A Copa do Mundo e o Povo Brasileiro



Dizem que o Brasil é o país do Futebol e do Carnaval e que tudo termina em samba. É pura verdade!
A alegria do povo brasileiro estava estampada na telinha da televisão nos dias de carnaval. Foliões acompanhando os desfiles luxuosos das Escolas de Samba do Rio de Janeiro e de São Paulo. Em Recife, a capital do frevo, os carnavalescos desfrutando dos blocos de rua, com a irreverência da obra-prima dos seus bonecos gigantes.
Nessa época do ano, problemas? Que nada, esqueceram; nada de problemas. Corrupção? Se esta existe, esqueceram. Copa do Mundo? Todos de verde e amarelo; mil maravilhas. Tudo é paz, alegria e amor. Enquanto isso, a economia brasileira pede socorro. Nas entranhas do sistema econômico o país mergulha num prejuízo astronômico.
Lembro-me como se fosse hoje o anúncio feito pelo Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, no ano de 2007, em Zurique-Suíça, com todo staff, que o Brasil seria sede da Copa do Mundo de 2014, sendo a cidade maravilhosa do Rio de Janeiro a sede da Copa.
O povo - nosso querido povo - à época foi às ruas festejar o anúncio. Milhares e milhares de pessoas celebraram a escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014, referendando o “presente de grego” presidencial que nos foi concedido, o qual levará anos para ser pago.
O investimento inicial previsto para o Brasil receber o evento da copa era da cifra de 5 bilhões de dólares, que corresponde atualmente a R$ 11,5 bilhões de reais. Toda essa dinheirama significa vinte e dois meses da arrecadação corrente total do nosso vizinho Estado de Alagoas.
Da previsão do valor inicial, os gastos com a Copa do Mundo ultrapassavam, no mês de junho de 2013, o montante de R$ 28,1 bilhões, dinheiro que sairá do “bolso furado” do povo brasileiro.
Como se não bastassem os gastos com o evento, a economia do Brasil também amargará um prejuízo com os feriados. Estima-se que, com a Copa do Mundo, a indústria brasileira terá uma perda de R$ 45,5 bilhões. Essa quantia de dinheiro corresponde a oitenta e três meses de arrecadação do Estado de Sergipe.
O Brasil, que é um país rico para poucos e pobre para muitos, jamais poderia se dar ao luxo de sediar um evento de tamanha envergadura e o pior, exclusivamente privado, assumido responsabilidade civil perante à FIFA.
Um país que milhões e milhões de pessoas não têm moradia, sobrevivendo em favelas, sem a mínima condição de saneamento básico; um país que não tem um sistema de segurança pública eficiente; um país onde falta universidades, escolas e hospitais públicos; um país em que faltam professores, cadeiras, giz, papel, dentre outros na área de ensino; um país em que faltam médicos e insumos na rede pública de saúde para atender à população carente; um país que falta tudo nos serviços essenciais pode se dar ao luxo de gastar bilhões e bilhões na construção de estádios de futebol?
O evento seria muito bem-vindo se fosse custeado com recursos da iniciativa privada, advindos dos investidores, considerando que envolve interesses de grandes conglomerados econômicos, principalmente com merchandising.
Ao invés de construções de estádios suntuosos, se o país tivesse investido no sistema educacional público, construindo e modernizando universidades para formar cientificamente o cidadão, precisaria, por exemplo, importar médicos? Se tivesse investido na área de saúde, construindo e modernizando hospitais, quantas vidas não teriam sido salvas? Se tivesse investido na área social, com foco para o sistema de segurança pública, quantas pessoas deixariam de ter sido vítima da violência urbana?
Infelizmente, o cidadão veio acordar tarde. Será que acordou? As manifestações contra os gastos com a copa iniciaram-se depois de o trem ter passado. Agora, “Inês é morta”.
Mas o que adianta manifestação se grande parte da população estará participando do evento, direta ou indiretamente, assistindo aos jogos nos estádios ou pela televisão. A melhor manifestação é ainda a do silêncio.
Se à época do anúncio (2007) da escolha do país-sede da Copa de 2014 o povo brasileiro, ao invés de festejar, saísse às ruas para protestar, pedindo um sistema de educação, de saúde e de segurança de qualidade, com investimento nas áreas de infraestrutura básica, acredito que a história seria outra.
A Copa do Mundo é um evento elitizado, apenas para poucos e não para todos, exceto se for pela televisão.
Ao povo brasileiro resta apenas lamentar o desperdício do dinheiro público e torcer para que o Brasil seja campeão, só assim servirá de acalanto para o sofrimento vivido com a ausência dos serviços públicos básicos e essenciais.

PAULO MATHEUS, Contador, Pós-Graduado em Direito Público, Acadêmico de Direito e Ex-Diretor Técnico do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe
http://www.nenoticias.com.br/83309_a-copa-do-mundo-e-o-povo-brasileiro.html

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