quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Governo Temer corta a verba para as páginas petistas, os chamados “blogs sujos”

Essas páginas, fartamente financiada com dinheiro do contribuinte, serviam e servem ainda como plataformas para espalhar difamações e achincalhes na esgotosfera.


O governo Temer, numa atitude obviamente correta, suspendeu o repasse de dinheiro público a 13 blogs ou sites que, atenção!, não devem ser caracterizados apenas como pró-PT. A coisa é pior. Já chego lá. São eles: Brasil 247, Carta Maior, Conversa Afiada, Diário do Centro do Mundo, Site Jornal GGN (Blog do Luís Nassif), Portal Fórum, Opera Mundi, Brasil Econômico, O Cafezinho, Portal Fórum, Sidney Rezende, Viomundo e Brasil de Fato.
Atenção! De janeiro a dezembro de 2015, informa a Folha, essas páginas haviam recebido do governo e de estatais R$ 5,1 milhões. Entre janeiro e junho de 2016, o valor caiu para R$ 1,54 milhão. Após esse período, a fonte secou. Gente como Luiz Nassif chama isso, ora vejam!, de “censura”. Como? Quer dizer que, se um veículo não recebe verba oficial, está sendo censurado? O que foi feito da boa e velha iniciativa privada?
Censura uma ova! O problema dessas páginas — e isso ficou claro num documento que vazou da Secom, ainda no primeiro governo Dilma — é que não eram usadas apenas para, vá lá, defender pontos de vista do PT e do governo. No mais das vezes, serviam e servem também à difamação daqueles que o partido considera “inimigos”. E isso não exclui ninguém: políticos, juízes, jornalistas, empresários… Enfim: o PT define o alvo, o governo dá (ou dava) a grana, e a turma dispara.
Informa a Folha:
“Na lista estão o Blog do Luís Nassif (R$ 746 mil), o Brasil 247 (R$ 732 mil), o Diário do Centro do Mundo (R$ 194 mil) e o Conversa Afiada (R$ 333 mil), do jornalista Paulo Henrique Amorim. Os valores totais podem ser maiores, pois a Petrobras e a Caixa não forneceram os números divididos por recebedor, apenas o total. O Banco do Brasil, por exemplo, pagou R$ 500 mil ao Blog do Nassif em 2015 e R$ 113 mil de janeiro a maio deste ano. Para o Brasil 247, foram R$ 491 mil no ano passado e mais R$ 120 mil nos cinco primeiros meses de 2016. O Conversa Afiada recebeu R$ 199 mil em 2015 e R$ 44 mil neste ano.”
Essa gente toda tenha a opinião que quiser. Eu tenho. Ocorre que ninguém me pagava antes para atacar os petistas, quando eles eram poder, nem me paga agora para fazer o mesmo, quando são oposição. Ou, então, para defender o governo Temer.
Se sites e blogs querem ser extensões de um partido político, que, então, sejam. Mas não à custa do dinheiro do contribuinte. De resto, no mais das vezes, essas páginas funcionavam, e ainda funcionam — dado que os governos petistas ainda balançam o berço de muitas delas —, como meras plataformas para espalhar difamações e achincalhes na esgotosfera.
E o fazem sem puder, sem limites, sem vergonha.
Há muitos anos este blog denuncia essa prática. Eis a verdade traduzida em números. Ademais, a máquina petista, incluindo os sindicatos, central, ONGs, prefeituras e governos de Estado, é gigantesca. Certamente os blogs sujos sobreviverão, fazendo o “trabalho” de sempre, sem o dinheiro federal. Deve ser uma experiência estranha não precisar nem de leitores.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Sobre os perigos da leitura - Rubem Alves

Sobre os perigos da leitura

Nos tempos em que eu era professor da UNICAMP fui designado presidente da comissão encarregada da seleção dos candidatos ao doutoramento, o que é um sofrimento. Dizer “esse entra”, “esse não entra” é uma responsabilidade dolorida da qual não se sai sem sentimentos de culpa. Como, em vinte minutos de conversa, decidir sobre a vida de uma pessoa amedrontada? Mas não havia alternativas. Essa era a regra.
Os candidatos amontoavam-se no corredor  recordando o que haviam lido da imensa lista de livros cuja leitura era exigida. Aí tive uma idéia que julguei brilhante.
Combinei com os meus colegas que faríamos a todos os candidatos uma única pergunta, a mesma pergunta. Assim, quando o candidato entrava trêmulo e se esforçando por parecer confiante, eu lhe fazia a pergunta, a mais deliciosa de todas: “Fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar!” Pois é claro! Não nos interessávamos por aquilo que ele havia memorizado dos livros. Muitos idiotas têm boa memória. Interessávamos por aquilo que ele pensava.
Poderia falar sobre o que quisesse, desde que fosse aquilo sobre que gostaria de falar. Procurávamos as idéias que corriam no seu sangue!  Mas a reação dos candidatos não foi a esperada. Foi o oposto. Pânico. Foi como se esse campo, aquilo sobre que eles gostariam de falar, lhes fosse totalmente desconhecido, um vazio imenso. Papaguear os pensamentos dos outros, tudo bem. Para isso eles haviam sido treinados durante toda a sua carreira escolar, a partir da infância. Mas falar sobre os próprios pensamentos – ah! isso não lhes tinha sido ensinado.
Na verdade nunca lhes havia passado pela cabeça que alguém pudesse se interessar por aquilo que estavam pensando. Nunca lhes havia passado pela cabeça que os seus pensamentos pudessem ser importantes. Uma candidata teve um surto e começou a papaguear compulsivamente a teoria de um autor marxista. Acho que ela pensou que aquela pergunta não era para valer.
Não era possível que estivéssemos falando a sério. Deveria  ser uma dessas “pegadinhas” sádicas cujo objetivo e confundir o candidato. Por vias das dúvidas ela optou pelo caminho tradicional e tratou de demonstrar que ela havia lido a bibliografia. Aí eu a interrompi e lhe disse: “ Eu já li esse livro. Eu sei o que está escrito nele. E você está repetindo direitinho. Mas nós não queremos ouvir o que já sabemos. Queremos ouvir o que não sabemos. Queremos que você nos conte o que você está pensando, os pensamentos que a ocupam…” Ela não conseguiu. O excesso de leitura a havia feito esquecer e desaprender a arte de pensar.
Parece que esse processo de destruição do pensamento individual é uma consequência natural das nossas práticas educativas. Quanto mais se é obrigado a ler, menos se pensa. Schopenhauer tomou consciência disso e o disse de maneira muito simples em alguns textos sobre livros e leitura. O que se toma por óbvio e evidente é que o pensamento está diretamente ligado ao número de livros lidos. Tanto assim que se criaram técnicas de leitura dinâmica que permitem que se leia “Grande Sertão – Veredas” em pouco mais de três horas.
Ler dinamicamente, como se sabe, é essencial para se preparar para o vestibular e para fazer os clássicos “fichamentos” exigidos pelos professores. Schopenhauer pensa o contrário: “ É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante.” Isso contraria tudo o que se tem como verdadeiro e é preciso seguir o seu pensamento. Diz ele: “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos o seu processo mental.”
Quanto a isso, não há dúvidas: se pensamos os nossos pensamentos enquanto lemos, na verdade não lemos. Nossa atenção não está no texto. Ele continua: “Durante a leitura nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando esses, finalmente, se retiram, o que resta? Daí se segue que aquele que lê muito e quase o diz inteiro … perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria… Este, no entanto, é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo…”
Nietzsche pensava o mesmo e chegou a afirmar que, nos seus dias, os eruditos só faziam uma coisa: passar as páginas dos livros. E com isso haviam perdido a capacidade de pensar por si mesmos. “Se não estão virando as páginas de um livro eles não conseguem pensar. Sempre que se dizem pensando eles estão, na realidade, simplesmente respondendo a um estímulo, – o pensamento que leram… Na verdade eles não pensam; eles reagem. (…) Vi isso com meus próprios olhos: pessoas bem dotadas que, aos trinta anos, haviam se arruinado de tanto ler. De manhã cedo, quando o dia nasce, quando tudo está nascendo – ler um livro é simplesmente algo depravado…”
E, no entanto, eu me daria por feliz se as nossas escolas ensinassem uma única coisa: o prazer de ler! Sobre isso falaremos…
*Rubem Alves

A Solidão Amiga - Rubem Alves

A solidão amiga

A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, "parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis". A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: "Como se comporta a Sua Solidão?" Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: "Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você." Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim: "Por muito tempo achei que a ausência é falta./ E lastimava, ignorante, a falta./ Hoje não a lastimo./ Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim./ E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,/ que rio e danço e invento exclamações alegres,/ porque a ausência, essa ausência assimilada,/ ninguém a rouba mais de mim.!"

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que "o inferno é o outro." Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

"Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz - ela me fala com ternura e felicidade!

Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas.

Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

Ali as palavras e os tempos/poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar."

E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, "certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa - garrafa, prato, facão - era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (...) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia."

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: "As obras de arte são de uma solidão infinita." É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

"...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília..."

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão...

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.

Rubem Alves

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Editorial do Estadão: O fim da farra na Petrobras

Espera-se que a direção da estatal deixe claro que a época da administração companheira, responsável por permitir a pilhagem da empresa, acabou de vez

O desastre administrativo da Petrobrás permitiu ao País constatar o mal que faz submeter a gestão das estatais à patota sindical. Felizmente, a nova direção da empresa tomou coragem para retomar o caminho do profissionalismo, ao propor um pacote trabalhista que, na prática, visa a encerrar esse período nefasto em que os servidores da petroleira se tornaram uma casta de privilegiados às expensas do contribuinte.
Conforme noticiou o Estado, a proposta inclui redução de jornada de trabalho e de salário, congelamento do piso salarial e corte de horas extras, do auxílio-alimentação e do subsídio para compra de remédios por funcionários, tudo como parte do ajuste nas depauperadas finanças da estatal e da recuperação de sua capacidade de investimento.
Como era previsível, a proposta encontrou forte resistência dos sindicalistas, cuja presença em diversos cargos de direção, por obra e graça da trevosa era lulopetista, é um dos elementos que explicam por que a estatal chegou ao estágio de degradação em que se encontra. Dizendo-se defensora da empresa contra o “imperialismo” e contra o “neoliberalismo”, a companheirada esmerou-se em criar e ampliar mimos para os funcionários, como se esses servidores fossem de uma categoria especial apenas pelo fato de trabalharem na estatal que “traz em sua bandeira verde e amarela a paixão e o orgulho do povo brasileiro”, como qualificou a Federação Única dos Petroleiros (FUP). Ser empregado da Petrobrás, segundo essa turma, não é exercer uma simples ocupação remunerada; é abraçar a nobre missão de proteger a soberania nacional.
Essa patranha foi utilizada na tentativa de justificar barbaridades. Assim, por exemplo, os funcionários que deixaram de trabalhar nas plataformas de petróleo e passaram a despachar nos escritórios no centro do Rio de Janeiro não perderam o extra que recebiam a título de periculosidade – esse dinheiro foi convertido em bônus, graças a um acordo dos sindicatos com os gerentes de recursos humanos e de relações sindicais, não por acaso ex-dirigentes da FUP. Suspeita-se que tal acordo – que, na prática, anula o adicional de periculosidade – tenha sido deliberadamente malfeito pelos gerentes-sindicalistas com o objetivo de deixar brechas para contestações judiciais e uma enxurrada de indenizações, das quais os sindicatos abocanham uma parte.
Vantagens inexplicáveis como essa, que não são encontradas em nenhuma empresa do setor privado, se multiplicam na Petrobrás. Os funcionários dispõem de generosa assistência médica e de ampla participação nos lucros – que foi paga mesmo quando a empresa começou a registrar prejuízo bilionário. Além disso, prevalece o sistema em que funcionários são promovidos apenas em razão do tempo de casa.
É claro que, ao estimular essa esbórnia trabalhista, a tigrada só pensa em arregimentar, entre os felizes e agradecidos empregados da Petrobrás, os contribuintes que sustentarão a máquina sindical. É um círculo vicioso que precisa ser rompido sem hesitação, mesmo diante do desgastante confronto com os sindicatos.
A reação começou entre os próprios funcionários da Petrobrás, cansados do aparelhamento promovido pelo PT, que, entre outros estragos, abriu um rombo no fundo de pensão da estatal. Na mais recente eleição para representante dos funcionários no Conselho de Administração da Petrobrás, saiu vencedora a chapa constituída por engenheiros sem qualquer ligação partidária ou sindical. Até então, essa vaga era ocupada por gente da FUP e da Federação Nacional dos Petroleiros (FNP).
Agora, a nova direção da Petrobrás quer avançar ainda mais no desmonte dessa estrutura perniciosa, restabelecendo a racionalidade no trato com seus funcionários. O melhor sinal de que a Petrobrás está no caminho certo é a reação irada dos sindicatos, que prometeram uma “resposta dura” ao pacote. Espera-se que a direção da estatal deixe claro que a época da administração companheira, responsável por permitir a pilhagem da empresa por aqueles que dizem defendê-la, acabou de vez.


Advogado da Lava-Jato fala em condenação de 70 anos para Lula

Para o MPF, a corrupção é qualificada
Para o MPF, a corrupção é qualificada
Diz advogado que atuou no mensalão e atua na Lava-Jato que, caso Sérgio Moro condene Lula por todas as sete imputações de corrupção e lavagem de dinheiro que constam na denúncia do Ministério Público, o juiz deve dar de 50 a 70 anos de prisão para o ex-presidente.

"O homem que se vende recebe sempre mais do que vale."
*Barão de Itararé


terça-feira, 20 de setembro de 2016

Lula e Macunaíma

Ninguém questiona o fato de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ser um craque na arte de se comunicar. E, sempre que se vê acuado, ele recorre a esse talento. No entanto, o que se viu na quinta-feira 15, quando Lula chamou a imprensa e um punhado de amigos para se defender das contundentes acusações feitas pelo Ministério Público, foi a atuação de um craque em final de carreira, jogando para uma torcida cada vez menor. Seus dribles são tão repetitivos e previsíveis que já não iludem nenhum zagueiro. Assim como a corrupção manchou para sempre a história do retirante que virou metalúrgico e depois presidente, a persistência no discurso de vítima das elites, nos ataques aos que possuem diplomas de cursos superiores e na tão falsa quanto surrada tese do nós contra eles, faz ruir o mito. O líder que sobre um palanque arrematava multidões e aglutinava em torno de si a esperança de um País melhor e mais ético, hoje é uma caricatura de si mesmo. Na semana passada, ao discursar para uma plateia privada e dócil, Lula era o retrato de Macunaíma, o personagem criado por Mário de Andrade para simbolizar um herói sem caráter, sempre disposto a levar vantagem e a contar histórias que valorizassem seus feitos.
artigo-lula-ie
Foto: Dario Oliveira/Agência O Globo
Lula discursou durante uma hora e oito minutos. Nada disse sobre o propinoduto que saqueou o Brasil e do qual é acusado de comandar e repetiu a tese de que é vítima de perseguição porque em seu governo teria promovido a inclusão social. Lorota! Tentou criar o clima para uma estúpida e fantasiosa cruzada contra o juiz Sérgio Moro e os procuradores da força tarefa da Lava Jato. Gente menor, segundo ele, porque, em vez de disputarem votos, “se formam em uma faculdade, fazem um concurso público e estão com emprego garantido o resto da vida”. A seguir, o ex-presidente conseguiu aprimorar ainda mais o espírito de Macunaíma. Se comparou a Jesus Cristo e a Tiradentes. E, sem nenhum constrangimento, afirmou: “A profissão mais honesta é a do político. Sabe por quê? Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja, ele tem que ir para a rua encarar o povo e pedir voto”. Ou seja, não importa se o político tem ou não caráter, se o político tem ou não compromisso com o dinheiro público, se o político é ou não corrupto. Se o desvio de recursos públicos vai ou não tirar os remédios dos postos de saúde. O importante, segundo o ex-presidente, é que o político tenha votos. Pior do que ouvir isso é constatar que há, ainda, quem seja capaz de aplaudir fala tão patética.
Mas, mostrando que realmente lhe resta qualquer pudor, o ex-presidente tratou os profissionais da Lava Jato como analfabetos políticos” e acabou justificando o Mensalão e o Petrolão. “Vocês sabem que muita gente que tem diploma universitário, que fez concurso, é analfabeto político”, afirmou. “O cara não entende do mundo da política. Não tem noção do que é um partido ser eleito com 50 deputados e tem que montar maioria”. Ou seja, tão lícito quanto costurar alianças políticas em torno de um programa que busque convergências é a compra do apoio parlamentar, baseado em distribuição de propinas para diferentes legendas. Desta vez, o craque em final de carreira fez gol contra.
*Mário Simas Filho


sábado, 17 de setembro de 2016

Valentina de Botas: O país se transforma depois de sentir na carne a desgraça do petismo

À acelerada decrepitude física de Lula parece corresponder o acirramento da alma ególatra cujo dono continua se vendo acima da lei.

Descalça na deslumbrante Mesquita Azul, na Turquia, como cristã que sou, eu reconhecia que aquele santuário não pertence só aos muçulmanos; como realização humana, pertence à civilização. Além de mercados públicos ou feiras, quando viajo sempre visito lugares santos (de templos, sinagogas e mesquitas pela Ásia e África a lindas catedrais como a da Sé e igrejinhas de missionários evangélicos no interior do nordeste). Diante do sagrado, choro sempre. Silencioso, copioso e sereno, meu pranto é gratidão e alegria reverente por simplesmente estar viva; também comoção por aqueles cujo repertório pessoal (de valores, desesperança, experiências, etc.) os impede entender a vida, na insuficiência constitutiva dela, como a oportunidade fugaz de, veja só, viver. Agastada pelas dificuldades cotidianas, me esqueço às vezes de olhar a vida assim, um esquecimento que impossibilita tudo.
Dilma jamais supôs que seria cassada, Cunha nunca acreditou que seria cassado, Lula sequer cogitou que seria pego. Mas sua excelência, o povo, se meteu na história e o fato é que a mulherzinha foi cassada, Cunha foi cassado e Lula, que já não se sentia muito bem, piorou antes que a súcia terminasse de comemorar o fim de Cunha não porque o ex-deputado é um escroque, mas porque é um escroque dissidente. No duelo entre a mulherzinha e o ex-deputado, o Brasil ganhou porque os dois delinquentes romperam a parceria pela qual saquearam o país e voltaram-se um contra o outro. Aos que perderam para o país devastado se arejar, não tenho nada a agradecer; batem o portão fazendo alarde típico dos que se vão tarde sem saber ascender nem decair com dignidade, além dessa ladainha cínica de vítimas perseguidas que se defendem com alguns dos advogados mais caros do país alargando todas as brechas legais inacessíveis à maior parte da população.
Diante do sagrado, o que somos além de nada? Não sei, mas um autor que adoro, o historiador romeno das religiões Mircea Eliade, diz no livro “O sagrado e o profano” que só somos se sairmos do tempo, assim como o sagrado que existe além e aquém do tempo (e por isso é); no tempo – profano por definição –, vamos desaparecendo no terror de existir para desaparecer. Talvez seja na memória ecoando existências que consigamos escapar ao tempo alcançando, mesmo como poeira transitória, certo modo de permanecer. Me achando esvaziada desse nada, tirei da bolsa meu diário de viagem para os apontamentos dispersos neste texto. Queria falar da luz e da cor do dia, das linhas arquitetônicas da Mesquita, das pessoas ali, das feições delas, reações, roupas e idiomas. Na estupidez de eliminar minhas referências, já que me pretendia preenchida do Outro/do sagrado, como se fosse possível compreender isso sem que algo em mim o compreendesse… cara, que viagem!
Mas meta-se a escrever em primeira pessoa e você vai ver só aonde isso te leva: lá dentro da história, porque a sintaxe puxa você, ela se atraca aos teus silêncios, vai abrindo coisas dentro da tua alma e você só vai se tocar de que disse realidades adormecidas quando a paz de pequenas e cotidianas hecatombes adiadas ou consumadas atravessar a tua percepção como a luz num vitral. Anos depois, relendo os apontamentos inconscientemente feitos em primeira pessoa, vi como, achando estar conectada ao sagrado fora de mim, meus registros estavam contaminados das minhas verdades e ficções, estas dando consistência àquelas. Que porcaria: quanto mais você procura fora, mais o fora te devolve a você mesmo. Que maravilha: não vale a pena viajarmos se voltarmos os mesmos; é como se não tivéssemos saído do lugar porque, de fato, não teremos saído do lugar. “Lugar”, por favor, entendido não como ponto geográfico, mas como aquele que delimita um jeito de estar no mundo. “Sair do lugar” é sair de si, dar passagem ao outro, universalizar-se e, então, voltarmos com o que tocamos e nos tocou. Ou seja, transformados. Possibilidade também sem deslocamentos geográficos: sair pelo mundo, sair para dentro de nós mesmos – viagens e viagens – talvez seja esta transformação o que combate o não sentido da vida.
O país se transforma depois de sentir na carne a desgraça do petismo fundado por um metalúrgico que há mais de 30 anos vi subir na carroceria de um caminhão para discursar em favor do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas, erigindo a nefasta figura soteriológica. Dispensável e indesejável ser um salvador, bastaria não ter sido um farsante que, tendo todas as condições como ele teve, modernizasse a nação. Enquanto à acelerada decrepitude física de Lula parece corresponder o acirramento da alma ególatra cujo dono continua se vendo acima da lei, Marcos Valério se transformou: é visível o quebrantamento na viagem interior imposta pela cadeia, o homem apresentou até certa disfunção na fala num depoimento, nesta semana. Isso conquista meu respeito pela dignidade que há na submissão ao que é superior a nós, atitude que sempre nos eleva. Claro que coletivamente o país vive um drama resultante das delinquências de um bando, mas sempre há o indivíduo e a circunstância dele, o olhar dele, a tragédia e a comédia dele – e isso me atrai de forma especial.
Transformação não alcançada pelo ex-deputado cujos planos de chegar à presidência da República se reduziram à expectativa da prisão; ausente na mulherzinha cujas gestão e cassação demoliram os sonhos de hegemonia do PT; inexistente no jeca que substituirá o trono de imperador perpétuo do Brasil pela eventual cadeia por tudo o que fez. Na resposta à coletiva do Ministério Público, cedendo às deformidades da alminha ególatra, Lula atacou FHC só para lembrar que o amor está sujeito a momentos de descuido que lhe podem ser fatais, mas o ódio é incansavelmente zeloso; é fiel na alegria, na tristeza e na proximidade do camburão. A denúncia desta quarta-feira pelo MP Federal e a aclamação do jeca como o chefe da propinocracia o encontram na sepultura política da qual não se erguerá. É nela, mais do que na cadeia, que Lula, transformado no miserável que sempre foi, pagará por seu crime mais grave: tudo o que deixou de fazer pelo país.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Para Lula, político ladrão é melhor que procuradores e juízes concursados.

Com o luxuoso auxílio dos seus advogados, Lula desperdiça tempo numa cruzada contra Sérgio Moro. Para estigmatizá-lo, recorreu até às Nações Unidas. Denunciado, o ex-presidente passou a demonizar também o procurador da República Deltan Dellagnol e os outros “meninos” da Lava Jato. Lula procede assim por acreditar que, tachando seus investigadores de demônios, fica eximido de todo exame do mal. A começar pelo mais difícil: o autoexame.
Nesta quinta-feira, no comício privê que convocou para politizar a denúncia de que foi alvo, Lula potencializou a impressão de que se tornou um típico político brasileiro— grosso modo falando. Ele discursou por uma hora e oito minutos. A certa altura, a pretexto de criticar os procuradores que têm a mania de procurar e o juiz que cultiva o hábito de julgar, Lula saiu em defesa da classe política, sua corporação. Pronunciou a seguinte frase:
“Eu, de vez em quando, falo que as pessoas achincalham muito a política. Mas a profissão mais honesta é a do político. Sabe por quê? Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja, ele tem que ir para a rua encarar o povo, e pedir voto. O concursado não. Se forma na universidade, faz um concurso e está com emprego garantido o resto da vida. O político não. Ele é chamado de ladrão, é chamado de filho da mãe, é chamado de filho do pai, é chamado de tudo, mas ele tá lá, encarando, pedindo outra vez o seu emprego”.
O raciocínio de Lula é límpido como água de bica. Mas vale a pena clareá-lo um pouco mais. Para o morubixaba do PT, política não é sacerdócio, mas profissão. E se parece muito com a profissão mais antiga do mundo. O político, ainda que seja um biltre, um pulha, um larápio será sempre mais honesto do que alguém capaz de molhar a camisa numa universidade para ingressar por concurso no Ministério Público ou na magistratura. Toda vilania, toda calhordice, toda ladroagem será perdoada se o político for para a rua “encarar o povo e pedir voto.”
De acordo com a força-tarefa de Curitiba, Lula é o “comandante máximo” da corrupção. Presidiu uma “propinocracia” urdida para assegurar o enriquecimento ilícito, a governabilidade corrompida e a perpetuação no poder. Lula abespinhou-se com a acusação de que comprou apoio congressual.
“Ontem eu vi eles falarem dos partidos políticos, dos governos de coalisão, vocês sabem que muita gente que tem diploma universitário, que fez concurso, é analfabeto político”, declarou. “O cara não entende do mundo da política. Não tem noção do que é um governo de coalizão. Ele não tem noção do que é um partido ser eleito com 50 deputados de 513 e que tem que montar maioria.” Foi como se o pajé petista dissesse: “Num Legislativo em que todos os gatunos são pardos, mensalões e petrolões não são opcionais, mas imperativos.”
A esse ponto chegou o mito. Assumira o poder federal, em 2003, ostentando uma biografia que empolgava o mundo. Imaginou-se que reformaria os maus costumes. Hoje, convoca a imprensa nacional e estrangeira para informar que foi reformado por eles. E concluiu: 1) que a oligarquia política com o rabo preso no alçapão da Lava Jato é inimputável. Recebeu licença das urnas para roubar. 2) que ‘governabilidade’ virou uma grande negociata para justificar qualquer aliança ou malandragem destinada a fazer da discussão política uma operação de compra e venda.
No fim das contas, um comício que serviria para contestar acabou confirmando as formulações dos analfabetos políticos da Lava Jato. Enquanto procura demônios de ocasião para os quais possa transferir suas culpas, Lula revela o porquê do surgimento de fenômenos como o mensalão e o petrolão. Se a urna é um sabão em pó moral, nada mais natural que políticos como Collor, Renan, Cunha e um incômodo etcétera recebessem, sob Lula, licença para plantar bananeira dentro dos cofres da Petrobras e adjacências.
Lula gosta de citar sua mãe, dona Lindu, para informar que aprendeu com ela a “andar de cabeça erguida por esse país.” Está claro que Lula não apreendeu os ensinamentos de sua mãe. Um governante pode até conviver com certos políticos por obrigação protocolar. Qualquer mãe entenderia isso. Mas ir atrás do Collor, adular o Cunha, entregar a viabilidade do seu governo à conveniência de tipos como Renan… Está na cara que Dellagnol e os outros ''meninos'' de Curitiba precisam assumir a função da mãe de Lula, denunciando-o de vez em quando, nem que seja para dizer: “Olha as companhias, meu filho. É para o seu próprio bem. Certos confortos podem acabar na cadeia.”
http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2016/09/16/para-lula-politico-ladrao-e-melhor-que-procuradores-e-juizes-concursados/

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Lula é comandante máximo do petrolão, diz MP

infolula
Gráfico do MP deixa claro: Lula era o chefe
Publicidade
O procurador da República e coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba Deltan Dallangol classificou nesta quarta-feira o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “comandante máximo” do esquema criminoso descoberto pela operação – o maior já descoberto na história do país, ressaltou.
De acordo com o procurador, o núcleo político estava acima de todos os outros no esquema operado na Petrobras. E Lula era o grande general. “No centro deste núcleo está o senhor Lula”, afirmou. “Sem o poder de decisão de Lula esse esquema seria impossível”, afirmou.
Lula foi denunciado hoje pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro no caso do tríplex no Guarujá. De acordo com o MP, a propina paga ao petista somou 3,7 milhões de reais. Os crimes que integram a denúncia desta quarta – e que foram chefiados por Lula – somam 87,6 milhões de reais. “O PT e, particularmente Lula, eram os principais beneficiários de esquemas criminosos de macrocorrupção no Brasil”, afirmou o procurador.
Capa VEJA 2470Ressaltou Dallangnol: “Não se trata mais do petrolão. Estamos falando de propinocracia, ou governo regido pela propina”. Ainda segundo ele, o objetivo do esquema criminoso era a perpetuação do Partido dos Trabalhadores no poder de modo criminoso – o mesmo, aliás, por trás do mensalão, afirmou. “Mensalão e petrolão são duas faces da mesma moeda”, diz o procurador.
Justamente dado o tamanho do esquema criminoso desvendado pela Lava Jato, ele não ficou restrito à Petrobras, segundo o Ministério Público Federal. Espalhou-se por Eletrobras, Ministério do Planejamento, Ministério da Saúde e Caixa Econômica Federal. Segundo o procurador, o esquema só se tornou possível porque era operado por alguém com o comando do partido e da máquina do governo. “Lula era o elo comum e necessário entre o esquema partidário e de governo”. Já o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, condenado na Lava Jato, era o braço direito do ex-presidente. Ele ainda salientou que Lula não pode mais afirmar que não sabia de nada. “O petrolão, depois do mensalão, deixa claro que o comandante do esquema não era José Dirceu e sim alguém que estava acima de Jose Dirceu. Só havia possibilidade de o comandante estar acima, e aí estava o verdadeiro maestro dessa orquestra criminosa”, afirmou Dallangnol, em referência a Lula.
Como VEJA revelou, foi o ex-presidente quem convenceu a OAS a assumir as obras deixadas para trás pela Bancoop no Guarujá, cooperativa que foi à bancarrota após desviar o dinheiro de milhares de associados para os cofres do PT. Pedido de Lula, sabe-se agora, era ordem, e a OAS topou. Um dos projetos assumidos pela empreiteira foi justamente o do Edifício Solaris, no Guarujá, onde o ex-presidente teria uma unidade.
A OAS não só evitou o prejuízo a Lula, tirando o projeto do prédio do papel, como aproveitou a oportunidade para afagar o petista. Reservou para ele um tríplex, na cobertura do edifício – e cuidou para que, a exemplo do sítio, o apartamento ficasse ao gosto da família. A empreiteira investiu quase 800.000 reais apenas numa reforma, que deixou o imóvel com um elevador privativo e equipamentos de lazer de primeiríssima qualidade. Sem constrangimento, Lula e a ex-primeira-dama Marisa visitaram as obras na companhia de Léo Pinhe
iro, o ex-­presidente da OAS. Tudo estava ajustado para que a família logo começasse a desfrutar o apartamento. Mas veio a Lava Jato e os planos mudaram. Lula, então, passou a dizer que tinha apenas uma opção de compra do apartamento – e que desistira do negócio. O argumento não convenceu a polícia.
Não se trata mais do petrolão. Estamos falando de propinocracia, ou governo regido pela propina
Deltan Dallangnol, procuradorhttp://veja.abril.com.br/politica/lula-e-comandante-maximo-do-petrolao-diz-mp/

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Zavascki nega pedido de Lula e dá um pito na sua defesa. Petista continua no colo de Moro

Segundo ministro, advogados do ex-presidente estão apenas querendo embaraçar as investigações
O ministro Teori Zavascki passou uma descompostura, o nome é esse, na defesa de Luiz Inácio Lula da Silva, que, por sua vez, é bom que se diga, também está dedicada apenas a uma chicana. Explico tudo.
O ministro recusou um pedido para que a investigação sobre o sítio de Atibaia e o apartamento do Guarujá saia da 13ª Vara Federal de Curitiba, a cargo de Sérgio Moro, e migre para o Supremo. Não é a primeira tentativa que faz a defesa de Lula de tirar o ex-presidente da mira do juiz, como se sabe. Seus advogados já haviam ingressado com um recurso chamado “Exceção de Incompetência”, tentando transferir a investigação para São Paulo. A alegação: ela não estaria relacionada à Lava-Jato.  O próprio Moro negou.
A negativa agora de Teori Zavascki repudia, mais uma vez, esse argumento, mas também responde a um outro. Segundo os advogados de Lula, há investigações semelhantes — isto é, que podem remeter ao sítio e ao apartamento — correndo no âmbito do próprio Supremo. Logo, as coisas que dizem respeito ao chefão petista deveriam ficar mesmo a cargo desse tribunal.
A resposta de Teori, um ministro no mais das vezes contido e muito econômico nas palavras foi dura:
“É importante destacar que esta Corte possui amplo conhecimento dos processos (inquéritos e ações penais) que buscam investigar supostos crimes praticados no âmbito da Petrobras, com seus contornos e suas limitações, de modo que os argumentos agora trazidos nesta reclamação constituem mais uma das diversas tentativas da defesa de embaraçar as apurações”.
Atenção! Note-se a expressão “mais uma”.
Quanto à alegada independência dos dois casos, que deveriam sair da 13ª Vara Federal porque não pertenceriam ao âmbito da Lava-Jato, ele responde:
“São prematuras as alegações de que a suposta ocultação de patrimônio pelo investigado e os supostos recebimentos de benesses das empreiteiras[…] e outras não têm qualquer relação com o esquema criminoso que vitimou a Petrobras e que é objeto da Operação Lava Jato”.
E são mesmo, ora! As investigações ainda estão em curso.
Reação
A defesa de Lula respondeu, também com dureza. E se evidenciou, então, o que é uma estratégia. É claro que os advogados sabiam que sua não petição daria em nada. São experientes. Queriam o quê?
Sua reação deixa claro: segundo os doutores, a decisão evidencia que seu cliente está sendo perseguido, o que, eles próprios lembram, denunciaram até na ONU. A nota lembra que o próprio Teori considerou ilegais procedimentos de Sérgio Moto, como a divulgação das conversas que envolviam a então presidente Dilma e a publicidade dada a diálogos gravados fora do período da escuta legal. Noto: naquele caso, Teori censurou Moro porque Dilma tinha foro especial, e os procedimentos que lhe diziam respeito deveriam ter sido autorizados pelo Supremo. Tanto é assim que gravações foram invalidadas como provas. Evidência, acho eu, de isenção da Corte.
O pedido e a nota servem à construção da imagem do mártir. Assim como teria havido o golpe do impeachment, agora se tentaria criminalizar Lula, apenas um operário que teria lutado por um Brasil mais justo.
É uma tentativa de criar um clamor público que possa livrar o petista da condenação. Vamos ver se vai colar. A democracia torce para que não aconteça.

15 frases para falar mal da política, segundo Millôr.

Numa campanha presidencial tisnada por debates amuados, ataques de alto, médio e baixo calibre, além de ódio e intolerância por parte das torcidas organizadas e desorganizadas, nada como resgatar o bom humor de Millôr Fernandes.
Do livro Millôr 100 + 100 – Desenhos e frases, editado pelo Instituto Moreira Salles (depositário de sua obra), extraem-se primorosos exemplos de sua notável (e assombrosa) criatividade, capaz de produzir, em palavra e imagem, gargalhadas abertas ou travo amargo da ironia. A coluna recolheu do livro frases sobre política, ideologia, corrupção e democracia.

Millôr 100 + 100: Desenhos e frases Organizadores: Sérgio Augusto e Cássio Loredano Instituto Moreira Salles R$ 500
Millôr 100 + 100: Desenhos e frases
Organizadores: Sérgio Augusto e Cássio Loredano
Instituto Moreira Salles
R$ 50
Lançado na Flip deste ano, o livro reúne 100 frases selecionadas por Sérgio Augusto e 100 desenhos escolhidos por Cássio Loredano. Uma dupla genial que trabalhou à altura do gênio homenageado, autor de inesquecíveis tiradas, máximas, aforismos, pensamentos, meditações, apotegmas, gnomas, perguntas cretinas, chistes, brincadeiras, fábulas e adágios virados pelo avesso e trocadilhos infames (Um dos melhores: “Brasil, país do faturo”).
Cético, Millôr desprezava todas as ideologias (“livre como um táxi” era sua divisa favorita), o que explica muitas das frases abaixo.  Ou melhor, tiradas. Quinze tiradas.
* * *
1. Político é um sujeito que convence todo mundo a fazer uma coisa da qual ele não tem a menor convicção.
2. Os corruptos são encontrados em várias partes do mundo, quase todas no Brasil.
3. Nas noites de Brasília, cheias de mordomia, todos os gatos são pardos.
4. A ociosidade é a mãe de todos os vices.
5.  Desconfio de todo idealista que lucra com seu ideal.
6. A probidade não tem cúmplices.
7. Não gosto da direita porque ela é de direita, e não gosto da esquerda porque ela é de direita.
8. O problema da democracia é que quando o povo toma o palácio, não sabe puxar a descarga.
9. Os socialistas são contra o lucro. Os capitalistas são apenas contra o prejuízo.
10. Cada ideologia tem a Inquisição que merece.
11. Quando uma ideologia fica bem velhinha vem morar no Brasil.
12. Os pássaros voam porque não têm ideologia.
13. A credibilidade do país é inversamente proporcional aos juros que os banqueiros internacionais lhe cobram.
14. Quem se curva aos opressores mostra a bunda aos oprimidos.
15. Todo líder acaba empregado de sua liderança.
millor6