource Management System, da agência espacial norte-americana, que mostrava focos de incêndio realmente esparsos no território brasileiro, dois dias antes, em 18 de julho.

Àquela altura, no entanto, muitos veículos preferiam usar imagens mais antigas, produzidas um mês antes por outra fonte, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Segundo esses outros veículos, as fotos do Inpe mostravam uma floresta em chamas, e essa narrativa combinava mais com as preferências da equipe de Aos Fatos. Assim, não foi difícil para a agência retirar de circulação nas redes sociais mais um conteúdo de Oeste. A matéria de Branca Nunes foi classificada como fake news, apesar de mostrar evidências e mencionar uma fonte de confiabilidade inquestionável pela comunidade científica internacional. Eram duas fontes: cada uma referente a um período; cada uma mostrando uma informação diferente. Por que a informação do Inpe era verdadeira e a da Nasa, mostrada por Oeste, resultaria numa notícia falsa?

No Facebook, a chamada para a notícia recebeu o constrangedor rótulo de “Informação falsa checada por verificadores de fatos independentes”. A fanpage de Oeste foi penalizada com a redução brusca da distribuição de seus conteúdos. Ambas as penalidades são anunciadas pelo próprio Facebook como ações que a plataforma pode tomar caso algum de seus fact checkers contratados ateste a falsidade de um conteúdo.

Na lista de providências que a rede se dispõe a tomar, não consta o questionamento das agências de fact checking. Ou seja, o que elas dizem é o que vale. E ponto-final. Oeste tentou contato com a área de atendimento à imprensa e parceria com veículos do Facebook, mas todas as mensagens enviadas pela redação foram bloqueadas pela rede social.



A Revista Oeste perguntou objetivamente à agência Aos Fatos quais informações apresentadas em ambas as notícias eram inverídicas. Apesar de ter sugerido que esta e outras perguntas fossem enviadas ao seu e-mail, Ana Rita Cunha, chefe de reportagem de Aos Fatos, não respondeu sequer a uma delas. Apenas enviou uma nota na qual afirma que a agência tem “compromisso com o apartidarismo e a equidade e com a transparência de fontes e métodos”. A nota diz ainda: “Usamos os mesmos parâmetros para checar conteúdos de qualquer espectro político-ideológico. Não advogamos por agendas políticas ou declaramos preferência ideológica em assuntos que checamos”.

Além da Lupa e da Aos Fatos, o Brasil conta hoje com uma série de outras agências de checagem menores e também de uma coalizão de 28 veículos da mídia mainstream que atuam em parceria com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a Abraji, na checagem de notícias publicadas por outros meios de comunicação. O projeto, chamado Comprova, se propõe a investigar “conteúdos duvidosos publicados nas redes sociais sobre pandemia e políticas públicas no âmbito do governo federal”.

Segundo o editor-chefe do Comprova, Sérgio Lüdtke, os conteúdos checados pela rede são selecionados pelo volume de viralização, desde que obedecidos os critérios do escopo. Três a quatro jornalistas de veículos diferentes investigam o material e produzem um relatório sobre a investigação. Outros três jornalistas de outros veículos são envolvidos no processo para revisar o trabalho dos colegas. O resultado do trabalho é publicado após haver consenso de todo o grupo envolvido.

No site do Comprova, o projeto declara ter um conselho editorial encarregado de identificar “qualquer padrão enviesado não intencional”. Questionado se o conselho já havia encontrado alguma ocorrência de enviesamento nas investigações, Lüdtke afirmou: “Não encontrou”.

Assim como as agências Lupa e Aos Fatos, o Comprova também é financiado pelo Facebook e pelo Google. Ao lado de outros gigantes do Vale do Silício, como Amazon, Apple, Microsoft, Oracle, Netflix e Twitter, as líderes mundiais do mercado de tecnologia já são tradicionalmente conhecidas por financiar projetos ligados à pauta progressista.

A campanha de Joe Biden foi a principal beneficiada pelas generosas doações dos donos e dos funcionários das big techs. De acordo com o Centro de Responsabilidade Política Open Secrets, elas correspondem a cinco dos sete maiores doadores que ajudaram a derrubar Donald Trump. As razões passam até mesmo por questões pessoais. Segundo a revista Observer, Trump é desafeto particular de Jeff Bezos, CEO da Amazon. Entre cifras que variam de US$1 milhão a US$ 21 milhões por empresa, nada menos que 98% das doações do Vale do Silício foram direcionadas à campanha de Biden.

Olhando para o cenário macro da comunicação interpessoal e midiática, portanto, um dos setores mais fortes da economia global — a indústria da tecnologia — é capaz de atuar decisivamente para definir a Presidência dos Estados Unidos, além de decidir o que é verdade e o que é mentira na imprensa mundial. As agências de fact checking, por sua vez, aproveitam a incapacidade das redes sociais de combater as fake news e prometem ser a voz da verdade.

Se o que conta, para as big techs, são as causas progressistas, é para aí que essas empresas multimilionárias e supercapitalistas direcionarão suas verbas de social justice warrior. Com dinheiro na mão e pseudo-poder para rotular o mundo, os verificadores parecem menos preocupados com os fatos e mais atentos a atender quem os financia. O resultado se vê no tribunal de fact checkers negando verdades incômodas ao pensamento progressista apresentadas por veículos jornalísticos profissionais. É a vitória da pós-verdade que não aceita contestação.

Checadores de Ideias

quinta-feira, 6 de maio de 2021

VAMOS PARAR DE FINGIR?

A CPI da Covid é uma trapaça histórica que se manterá distante da principal questão: a inépcia e a malversação de dinheiro do Erário por parte dos que foram encarregados de tratar da covid.


A aglomeração que o Senado Federal inventou com o título de “C.P.I.” e a função, no papel, de investigar atos de imperícia, de imprudência e de negligência — mais os de má-fé — cometidos em volta do governo federal em um ano de combate à covid é um conto do vigário gigante. “Comissões parlamentares de inquérito”, sejam as montadas na Câmara dos Deputados ou as do Senado, são, há mais de 100 anos, um dos golpes preferidos dos políticos brasileiros. Não se destinam a fazer inquérito nenhum, nunca, nem apurar responsabilidade de ninguém, nem, muito menos, punir algum culpado. Servem, ao exato contrário, para proteger os criminosos de verdade com o imutável grito de “pega ladrão” que a bandidagem usa quando se vê ameaçada; além disso são empregadas para promover os interesses pessoais mais grosseiros da politicalha. Este golpe de agora, o da covid, está com todo o jeito de ser um marco histórico em matéria de safadeza, hipocrisia, desperdício de dinheiro público e inutilidade, pura e simples, por parte do Congresso Nacional.

É um fato de conhecimento comum até nos jardins de infância que nunca se roubou tanto neste país, desde os incomparáveis governos Lula-Dilma, quanto se roubou agora por conta da covid. A roubalheira do PT, na verdade, foi distribuída ao longo dos treze anos e meio de dois governos; a de agora está toda concentrada em pouco mais de um ano de atividade intensa. Como poderia ser diferente? As “autoridades locais”, ou seja, os 27 governadores e 5.500 prefeitos do Brasil, ganharam do STF a tarefa — e plena autonomia — para administrar como melhor entendessem o combate à epidemia. Como ficou claro desde o primeiro dia, nenhuma decisão “local” poderia ser modificada, nem muito menos vetada, pelo governo federal; ao contrário, por ordem do STF, a União foi legalmente proibida de mexer uma palha em qualquer coisa que os governadores e prefeitos fizessem. Só estava obrigada a soltar verba — e pagar o “auxílio de emergência” a quem perdeu trabalho e renda por causa da repressão ao trabalho, à produção e à atividade econômica imposta pelas “autoridades locais”. É óbvio o que iria acontecer com todo esse poder distribuído — sem nenhum controle — a tão pouca gente: surtos de incompetência, desperdício em massa de dinheiro público e ladroagem explícita. Depois do “Mensalão” e do “Petrolão”, chegou a vez do “Covidão”.

Que tal parar de fingir por uns minutos? Todo mundo sabe desde criança que político brasileiro rouba; nem todos, é claro, mas a maioria mete a mão com o desespero de um homem-bomba muçulmano ou, então, se faz de bobo e deixa que roubem o que quiserem em volta de si. Por que diabo, então, seria diferente nesse caso? Só por que é uma doença? Não seja por isso; no governo Lula, por sinal, roubaram até sangue dos hospitais, naquele notável escândalo da máfia dos vampiros que deixou lembranças até hoje. Dinheiro é dinheiro. Se vem com a covid ou com as empreiteiras de obra, com o vírus ou com o pré-sal, tanto faz — o que interessa é a “verba liberada” e o dinheiro depositado no banco. O resto é conversa de CPI e para analista de telejornal do horário nobre.

Governadores, prefeitos, seus familiares, os amigos e os amigos dos amigos não contaram apenas com essa decisão sagrada do STF, e com o apoio quase integral das “instituições”, do Brasil “que pensa” e dos meios de comunicação. Mais que isso, tiveram a bênção do “estado de emergência”, um pé de cabra legal que permitiu aos gestores locais gastarem dinheiro público sem controle nenhum: sem concorrência pública, sem licitação, sem necessidade de prestar conta. Se já é uma dificuldade extrema segurar a roubalheira com todas as regras e contrarregras que existem por aí, imagine-se, então, o que acontece quando praticamente não há controle algum. Mais: ninguém aqui está falando de uns trocados. As “autoridades locais” receberam ao longo do último ano, em verbas federais, cerca de R$ 60 bilhões para cuidar da epidemia — dinheiro que o Tesouro Nacional não tem, mas que sempre é fácil tirar dos impostos que a população paga todos os dias, a cada vez que acende a luz ou põe um litro de combustível no tanque. Hoje em dia, com essa história de dizer 1 bilhão aqui, 1 bilhão ali, pode parecer banal, mas 60 bi é uma imensidão em termos de dinheiro. Para se ter um começo de ideia: o total dos gastos federais com a educação, em um ano, ficou em R$ 40 bilhões. A covid comeu uma vez e meia isso aí.

Aparecem agora os heróis da mídia no papel de resistentes ao “fascismo”

Para completar o seu sonho de consumo, as “autoridades locais” contaram com a ajuda vital do Ministério Público, da Polícia Federal e da mídia em geral, que estão de olhos praticamente fechados há mais de um ano, quando se trata de corrupção na covid. Há exceções, claro: o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, foi posto para fora do palácio em agosto do ano passado, destituído e até preso, no meio de uma tempestade de acusações de roubo na gestão da epidemia. Mas Witzel, claramente, é um caso fora da curva. Num Estado que já teve um colosso na história da corrupção universal como o ex-governador Sérgio Cabral, com mais de 200 anos de cadeia nas costas por roubar de tudo (para não falar de Anthony Garotinho e sua mulher, Rosinha), conseguir ser demitido do governo, como ele foi, é realmente qualquer coisa de paranormal. Na vida mais normal, a governadorzada e a prefeitada deitaram e rolaram, sem que as denúncias apresentadas contra eles tenham atraído a real atenção do MP, da PF ou da imprensa; saiu alguma coisinha aqui, outra ali, mas absolutamente nada que lembrasse, nem de longe, a fúria moral de todos quando os acusados fazem parte da sua lista negra.

Diante de mais essa calamidade — uma epidemia que ultrapassou os 400 mil mortos, incompetência maciça de governos estaduais e prefeituras e corrupção especialmente perversa —, o Senado faz o quê? Faz exatamente o que as “instituições democráticas” do Brasil sempre fizeram: enterra o problema real, salva os culpados e dá às piores figuras, mais uma vez, a oportunidade de virarem heróis da mídia no papel de resistentes ao “fascismo”, à “direita” e ao “genocídio”. A questão, se querem mesmo investigar alguém, é a inépcia e a malversação de dinheiro do Erário por parte dos que foram encarregados de tratar da covid — as “autoridades locais.” Em vez disso, investigam o governo federal — que não tem quem o defenda, dentro e fora do mundo político, e vai ficar apanhando quieto até os arquiduques da “Resistência” tirarem tudo o que podem da CPI e partirem para outra. É desastre com perda total.

Como acontece quase sempre na vida pública brasileira, a trapaça das “investigações” se repete como farsa, ou como espetáculo de humor macabro. Nada revela tão bem o deboche de tudo isso quanto a lista de membros da CPI. O presidente é um senador do Amazonas envolvido até o talo na confusão: sua própria mulher, além de irmãos, já foram presos por ladroagem na área da saúde — da saúde, justamente, dentro de um escândalo que se arrasta há cinco anos no Estado e na capital, Manaus, e é objeto das operações Maus Caminhos e Cash Back, da Polícia Federal. O representante titular do PT é o senador Humberto Costa — ninguém menos que o “Drácula” da lista de políticos comprados pela construtora Odebrecht, codinome que recebeu por seu envolvimento junto à máfia que roubava sangue da rede pública de hospitais quando ele era ministro da Saúde de Lula. Há outra estrela da relação de salteadores da Odebrecht: o “Whiskey”, apelido do senador Jader Barbalho, do Pará. (Deu para entender a presença de Amazonas e Pará na CPI? Pois então: são exatamente os dois Estados, fora o Rio, onde mais se roubou neste ano de covid.)

O ponto alto do show, entretanto, é o senador Renan Calheiros no papel de relator da CPI, nada menos que isso. Renan é um dos membros mais enrolados com o Código Penal que dão expediente nesse espantoso Senado brasileiro — não deve haver, aliás, caso igual ao dele em nenhum Senado do mundo. Ou seja: os políticos não apenas insultam a população com a sua CPI; também fizeram questão de pisar em cima, com a nomeação de Renan. É como se estivessem dizendo: “Isso aqui é o Senado Federal. Polícia, promotor e juiz, aqui dentro, são o Renan e a sua turma”. Não é nenhuma surpresa, por sinal, que o senador que foge da lei há 30 anos tenha se tornado um grande estadista aos olhos da mídia brasileira de hoje; é claro, ele se reinventou como marechal de campo da esquerda nacional, líder da oposição ao presidente da República e apóstolo intransigente da guerra ao “negacionismo”. É tratado, em consequência, como um gigante da nossa política. Suas declarações aparecem em todas as primeiras páginas, nos telejornais e nos programas de rádio. Seu passado, que está presente nos autos, foi “cancelado” do noticiário, como se diz hoje. Ele não fez nada de errado, nunca. É a estrela da CPI, dos editoriais e do “campo progressista”. Aboliu-se uma realidade; foi construída outra em seu lugar. Eis aí a política do Brasil, mais uma vez. É assim que funciona.

J.R. Guzzo

sexta-feira, 30 de abril de 2021

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Conheça a origem do Dia do Imigrante italiano no Brasil

Publicado Anny Malagolini dia 21 de fevereiro de 2021

Conheça a origem do Dia do Imigrante italiano no Brasil

Conheça a origem do Dia do Imigrante italiano no Brasil

O “Dia do Imigrante Italiano” é celebrado em 21 de fevereiro no Brasil. Estima-se que mais de 30 milhões de brasileiros são descendentes de italianos, o que faz do Brasil o país com maior número de descendentes italianos no mundo.

A data foi instituída em 2008 para homenagear o maior movimento migratório internacional  e relembra a chegada em Vitória (ES) do navio La Sofia, em 21 de fevereiro de 1874. Este dia que ficou marcado simbolicamente como o início do processo de migração em massa de italianos para o Brasil.

No dia 21 de fevereiro de 1874, chegava ao Brasil o Vapor “La Sofia” com a primeira leva de imigrantes italianos, composta por 380 famílias. Em homenagem a esta data, desde 2008 o Brasil celebra o “Dia Nacional do Imigrante Italiano” todo 21 fevereiro.

Dia do Imigrante italiano no Brasil: origem

A imigração italiana no Brasil teve duas fases. Na primeira, famílias inteiras vieram para trabalhar no campo. Em São Paulo, Minas Gerais e Paraná, o café estava em franca expansão na segunda metade do século XIX e era a principal atividade econômica do Brasil. No sul do país, os italianos se dedicaram à produção de uva e de vinho, atividades a que já estavam familiarizados.

Mas cruzar o Atlântico em direção à América não era nada fácil: a viagem, na terceira classe do navio a vapor, podia durar até 40 dias.

Para ajudar a passar o tempo dentro do navio, tornar a viagem mais leve e evitar que o pensamento pairasse em tudo e em todos que foram deixados para trás, a cantoria era comum, e uma das músicas preferidas era a canção folclórica Mérica, Mérica: – “Mérica, Mérica, Mérica, cossa sarà ‘sta Mérica? Mérica, Mérica, Mérica”.

Por que os italianos vieram para o Brasil?

Os italianos, como todos os demais imigrantes, deixaram seu país basicamente por motivos econômicos e socioculturais. A emigração, que era muito praticada na Europa, aliviava os países de pressões socioeconômicas, além de alimentá-los com um fluxo de renda vindo do exterior, em nada desprezível, pois era comum que imigrantes enviassem economias para os parentes que haviam ficado.

No caso específico da Itália, depois de um longo período de mais de 20 anos de lutas para a unificação do país, sua população, particularmente a rural e mais pobre, tinha dificuldade de sobreviver quer nas pequenas propriedades que possuía ou onde simplesmente trabalhava,quer nas cidades, para onde se deslocava em busca de trabalho.

Nessas condições, portanto, a emigração era não só estimulada pelo governo, como era, também, uma solução de sobrevivência para as famílias. Assim, é possível entender a saída de cerca de 7 milhões de italianos no período compreendido entre 1860 e 1920.

Dia do Imigrante Italiano

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

O FRACASSO DO LOCKDOWN

 

Sem base em dados e em prejuízo dos mais pobres, autoridades insistem no fechamento de atividades econômicas

m março de 2020, para tentar conter o aumento de casos de coronavírus no Brasil, prefeitos e governadores decidiram fechar as escolas, proibir a abertura de bares e restaurantes, impedir o funcionamento de academias de ginástica e salões de beleza e restringir o máximo possível a circulação de pessoas. Passados dez meses, para tentar conter o aumento de casos de coronavírus no Brasil, prefeitos e governadores decidiram fechar as escolas, proibir a abertura de bares e restaurantes, impedir o funcionamento de academias de ginástica e salões de beleza e restringir o máximo possível a circulação de pessoas.

Uma frase atribuída a Albert Einstein diz que “insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes”. Nada resume com mais precisão a atitude de governantes que insistem em decretar medidas drásticas de isolamento social — o chamado lockdown — para controlar a expansão da pandemia. A realidade informa que elas não foram bem-sucedidas antes. Também não o serão agora.

Quarentena escolar

No dia 13 de março do ano passado, as escolas públicas e privadas do Estado de São Paulo receberam a notícia de que, na semana seguinte, teriam de fechar as portas por tempo indeterminado. “Não sei se vai durar uma semana, duas semanas, 30 dias ou mais”, disse na época Rossieli Soares, secretário estadual de Educação, numa entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. “Vamos avaliar dia a dia, até que as autoridades de Saúde digam que as aulas poderão ser retomadas.” Assim teve início aquela que se tornaria a quarentena escolar mais longa do planeta.

Um levantamento realizado pela Unesco e divulgado em 24 de janeiro mostrou que, enquanto a maioria dos países fechou suas escolas por pouco mais de 20 semanas, no Brasil, as crianças e adolescentes ficaram longe das salas de aula pelo dobro do tempo: 40 semanas. Nesse recorde, o país só se equipara à Argentina, Chile, Moçambique e Etiópia. De acordo com o estudo, aproximadamente 800 milhões de estudantes no mundo foram afetados e as instituições de ensino passaram, em média, dois terços do ano letivo fechadas.

No Brasil, quase 50 milhões de estudantes ficaram entregues à própria sorte — particularmente os 80% matriculados em escolas públicas. Destes, cerca de 25% não têm acesso à internet. Uma pesquisa do Ibope realizada em agosto mostrou que, em domicílios com renda per capita de até meio salário mínimo, um quarto dos estudantes não teve sequer acesso à educação remota. No mês de outubro, conforme a Pnad Covid19 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 6 milhões de alunos de 6 a 29 anos, da educação básica ao ensino superior, não tiveram acesso a atividades escolares. Na educação básica, “inexistência de aulas” e “dificuldade com o acesso remoto” foram as principais causas da evasão escolar. No ano da pandemia, cerca de 4 milhões de jovens abandonaram os estudos, segundo uma pesquisa encomendada pelo banco digital C6 Bank.

Alfabetizar as crianças com aulas remotas é um dos maiores desafios. “Pessoalmente, consigo fazer com que elas sintam o som das letras; a distância, não dá”, lamentou a professora Rizomar Maria de Menezes, numa reportagem publicada na Folha de S.Paulo. “Nenhuma criança do primeiro ano conseguiu se alfabetizar. Normalmente, no final dessa série, a maioria estaria lendo e escrevendo um pouco.” Para Alexandre Schneider, ex-secretário municipal de Educação de São Paulo, as crianças não estão apenas paradas. “Muitas vão andar para trás e, para recuperar, levarão dois, três anos”, constatou na mesma reportagem. “É dramático do ponto de vista pedagógico.”

Um estudo coordenado pelo médico Fabio Jung, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e publicado em setembro de 2020, mostrou que o fechamento das escolas também ameaça a saúde psiquiátrica de crianças e adolescentes, compromete a segurança alimentar e os torna mais expostos a abusos e maus-tratos, a drogas e violência. Cerca de 30% das crianças em confinamento podem passar a sofrer de transtorno do estresse pós-traumático.

“É importante entender que a escola vai muito além da aprendizagem”, lembrou Cláudia Costin, na reportagem “A educação pode ser a maior vítima da epidemia de medo”, publicada em Oeste. “A escola é o espaço de socialização, de vivências, além de oferecer uma rede de proteção social à infância.”

Provas irrefutáveis

Pelo menos desde julho de 2020, o mundo sabe que a volta às aulas não compromete a saúde dos alunos nem acelera a transmissão do vírus. Muito menos suscetíveis à covid-19, crianças representam apenas 2% dos casos confirmados da doença e menos de 1% dos óbitos. Além disso, abaixo dos 11 anos, elas transmitem muito pouco e, quando contaminadas, são assintomáticas ou apresentam sintomas leves. O coronavírus é 4,5 vezes menos agressivo que a gripe (influenza) na faixa etária até 14 anos, por exemplo.

Um estudo realizado pela fundação suíça Insights for Education com dados de 191 países e publicado em outubro concluiu que quase todas as nações que estavam sem aulas presenciais na primeira onda da pandemia eram países pobres e que teriam um prejuízo incalculável pelo déficit educacional. A maioria dos que enfrentavam a segunda onda, entretanto, permanecia com as escolas abertas. “Esse é o caso, por exemplo, do Japão, que durante o período do estudo passou por duas ondas de infecção, com o pico da segunda sendo notavelmente mais alto que o primeiro”, mostrou uma reportagem da Gazeta do Povo. “O ápice das contaminações até então havia ocorrido em agosto, durante as férias de verão. Mas o sistema de ensino retornou normalmente às aulas mesmo com os casos ainda bastante altos.”

O economista Luís Artur Nogueira classificou a quarentena escolar como “um crime contra as crianças”. “Neste um ano de pandemia, o número de mortos e contaminados pelo coronavírus aumentou, diminuiu e voltou a crescer mesmo com as escolas fechadas”, observou. “Ou seja, elas não tiveram absolutamente nenhuma influência.” Rossieli Soares, ao lembrar que algumas escolas reabriram para atividades extracurriculares em outubro de 2020, garantiu: “Não registramos uma única contaminação dentro das escolas, nem entre alunos nem entre alunos e professores”.

Irrefutáveis, os argumentos a favor das aulas presenciais englobam constatações científicas que mostram que o afastamento do ambiente escolar prejudica, além do rendimento acadêmico, o desenvolvimento das capacidades sociais, o vínculo aluno-professor e a saúde mental. “Não deveríamos de forma alguma estar discutindo se devemos ou não voltar”, disse Rossieli. “Mas como fazemos para voltar o mais rápido possível.”

Apesar disso, o risco de as escolas permanecerem fechadas ainda ronda os estudantes. Até agora, nem todos os governadores e prefeitos se comprometeram com a retomada das aulas presenciais em fevereiro. E dezenas de sindicatos de professores espalhados pelo Brasil ameaçaram entrar em greve e paralisar aulas que ainda nem começaram. Motivo: querem estar entre os primeiros na fila de vacinação contra a covid-19.

Na quarta-feira 27, o governo de São Paulo confirmou a reabertura em 1º de fevereiro. No dia seguinte, a decisão foi suspensa pelo Tribunal de Justiça do Estado sob o argumento de que “a situação atual da crise sanitária não justifica a retomada das aulas presenciais nas escolas localizadas nas áreas classificadas nas fases laranja e vermelha, em nome da proteção ao direito à vida”. A ação foi protocolada por quatro sindicatos de professores. Nesta sexta-feira, 29, o governo recorreu e a liminar foi derrubada.

Quarentena gastronômica

Não foram apenas as escolas. Bares e restaurantes também se transformaram em bodes expiatórios, responsáveis pelo aumento das contaminações. Solução? Fechá-los. Assim, em quase todo o país, suporta-se uma “quarentena gastronômica” ainda sem prazo para acabar.

“O que está acontecendo com o setor é uma tragédia”, resumiu Percival Maricato, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes em São Paulo (Abrasel-SP). “Cerca de 30% dos bares e restaurantes já fecharam as portas. Se houver um segundo lockdown, nem 20% conseguirão permanecer abertos.”

Poucos meses atrás, o governo paulista permitiu que os estabelecimentos voltassem a receber clientes de forma presencial até as 23 horas, com 60% da capacidade. Há uma semana, João Doria e seu “comitê de especialistas” mudaram de ideia. Desde 25 de janeiro, os bares e restaurantes devem encerrar as atividades às 20 horas, de segunda a sexta-feira, e permanecer fechados nos fins de semana.

Esse mesmo comitê de notáveis não enxerga muito contágio nas festas clandestinas e pancadões que proliferam pela cidade, com centenas de pessoas aglomeradas. E nenhum de seus integrantes viu nada de mais durante os eventos de campanha ou nas comemorações de vitória das eleições de 2020. O problema, para eles, são os restaurantes — onde o distanciamento social é cumprido à risca, a temperatura é medida na entrada, o álcool em gel está ao alcance dos clientes, os garçons usam uma proteção de acrílico sobre a máscara e mesas e cadeiras são desinfetadas incontáveis vezes por dia.

“Não são as 15, 20 pessoas sentadas distantes umas das outras nos restaurantes que estão causando essa pandemia”, observou Maricato. “Estão sacrificando um dos setores que mais geram empregos, atraem turistas e podem contribuir muito para a retomada econômica.” Só no Estado de São Paulo, cerca de 300 estabelecimentos entram em falência diariamente, deixando quase 2 mil desempregados. “É como se uma fábrica da Ford fechasse por semana no país”, compara.

 Uma pandemia de desemprego

O economista Luís Artur Nogueira estuda justamente as consequências do lockdown no mercado formal de empregos. “No período de março a junho de 2020, quando prefeitos e governadores adotaram severas restrições ao funcionamento das empresas, o saldo entre vagas formais abertas e fechadas foi negativo em 1,6 milhão”, escreveu. “No período seguinte, de julho a dezembro, quando houve um processo de reabertura da economia, o saldo de vagas formais foi positivo em 1,4 milhão.” Ou seja, ainda há um déficit de 200 mil empregos.

“É importante ressaltar que o quadro só não foi pior graças ao Benefício Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, criado pelo governo federal, que permitiu a suspensão de contratos de trabalho ou a redução de jornada e salário, evitando ainda mais demissões”, afirmou Nogueira. “Além disso, a sociedade, de forma solidária, tentou, quanto possível, manter o pagamento a prestadores de serviços próximos, como a manicure, a diarista, o pipoqueiro que trabalhava na porta da escola. Dificilmente haverá esse suporte num segundo fechamento.”

Para Nogueira, a ideia de lockdown até pôde ser considerada aceitável no início, durante os primeiros 30 a 40 dias, quando a pandemia era uma novidade e ninguém conhecia o vírus. “Os cidadãos ficam em casa nesse período, os cientistas estudam, descobrem as formas de lidar com essa doença, quais são os grupos de risco e as medidas preventivas”, afirmou. “Mas repetir isso agora é um absurdo, porque tivemos a prova de que não funciona. Trata-se de um assassinato de empregos, principalmente contra os brasileiros mais carentes.”

É justamente essa parte da população a maior vítima do lockdown: o estudante de escola pública sem acesso à internet, o frentista do posto de gasolina, o entregador de comida, a diarista, o caixa do supermercado. Esses não deixaram em nenhum momento de se deslocar por duas horas em ônibus, trens e metrôs superlotados para atender uma elite que pode permanecer confinada em casas com quintal, apartamentos com varanda gourmet ou casas na praia. Todos desfrutando de seu confinamento vip — como define o jornalista Guilherme Fiuza —, munidos de supercomputadores movidos a internet 4G. Estima-se que, passada a  pandemia, o mundo terá mais 150 milhões de indivíduos vivendo abaixo da linha de pobreza.

Surtos de sanidade

“Pelo menos 50% da população não conseguiu parar em nenhum momento”, afirmou o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), um dos maiores críticos do lockdown desde que a ideia do trancamento coletivo da sociedade surgiu no debate. Secretário estadual da Saúde do Rio Grande do Sul durante o surto de H1N1, ele repete há meses: “Os padrões de contágio de qualquer vírus são universais”. Sendo assim, as contaminações só vão cessar quando chegar a tão esperada imunidade de rebanho. Ou seja, quando mais de 80% da população entrar em contato com o vírus e estiver imunizada.

O que teria causado esse segundo aumento de casos? “Novas cepas”, afirmou Terra, didaticamente, ao explicar que, quando os vírus vão perdendo força, é normal que variações mais resistentes surjam para tentar sobreviver. “Depois de algumas semanas de crescimento, a curva naturalmente volta a diminuir”, concluiu. O deputado salientou que o sistema hospitalar do Amazonas entrou em colapso não apenas por causa do alto poder de contágio do vírus, mas porque já estava em frangalhos. “Com população de 2,2 milhões de pessoas, Manaus tem 300 leitos de UTI”, afirmou. “Porto Alegre, com 700 mil habitantes a menos, tem quase 600 só no SUS.”

De acordo com Terra, a prova da ineficiência do lockdown é que, nos países onde ele foi mais rígido, o número de mortes não diminuiu. A Bélgica, por exemplo, que protagonizou um dos fechamentos mais radicais do planeta, inclusive usando drones para fiscalizar se seus cidadãos estavam saindo de casa, é o campeão de mortes por milhão de habitantes (1.802). “O que vimos no mundo foi não apenas uma epidemia viral”, disse. “Houve uma epidemia de desinformação, de medo e de completa ignorância científica.”

 

O psicólogo Bruno Campello, pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco, é outro crítico do lockdown. Segundo seus estudos, o número de mortes por covid-19 sempre aumenta de quatro a seis semanas depois de instauradas medidas de isolamento social. “A princípio parece um contrassenso, mas não é”, disse. “Esse é um vírus extremamente contagioso. Mesmo se você ficar em casa a maior parte do tempo, terá contato com ele mais cedo ou mais tarde, seja numa compra de comida, na entrega de água, seja ao precisar de um serviço hidráulico ou elétrico. Portanto, não faz sentido pedir que as pessoas fiquem trancadas 24 horas e, com isso, além de aumentar os casos de depressão e ansiedade, destruir a economia.”

Para Campello, assim como em qualquer outra doença, com o coronavírus o tratamento precoce também é a melhor forma de salvar uma vida. “Negar isso é um absurdo terraplanista negacionista”, ironizou. Infelizmente, o tema extrapolou os limites da ciência e descambou para a política. Embora não haja comprovação científica, existe uma série de evidências clínicas que mostram a eficácia de medicamentos, alguns deles com mais de 50 anos no mercado, vendidos sem prescrição médica e com baixo risco. “Existem cerca de 200 estudos publicados nas mais respeitadas revistas científicas do mundo relatando o sucesso de alguns remédios no tratamento da covid-19”, observou Campello.

Um fracasso cada vez mais anunciado

Professor do Departamento de Pediatria, Divisão de Medicina Intensiva, da Universidade de Alberta e especialista em infectologia do Hospital Infantil Stollery, em Edmonton, no Canadá, Ari Joffe era um defensor do confinamento rigoroso. Depois de avaliar os resultados práticos da medida, entretanto, o médico publicou um artigo descrevendo por que mudou de ideia. Entre os motivos, Joffe destaca que “as previsões iniciais de modelagem” induziram ao “medo” e ao “efeito manada” — ou seja, o pensamento de grupo. Além disso, o professor analisou os “danos colaterais significativos” em razão da pandemia. “No estudo de Joffe foi utilizada a metodologia de análise custo-benefício e se demonstrou que o custo — em vidas, não financeiro — do lockdown horizontal é 5 a 50 vezes maior que o da própria covid-19″, explica o neurocirurgião Paulo Porto de Melo.

O estudo canadense evidencia as perdas, em termos de assistência à saúde, que as restrições acarretaram para toda a população. “Por exemplo, uma pessoa com dor no peito que não foi ao hospital por causa da pandemia e sofreu um infarto”, observou Porto de Melo. “Caso ela houvesse procurado um médico nos primeiros sintomas, poderia ter recebido tratamento rápido, evitando comprometimentos cardíacos mais graves ou até mesmo a morte.”  O terrorismo instalado por “gestores” amparados pelo suposto “rigor científico” impediu que doenças fossem diagnosticadas precocemente e tratadas de forma correta. Isso mostra que vidas também se perdem em razão da demora ou privação de assistência de saúde impostas pelo fechamento e pelo medo gerado entre os pacientes.

 

Publicado pela revista britânica The Lancet em julho de 2020, outro estudo revelou que, em uma comparação entre 50 países, a covid-19 foi mais mortal em lugares com população mais velha e com maior taxa de obesidade, mas não se observou redução de mortalidade em países que fecharam suas fronteiras ou aplicaram o “bloqueio completo”. Na Universidade de Edimburgo, na Escócia, um pesquisador concluiu que as infecções na Grã-Bretanha já estavam diminuindo antes que o lockdown começasse no fim de março. Uma análise realizada pelo Instituto de Tecnologia de Karlsruhe descobriu que as infecções na Alemanha estavam se reduzindo na maior parte do país antes do início das medidas de confinamento. Também foi provado que o toque de recolher imposto na Baviera e em outros Estados não surtiu efeito. Nos Estados Unidos, menos de 1% da população vive em lares de idosos, mas, em janeiro de 2021, essa pequena fração foi responsável por 36% das mortes por covid-19 no país. Até mesmo quem estava “protegido” entre muros não escapou do contágio.

Errar e persistir

No Estado de São Paulo, novas medidas restritivas à circulação de pessoas foram impostas à população na última sexta-feira, 22. Segundo levantamento realizado por Oeste, caso o Estado paulista fosse um país independente, o número de mortos com a covid-19 por milhão de habitantes seria maior que o do Brasil. Outro gráfico, que compara o índice de confinamento com o número de óbitos, é mais uma prova de que o confinamento não diminui a quantidade de vítimas pela doença. Mesmo assim, o governador insiste em revisitar o erro.

O gráfico mostra a taxa de isolamento social e o número de mortos por dia no estado de São Paulo entre 12 de março de 2020 e 14 de janeiro de 2021. É possível notar que a oscilação nos óbitos não é influenciada pelo crescimento ou diminuição do confinamento

Prefeitos de algumas cidades do interior paulista, contudo, passaram a se recusar a obedecer às determinações do Plano São Paulo. Doria prometeu encaminhar os casos de rebeldia ao Ministério Público Estadual. No limite, a população já não aguenta mais episódios de tirania, autoritarismo e regras sem lógica alguma.

Não é só no Brasil que a paciência se esgotou. Na Itália, donos de bares e restaurantes criaram o movimento “Eu abro”. Nas redes sociais, já são mais de 50 mil apoiadores. A associação que representa o setor informou que os empreendedores estão “esgotados” e que a situação é “grave”. Na Holanda, mais de cem manifestantes foram presos ao ir às ruas protestar contra o toque de recolher baixado pelas autoridades.

Em Portugal, o governo socialista impôs restrições severas e empresários também foram às ruas protestar pelo retorno das atividades. O país viu explodir os registros de mortes por covid-19 neste primeiro mês do ano. A situação, entretanto, já era esperada, contou a médica gaúcha Nair Amaral, que trabalha há quase três anos em Lisboa e atua na linha de frente de atendimento a pacientes com covid-19 no país europeu. “No inverno, os ambientes são menos arejados, as pessoas estão confinadas em casa, com portas e janelas fechadas; o ar dos lugares fica mais saturado e o vírus está com maior capacidade de contágio por causa da variante”, afirmou numa entrevista à Rádio França Internacional (RFI). “Este é meu terceiro inverno em Portugal, e os outros também foram caóticos.”

Embora as medidas restritivas não tenham conseguido conter a pandemia em nenhum país, os fanáticos pelo lockdown desdenham das evidências. Fingem ignorar, por exemplo, que a Suécia, onde não se adotou nenhuma medida de confinamento, não está sequer entre os dez países com mais mortes por milhão de habitantes.

A mudança no discurso

No início da pandemia, ainda sem saber como lidar com o vírus, o lockdown foi implementado com o argumento de que era preciso “achatar a curva” de contágio e evitar que várias pessoas ficassem doentes ao mesmo tempo, colapsando os hospitais. A justificativa dos governantes era que precisavam de tempo para equipar o sistema de saúde a fim de atender à nova demanda. “O problema é que o lockdown deveria ter acontecido por um período de tempo curto, para que o sistema de saúde aumentasse sua oferta de leitos de UTI e capacidade de atendimento”, lembrou Porto de Melo. “É inconcebível que em um ano um gestor público não tenha conseguido ajustar o sistema de saúde para isso.”

Na ânsia por soluções rápidas, hospitais de campanha foram construídos às pressas para desafogar o já deficiente sistema hospitalar brasileiro. Apenas em São Paulo, mais de R$ 130 milhões foram gastos na construção de estabelecimentos para o combate à covid-19. As tendas com infraestrutura improvisada (o Hospital de Campanha do Anhembi, por exemplo, não resistiu à primeira chuva forte na capital) ficaram às moscas boa parte do tempo e foram desmontadas poucos meses depois. Agora, os gestores públicos que decidiram acabar com os hospitais de campanha e se esqueceram de combinar com o coronavírus reclamam da falta de leitos para internação.

Quase um ano depois da chegada do vírus chinês, a turma do #fiqueemcasa encontra agora uma razão após a outra para insistir em fechamentos, proibições, toques de recolher e outras imposições. A mais recente defende a ideia de que a liberação total só deve acontecer depois da vacinação em massa da população. A imunização contra a covid-19, contudo, ainda se encontra no início no Brasil e está provado que as pessoas, seguindo todos os protocolos de segurança, não precisam esperar trancadas dentro de casa até que ela aconteça.

“Na ausência de informação, pode-se manter o padrão de preservar a dignidade humana, a liberdade e o estado de direito, e então ir atrás de informação”, escreveu o economista Jeffrey Tucker, colunista da Revista Oeste. “Em vez disso, fez-se a opção de paralisar a sociedade por causa de incertezas.” Infelizmente, a tese do isolamento vertical, que preserva a população de risco em casa, mas permite que pessoas saudáveis retornem ao trabalho, ainda é rechaçada por grande parte da imprensa e por gestores públicos. Será que os políticos algum dia vão admitir o erro do lockdown?

Leia também o artigo “Os tecnocratas da pandemia” 

Revista Oeste

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

FELIZ 2021!

No ano passado...

Já repararam como é bom dizer "o ano passado"? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem...Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse "tudo" se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraodinária sensação de alívio, como só se poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado deparei com um despacho da Associeted Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:

"Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados".

Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos...

Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo-sexagésimo-quinto andar do ano passado.
Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição - morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova.

*Mario Quintana(1906-1994)


 

Joãozinho Doria, o pé de feijão e a vacina

 

Joãozinho Doria, o pé de feijão e a vacina

Joãozinho, não bastante ser muito rico, tinha sonhos de grandeza. Queria ser presidente. Dinheiro sem poder é só dinheiro. Poder, sem dinheiro é só poder. E Joãozinho sofria com isso. Os anos passavam e ele circulava assiduamente em meio aos poderosos. Entre suas muitas organizações se incluía a LIDE – Grupo de líderes empresariais que reunia anualmente empresários e poderosos figurões da política nacional num paraíso de Comandatuba (BA). Mas poder, mesmo, ele não tinha. Toda noite, ao contemplar estrelas pela janela do quarto, Joãozinho antevia crescer ali fora um gigantesco pé de feijão que o levaria até elas. Ele queria ser uma estrela luminosa na constelação do poder.

Foi assim que, depois de ocupar alguns cargos, Joãozinho se elegeu prefeito de São Paulo. Glória pequena para os anseios que lhe abrasavam o coração. Assumiu com aprovação de 44% e abandonou o posto, 16 meses depois, com apenas 18%. Queria ser governador de São Paulo.

Havia, porém, uma dificuldade. Como eleger-se governador, se rejeitado pelo povo da capital onde fora prefeito? Joãozinho tinha sua fada protetora. Como todas as fadas, bruxas e gnomos, a fada madrinha de Joãozinho Doria sabia, em 2018, o que apenas os grandes meios de comunicação e institutos de pesquisa, batendo pé no chão, se recusavam a ver: Bolsonaro, tapado de votos, seria presidente da República. E a fada levou-o até ele. Nasceu, ali, para Joãozinho, o que ele imaginava ser o pé de feijão que o levaria aos píncaros do poder político.

Eleito governador, graças ao apoio do capitão, que fez mais da metade dos votos em São Paulo no primeiro turno da eleição, e quase 70% dos votos no segundo turno, Joãozinho marcou território e tomou por inimigo aquele a quem devia sua vitória.

O pé de feijão, porém, em vez de crescer, encolheu. Em seguida sua rejeição voltava a superar sua aprovação. O coronavírus secara a terra? Joãozinho ficou muito triste vendo seu pé de feijão fenecer e flexionar até voltar ao chão. Enquanto isso acontecia, resolveu adotar como modelo o pior ministro do governo Bolsonaro, idolatrado, apesar disso, pela grande imprensa. Se o Mandetta usa o vírus para aparecer diariamente na TV e encanta esse jornalismo de poucas luzes, eu posso fazer a mesma coisa, deve ter pensado ele. E armou palanque paulistano com o noticiário do vírus. Era a exaustiva e depressiva receita da moda.

E o pé de feijão de Joãozinho Doria continuava, claro, sem tomar corpo.

Certo dia, a fada madrinha, já á beira de um ataque de nervos, enviou-lhe um comerciante chinês. O esperto mercador falou de uma vacina capaz de fazer o pé de feijão sarar seus males e crescer a perder de vista. No alto, haveria à sua espera uma harpa encantada, uma galinha poedeira de ovos preciosos, um gigante a derrotar e, claro, a ambicionada faixa de usar no peito.

***

As duas últimas pesquisas presidenciais são desalentadoras para Joãozinho Dória. Segundo Paraná Pesquisas (04/12), enquanto o atual presidente tem 36% das intenções de votos, seguido por Ciro Gomes com 12%, ele tem apenas 5%; a pesquisa Poder Data/Band (23/12), posterior, mostra Bolsonaro com 36%, Haddad com 13% e ele, Joãozinho, com apenas 3%. E a Coronavac do mercador chinês parece não ser lá essas coisas. Mas isso é outra história.

 

* Percival Puggina (76), membro da Academia Rio-Grandense de Letras e Cidadão de Porto Alegre, é arquiteto, empresário, escritor e titular do site Conservadores e Liberais (Puggina.org); colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Membro da ADCE. Integrante do grupo Pensar+.

*Percival Puggina

Jornal da Cidade