domingo, 9 de fevereiro de 2014

A 'confissão' do fugitivo

Em agosto de 2007, ao cabo de cinco sessões que consumiram mais de 30 horas, o Supremo Tribunal Federal (STF) acolheu por unanimidade a denúncia da Procuradoria-Geral da República contra 40 acusados de participar do mensalão. Foi a primeira de uma longa sequência de deliberações que desembocaram, passados seis anos, na condenação de 25 réus por uma variedade de delitos, entre os quais, corrupção, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e peculato. Mas um deles, o ex-diretor de marketing do Banco do Brasil (BB) Henrique Pizzolato, não esperou ser condenado a 12 anos e 7 meses por ter autorizado um repasse de R$ 73,8 milhões que o banco mantinha no Fundo Visanet para uma das empresas do operador do mensalão, Marcos Valério de Souza, recebendo em troca um regalo de R$ 336 mil.
Embora negasse que os recursos do Visanet tivessem sido desviados para irrigar o esquema de compra de votos na Câmara dos Deputados e sustentasse que a soma a ele entregue por um mensageiro se destinava ao PT, o precavido Pizzolato, apenas três meses depois de se tornar réu, começou a cavar um túnel para escapar do cumprimento da pena que lhe seria imposta. Graças a esse paciente labor, em setembro do ano passado ele conseguiu fugir para a Itália, onde seria capturado, na última quarta-feira. Para o mal ou para o bem, um pouco de sorte sempre ajuda. A de Pizzolato consistiu em não ter sido jamais registrado em cartório o atestado de óbito de seu irmão Celso, morto em 1978 em acidente de carro. Isso permitiu ao petista reavivá-lo perante a burocracia pública.
Em novembro de 2007, tirou em nome do irmão um novo documento de identidade, a que se seguiria o título de eleitor e, enfim, um passaporte com a sua própria foto - que o vivíssimo Pizzolato usou em 2010, com êxito, numa viagem-teste. Mais do que a porosidade do sistema de emissão de documentos no País ou a competência de Pizzolato como falsário, o essencial da história é o fato de ela desmoralizar a farsa dos punhos erguidos. É a expressão corporal que o PT adotou para dramatizar a alegação de que os seus grãos-companheiros condenados (José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e João Paulo Cunha) foram vítimas de um linchamento judicial com fins políticos, numa Corte de cartolina que ignorou as provas de sua inocência ou não conseguiu demonstrar a sua culpa.
Toda a armação que tornou possível a fuga de Pizzolato foi uma confissão de culpa - mas não no sentido que lhe dá o deputado Vicentinho, novo líder da bancada petista da Câmara. Para ele, a conduta do ex-diretor do BB causa "vergonha e constrangimento" ao partido. "Estamos defendendo a tese da inocência, combatendo o que foi feito no julgamento", argumenta, "então ele tinha que ter ficado aqui junto com os outros fazendo o debate." Isso é criar uma realidade paralela. Sim, ao se escafeder, Pizzolato como que assinou a confissão dos delitos individuais que nega da boca para fora. Mas eles simplesmente não teriam ocorrido se a cúpula do PT - com ou sem o conhecimento e o endosso do Primeiro Companheiro - não tivesse decidido comprar políticos com dinheiro público.
O objetivo, naturalmente, era assegurar a aprovação dos projetos do Planalto, facilitando a reeleição do presidente Lula e abrindo caminho à perpetuação do partido no poder. Portanto, não foi apenas para embolsar uma enxundiosa comissão que Pizzolato se acertou com o homem-chave da organização criminosa, o publicitário Marcos Valério, para repassar-lhe quase R$ 74 milhões em recursos do maior banco estatal do País. E, definitivamente, a iniciativa do acerto, seja de quem tenha sido, não foi um lance isolado. Dito de outro modo, a confissão implícita só faz sentido como o fio da meada que, primeiro, conduz à existência do mensalão e, segundo, justifica as sentenças emitidas pelo STF.
Se a narrativa da evasão do petista agora envergonha e constrange a legenda, não é, como parece acreditar o deputado Vicentinho, porque o companheiro não ficou aqui "fazendo o debate" (ou seja, disparando vitupérios contra o Supremo Tribunal). Mas porque serviu para expor ainda uma vez a esqualidez moral do partido do mensalão - esta sim, vergonhosa e constrangedora.
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-confissao-do-fugitivo,1128341,0.htm

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

‘Não fui eu’, por J. R. Guzzo

Nada como o fracasso para trazer à luz do sol alguns dos defeitos mais desagradáveis que o ser humano esconde nos subúrbios distantes da sua alma. Diz-me como lidas com teus fracassos, e eu te direi quem és ─ eis aí o resumo da ópera, numa adaptação do velho provérbio sobre as más companhias. De fato, é quando as coisas complicam que fica mais fácil dividir o bom do mau caráter. Personalidades construídas com material de primeira qualidade sabem que o fracasso, em si, não é fatal; é apenas o resultado dos erros de julgamento de todos os dias, e, portanto, deve ser enfrentado com a disposição de fazer mudanças, adquirir mais conhecimento, ouvir mais gente e assim por diante. Mas sabem, também, que o fracasso pode ser um pecado mortal quando o seu autor não admite que fracassou, ou nega que tenha havido realmente um fracasso, ou, pior que tudo, põe a culpa do fracasso nos outros. Seu mandamento principal é uma frase muito ouvida nas salas de aula infantis: “Não fui eu”. São pessoas fáceis de encontrar. Um dos seus habitats é o governo.
A presidente Dilma Rousseff, por exemplo, não perde nenhuma oportunidade de dizer “não fui eu”. O ano de 2013, para ir direto ao assunto, foi uma droga. O PIB cresceu abaixo de 2,5% ─ quase metade do que o governo tinha prometido no começo do ano. O saldo da balança comercial teve o pior resultado desde 2000, com uma queda de quase 90% em relação a 2012. Num tipo de molecagem contábil cada vez mais comum, registrou-se como “exportação” a venda de equipamento que nunca saiu do território nacional. Em dólar, mesmo, não entrou um centavo no Brasil. Mas no papelório oficial consta o ingresso de quase 8 bilhões, sem os quais, aliás, teria havido déficit na balança de 2013. Outros truques parecidos fazem do Brasil um aluno promissor da Escola de Contabilidade Cristina Kirchner.
Pela primeira vez em dez anos, caíram as vendas de carros. O contribuinte pagou 1,7 trilhão de reais em impostos ─ a maior soma de todos os tempos. Os brasileiros gastaram cerca de 25 bilhões de dólares no exterior, quatro vezes mais do que os estrangeiros gastaram aqui ─ e qual a surpresa, quando ficou mais barato comprar um enxoval em Miami do que em Botucatu? A maior empresa do Brasil, a Petrobras, teve um desempenho calamitoso: em apenas um ano, de 2012 a 2013, foram destruídos 40 bilhões de reais do seu valor de mercado. O Brasil (que Lula, em 2006, proclamou “autônomo” em petróleo, e já pronto para “entrar na Opep”) importou 40 bilhões de dólares em petróleo e derivados em 2013.
A presidente, cada vez mais, dá a a impressão de estar passeando num outro planeta. Segundo Dilma, 2013 até que foi um ano bem bonzinho, e o que pode ter acontecido de ruim não foi culpa dela, e sim da “guerra psicológica” que teria sofrido. Foram condenados, também, os “nervosinhos” ─ gente que, segundo o ministro Guido Mantega, fez cálculos pessimistas para as contas públicas de 2013. Veio, então, com uns miseráveis decimais acima das tais previsões ─ que, de qualquer forma, ficaram muito abaixo da meta prometida. Os juros foram a 10,5% ao ano, a inflação voltou a roncar e o Brasil pode perder o seu sagrado “grau de investimento” em 2014.
A estratégia econômica resume-se hoje a repetir a ladainha de sempre sobre o desemprego de “apenas 4,6%”, que na verdade parece ser de 7%, e o aumento de renda que levou “milhões de brasileiros” a sair da miséria e subir à “classe média”. Chega a ser piada de humor negro misturar dados de desemprego no Brasil e em países do Primeiro Mundo, para vender a ilusão de que “estamos melhor que eles”. O que adianta isso, quando o abismo entre nosso bem-estar e o do mundo desenvolvido continua igual? Da “subida social” dos brasileiros, então, é melhor nem falar. Falar o quê, quando o governo decidiu que faz parte da classe média todo cidadão que ganha de 291 reais por mês a 1 019? A presidente quer que acreditemos no seguinte disparate: a pessoa entra na classe média se ganhar menos da metade do salário mínimo por mês; se ganhar 1 020 reais, já fica rica.
A presidente Dilma daria um enorme passo adiante se deixasse entrar na própria cabeça a ideia de que um fracasso é apenas um fato, e não um julgamento moral. Ninguém se torna um ser humano melhor porque acerta, ou pior porque erra. Mas no Brasil o que vale não é enfrentar o fracasso lutando pelo sucesso. Melancolicamente, o que funciona é negar a derrota e chamar a marquetagem para dar um jeito nas coisas. O resultado são anos como 2013.
http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/opiniao-2/nao-fui-eu-por-j-r-guzzo/

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Cada um pagando a sua..., conta outra...,


Piada de português ao estilo do filme ‘Bananas’, de Woody Allen: a conta do Eleven foi dividida por 11

CELSO ARNALDO ARAÚJO
O sempre inseguro Fielding Melish leva um fora da namorada, ativista política radical, e decide largar a vidinha em Nova York para se aventurar numa republiqueta do Caribe, apoiando os rebeldes contra o ditador de plantão. É o contexto de Bananas, uma das comédias rasgadas da primeira fase de Woody Allen, lançada em 1971.
A se acreditar na versão pouco inspirada do ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, Bananas teve uma de suas cenas mais hilárias reproduzida numa das mesas do restaurante Eleven, em Lisboa, sábado passado – presente a própria presidente da República do Brasil, Dilma Rousseff. Que cena é essa?
No filme, o americano Melish é convidado para um jantar no restaurante El Presidente’s, que funciona no próprio palácio do ditador – com direito a fundo musical silencioso a cargo de um quarteto de velhos e tristes músicos tocando instrumentos imaginários. Ao final de um jantar tenso, o garçom sobrevivente – o outro fora envenenado ao provar o prato do ditador — lhe traz a conta. Antes de pagar, Melish checa um por um os itens da despesa com o presidente e seus áulicos.
– Quem comeu o rosbife?
– Eu.
– E o sanduíche de pastrami com repolho?
– Aqui.
– Não entendo, há um rosbife a mais.
Esclarecidas as dúvidas, o ditador pergunta ao atônito convidado:
– Tem Diner’s Club? Cartão do Banco da América?
À moda dos diplomatas — profissionais treinados para fingir que mentem até quando falam a verdade — o chanceler Figueiredo veio a público ontem, provavelmente a mando de Dilma, para afirmar que a conta do jantar no Eleven, um dos mais luxuosos restaurantes portugueses, com suas enormes janelas voltadas para o Tejo e cujo menu vai muito além do clichê do bacalhau, também foi trazida à mesa, como no El Presidente’s.
Só imagine a cena, depois de rever aqui o clip de Bananas. Um dos comensais da comitiva da presidente pega a conta, confere item por item. Confere os presentes – 11 – e, com uma minicalculadora, divide por eles o total da conta.
Presumindo que todos tenham pedido o menu-degustação “Estrela Michelin”, que custa 89 euros por pessoa e inclui, por exemplo, “Porco de raça alentejana, atrás das trufas”, não há cálculos personalizados a fazer. É a mesma quantia para todos os presentes.
Um funcionário da casa vem então à mesa, com a maquininha, como emBananas, passar os cartões. Na vez da presidente, ela saca da bolsa seu cartão pessoal, onde se lê Dilma Vana Rousseff, e pronto –fez sua parte, neste governo que não tolera privilégios, não compactua com malfeitos… Mas, espere, da bolsa? Alguém já viu Dilma de bolsa? Como tirar um cartão na bolsa ausente? Não se prenda a esses detalhes: a fábula é de Luiz Figueiredo, não nossa. O fato é que cada um pagou o seu, como naqueles almoços da firma. Ok, ao total do jantar teriam que ser acrescentados os 55 mil dólares de hotel daquela noite – considere isso como um pastel de Belém muito especial.
Mas essa refilmagem brasileira de Bananas teria ainda uma cena final em Cuba. Após a inauguração do Porto de Mariel, a 130 quilômetros de Miami, aberto ao Atlântico e com saída para o Pacífico através do canal do Panamá, obra inteiramente financiada pelo BNDES, houve um banquete no El Comandante´s.
Ao final, alguém trouxe a conta à convidada, nossa versão mais madura de Fielding Manish – o revolucionário que só queria se dar bem: 957 milhões de dólares.
– Tem Diner’s Club?
– Não, Banco do Brasil.
Só uma dúvida:
–Quem pediu a entrada para o Canal do Panamá?

http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/feira-livre/piada-de-portugues-ao-estilo-do-filme-bananas-de-woody-allen-a-conta-do-eleven-foi-dividida-por-11/

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Bomba: médica cubana pede asilo no Brasil. Ou: A prova de que o governo do PT é cúmplice de escravidão


Estava demorando. O primeiro caso de uma médica cubana pedindo asilo no Brasil. Procurou o deputado Ronaldo Caiado, do DEM, e está abrigada no gabinete do partido. Ramona Matos Rodriguez diz que foi enganada pela ditadura cubana, que não pode sair livremente sem ser vigiada, e que ganha apenas US$ 400 de salário. Disse a cubana:
Eu penso que fui enganada por Cuba. Não disseram que era o Brasil estaria pagando R$ 10 mil reais pelo serviço dos médicos estrangeiros. Me informaram que seriam 400 dólares aqui e 600 pagos lá depois que terminasse o contrato. Eu até achei o salário bom, mas não sabia que o custo de vida aqui no Brasil seria tão alto.
A cubana afirmou que não deixará a Câmara porque teme ser presa. Ela afirmou ainda estar preocupada com a filha, que mora em Cuba. “Tenho uma filha que é médica e mora lá. Esse é o grande problema”, disse. Apenas alguém muito desesperada faria isso, colocando em risco a vida da própria filha lá na ilha-presídio.
O governo do PT é cúmplice de escravidão, ao compactuar com isso tudo. Negociou com uma ditadura para utilizar trabalho escravo no país, sabendo que quase todo dinheiro ficará com o regime tirano e que tais profissionais não terão liberdade de ir e vir em nosso país, o que vai contra nossa Constituição.
Isso é da maior gravidade. O precedente do governo petista é o pior possível: quando dois boxeadores pediram asilo, o então ministro Tarso Genro os despachou de volta para Cuba, sabendo que seriam duramente punidos pelo ditador Castro. O PT coloca sua afinidade ideológica e sua camaradagem com a ditadura acima de nossas leis e dos direitos humanos.
Ronaldo Caiado, em sua página do Facebook, escreveu:
Ramona nos entregou cópia do contrato assinado. E sabe qual a surpresa? O contrato é intermediado por uma empresa que funciona como “gato”. A “Comercializadora de Servicios Médicos Cubanos S.A.” é a responsável pelos contratos. Ela recebe 400 dólares (R$800) dos R$ 10 mil. Outros 600 dólares (R$ 1200) são depositados em uma conta cubana e supostamente seriam pagos quando o médico retornasse. E o restante dos R$ 10 mil mensais? Para o bolso dos ditadores Castro. 
Já falei com a Comissão de Direitos Humanos da OAB e vamos entrar com o pedido de asilo, amanhã, no Ministério da Justiça! Se Ramona voltar para Cuba, será presa. A Polícia Federal já está atrás dela. Grampearam o seu telefone. A Liderança do Democratas agora é a embaixada de apoio aos refugiado cubanos. Ela vai ficar aqui. Daqui só sai quando estiver segura.
Espero que o Brasil ainda tenha algum resquício de oposição política, pois o caso é grave e demanda uma atitude firme e conjunta. A probabilidade de ela ser ameaçada e ter de voltar atrás para simular arrependimento é enorme. A pressão do governo brasileiro, fosse um governo minimamente decente, seria para que o regime cubano mandasse sua filha para cá, e ambas teriam o asilo concedido. Como se trata do PT, sabemos que a reação será outra, bem diferente…
Rodrigo Constantino
http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/comunismo-2/bomba-medica-cubana-pede-asilo-no-brasil-ou-a-prova-de-que-o-governo-do-pt-e-cumplice-de-escravidao/

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Segredos de estado...,

‘A escapada de Dilma’, por Ricardo Noblat

Publicado no Blog do Noblat
No sábado 31 de março de 2012, depois de uma visita à Índia, Dilma Rousseff embarcou de volta sem a imprensa saber que o avião presidencial faria uma escala para reabastecimento no sul da Itália. Não tem autonomia para voar direto de tão longe.
Durante cinco horas, por decisão de Dilma, somente as cúpulas do governo, das Forças Armadas e dos órgãos de segurança sabiam onde ela estava, e o que fazia.
Um mês antes, o chefe do cerimonial da presidência da República telefonara para José Viegas, embaixador do Brasil em Roma, pedindo uma sugestão: de volta da Índia, onde o avião deveria abastecer?
Viegas respondeu na hora: em Palermo, capital da ilha da Sicília, parte da Itália. Ali existe um dos bens mais preciosos da humanidade – a Capela Palatina, recoberta de mosaicos do século XII.
Viegas foi avisado de que deveria recepcionar Dilma em Palermo no dia 31.
Os que cuidam da segurança da presidente haviam inspecionado os locais por onde ela passaria – o centro da cidade, a capela e o restaurante reservado para o jantar da comitiva de 18 pessoas, o quatro estrelas “Tratoria Piccolo Napoli” (telefone: +39 091 320431).
“Não quero seguranças ao meu lado”, ordenara Dilma. Que desembarcou em Palermo reclamando da companhia do fotógrafo da presidência. Ao seu lado, Helena Chagas, então ministra da Comunicação Social, nada disse. Ninguém ousaria.
Viegas consultou Dilma sobre o jantar. A “tratoria” fica em um bairro popular de Palermo. De varais com roupas estendida entre as casas. O lugar lembra o bairro do Brás, no centro de São Paulo.
Havia outra opção: um cinco estrelas à beira-mar posto de prontidão pelos agentes de segurança brasileiros.
“Vamos para o Brás”, respondeu Dilma.
O jantar custou cerca de mil dólares.
Dilma gosta de pizza. Em um domingo, há mais de ano, faltou pizza no Palácio do Alvorada. Seus assessores entraram em pânico. Foi aberta uma pizzaria para servi-la.
O que ela jantou em Palermo é “segredo de Estado”.
Fora os presidentes-generais da ditadura militar de 1964, presidente algum foi tão autoritário quanto Dilma é. Nem mesmo Fernando Collor de Melo, o primeiro a ser eleito pelo voto direto em 1989.
Ministros deixaram o governo Dilma por não suportá-lo (atenção: sem desmentidos, prefeito Fernando Haddad). Outros recusaram convites.
O cozinheiro de Palermo foi aplaudido de pé.
Certa vez, o encarregado dos bichos que vivem no Palácio da Alvorada foi chamado à presença de Dilma. Jamais esquecerá o que ela lhe disse por que um avestruz bicara um cão.
Palermo da Capela Palatina foi a primeira viagem de Dilma mantida em segredo. Salvo em ocasiões especiais, presidentes de países democráticos como o nosso nunca procederam assim.
Na semana passada, de volta da Suíça, sabia-se que Dilma iria à Cuba.
O jornal O Estado de S. Paulo descobriu o que fora omitido do público por ordem dela: o avião presidencial faria uma escala em Lisboa.
A informação parece irrelevante? De novo: em democracias não é.
O distinto público tem o direito de saber onde seu presidente está.
Omissão equivale a mentira.
http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/opiniao-2/a-escapada-de-dilma-por-ricardo-noblat/#more-820514

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Contratos sigilosos...,

dilma-mariel
Dilma Rousseff e Raúl Castro inauguram o Porto de Mariel
Em 3 de junho de 2009, já acumulando as atribuições de chefe da Casa Civil com os deveres de candidata de Lula à presidência da República, Dilma Rousseff jurou que o governo não gastaria um só tostão na reforma ou na construção de estádios. Os investimentos públicos seriam reservados a “obras de mobilidade urbana” que transformariam em miniaturas tropicais da Noruega as 12 cidades incluídas no roteiro da Copa do Mundo.
O desfile de tapeações foi encerrado com a louvação do deslumbramento sobre trilhos que desde 2007 só apita na imaginação de Dilma. “Nosso projeto é que o trem-bala esteja integralmente pronto em 2014 ou pelo menos o trecho entre Rio e São Paulo”, reincidiu a babá do Brasil Maravilha que Lula pariu. “Pretendemos ter os trens em funcionamento para a Copa, até porque esta é uma região muito importante em termos de movimentação na Copa”.
Passados quatro anos e meio, os estádios não param de sangrar cofres públicos, o trem-bala segue enfurnado na cabeça dos farsantes e os milagres de mobilidade urbana não desceram do palanque. Os metrôs subterrâneos, de superfície ou elevados, os trens metropolitanos com ar condicionado, o mundaréu de aeroportos, as rodovias de matar gringo de inveja ─ nada disso se tornou visível. A única obra de grande porte inaugurada pela presidente de um país cuja infraestrutura implora por socorros urgentes fica em Cuba.
Construído pela Odebrecht e financiado pelo BNDES, o porto de Mariel (cuja capacidade supera em 30% a de Suape) já engoliu 682 milhões de dólares subtraídos dos brasileiros que pagam impostos. Como Dilma desembarcou na ilha-presídio dos Irmãos Castro decidida a gastar por lá o dinheiro que falta aqui, os canteiros de obras no Caribe acabam de ser irrigados por mais 290 milhões de dólares. Vai chegando a 1 bilhão de dólares, portanto, a contribuição à modernização logística de Cuba que começou em 2008 (com a celebração do acordo inaugural entre o governo Lula e a ditadura castrista) e não tem prazo para terminar.
Foi doação ou empréstimo?, faz questão de saber o Brasil decente. Na primeira hipótese, como explicar tamanha generosidade com a velharia comunista devastada pela indigência econômica? Quem garante que a dívida não será perdoada pelo pobretão metido a novo-rico? Na segunda hipótese, em que condições foi concedido o empréstimo? Como e quando será quitado? Qual é a taxa de juros? Que precauções adotou o Brasil para zerar o risco do calote e prevenir atrasos no pagamento? Quais são as vantagens e contrapartidas capazes de justificar a gastança de dimensões escandalosas?
Se depender da seita que reza no altar de Fidel Castro e se ajoelha diante do mano Raúl, essas e outras zonas de sombras só serão dissipadas daqui a 13 anos. Isso porque em junho de 2012, um mês depois da entrada em vigor da Lei de Acesso à Informação, o companheiro Fernando Pimentel, um velho amigo de Dilma disfarçado de ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, decretou que só em 2027 deixarão de ser secretos os contratos que envolvem o porto de Mariel.
O BNDES premiou numerosos países com financiamentos de bom tamanho. Mas apenas o papelório que detalha os negócios fechados com Cuba e Angola, controlada desde 1979 pelo ditador companheiro José Eduardo dos Santos, foi enterrado na tumba dos segredos de Estado. Os adjutórios repassados ao parceiro africano, oficialmente destinados a estimular a “importação de bens e serviços de empresas brasileiras”, já alcançam 5 bilhões de dólares.
O dinheiro desviado para as duas tiranias de estimação se aproxima dos 7 bilhões de dólares necessários para eliminar até 2024 as carências que acossam o porto de Santos, o maior da América Latina, responsável por 1/4 da balança comercial brasileira. A profundidade, por exemplo, precisa passar de 13 para 17 metros (Mariel já nasceu com 18 metros). Os 12 quilômetros de cais são cada vez mais acanhados para um movimento anual que em 2013 atingiu 114 milhões de toneladas. Enquanto filas monstruosas congestionam as imediações do porto de Santos, Mariel já conta com 12 quilômetros de ferrovias e 70 quilômetros de estradas pavimentadas com pista dupla.
A PEC 37, que pretendia reduzir os poderes investigativos do Ministério Público, foi prontamente arquivada pelo Congresso tão logo entrou na mira dos atos de protesto promovidos em junho passado. Vem aí uma segunda onda de protestos contra a gastança e a corrupção escancaradas pela Copa da Roubalheira. Para mostrar que os brasileiros não são um bando de idiotas, é preciso incorporar às palavras de ordem a quebra do sigilo dos contratos com Cuba e Angola.
Duas ou três manifestações de rua serão suficientes que se revogue, em regime de urgência urgentíssima, o segredo mais que suspeito. E então saberemos o que foi tramado pela turma que morre de saudade do Muro de Berlim.
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O interminável congestionamento do Porto de Santos

Rombo no governo da presidente Dilma será de R$ 534 bilhões

Deficit nominal nos quatro anos de mandato da petista será 73,5% maior do que o registrado na primeira gestão de Lula

"As contas fiscais do Brasil têm se deteriorado devido a uma combinação do crescimento moderado das receitas com as pressões de gastos crescentes e continuados" Shelly Shetty, diretora para América Latina da Fitch Ratings

A administração Dilma Rousseff deixará uma marca nada agradável para um governante: entre 2011 e 2014, o rombo nas contas do setor público deverá totalizar R$ 534,6 bilhões, segundo as estimativas mais conservadoras do mercado e da equipe econômica. O buraco será maior do que os R$ 500 bilhões em investimentos prometidos pela presidente da República por meio das concessões de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos, um claro sinal de descontrole das finanças federais. Para os especialistas, o próximo ano será tão complicado, com o deficit podendo chegar a 4% do Produto Interno Bruto (PIB), que o futuro comandante do Palácio do Planalto será obrigado a aumentar impostos para manter o país governável.

Em relação ao primeiro mandato de Lula, quando houve deficit nominal (que inclui os juros da dívida pública) de R$ 308,1 bilhões, o rombo do governo Dilma será 73,5% maior. Na comparação com os últimos quatro anos do petista, nos quais faltaram R$ 336,3 bilhões para o fechamento das contas, o salto foi 59%. Não à toa, o Brasil está sob total descrença entre os investidores e pode ser rebaixado pelas agências de classificação de risco, fato que, se confirmado, elevará o custo dos empréstimos que as empresas fazem no exterior para incrementar negócios no país.

No primeiro ano de mandato, as contas de Dilma ficaram R$ 108 bilhões no vermelho. Em 2012, houve estabilidade, com deficit de R$ 109 bilhões. Neste ano, as projeções apontam para um buraco mínimo de R$ 150 bilhões, correspondente a 3% do PIB. Para 2014, ano de eleições, as estimativas apontam para rombo de R$ 167,7 bilhões, o equivalente a 3,2% do PIB. Os mais pessimistas, como o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, falam em deficit nominal de até 4% do Produto ou R$ 210 bilhões.
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2013/11/09/internas_economia,397967/rombo-no-governo-da-presidente-dilma-sera-de-r-534-bilhoes.shtml

domingo, 2 de fevereiro de 2014

‘O Quadragésimo Ministério’

Publicado na coluna de Carlos Brickmann

Millôr Fernandes criou, em O Cruzeiro, o Ministério de Perguntas Cretinas. Havia perguntas como “xeque-mate pode ser falsificado?” e a resposta: “Com a vantagem de que o sujeito não acaba no xadrez. Já está”. Pois retomemos o Ministério, com perguntas (sem resposta) da jornalista Regina Helena Paiva Ramos:
─ Chanceler brasileiro pode mentir? O nosso disse que a parada em Lisboa foi decidida no sábado e Portugal já estava informado desde quinta-feira.
2 ─ Dilma levou 45 pessoas. O presidente do Uruguai viaja com quantas?
─ De onde saem as ordens para incendiar ônibus em São Paulo? Ainda não deu para a Polícia mais bem equipada do país saber o que ocorre, para agir?
─ As mortes nos presídios do Maranhão continuam. Ninguém vai pedir o impeachment da governadora, que não tem controle da situação ─ ou, pior, tem?
─ Quando a Sabesp, estatal paulista de saneamento, vai parar de botar anúncios na TV de que saneou o Litoral, e vai usar o dinheiro saneando o Litoral?
─ Quando o prefeito paulistano, Fernando Haddad, vai retirar as faixas avisando que certos locais são sujeitos a enchentes, e tocar obras contra enchentes?
─ Por que há dinheiro para construir um porto em Cuba e não há para dragar o porto de Santos? A profundidade de Santos é de 13 metros e deveria ser de 17, mas falta verba. O porto cubano tem verba nossa e nasce com 18 metros.
E as respostas? Não precisamos de um Ministério das Respostas Cretinas. As respostas a gente vive recebendo sem que seja criado o 41º Ministério.
Pergunta e resposta
Por que a presidente Dilma quis fazer uma escala em Portugal? Porque sim: isso não tem a menor importância. Mas a consequência é importante: por causa das fotos, em que a presidente não aparece em seus melhores ângulos, a ministra da Comunicação, Helena Chagas, sempre fiel à presidente, perdeu o posto.
Sem modos 1
O ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, criticou as prisões brasileiras e responsabilizou os políticos que não se preocupam com o tema. A crítica foi feita em palestra no Kings College, Londres. Violou a máxima impecável de Mário Henrique Simonsen: não se fala mal do Brasil em inglês. Tem críticas ao sistema penitenciário? Fale aqui, dentro do país.
Se bem que o desabafo de Barbosa não repercutiu muito. Seu próprio anfitrião, Richard Trainor, reitor do Kings College, dormiu por boa parte do discurso.
Sem modos 2
Vamos combinar que o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, nunca se notabilizou pelo refinamento (os alemães, que já o convidaram para visitar o país, se surpreenderam com sua, digamos, descontração). Nesta semana, festejando a vitória dos caças Grippen na concorrência da FAB, que levou os suecos a instalar uma fábrica em São Bernardo, com investimento de US$ 150 milhões e criação de mil empregos diretos, vangloriou-se, diante dos microfones: “Eu sou bom pra caralho!”
E pensar que Marinho, antes de ser prefeito, já tinha sido ministro.
Governo pra que? 
O Governo paulista acaba de ser surpreendido por um acontecimento extraordinário: o início das aulas (coisa inusitada, que só acontece uma vez por ano). Os alunos da rede estadual não receberam cadernos. E a explicação é fantástica: os cadernos, informam Suas Excelências, são apenas extensão do material escolar.
Claro: se o aluno pode escrever na mão e só lavá-la depois de decorar tudinho, para que caderno? E, melhor ainda, já pensou na economia de água e sabão?
Pra que Governo? 
A surpresa do Governo paulista com o inusitado início das aulas no início do ano trouxe outra consequência: não havia professores suficientes. Segundo o secretário da Educação, Herman Voorwald, faltou contratar a tempo os professores temporários. E por que isso aconteceu?
Porque, para voltar a trabalhar no dia 27 de janeiro, conforme previsto há mais de um ano, deveriam ter entrado em férias até 18 de dezembro. Esqueceram disso. E, lembremos, exatamente para não esquecer essas coisas, há uma Secretaria de Estado da Educação, há Diretorias de Ensino, há diretores nas escolas. Há alunos, também ─ mas quem se preocupa com alunos?
Pelo jeito, em São Paulo, aluno é apenas um detalhe. E incômodo.
Vem, dinheirinho! 
A vaquinha promovida pelo mensaleiro condenado Delúbio Soares para pagar a multa que faz parte de sua pena rendeu mais que o dobro do necessário: a multa é de R$ 466.888 reais e a arrecadação chegou a R$ 1,013 milhão.
Delúbio, que antes do Mensalão cuidava as finanças do PT, continua ótimo para arrecadar.
Os doadores
Mas seria interessante verificar quem foram os doadores, se pagaram os impostos referentes à doação, se seus bens são suficientes para sacrificar-se pelo companheiro necessitado. Delúbio é muito querido no PT: logo depois do Mensalão, foi expulso, mas acabou voltando. Mesmo em desgraça, jamais deixou de andar em bons carros, modernos, amplos, possantes.
E, sabe como é, blindados.
http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/opiniao-2/o-quadragesimo-ministerio-por-carlos-brickmann/

Impávido Colosso

No Brasil, com um pouco mais de 33 mil reais, você consegue comprar um Palio Attractive 2014 prata, vendido no site oficial da Fiat por 33.321 reais. Ele possui motor 1.0 de 75 cavalos e vem equipado com dois air bags. Já nos Estados Unidos, você pode comprar um Nissan Versa Note S 2014, vendido atualmente por 13.990 dólares (32.876 reais, com dólar a 2,35). Ele possui motor 1.6 de 109 cavalos, vem equipado com ar condicionado, 6 air bags, rádio AM/FM/MP3 e controle de tração. O Nissan Versa Note S não é comercializado no Brasil.

Menos petróleo

Em seus 60 anos de história, a Petrobrás só registrou queda de produção quatro vezes. Em apenas três anos, o governo Dilma tornou-se responsável por dois desses resultados negativos. O mais recente é o de 2013, quando a produção média ficou em 1,931 milhão de barris por dia, 2,5% menos do que a média de 2012 (1,980 milhão de barris/dia), que já tinha sido 2,1% menor do que a de 2011 (2,022 milhões de barris/dia).
Trata-se de uma proeza político-administrativa, que elimina qualquer dúvida, se ainda restava alguma, quanto ao caráter falacioso do estrondoso anúncio da autossuficiência do País feito em abril de 2006 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com as mãos cobertas do óleo do primeiro jato do petróleo do poço de Albacora Leste, na Bacia de Campos. Lula imitava o gesto do então presidente Getúlio Vargas, na comemoração do primeiro poço da Petrobrás, empresa que acabara de ser criada. Com ele, Lula pretendia demonstrar que o sonho da autossuficiência por muitos acalentado desde o fim da década de 1940, com a campanha "O petróleo é nosso", se tornava realidade.
O fato de, naquele momento, o País ter alcançado um volume de produção suficiente para atender à demanda interna não era, porém, garantia de que a produção nacional continuaria sendo sempre superior ao consumo. Era preciso investir em manutenção das unidades em operação e em novas, para assegurar o crescimento da produção em ritmo igual ou superior ao do aumento da demanda.
Nos seis primeiros anos que se seguiram ao anúncio ufanista de Lula, de fato, a produção cresceu. A partir de 2011, no entanto, a tendência se reverteu. Poços mais antigos, alguns considerados maduros, passaram a produzir menos, enquanto os novos ainda não produziam o suficiente para compensar a queda observada nos demais.
É natural que, tendo alcançado seu auge, a produção comece a declinar. Mas, no caso dos poços da Petrobrás não se pode culpar a natureza por isso. Em muitos campos, entre os quais os de maior produção, o declínio vinha sendo mais intenso do que o observado em outras regiões, o que causou preocupação na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Investimentos em manutenção não foram feitos no ritmo e no volume necessários e as paradas das operações para reparos e manutenção em geral tornaram-se mais longas do que seria normal.
Para tentar reverter a tendência de queda acelerada da produção dos campos antigos, a Petrobrás criou o Programa de Aumento da Eficiência Operacional, o que, segundo nota por ela divulgada, contribuiu para melhorar a eficiência das unidades do Rio de Janeiro e da Bacia de Campos e permitiu que o declínio da produção nos campos em operação ficasse "dentro dos padrões esperados pela empresa e compatível com o padrão da indústria de petróleo".
Mas nem tendo alcançado esses resultados nos campos em operação a empresa conseguiu evitar a queda de sua produção em 2013. Os problemas de manutenção das plataformas em operação são apenas parte das dificuldades que, por influência político-partidária do governo do PT em sua gestão, a Petrobrás enfrenta há anos.
Ela foi submetida a uma rígida política de controle de preços dos combustíveis, que a forçou a acumular prejuízos crescentes. O preço de venda não cobria os custos de produção nem, muito menos, o custo dos derivados que, por não ter investido a tempo na ampliação de seu parque de refino, a estatal passou a importar, em volumes cada vez maiores para atender a uma demanda cada vez mais aquecida.
Seu plano quinquenal de investimentos foi fortemente influenciado pelos interesses político-eleitorais do governo, que a obrigou a destinar volumes cada vez maiores de recursos para a área do pré-sal, prejudicando outras atividades, como a de refino e a de manutenção das unidades em operação.
O resultado de 2013 ficou abaixo do previsto em seu plano de investimentos. Mas a diretoria da empresa prevê que o de 2014 será melhor, pois três novas unidades de produção devem iniciar suas operações ainda no primeiro semestre.
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,menos-petroleo,1125798,0.htm

A Idade das Trevas

GAUDÊNCIO TORQUATO - O Estado de S.Paulo
"A lei e a ordem são o primeiro pré-requisito da civilização e em grande parte do mundo elas parecem estar evaporando." A observação, feita há cerca de 20 anos pelo professor da Universidade Harvard Samuel P. Huntington, no clássico O Choque das Civilizações, mostra-se pertinente para uma avaliação do atual estado da humanidade.
A ideia ganha consistência quando se puxam para o cenário as manifestações turbulentas em várias cidades do mundo, na onda de conflitos entre grupos étnicos, gangues de jovens, turbas desfraldando a bandeira de um nacionalismo xenófobo, situações que forçam a expansão de partidos de extrema direita, principalmente na Europa. Ressentem-se todos das instituições políticas, que não conseguem dar vazão às demandas sociais, e brandem a arma do ódio contra o outro, o estrangeiro, o não europeu, notadamente a comunidade muçulmana. Há quem garanta, como o professor britânico Jamie Bartlett, pesquisador do Instituto Demos e principal autor de um estudo sobre os grupos radicais de extrema direita na Europa, que o continente vive um impasse: deixar de ser caixa de ressonância das liberdades para se transformar em bastião do autoritarismo, ancorado nos eixos do ultranacionalismo, da islamofobia e do antissemitismo, entre outros.
Já a grave leitura do professor de Harvard sobre o conflito entre civilizações aponta para o limiar de uma Idade das Trevas no planeta. Argumenta Huntington que o Ocidente, com a clássica imagem de predomínio avassalador, triunfante, quase total, abre flancos para deixar enxergar uma civilização em declínio, com sua parcela de poder político, econômico e militar diminuindo em relação ao de outras civilizações, particularmente as da Ásia Oriental. A China emerge exuberante nessa paisagem. A Índia, mesmo com desníveis estupendos na sociedade, adentra o ranking de polos de alta tecnologia.
O discurso do Ocidente, com seus tradicionais sermões, já não afeta interlocutores e parceiros como no passado. O fato é que a última crise econômica, desencadeada em 2008, serviu para pôr mais lenha na fogueira que consome o Estado de bem-estar social, locomotiva da aclamada social-democracia europeia desde o pós-Guerra. Os partidos de esquerda, ao longo de décadas, tentaram repaginar o modelo, experimentando fórmulas e resgatando novas abordagens. Com poucas exceções, não têm sido bem-sucedidos.
Resultado dos conflitos: fortalecimento das correntes de extrema direita em muitos países, a indicar a eventual conquista de boa porcentagem (uns 10%) das 751 cadeiras do colegiado no Parlamento Europeu. A perplexidade se instala. Quem poderia imaginar que os terrenos da velha democracia europeia fossem acolher novamente a poeira do deserto da restrição de direitos? Até a França, berço dos direitos humanos, mostra sua faceta de barbárie. Ali se expande o antissemitismo, cujos propagandistas querem apagar o calvário do holocausto, considerando-o "um detalhe na História", como proclama o fundador da Frente Nacional francesa, Jean-Marie Le Pen, sucedido no comando do partido por sua filha Marine. A pauta discriminatória é densa: restrição aos imigrantes, limitação de direitos de estrangeiros, proibição de manifestações religiosas de muçulmanos (construção de mesquitas, banimento de burcas), etc.
Os exércitos "nacionalistas-protecionistas" multiplicam-se nos partidos políticos e agora nas redes sociais, nas quais um grupo chega a se autodenominar "Adolf-adoradores Neandertais". Na Grécia, o partido de extrema direita Aurora Dourada utiliza práticas nazistas - milícias armadas, agressão a imigrantes - e símbolos assemelhados à suástica. Propõe a reintrodução da pena de morte e a possibilidade de ela ser aplicada a imigrantes sentenciados por delitos.
O discurso segregacionista se adensa enquanto declina a força dos partidos que sustentam os pilares da social-democracia; as lideranças, mesmo em rodízio, não conseguem tapar os buracos abertos pela crise econômica, estampados nos formidáveis contingentes de desempregados. E assim germina nas praças das grandes cidades o vírus de um tipo de violência diferente dos eventos tradicionais (roubos, assaltos e assassinatos deles decorrentes): a violência dos conflitos étnicos e dos choques civilizacionais, como a que põe na arena muçulmanos e não muçulmanos, países afins (islâmicos e vizinhos). Para as agremiações da direita radical, o Islã e os muçulmanos simbolizam o mesmo papel de "ameaça externa" que Adolf Hitler associava aos judeus. Comparação extravagante e sem sentido.
A propósito, a imagem desse truculento e fanático cabo que se vestiu de ditador para ser o maior facínora da História contemporânea veio a público na semana passada, por ocasião do evento em memória do holocausto realizado no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. Comovidos, ex-prisioneiros dos campos de concentração desfilavam as agruras por que passaram. Um horror! Em seis anos de guerra foram assassinados 6 milhões de judeus - incluindo 1,5 milhão de crianças -, representando um terço da comunidade judaica da época. Foram massacrados também comunistas, ciganos, deficientes, homossexuais, testemunhas de Jeová, doentes psiquiátricos e sindicalistas.
Há 69 anos o Exército soviético abria as portas de Auschwitz, o campo de concentração com 8 mil prisioneiros. A tétrica imagem jamais será esquecida: esqueléticos, velhos, doentes, cabeças raspadas, filas de pessoas cambaleando, famintas, nuas, torturadas, braços tatuados com o número do registro. Na fachada de entrada, a inscrição Arbeit macht frei (o trabalho liberta). A rememoração do holocausto é uma maneira de puxar o passado para o presente, fato importante para alargar as avenidas do futuro.
Imaginar que por esse mundão afora haja fanáticos que ainda hoje aplaudem um dos maiores genocídios da História é apostar na hipótese de Samuel P. Huntington: nas esquinas do mundo desenha-se o paradigma do "puro caos".
JORNALISTA, PROFESSOR
TITULAR DA USP, É CONSULTOR
POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-idade-das-trevas,1125764,0.htm