quarta-feira, 8 de junho de 2016

MOVIMENTO VOLTA DILMA – Janot, pedidos de prisão, Marina, demagogos e imbecis

Os que ambicionam usar a ousadia irresponsável de Janot em favor de novas eleições ou ainda não entenderam o que está em curso ou estão a serviço de um dos dois extremismos: de direita ou de esquerda. Em qualquer dos casos, fazem o jogo objetivo de Dilma e dos que lutam por sua volta.


Ai, ai…
É como costumo começar um post quando os imbecis não me surpreendem. Num dos textos que escrevi ontem sobre os absurdos pedidos de prisão feitos por Rodrigo Janot, mandei ver: “Esse destrambelhamento geral de querer meter todo mundo na cadeia, de baciada, por razões erradas, só serve a quem está apostando no clima do ‘quanto pior, melhor’ para justificar novas eleições”. Batata! Bastaram algumas horas para que viesse das trevas da inconsistência a voz de Marina Silva. E ela está cobrando… novas eleições!
O mesmo, claro!, passaram a fazer alguns coleguinhas na imprensa, como se a realização de uma disputa eleitoral agora pudesse livrar a política dos vícios. Mas nem me atenho a esse particular neste texto. O que me incomoda muito especialmente são a demagogia e o oportunismo.
Releiam o que escrevi os que estiverem honestamente interessados no debate. É uma estupidez e um despropósito debater se Renan Calheiros, Romero Jucá e José Sarney são culpados ou inocentes. As acusações contra eles vão se acumulando. As instituições estão em pleno funcionamento. Temos um Supremo Tribunal Federal que já deixou claro que manda, se preciso, para a cadeia os poderosos. O Ministério Público e a Polícia Federal podem reclamar de tudo, menos de interferência indevida em seu trabalho.
Se e quando se produzirem as provas, comprovadas as culpas — ou antes, no caso de haver ameaça objetiva à apuração —, haverá as prisões. O ponto, definitivamente, não é esse. Eis a demagogia nefasta, que corrói a inteligência.
Em sua coluna na Folha, Elio Gaspari, por exemplo, se limita a exaltar o fato de que a Lava-Jato chegou ao PMDB. Mas esperem aí! Não chegou agora! Já havia chegado. Todos os figurões do partido estão sob investigação. Isso não está em debate. FINGIR QUE ESSE É O TEMA CORRESPONDE A ENGANAR OS LEITORES, OS INTERNAUTAS, OS OUVINTES, OS TELESPECTADORES. As perguntas são outras:
1: os motivos alegados por Janot para pedir a prisão dos três fazem sentido? Há nas conversas conhecidas evidências de crimes?;
2: é aceitável que dez ministros do Supremo sejam informados pela imprensa de que a Procuradoria-Geral da República quer prender o presidente do Congresso, um senador e um ex-presidente da República?
As respostas são óbvias a qualquer operador medianamente informado do direito. Se há motivos para prender a trinca, certamente não são aqueles alegados por Janot. E, obviamente, é um despropósito que o Supremo seja posto contra a parede por vazamentos que procuram tirar dos ministros a capacidade de julgar com isenção.
Ora, esses procedimentos não lustram o estado de direito; não estão adequados ao padrão da democracia. E, salvo engano, uma das razões por que devemos apoiar a Lava-Jato é o fato de que seus protagonistas pretendem fazer com que a lei se sobreponha ao arbítrio.
Os idiotas logo saem em marcha, achando que a cadeia responde a todos os desafios do Brasil e que a Lava-Jato pode fazer pelo país o que a política não faz. Aliás, foi o que disse Marina Silva na sua habitual e detestável glossolalia. Segundo a preclara, uma das virtudes da operação é promover a reforma política. É um pensamento asnal.
O mais curioso, noto, é que tanto a extrema esquerda como a extrema direita — além da turma do miolo mole — resolveram embarcar na tese das novas eleições. Cada uma dessas correntes, abraçada à sua vocação messiânica, está convicta de que a população estaria disposta a abraçar o seu sectarismo.
O Brasil precisa, mais do que nunca, de um ajuste fiscal e de uma moralização das contas públicas. Em meio à recessão, à inflação e a uma crise política como nunca se viu, imaginem a disposição que teriam candidatos de defender medidas que demandam algum sacrifício. Penso no espetáculo de generosidades irresponsáveis que uma disputa não ensejaria agora…
Cadeia, sim, para quem precisa de cadeia. Mas segundo as regras.
Os que ambicionam usar a ousadia irresponsável de Janot em favor de novas eleições ou ainda não entenderam o que está em curso ou estão a serviço de um dos dois extremismos: de direita ou de esquerda. Em qualquer dos casos, fazem o jogo objetivo de Dilma e dos que lutam por sua volta.
Texto publicado originalmente às 5h27
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/movimento-volta-dilma-janot-pedidos-de-prisao-marina-demagogos-e-imbecis/

terça-feira, 7 de junho de 2016

Planalto corta R$ 8 mi de sites e blogs simpáticos ao PT

Veículos são instrumento de opinião partidária, segundo o governo. Foram cortados R$ 8 milhões dos R$ 11 milhões previstos para serem liberados até o final do ano

Dilma Rousseff caminha entre militantes e integrantes de movimentos sociais após ser notificada da decisão de seu afastamento do cargo de presidente, no Palácio do Planalto - 12/05/2016
Recursos que seriam destinados a blogs e sites considerados aliados da presidente afastada Dilma Rousseff foram cortados pelo governo interino de Michel Temer(Andressa Anholete/AFP)
Em nova batalha da guerra da comunicação contra os petistas, o presidente interino, Michel Temer, cortou a principal fonte de recursos de blogs e sites considerados aliados da presidente afastada Dilma Rousseff e bloqueou ao menos 8 milhões de reais dos 11 milhões de reais previstos para serem liberados até dezembro em publicidade de ministérios e estatais, como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
A justificativa é que os veículos seriam "instrumento de opinião partidária", com críticas ao atual governo e ao impeachment, e que a verba será direcionada a iniciativas de divulgação de "múltiplas opiniões".
LEIA MAIS:
Deixarão de receber recursos o Brasil 247, o Diário do Centro do Mundo e o blog Conversa Afiada, do jornalista Paulo Henrique Amorim. Também estão na lista o blog O Cafezinho, o site Pragmatismo Político e o blog de Esmael Moraes. O Planalto bloqueou verbas ao jornalista Luis Nassif, que tinha contrato com a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) para apresentar um programa semanal. Esse contrato foi suspenso. Outro jornalista alvo dos bloqueios é Sidney Rezende, cujos contratos com a EBC e de patrocínio foram suspensos. Em maio, a Caixa já havia vetado 100.000 reais a um encontro de blogueiros em Minas simpáticos ao PT.
O Planalto preservou a publicidade em veículos considerados apartidários e destinados à promoção de debates de relevância pública. Estão nessa lista o Observatório de Imprensa, autodefinido "website e programa de rádio e TV brasileiro cujo foco é a análise da atuação dos meios de comunicação em massa no país", que receberá este ano 231.000 reais, e o site Congresso em Foco, que se dedica ao Legislativo e tem previstos 940.000 reais em publicidade.
(Com Estadão Conteúdo)

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Cervejaria Ouro Verde - 1908 >>> 1930 - Cervejaria Canoinhense / Canoinhas - SC


A CERVEJARIA MAIS ANTIGA EM FUNCIONAMENTO DO BRASIL



Comprada pelo imigrante alemão Otto Loeffler nos anos 20, a cervejaria, batizada de Canoinhense em homenagem à cidade, Canoinhas (SC), mantém a mesma fórmula e o mesmo maquinário desde seu início. E por mais de 80 anos seu funcionamento se deu sob o olhar atento de Rupprecht Loeffler, filho de Otto, que acompanhou a cervejaria desde os 10 anos de idade. Falecido em 2011, aos 93 anos, o sr. Loeffler deixou muitos admiradores, e uma família que mantém vivo o seu legado. História, tradição e muita dedicação fazem com que a cervejaria mais antiga do Brasil possa seguir seu funcionamento até hoje. E manter as suas lendas de “cerveja falada”, ou seja, um testemunho vivo da história oral.
A história da Canoinhense começa em 1908. Pedro Werner e Otto Bachman fundaram a cervejaria Ouro Verde, que funcionou até 1912, ano do início da Guerra do Contestado, que atingiu Canoinhas (a cidade até é considerada o epicentro da Guerra, por ficar na divisa com o Paraná). Depois do fim da Guerra, em 1916, Pedro e Otto venderam o espaço para Luis Kaesemudel, que já tinha experiência no ramo e manteve a Ouro Verde até 1924. Nesse ano, em 1º de abril, Otto Leoffler comprou a cervejaria, por 110 contos de réis e 2 cavalos.  “Senhor Otto, pai de Rupprecht, comprou a cervejaria no nome de seu filho Guilherme”, conta Gerda Loeffler, viúva de Rupprecht, que hoje mantém a cervejaria em funcionamento. “Trabalharam 10 anos juntos. A cervejaria passou por ampliações e reformas após ser adquirida por ele. Quando Otto comprou a cervejaria Ouro Verde, havia só a parte baixa da cervejaria, e a parte restante foi construída no mesmo estilo. No início da década de 1930, a cervejaria passou a ser denominada Cervejaria Canoinhense, fazendo jus ao nome da cidade”. Como imigrante alemão, Otto Loeffler veio para o Brasil no final do século XIX. Trouxe o maquinário da cervejaria direto da Alemanha, ainda em uso. Importou também as técnicas do país: sua cerveja segue a Reinheitsgebot, ou Lei de Pureza Alemã, aplicada até hoje. “Tudo continua como antes”, afirma Gerda, companheira constante do trabalho do marido. A sua afirmação é a mais pura tradução da essência do trabalho da Canoinhense: tradição. Tradição que Rupprecht Loeffler conheceu ainda menino – desde cedo soube que a cerveja faria parte de sua vida. Conhecer a história da cervejaria implica conhecer a do mestre cervejeiro.

O mestre Rupprecht Loeffler e suas histórias
A história da vida de Rupprecht Loeffler se mistura com a da cervejaria. No documentário “Cerveja Falada” (ver box), sobre a Canoinhense, Loeffler conta muitas histórias, como a que seu pai dava cerveja às crianças, na falta de leite. “Dá chope pra essa piazada aí! E nós, desde pequenos, tomavamos cerveja”. Lembrando que na Alemanha a cerveja é tratada como alimento, “pão líquido”. Desde os 10 anos Loeffler já acompanhava o trabalho do pai, quando andava pela cervejaria. No documentário “História da cerveja em Santa Catarina” Loeffler diz que em resposta à pergunta do pai sobre o que ele queria ser vida, a resposta veio rápida: “‘Quero ser cervejeiro como o senhor”. Ao que, então, respondeu seu pai: “Então eu vou te ensinar. Você tem que trabalhar três anos aqui para aprender a profissão. E não ganha nada’”, conta, com muito bom humor. Loffler aprendeu com o pai as técnicas, que seriam mantidas e passadas aos funcionários da cervejaria. Hoje são esses funcionários, juntamente com Gerda Loeffler, que mantêm a produção. Em 1938, Loeffler comprou a parte do irmão e seguiu com a cervejaria. O velho Otto também previu a Segunda Guerra Mundial e se antecipou na compra de um grande estoque de lúpulo, na época importado da Alemanha, via Rio de Janeiro. “Aí os vizinhos disseram: o Loeffler ficou louco, comprou tanto lúpulo, encheu o paiol e a cervejaria, tudo com lúpulo’”, disse o filho mais tarde. Medida acertadíssima: com o início da guerra, em 1939, a travessia pelo oceano foi bloqueada por ingleses, e a Canoinhense era a única cervejaria com estoque para produzir cerveja.

O cervejeiro caçador
Quando a Segunda Guerra acabou, em 1945, a produção de cerveja em Santa Catarina – feita em sua maoria por imigrantes europeus – diminuiu. A maior parte dos descendentes dos cervejeiros migrou para outras áreas de produção. Mas Rupprecht Loeffler seguiu com a Canoinhense durante toda a vida. No ano do fim da guerra, em março, Loeffler casou-se com Gerda Stein, com quem viveu por 65 anos. Gerda sempre acompanhou o marido, especialmente na parte administrativa. “Enquanto tinha saúde, ele atendia os fregueses com muito carinho, os empregados e todos os que ajudavam. A vida de Rupprecht Loeffler era a cervejaria, sua esposa e seus filhos”, conta Gerda. “E, claro, as caçadas também, na época em que permitiam”. A paixão de Loeffler pelas caçadas é visível logo na entrada da Canoinhense. A sala de recepção é toda decorada com animais empalhados ou em potes de formol. Macacos segurando um cigarro ou uma cuia de chimarrão, tamanduás, berrantes, peles de animais, capivaras e passáros de diversos tipos. Também são exibidas cobras em potes de formol e o item mais famoso da coleção: um porco de duas cabeças.
Loeffler tomava dois litros de cerveja por dia. No documentário, ele afirma: “Cerveja faz bem pra saúde. O médico é que me disse: “a tua cerveja é uma cerveja medicinal, quem toma essa cerveja não precisa de remédio de farmácia”.” Nos anos 80, ele recebeu o título de cidadão honorário de Canoinhas. “Ele foi bem reconhecido, ganhou muitas homenagens em jornais, revistas, título de cidadão honorário, e aos 92 anos foi homenageado pela Câmara com o selo. Quando faleceu, o prefeito Leoberto Weinert decretou três dias de luto”, conta Gerda. Aquele que era considerado o mestre cervejeiro mais antigo do Brasil.

A cervejaria hoje e a identidade cultural da cidade e região
A fábrica de tijolos à vista da Canoinhense está no mesmo lugar desde a época em que ainda era a Ouro Verde, antes de ser comprada pela família Loeffler. Atualmente, a cervejaria produz cerca de três mil garrafas por mês, seguindo o método artesanal. As quatro cervejas – Jahú, Nó de Pinho, Mocinha e Malzbbier – são vendidas apenas na fábrica.
A cervejaria ajudou a construir parte da identidade cultural da região. Canoinhas foi colonizada por vários povos, e tem na cervejaria seu legado alemão. A Canoinhense é umas das atrações mais procuradas da cidade, também famosa pela erva mate e pela Guerra do Contestado. “Como é um ponto turístico, vem gente de todo o Brasil e até do exterior para conhecer. E como é a cervejaria mais antiga em funcionamento, senti por bem continuar”, conta Gerda que aos 88 anos, mantém vivo o legado do marido, acompanhada por funcionários, alguns na cervejaria há mais de 20 anos, como Tadeu Massaneiro. “Eles não querem parar. Tem 60 e poucos anos, e é a alegria da vida deles, porque eles têm contato com o público junto”, diz Gerda. Tadeu e o irmão, Raul Massaneiro, são os responsáveis pela fabricação das cervejas.

As cervejas Loeffler
Todas as cervejas Loeffler têm em torno de 3% de teor alcoólico, marca menor que as de fabricação industrial que variam de 4% a 5%. São cervejas mais ácidas e azedas, com notas de madeira causada pela maturação nos barris de carvalho. Uma de suas características é a espuma, considerada fundamental por Loeffler. “Quando conservar a espuma, daí é sinal que é cerveja boa!”, diz no documentário “Cerveja Falada”.  A Jahú é uma cerveja blonde ale. Gerda conta que a Jahú tem esse nome “em homenagem à travessia do Oceano Atlântico efetuada por João Ribeiro de Barros em um pequeno hidroavião chamado Jahú, da cidade de Jahú, interior de São Paulo”. A cerveja se chamava Cristal, e Otto Loeffler rebatizou-a em 1927. Rupprecht já ajudava na cervejaria nessa época. A Nó de Pinho é uma cerveja ale, amarga e preta, feita com maltes torrados. Se chamava Sport, mas foi rebatizada depois da insistência de alguns visitantes. “Naquela época meu pai comprava muito nó de pinho, que era um combustível para cozinhar a cerveja”, conta Loeffler no documentário.  “Uns portugueses achavam que faziam a cerveja do nó de pinho, sabe? Preparando com o nó do pinheiro, por ela ser preta. Então o pessoal falava que não era, que eles faziam a cerveja preta, claro, como todas, com cevada e lúpulo. Mas eles não se conformaram enquanto não passou o nome da cerveja preta, amarga, para Nó de Pinho. E o nome está até hoje”, conta Gerda. A Mocinha é uma amber ale, cerveja clara, mais suave e doce, feita com a ideia de atender o público feminino, e a Malzbbier é uma cerveja preta, bastante adocicada. Todas são de alta fermentação.


Cerveja Falada: a Canoinhense ganha o Brasil
O documentário foi produzido pela Exato Segundo Produções Artísticas, e dirigido por Demétrio Panarotto, Luiz Henrique Cudo e Guto Lima. “Cerveja Falada” foi premiado no edital Prêmio Cinamateca Catarinense/Fundação Catarinense de Cultura, de 2008, rodou em Canoinhas em junho e julho de 2009. A obra foi fi nalizada em Florianópolis e estreou em agosto de 2010. O documentário tem duração de 15 minutos, e conta um pouco da história e do cotidiano de Rupprecht Loeffl er e da Canoinhense. “História da cerveja de Santa Catarina” é de 2007, também pela Exato Segundo, com direção de Andreas Peter para o projeto “Santa Catarina em Cena” (RBS/ TV), e acompanha os extras do “Cerveja Falada”. Foi onde surgiu a ideia de um documentário sobre a Canoinhense, diz Guto Lima, um dos diretores. “A Canoinhense é uma jóia, uma raridade. A fi gura do seu Rupprecht pedia um documentário. Que bom que conseguimos o fazer com ele ainda em vida. A cervejaria continua sendo importante – um símbolo de resistência à velocidade dos novos tempos”.

'Economia brasileira está como a de um país em guerra civil', diz professor do MIT

Roberto Rigobon descreve como 'catastrófico' o desempenho da economia no governo Dilma e diz que o país tem medo de assumir o papel de líder da América Latina

Roberto Rigobon, professor do MIT
Roberto Rigobon, professor do MIT(mitsloan.mit.edu/Reprodução)
O Brasil não está em guerra civil, mas o estado atual de sua economia é como o de um país conflagrado, de acordo com Roberto Rigobon, professor de economia aplicada do Massachusetts Institute of Technology (MIT). "Em uma guerra civil é assim: há muita inflação e a economia se estanca", diz. "Na economia, o governo Dilma foi catastrófico."
Rigobon, que é venezuelano, define como "patética" a política externa adotada pelo Brasil nos últimos anos. O país, avalia, se omite em momentos em que ele deveria assumir um papel que lhe seria natural, o de líder da América Latina. "Parece que o Brasil tem medo de se comprometer e tomar decisões e ações duras, que cabem a um líder", afirma. Em vez disso, argumenta Rigobon, o Brasil gosta de se cercar "do pior do mundo" - e ele põe na lista Argentina, Rússia e sua Venezuela natal. "Só falta firmar um acordo de intercâmbio com a Coreia do Norte", ironiza.
Confira trechos da entrevista do professor ao site de VEJA.
O Brasil acaba de mudar seu governo. O senhor acredita que isso pode favorecer a economia do país? Depende de como essa mudança acontecerá em termos concretos. Acredito que uma gestão que suceda um impeachment é diferente da eleita pelo povo. Por enquanto, parece haver um otimismo exagerado. Em geral, na história mundial, observamos uma quantidade pequena de presidentes efetivamente culpados por corrupção. Antes de se tornar pública, quando se faz uma investigação, como a da Petrobras, por exemplo, a polícia pode investir todo o tempo na apuração do caso. Nesse contexto, é mais fácil chegar às provas dos crimes cometidos. Depois de vir à tona na mídia, os desafios aumentam, e isso se torna mais difícil. Já imaginou o que aconteceria se o Congresso resolvesse que não há evidências claras de que Dilma esteja envolvida em crime de responsabilidade? A lei prevê que ela volte ao poder, não é? Ainda que o mercado atribua "chance zero", acredito que existe o risco de o Congresso brasileiro não encontrar evidências suficientes para depor a presidente ou obrigá-la a renunciar. O fato de ter havido uma votação para abrir o processo não significa, necessariamente, que houve crimes. Isso complica o cenário.
Como o senhor avalia o papel do Estado na economia brasileira no governo Dilma? Foi catastrófico. Tão ruim quanto ter uma guerra civil, período em que os países não crescem e, ao mesmo tempo, têm inflação, em um quadro típico de "estagflação". Esse quadro é piorado, em grande parte, por medidas tomadas do lado da oferta, como a intervenção brutal do Estado, expropriações, em um cenário em que o setor privado tem medo de investir. Em uma guerra civil é assim: há muita inflação e a economia se estanca.
Qual o peso da crise externa para esse cenário? Nenhum. Esta inflação, por exemplo, tem raízes totalmente internas. Foi, portanto, causada pela incompetência do governo brasileiro. Em 2009, o mundo todo estava em crise, mas o Brasil não foi afetado. Esta é uma evidência clara de que os problemas que começaram a aparecer no país foram provocados pela acumulação de ineficiência e ideologia do governo anterior.
Como o senhor avalia a premissa de que o Brasil só pode negociar acordos comerciais junto com o Mercosul? Quando o Mercosul foi criado, há mais de vinte anos, ele trouxe muitos benefícios a Brasil, Argentina e Uruguai. Esses países adotaram diversas medidas pró-mercado, fazendo com que suas empresas buscassem atingir o mesmo nível, de uma maneira justa. Mas, como em todos os acordos, as partes têm que evoluir. Depois de ter desenvolvido bastante sobretudo a indústria, os países do bloco deveriam procurar outros parceiros, que fossem melhores que eles. A única forma de melhorar é incluir no clube nações mais desenvolvidas que as que já estão. Falo de Estados Unidos e países europeus. Isso forçaria o Mercosul a seguir evoluindo.
Mas o bloco optou por tomar outro rumo, certo? Sim. Há muito o que melhorar em termos de política externa. No caso do Brasil, a política externa foi patética nos últimos anos. Parece que o país gosta de se cercar do pior do mundo - Venezuela, Argentina, Rússia. Só falta afirmar um acordo de intercâmbio com a Coreia do Norte. O Brasil é muito covarde para investir em acordos internacionais, considerando o tamanho e a importância que tem.
Qual seria o passo natural para a evolução do bloco? Depois de incluir os países desenvolvidos, como EUA, Inglaterra, Alemanha, Espanha, União Europeia, o passo seguinte é: os países que não estiverem de acordo com essa ideia, devem ficar com suas ideologias - e deixar o grupo.
O Brasil, como grande potência do bloco, deveria assumir uma liderança nesse processo? Sim, mas o Brasil falhou nessa missão. Ele deveria ser o líder da região, posto que é compartilhado por Chile e Colômbia. Quando olham para a vanguarda da modernização, social política, econômica, da América do Sul, as pessoas não veem o Brasil. O país nunca quis, por razões que desconheço, assumir esse papel de líder. As empresas brasileiras não têm a visibilidade e a liderança que deveriam ter, dado o tamanho e a importância do Brasil. É muito triste. Parece que o Brasil tem medo de se comprometer e tomar decisões e ações duras, que cabem a um líder. Mas nunca é tarde. É importante que o Brasil seja líder da América Latina. Tem todas as condições. Só mencionam o Brasil para fazer a seguinte comparação: o Brasil, geograficamente, equivale a todos os outros países somados. Os países líderes da região deveriam ser Argentina e Brasil.
E os BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul)? Isso durou muito pouco. As razões, novamente, se relacionam com a falta de decisão e vontade do Brasil de ser líder neste espaço.
Como a comunidade externa percebe o momento das crises política e econômica do Brasil? Os desdobramentos dos escândalos de corrupção têm um aspecto positivo, de mostrar que as instituições estão funcionando e estão punindo corruptos. Nesse sentido, é muito positivo. Por outro lado, há ainda muita incerteza sobre quem será o próximo presidente, o que preocupa. Mas, em geral, o saldo é positivo.
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O senhor é venezuelano e se mostra bastante crítico dos caminhos tomados por seu país. Que saída econômica o senhor vê para a Venezuela? Acredito que a Venezuela vai enfrentar uma hiperinflação ainda maior do que a atual. Se isso acontecer, a parte econômica é mais fácil de resolver. Há que considerar que ela é muito ruim, pois produzem muita pobreza e dor. O aspecto positivo é que ela elimina todas as distorções do mercado, incluindo os preços de diversos contatos. Depois que isso acontecer, terá de haver uma mudança radical de governo. A atual gestão é muito ideológica, o que torna os desafios mais difíceis de ser superados. O governo venezuelano tem a maturidade de uma criança de 3 anos, especialmente no quesito teimosia. Por isso, em vez de se chamar "Maduro", deveria se chamar "Imaduro" (risos).
O que um novo governo teria de fazer? Se há uma hiperinflação, em novas eleições outro governo deveria ser eleito - e um que considere, em suas políticas, todos os venezuelanos. Um governo que reconheça que o chavistas são um grupo grande da população, que, de alguma forma, devem ser considerados e respeitados. Algo que se aprendeu com o governo Chavista - e que é uma lição para todos os países da América Latina - é que os programas sociais têm de ser mais ambiciosos.
Em que sentido? Há 50 anos, pensava-se que fazer algo pelos pobres já era suficiente. Hoje em dia, está claro que não temos que fazer algo, mas muito. O fenômeno de Chávez, na Venezuela, de Lula, no Brasil, dos Kirchner, na Argentina, de Morales, na Bolívia, tem em comum ideologias muito esquerdistas, antiquadas, algumas da Idade Média. Elas são resultado de uma frustração muito grande na sociedade, que reflete a falha dos sistemas democráticos na hora de suprir os cidadãos mais pobres. Espero que os últimos 15 anos de desastre na região sejam usados como aprendizado, para entender que o modelo de desenvolvimento futuro tem de incluir programas sociais muito mais ambiciosos que os do passado - que atendam os pobres e lhes deem oportunidades. Os próximos governos, tanto na Venezuela quanto no Brasil, não podem esquecer dos erros cometidos no passado.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Dora Kramer: Operação Suja a jato

As gravações mostraram ao país a discrepância entre o que dizem em público nossas autoridades e o que falam no recôndito da privacidade. Oficialmente todos eles são defensores da Lava Jato

Publicado no Estadão
Na mais recente turbulência política provocada pela divulgação de conversas para lá de embaraçosas de três “capas-pretas” do PMDB, um detalhe chama especial atenção: nenhum dos personagens estimulados a dizer o que não deveriam ao gravador de Sérgio Machado se animou a reclamar em público pelo fato de terem servido de cobaias na coleta de material para uma delação premiada.
Romero Jucá, José Sarney e Renan Calheiros aludiram à inadequação do “contexto” dos trechos divulgados, negaram intenções escusas por trás das palavras obscuras, mas não impuseram reparos nem qualificaram como traiçoeiro o ato do ex-presidente da Transpetro ali sustentado pelo partido por 12 anos consecutivos. Com a anuência e o aval do PT, o dono da bola nesse período.
Ao menos os três tiveram o bom senso de não invocar o argumento da perseguição política, da conspiração ou coisa que valha. Escolados e escaldados preferiram por ora aguardar os acontecimentos sem maiores precipitações. Não cutucaram a fera ferida nem fizeram acusações aos investigadores, aos promotores que negociaram a troca de informações ou ao ministro Teori Zavascki que homologou a delação.
Nisso, se diferenciaram (sem ilações de que nisso resida mérito, por favor) dos petistas, cuja prática de atacar o mensageiro equivale a sistemáticas assinaturas de recibos, além de levá-los a desmentir as próprias versões. Um exemplo foi a reação de Dilma Rousseff à conversa em que Romero Jucá sugere que o impeachment da presidente daria conta de “estancar essa sangria”.
Dilma e os companheiros de partido de imediato atribuíram ao diálogo a condição de “prova” da conspiração para derrubá-la, que nada teria a ver com o crime de responsabilidade ora em exame na comissão especial do Senado. Quer dizer, a mandatária afastada não respeita delator, mas tem o maior respeito pelas gravações feitas por Sérgio Machado na busca de sua delação. Do mesmo modo, o PT desqualifica o teor de gravações e depoimentos que implicam seus correligionários, mas qualifica o método quando o atingido é o adversário.
E cessam por aí as diferenças, pois algo mais forte os iguala: o desejo de que a operação fosse lavada da face da terra. O pitoresco da história é que as urdiduras dos referidos poderosos resultam em rigorosamente nada. Tão influentes e, ao mesmo tempo tão impotentes diante de um cenário que desconheciam, embora já tivessem tido dele uma amostra na CPI dos Correios que sustentou a denúncia da Procuradoria-Geral da República, que virou processo no Supremo Tribunal Federal e resultou na condenação de gente que se imaginava diferenciada.
Desde então, e agora mais do que nunca, o ambiente exige respeito, já dizia Billy Blanco em seu Estatuto da Gafieira. As gravações, por enquanto, não expuseram crimes. Não foram, porém, sem efeito. Mostraram ao país a discrepância entre o que dizem em público nossas autoridades e o que falam no recôndito da privacidade. Oficialmente todos eles são defensores da Lava Jato. No paralelo, contudo, revelam horror ao cumprimento da lei e à independência dos Poderes. Nutrem especial repúdio à conduta correta de servidores.
Ao ponto de um ex-presidente da República, como José Sarney, considerar que o Brasil vive uma “ditadura da Justiça”. No mínimo uma contradição em termos.
Ainda que as inconfidências de suas excelências não venham a lhes render punições mais graves, já serviram para pôr abaixo a pose de distinção que assumem diante de um microfone e a inconsistência das bravatas cometidas nos conchavos. E de novo recorrendo a Billy Blanco, desta vez com A Banca do Distinto, encerremos: A vaidade é assim/ põe o bobo no alto e retira a escada/ mas fica por perto esperando sentada/ mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Eliane Cantanhêde: Ruim com ele, pior sem ele

Derrubar Michel Temer para por o quê no lugar dele? Dilma de novo?

Perguntar não ofende: qual o objetivo de quem é contra o impeachment de Dilma Rousseff e está queimando pneus em estradas, invadindo prédios da Cultura, gritando “Fora Temer” na parada LGBT, exibindo cartazes no exterior para dizer que “there is a coup in Brazil”? E qual o objetivo de quem é a favor do impeachment, mas torce contra o governo interino de Michel Temer, condena as propostas para combater o rombo das contas públicas e repudia a indispensável reforma da Previdência?
Tanto quem é a favor quanto quem é contra o afastamento de Dilma tem de ter em mente a responsabilidade coletiva com a história e que só há três saídas para um país mergulhado em tantas crises. Fora disso, não há alternativa, a não ser anarquia.
Uma saída é dar uma trégua para Temer governar e a equipe de Henrique Meirelles tentar pôr a economia em ordem nesses dois anos e meio, para entregar para os eleitores em 2018 um país razoavelmente saneado. Temer não é perfeito e o PMDB tornou-se muito imperfeito, mas ele foi escolhido por Dilma e por Lula e eleito na chapa do mesmo PT que anima os queimadores de pneus, os invasores da Cultura, os que gritam “Fora Temer” e uma turma que mora fora – uns, há tantas décadas, que deveriam estar mais preocupados com o Trump.
Além de habitar o Jaburu, Temer despacha agora no Planalto por força da Constituição, que assim determina: sai um(a) presidente, assume o vice. Não importa se é bonito, feio, gordo, magro, se é Itamar Franco ou se é Michel Temer. Ele está lá, e o Brasil, os brasileiros, a indústria, o comércio e os 11 milhões de desempregados precisam desesperadamente que comece a equilibrar as contas públicas e a fazer a economia andar.
A saída número 2 é a volta de Dilma. Sério mesmo, alguém deseja de fato a volta de Dilma, com sua incapacidade de presidir o País, negociar com o Congresso, ouvir os conselhos do padrinho Lula ou, aliás, ouvir qualquer expert de qualquer área sobre qualquer coisa? No aconchego dos seus lares, na convivência com familiares, amigos e vizinhos e nas conversas com seus travesseiros – e com o próprio Lula –, será que os petistas de raiz querem mesmo a volta de Dilma?
Os deputados não são lá essas coisas, mas acataram o impeachment pelo crime de responsabilidade fiscal, previsto na Constituição e confirmado pelo resultado final: um rombo que o governo Dilma admitia ser de R$ 96,6 bilhões e que a equipe de Meirelles descobriu bater em R$ 170 bilhões. Mas, além do fato formal, deputados e senadores tocaram o processo adiante pelo desmantelamento da economia, o esgarçamento das relações políticas e porque Dilma conseguiu ser a presidente mais impopular do país desde 1985.
A opção 3 (dos favoráveis e contrários ao impeachment) seria a antecipação de eleições diretas, empurrando Temer ou Dilma para a renúncia (dependendo de o Senado confirmar ou não o impeachment), ou dando um golpe branco e mudando a Constituição por questões conjunturais. E o que viria depois? Uma eleição às pressas, sem que os partidos tivessem se preparado e sem candidatos à altura da crise. Dá um frio na espinha pensar nos aventureiros que se lançariam como salvadores da pátria, da ética, da economia, dos “bons costumes”, da “ordem” deles, do “progresso” deles.
Isso não é brincadeira. O seguro, que morreu de velho, recomenda respeitar a Constituição, o Congresso que o eleitor elegeu e a posse do vice que 2014 jogou no Jaburu, na perspectiva de assumir com o afastamento constitucional da presidente. Vale, sim, gritar contra muitas coisas, inclusive a nomeação de um ministro da Transparência indicado, ora, ora, pelo senador Renan Calheiros. Mas o esforço para derrubar Temer, neste momento, é trabalhar contra o Brasil.

Arnaldo Jabor: Ou Temer se comunica ou se estrumbica

A corrupção do PT inventou algo novo: corromper para governar, pois revolucionário pode roubar em nome do Bem. Nunca na história houve uma roubalheira organizada como essa

Publicado no Estadão
Converso com muita gente culta, de gravata, e concluo: três milhões de pessoas foram protestar nas ruas, mas pouca gente entende realmente o que está acontecendo no Brasil profundo. Profundo no sentido de detalhes contábeis, dos segredos de gaveta que só os carunchos conhecem. Ninguém sabe nada. Essa deficiência da opinião pública é que os petistas usarão para arrasar o governo do Temer. Como o presidente em exercício tem pouco tempo, e como a c***da deixada por Dilma e PT foi imensa, teremos dois anos (se Deus ajudar) para reorganizar a economia, que teve perda quase total. É difícil, por causa das sabotagens e da lentidão brasileira. Por isso, Lula está adorando o impeachment de Dilma. É a melhor coisa que podia lhe ter acontecido. O Sarney disse outro dia na gravação que Lula estava muito deprimido. Deve estar, mas não é uma melancolia inócua, passiva, sem rumo; não, Lula está se preparando para sapatear em cima dos erros e dificuldades inevitáveis desse governo.
Agora, ele e seu PT podem partir para a oposição, contando com uma população imensa de imbecis que serão convencidos de que o impeachment foi só para acabar com a Lava Jato.
A narrativa deles será a de que todo mundo sempre roubou e que eles só entraram na regra do jogo. Mentira. A corrupção do PT inventou algo novo: corromper para governar, pois revolucionário pode roubar em nome do Bem. E, assim, bateram um recorde mundial: nunca na história do mundo houve uma roubalheira organizada como essa.
Temer tem a difícil tarefa de andar na corda bamba, no fio da navalha entre uma equipe econômica de primeiro time e um restolho de vagabundos, que aparelharam ministérios e repartições em geral. Se bobear, Temer pode eleger o Lula em 18, se o ‘grande líder do povo’ não for em cana.
Uma transição de governo intempestiva gera medo, mas também uma esperança de mudança imediata. “Ahhh…, acabou o PT, o ‘petrolão’ – agora seremos felizes.” Auriverde ilusão de minha terra…
O problema é que a herança maldita dessa terrível senhora é um emaranhado infernal para se consertar. Em dois anos, seríamos uma Venezuela. E esta é a felicidade do Lula: a expectativa dos mal informados (que são a maioria) vai se esfarinhar e o Temer será culpado pela c•••da que o PT deixou no meio-fio. A culpa vai ser dele em pouco tempo.
Brasileiro ‘assiste’ ao Brasil. Brasileiro assiste à política como um Fla x Flu, torcendo, xingando juiz, mas quer que o Estado resolva tudo, pois não sabe que o Estado é o problema e não a solução. A sociedade protesta, mas não sabe como tomar as rédeas. Este governo tem um só caminho: conquistar um apoio da sociedade, para que ela entenda que não se trata de ideologias e, sim, de uma tragédia contábil. “É a economia, estúpidos!” (citando o refrão batido do James Carville.)
Temer vai ter de arrumar as contas. Só. E, aí, vem a esparrela: como expulsar 100 mil vagabundos aparelhados no governo? Como impedir que volte a lama debaixo do tapete? Nosso complexo de impotentes renasce feito rabo de lagarto. Debaixo de nossos olhos, a máquina da sordidez nacional ressuscita, como um monstro de ficção científica, um “Alien”.
Os escândalos, cada vez maiores, não podem encobrir o dano nas contas públicas. E tem mais: vai haver aumento de impostos, sim. Não adianta chorar. É impossível, só com ajustes e cortes, resolver o buraco da Dilma de R$ 170 bilhões jogados no lixo. E aí? Como explicar?
Esse é o maior perigo: a teia de escândalos pode mascarar os urgentes acertos da República devastada.
Precisamos que o Temer dê certo, ao menos na economia. Porque ninguém vai às ruas apoiá-lo. Todo mundo tem medo de apoiar governos. É impossível imaginar que brasileiros vão às ruas para defender o ajuste fiscal: “Queremos ajustes!”. É mais fácil ser contra. A oposição enobrece, a adesão é humilhante.
Por outro lado, os militantes pagos da CUT, do MST e outras siglas vão para as ruas, gritar contra. Rolam boatos fortes de que o PT está reunindo muita grana para comprar uns três senadores. É possível.
Por isso, acho que uma das coisas mais sérias que este governo tem de buscar é a comunicação com o país.
Vi outro dia o Temer falando e achei que ele está imbuído de um desejo real de entrar para a história como um cara que ajudou a consertar o Brasil. Houve momentos em que ele mostrou uma virilidade legal. Por exemplo, quando disse que já tinha sido secretário de Segurança em SP e que não tinha medo de bandido. Ali, o povo gostou. Acho que gostou também quando ele disse que não tem medo de errar e que, se errar em algo, consertá-lo-á. Acho ótimo um presidente falando em mesóclises. Melhor que a Dilma na mandioca. Temer tem de falar, muito, explicar para a população o que significa esta fase de nossa vida, muito além de corrupção ou ideologias.
Tem de explicar. Olho no olho. Sem propaganda. Tem de conquistar um carisma. Tem de explicar, como numa gramática, o que é dívida pública, gastos inúteis, aparelhamento do Estado; as pessoas têm de saber contra o que estão gritando ou marchando. A corrupção imensa, pavorosa, não é o núcleo da questão. Ela nasce das condições arcaicas de dentro da organização política e administrativa. Nossa formação patrimonialista está explodindo agora, depois de séculos. É preciso criar um espaço simbólico para esta presidência transitória.
FHC não explicou com clareza o que estava fazendo em seu governo. FHC não conseguiu criar um espaço reconhecível pela opinião pública, que não pode ser confundido com propaganda ou marketing. Por isso, seu excelente governo, que acabou com a inflação e nos jogou num novo mundo administrativo, acabou arrasado pela oposição do PT diante de uma opinião pública desinformada, aérea. É preciso que as pessoas se sintam passageiras no trem do seu governo.
É importante que o lado ‘espetaculoso’ das denúncias não crie uma institucionalização da zona. Há um velho hábito de acharmos que o Brasil não tem jeito. O perigo é ficarmos cínicos, fatalistas e desesperados. Se não der certo, estamos f***dos.

Editorial do Estadão: Por que Dilma não pode voltar

Dilma atribui aos adversários a intenção de fazer o que ela própria já estava realizando na prática: todos os principais programas sociais de seu governo sofreram cortes nos últimos anos, em razão da falta de dinheiro

A presidente Dilma Rousseff parece acreditar que, ao se manifestar sobre seu governo e seu afastamento, angaria simpatia e, assim, afasta a hipótese altamente provável de seu impeachment. Sempre que a petista abre a boca, porém, fica claro para o País que, se seu governo já foi desastroso, seu eventual retorno à Presidência seria um cataclismo, pois a administração seria devolvida a quem se divorciou completamente da realidade. No mundo em que vive, Dilma se confunde com Poliana: não cometeu nenhum erro, não é responsável pela pior crise econômica da história brasileira e só foi afastada em razão de um complô neoliberal operado pelo deputado Eduardo Cunha, e não porque a maioria absoluta dos brasileiros exige seu impeachment.
“Temos que defender o nosso legado”, disse à Folha de S.Paulo a presidente responsável por recessão econômica, desemprego crescente, inflação acima da meta e contração da atividade, do consumo e do investimento, além de um rombo obsceno nas contas públicas. Foi essa herança, maldita em todos os sentidos, que criou o consenso político em torno do qual o Congresso faz avançar o impeachment. Assim, quando fala em seu “legado”, não é à dura realidade que Dilma está se referindo, mas sim à farsa segundo a qual seu governo beneficiou os mais pobres – justamente aqueles que mais sofrem com a crise que ela criou.
Na entrevista, Dilma sugere que seu “legado” é a manutenção de programas sociais, o que estaria sob risco no governo de Michel Temer, instituído como parte de uma conspiração para instalar no Brasil uma “política ultraliberal em economia e conservadora em todo o resto”. A desmontagem da rede de proteção aos mais pobres seria, segundo ela, o objetivo dos “golpistas”. Dilma atribui aos adversários a intenção de fazer o que ela própria já estava realizando na prática: todos os principais programas sociais de seu governo sofreram cortes nos últimos anos, em razão da falta de dinheiro.
Especialista em destruir os fundamentos da economia, Dilma achou-se autorizada a comentar as possíveis medidas do governo Temer para tentar recuperar um pouco da racionalidade econômica que ela abandonou. Dilma disse ser “um absurdo” a possibilidade de que a imposição de um teto para os gastos públicos atinja áreas como educação. Para ela, “abrir mão de investimento nessa área, sob qualquer circunstância, é colocar o Brasil de volta no passado”. Foi esse tipo de pensamento, segundo o qual há gastos que devem ser mantidos “sob qualquer circunstância”, que condenou o Brasil a um déficit público superior a R$ 170 bilhões.
Ainda em seu universo paralelo, Dilma disse que em 2014 ninguém notou que o País já passava por uma crise, embora o descalabro estivesse claro para quem procurou se informar. “Quando é que o pessoal percebeu que tinha uma crise no Brasil, hein? A coisa mais difícil foi descobrir que tinha uma crise no Brasil”, disse ela, desafiando a inteligência alheia de forma grosseira até para seus padrões. Bastaria ler os documentos de análise da economia produzidos regularmente pelo Banco Central para constatar o desastre desde sua formação até o seu fiasco final com o episódio Joaquim Levy. Ela prefere imputar as mazelas da economia em seu governo à desaceleração da China, à queda do preço do petróleo, à seca no Sudeste e a um complô da oposição e de Eduardo Cunha, que, segundo suas palavras, é “a pessoa central do governo Temer”. Ou seja: para Dilma, se Cunha por acaso não existisse, ela ainda estaria na Presidência, e a crise, superada.
“A crise econômica é inevitável”, ensinou Dilma na entrevista. “O que não é inevitável é a combinação danosa entre crise econômica e crise política. O que aconteceu comigo? Houve uma combinação da crise econômica com uma ação política deletéria.” Segundo a petista, o Congresso, dominado por forças malignas que tinham a intenção de criar um “ambiente de impasse propício ao impeachment”, sabotou todas as “reformas” que ela queria aprovar. Ou seja, Dilma teima em não reconhecer que o clima hostil que ela enfrentou no Congresso foi resultado de sua incrível incompetência administrativa, potencializada por descomunal inabilidade política e avassaladora arrogância. Prefere denunciar a ação de “inimigos do povo” contra seu governo.
Finalmente, convidada a dizer quais erros acha que cometeu, Dilma respondeu: “Ah, sei lá”.

Feliz 2016: até esta quarta, brasileiro trabalhou só para pagar impostos

Tributos sugam 153 dias do ano, ou cinco meses e um dia de trabalho, segundo pesquisa. Há 30 anos, eram apenas 82 dias. Há dez anos, 145.


Impostômetro, no centro de São Paulo
Neste ano, 41,80% de todo o rendimento que os brasileiros ganharem, em média, será destinado a pagar tributos(Germano Luders/VEJA)
Os brasileiros trabalham 153 dias do ano, ou cinco meses e um dia, somente para pagar tributos, de acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). Contado desde o início do ano, o prazo acaba nesta quarta-feira, 1° de junho.
A estimativa, que leva em consideração impostos, taxas e contribuições exigidos pelos governos federal, estadual e municipal, revela que os contribuintes têm de trabalhar cada vez mais para conseguir pagar impostos. Há 30 anos, em 1986, eram necessários 82 dias para pagar tributos. Em 1996, o número subiu para 100 dias. Em 2006, eram necessários 145 dias, até atingir os atuais 153 dias.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

E se José Dirceu fosse o sucessor de Lula

Uma pessoa inteligente pega um texto inteligente, enxerta trechos inteligentes no texto inteligente e desaparece no anonimato. Por quê? Atos dessa natureza, por mais bem urdidos que sejam, acabam enfraquecendo a ideia central, qual seja, a de enfraquecer o personagem focado no texto. Quando descobertos, funcionam como um tiro pela culatra. 

O leitor minimamente cuidadoso há de se lembrar de ter lido a coluna de Nelson Motta no jornal o Estado de São Paulo, datada de 10 de agosto de 2012. Faz pouco  mais de um ano, mas é uma eternidade se formos levar em consideração a avalanche de informações que diariamente cai sobre o cidadão, principalmente em termos de Internet. Além das notícias em circulação, a gente recebe dezenas de e-mails contendo material de todo tipo, o que inclui artigos de famosos se posicionando a respeito de determinados assuntos. É muita coisa mesmo. 

A despeito desse monumental volume de textos, charges, fotos, vídeos e muito mais compartilhados na rede, alguns ficam na memória e são relembrados facilmente quando vistos de novo, ainda que maquiados. Na rede, há muita maquiagem. O território livre e universal da web favorece esse tipo de coisa. 

O músico *Fernando Gamma, porém, aproveitando o momentoso episódio da prisão dos mensaleiros Dirceu e companhia, relembrou aquela coluna de Nelson Motta, mencionada linhas acima, e acrescentou pontos de vista que a tornam ainda mais saborosa, além de atualíssima. O texto ganhou vitalidade e voltou a circular na web. Não vou sugerir o que pode estar (repito, pode estar) nas entrelinhas, com o acréscimo de Gamma, pois seria desprezar a capacidade de entendimento do leitor. Assim, reproduzo o texto para os amigos da rede esperando, sinceramente, que a leitura abra a porta da reflexão.

fernando_gamma

“Se o mensalão não tivesse existido, ou se não fosse descoberto, ou se Roberto Jefferson não o denunciasse, muito provavelmente não seria Dilma, mas Zé Dirceu o ocupante do Palácio da Alvorada, de onde certamente nunca mais sairia. Roberto Jefferson tem todos os motivos para exigir seu crédito e nossa eterna gratidão por seu feito heróico: "Eu salvei o Brasil do Zé Dirceu". Em 2005, Dirceu dominava o governo e o PT, tinha Lula na mão, era o candidato natural à sua sucessão. E passaria como um trator sobre quem ousasse se opor à sua missão histórica. Sua companheira de armas Dilma Rousseff poderia ser, no máximo, sua chefe da Casa Civil, ou presidente da Petrobrás. Com uma campanha milionária comandada por João Santana, bancada por montanhas de recursos não contabilizados arrecadados pelo nosso Delúbio, e Lula com 85% de popularidade animando os palanques, massacraria Serra no primeiro turno e subiria a rampa do Planalto nos braços do povo, com o grito de guerra ecoando na esplanada: "Dirceu guerreiro/do povo brasileiro". Ufa!

A Jefferson também devemos a criação do termo "mensalão". Ele sabia que os pagamentos não eram mensais, mas a periodicidade era irrelevante. O importante era o dinheirão. Foi o seu instinto marqueteiro que o levou a cunhar o histórico apelido que popularizou a Ação Penal 470 e gerou a aviltante condição de "mensaleiro", que perseguirá para sempre até os eventuais absolvidos. O que poderia expressar melhor a idéia de uma conspiração para controlar o Estado com uma base parlamentar comprada com dinheiro público e sujo? Nem Nizan Guanaes, Duda Mendonça e Washington Olivetto, juntos, criariam uma marca mais forte e eficiente. Mas, antes de qualquer motivação política, a explosão do maior escândalo do Brasil moderno é fruto de um confronto pessoal, movido pelos instintos mais primitivos, entre Jefferson e Dirceu. Como Nina e Carminha da política, é a história de uma vingança suicida, uma metáfora da luta do mal contra o mal, num choque de titãs em que se confundem o épico e o patético, o trágico e o cômico, a coragem e a vilania. Feitos um para o outro. 

 

O "chefe" sempre foi José Dirceu. Combativo, inteligente, universitário - não sei se completou o curso - fala vários idiomas, treinado em Cuba e na Antiga União Soviética, entre outras coisas. E com uma fé cega em implantar a Ditadura do Proletariado a "La Cuba". Para isso usou e abusou de várias pessoas e, a mais importante – pelos resultados alcançados - era Lula. Ignorante, iletrado, desonesto, sem ideais, mas um grande manipulador de pessoas, era o joguete ideal para o inspirado José Dirceu. Lula não tinha caráter nem ética, e até contava, entre risos, que sua família só comia carne quando seu irmão "roubava" mortadela no mercado onde trabalhava. Ou seja, o padrão ético era frágil. E ele, o Dirceu, que fizera tudo direitinho, estava na hora de colher os frutos e implantar seu sonho no país. Aí surgiu Roberto Jefferson... e deu no que deu.”

*Fernando Gamma é músico e mantém página no Facebook

http://fg-news.blogspot.com.br/2013/11/e-se-jose-dirceu-fosse-o-sucessor-de.html?m=1